Política

As coxinhas de Léo Burguês

postado em by Pablo Villaça em Política | 7 comentários

Não tem jeito: o PSDB, seja de qual estado for, gosta mesmo de resolver seus problemas na base do cala-a-boca, da censura e da paulada. Como bem alertado por meu querido amigo (e produtor fodaço) Guilherme Fiúza Zenha, o vereador Léo Burguês, que recentemente defendeu aumento absurdo do próprio salário, gastou 62 mil reais de sua verba indenizatória (dinheiro público) comprando lanches na empresa da própria madrastra, como comprova matéria de Aline Labbate.

Este, porém, é só o começo da história: depois de ler a reportagem, o compositor belo-horizontino Flávio Henrique resolveu comentar os fatos relatados pela jornalista em uma bem-humorada marchinha de carnaval, que pode ser ouvida aqui.

E aí é que a coisa fica ainda mais patética: se você pode de fato “ouvir aqui” a marchinha, isto certamente não se deve a Léo Burguês, que num espírito imensamente anti-democrático mandou seu advogado entrar em contato com o compositor para afirmar que o vereador “não estava nada satisfeito com a sátira” e que esta causava “dano moral” ao político – uma alusão nada sutil a um possível processo judicial.

Os políticos brasileiros parecem acreditar que estão acima do direito de expressão, de críticas e da manifestação política individual (e digo isso por experiência própria, já que estou sendo processado pelo ex-governador e deputado federal Newton Cardoso): Léo Burguês de fato usou 62 mil reais de verba indenizatória (dinheiro dos cofres públicos destinados a gastos do gabinete) para comprar lanches na empresa da madrasta. Isto é fato. Questionar a ética desta escolha (que não envolveu licitação ou qualquer coisa do gênero) é um direito democrático que todos temos, bem como a opção de fazê-lo através de uma sátira, do humor. Tentar reprimir este tipo de manifestação popular é um indício claro desta mentalidade anti-democrática que marca tantas ações políticas no país.

Absurdo. E parabéns à revista Encontro, publicada em BH, que elegeu Burguês como um dos “mineiros de 2011”. Que escolha feliz.

Um Filme Sérvio e os ditadores do bom gosto

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Política | 62 comentários

(Update: Hoje, a partir de 20h30, estarei no Galpão Cine Horto, em BH, para exibição e debate de Um Filme Sérvio ao lado de vários colegas da crítica mineira como Marcelo Miranda, Marcelo Castilho Avellar, Renato Silveira, Rafael Ciccarini, Ursula Roesele, entre outros. Recomendo que os interessados cheguem cedo para pegar senha, já que a sessão é gratuita.)

Eu não gosto de Um Filme Sérvio

Não, permitam que eu reescreva esta frase: eu detesto Um Filme Sérvio. Trata-se de uma abominação cinematográfica. Seu roteiro é patético como suas “ideias”; sua direção é de uma incompetência que rivaliza apenas com a estupidez de sua trilha sonora; sua montagem é tão pedestre quanto sua fotografia. Como longa-metragem, esta imbecilidade escrita e dirigida por Srdjan Spasojevic mereceria ir parar no lixo da História do Cinema, sendo esquecido e ignorado por todos que amam esta Arte.

Assim, é com imensa frustração (e até mesmo um pouco de raiva) que me vejo na obrigação de defendê-lo. Gastar tempo, palavras e espaço com uma porcaria como Um Filme Sérvio é algo que me irrita profundamente – principalmente quando há tantas obras merecedoras destes mesmos tempo, palavras e espaço sendo ignoradas pelo público. Infelizmente, porém, o longa de Spasojevic tornou-se símbolo de uma discussão fundamental graças à estupidez de alguns legisladores e políticos, que, na tentativa de ditar o gosto alheio, acabaram oferecendo uma maravilhosa campanha publicitária – e gratuita – para a produção.

A esta altura, todos já conhecem a polêmica: prestes a ser exibido no RioFan, Um Filme Sérvio foi barrado pela Caixa Econômica, patrocinadora do evento e do espaço de exibição, que justificou sua atitude através de um release que concluía: “… a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Foi uma atitude tola? Desnecessária? Impensada? Sem dúvida alguma – e manifestei esta posição no twitter assim que recebi o email enviado pela assessoria da Caixa. Dito isso, a instituição estava apenas exercendo seu direito ao cancelar a exibição. Como patrocinadora do evento, é natural que se preocupe com o tipo de conteúdo que irá apoiar direta ou indiretamente – e, no seu lugar, eu também teria receios de associar a marca a uma obra tão estúpida. Ainda assim, a análise do conteúdo do RioFan e a discussão com os organizadores/curadores deveria ter ocorrido antes do agendamento da sessão, não depois que todo o programa já havia sido divulgado, indicando uma tremenda falta de organização por parte do departamento de marketing cultural da Caixa.

No entanto, a coisa ganhou outra proporção quando uma liminar impetrada pelo DEM (este bastião da honra na política brasileira que chegou a mudar de nome para se distanciar da história que construiu como PFL e, antes disso, como Arena e UDN) barrou a exibição de Um Filme Sérvio no Odeon e em circuito nacional, associando-se à ação do procurador mineiro Fernando Martins que, ao impedir que o longa fosse submetido à classificação indicativa, conseguiu garantir na prática que a produção não chegasse aos cinemas.

E é aí que a discussão fica realmente interessante.

As justificativas do DEM e do procurador? De modo geral, a “imoralidade” e a “falta de gosto” de Um Filme Sérvio, bem como o excesso de violência presente na narrativa e os atos sexuais “degradantes” envolvendo necrofilia, incesto e até mesmo o estupro de um recém-nascido.

Eles estão certos quanto a isso. Um Filme Sérvio realmente é – ao meu ver (e ressalto isto para voltar à questão mais adiante) – uma produção de mau gosto. E, sim, a violência do longa soa gratuita, tendo claramente o propósito único de chocar em vez de construir uma narrativa que use estes abusos físicos/sexuais como forma de dizer algo (aqui e ali o diretor tenta estabelecer um paralelo entre os acontecimentos na tela e a história política e de guerras da Sérvia, mas estas tentativas são claramente cínicas, buscando fingir uma preocupação temática-social que simplesmente inexiste no roteiro). Assim, não posso discordar daqueles que encaram Um Filme Sérvio como um esforço baixo, repugnante e desnecessário.

O que eu não posso fazer, contudo, é usar estas minhas impressões para impedir que você assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Pois, vejam só, quando eu digo que o longa é de extremo “mau gosto” ao meu ver, estou deixando subentendido que outras pessoas poderão enxergar nele uma relevância que para mim inexiste. Além disso, meu gosto não é universal (longe disso) – e certamente haverá alguém que se encantará com a abordagem de Spasojevic. 

E esta seria uma discussão puramente subjetiva, não legal. A Constituição e o Código Civil não estabelecem critérios para o que seria “bom gosto” – e nem poderiam. Assim, é extremamente preocupante quando a desembargadora Gilda Maria Dias Carrapatoso mantém a proibição do filme ao alegar que “não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive utilizando recém-natos, sejam levadas ao grande público, vez que podem provocar reações adversas, às vezes, em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade”. (Aliás, desembargadora, “espectadores” é com “s”, não “x”.)

Ora, de imediato levanto algumas questões:

1) “Não se pode admitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência sejam levadas ao grande público”? Como assim? Como ela pode tentar conciliar ideias como “liberdade de expressão” e “não se pode admitir”? Ou temos liberdade de expressão ou não – e os limites desta devem ser ditados pela Lei, não por impressões pessoais e subjetivas sobre os efeitos da representação da violência na tela. E não se iludam: são impressões pessoais e subjetivas. Além disso, como isto não se aplicou a, digamos, O Albergue, Turistas, Encarnação do Demônio e tantos outros projetos similares? A Lei não pode ter pesos e medidas diferentes.

2) Se formos barrar tudo que pode provocar “reações adversas” em “pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado”, peço que incluam na fila obras como Impacto Profundo, Clube da Luta e Os Smurfs, porque sempre haverá pessoas que se deixarão afetar por algo que, para o resto da  humanidade, é absolutamente inócuo. Da mesma forma, dizer que Um Filme Sérvio “estimula a pedofilia” é um argumento de assombrosa estupidez – ou devemos acreditar que há quem assista ao filme e pense: “Taí, gostei! Vou estuprar um recém-nascido!”? Além disso, se as autoridades quiserem bancar as babás de toda a população, protegendo-as daquilo que julgam “perturbador”, já podemos prever que todo o poder judiciário entrará em colapso com a sobrecarga infinita de trabalho – e eu mesmo entrarei com  uma liminar que barre no Brasil  toda a filmografia de Rob Schneider.

Mas em toda esta briga há um único argumento levantado por defensores da censura prévia que merece alguma – mas não muita – discussão: trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em seu artigo 241, estabelece ser proibido:

Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Neste caso, quem comercializar este produto também estará sujeito às penas previstas.

Um Filme Sérvio, a rigor, faz isso? Sim, faz. Mas aí a questão é de interpretação da lei. Em primeiro lugar, ela foi concebida para proteger jovens da exploração sexual – e claramente tinha como intenção coibir a pedofilia e o mercado sexual envolvendo crianças. Ora, Um Filme Sérvio é claramente um filme de ficção (o bebê “estuprado” no longa é um boneco óbvio, sendo impossível confundi-lo com um recém-nascido de carne e osso): assim, quando assistimos à produção, não há dúvida alguma de que o que estamos vendo não é real – justamente o efeito oposto do que buscam os canalhas que produzem vídeos pornográficos de pedofilia para comercialização entre criminosos sexuais. Usar uma lei criada para proteger crianças de crimes reais com o objetivo de barrar uma obra de ficção é uma atitude não só desonesta e irresponsável, mas também imoral, já que leva ao risco de que a lei seja revisada e enfraquecida, tornando-a inócua para coibir perigos reais, não imaginários.

Além disso, novamente há a questão dos pesos e medidas diferentes: por que Baixio das Bestas não foi igualmente barrado? Ou Lolita? Beleza Americana? Festa de Família? Sobre Meninos e Lobos? Dúvida? A Promessa? South Park? A única diferença entre estes e Um Filme Sérvio é, mais uma vez, o “bom” e o “mau” gosto, não a interpretação da Lei em si, que poderia se aplicar a todos eles em maior ou menor grau. E repito o mais importante: em nenhum deles, incluindo o trabalho de Spasojevic, acreditamos por um segundo sequer que uma criança foi realmente submetida à exploração sexual – e impedir isto é a alma do artigo 241.

A conclusão é que, se alguns casos são ignorados pela justiça e outros combatidos, isto passa a não ter nada a ver com a Lei, mas sim com Política – e a Lei jamais pode ser seletiva, por qualquer motivo que seja. Ou alguém duvida (como bem apontou meu amigo Pedro Olivotto, responsável pelo Belas Artes de BH) que a história seria completamente diferente caso Um Filme Sérvio estivesse sendo distribuído pela Fox Films do Rio em vez da Petrini Filmes do Maranhão?

Toda esta polêmica, por fim, me lembra de alguns dos belos discursos feitos pelo personagem de Edward Norton em O Povo Contra Larry Flynt – vários dos quais são reproduções na íntegra das defesas apresentadas pelo advogado de Flynt, Alan L. Isaacman, em julgamentos ao longo dos anos:

“Estamos discutindo uma questão de gosto, não de Lei. E é inútil discutir gosto – muito menos nos tribunais. (…) Na verdade, tudo o que esta discussão faz é permitir a punição de discursos impopulares (…) – e estes são vitais para a saúde da nação. Não estou tentando convencê-los de que deveriam gostar do que Larry Flynt faz (ou, no caso, de Um Filme Sérvio). Eu não gosto do que ele faz. Mas o que eu gosto é de viver num país onde você e eu podemos tomar esta decisão por nós mesmos. Eu gosto de viver num  país no qual eu possa pegar a revista Hustler, lê-la se quiser ou atirá-la no lixo se acho que é ali é seu lugar. Ou não comprá-la. Gosto de ter esse direito, me importo com ele. 

E vocês deveriam se importar com ele também, porque vivemos num país livre. Dizemos muito isso, mas às vezes nos esquecemos do que significa. Vivemos num país livre. Esta é uma ideia poderosa, é um jeito maravilhoso de se viver. Mas há um preço para esta liberdade, que é, às vezes, termos que tolerar coisas das quais não gostamos necessariamente. Então vocês devem pensar se querem tomar esta decisão por todos nós. Se começarmos a cercar com paredes aquilo que alguns de nós julgam como sendo obsceno, acordaremos um dia e perceberemos que surgiram paredes em lugares que jamais esperaríamos que surgissem. E aí não poderemos ver ou fazer nada. E isto não é liberdade”.

É exatamente assim que me sinto. Eu abomino Um Filme Sérvio. Mas defenderei até o fim o seu direito de vê-lo, de ignorá-lo, de atacá-lo ou de considerá-lo “imoral”.

Mas jamais de proibi-lo.

Ameaçado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Twitter | 43 comentários

Ao longo dos últimos anos, recebi por email uma infinidade de mensagens de ameaças (todas relacionadas à religião e às causas gays), mas hoje, pela primeira vez (ao menos que me lembre), fui ameaçado publicamente:

O tal “homens honrados” (em aspas gigantescas, por favor) é um fórum no qual um grupo de indivíduos anônimos se reúne para ventilar seus preconceitos e fantasias de vingança machistas. São, como escrevi no twitter em resposta a esta mensagem, fósseis ambulantes, elementos vestigiais da evolução da humanidade, como os sisos – e, também como estes, fadados à extinção eventual. Aliás, logo um colega troglodita do sujeito se uniu às ameaças e ofensas:

O curioso é que para alguém que se coloca tão contra a homossexualidade, “Mister Blonde” não parece perceber o caráter sugestivo de seu próprio avatar, o que apenas me leva a concluir que, de fato, entre os homofóbicos há muitos que agem com ódio por temerem a própria natureza e os próprios impulsos gays. Direcionando o pânico em forma de ódio para o mundo exterior, tentam sufocar a própria orientação. Triste. E patético.

Seja como for, o fato é que estou sendo ameaçado por homofóbicos, processado por Newton Cardoso e insultado por crepusculetes e transformetes. 

Alguém aí pode fazer um vídeo “It Gets Better” para me animar? Wink

Update: Outra.

Os gays vencerão

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 77 comentários

Não vou escrever um longo post – já empreguei milhares de palavras na discussão da causa homossexual neste blog -, mas preciso dizer algo a respeito do discurso homofóbico da ex-atriz e agora deputada Myrian Rios: opor-se aos homossexuais apenas por princípio já é uma postura estúpida e irracional por natureza (é o mesmo que opor-se a negros ou anões), mas equiparar homossexualidade e pedofilia já ultrapassa a fronteira da imbecilidade e atinge o território do crime. Ter uma mulher dessas como deputada é uma afronta maior do que a de ter um Tiririca congressista. Voto no palhaço analfabeto, mas não nos dejetos humanos como Rios e Bolsonaro. A falta de cultura é contornável; a de caráter, não.

Dito isso, meu único consolo é saber que criaturas como estes dois projetos mal-acabados de seres humanos estão fadados à extinção – ou, ao menos, à posição de relíquias ou de anacronismos ambulantes. A causa gay está destinada ao sucesso – e aqueles que tentarem derrotá-la estarão apenas condenando-se ao papel de bárbaros desprezíveis.

Ao comentar sobre a tragédia recente numa escola do Rio, escrevi que somos uma espécie de natureza essencialmente bondosa – e acredito nisso. Mais: me parece óbvia nossa evolução ao longo dos séculos e das últimas décadas – e esta evolução, na melhor aplicação darwinista, implica no isolamento e eventual extinção daqueles que não se adaptarem à nova realidade. 

Ora, no mesmo dia em que Myrian Rios fez seu discurso pavoroso na assembléia do Rio, linkei esta matéria do The Independent sobre um casal de homossexuais que, juntos há 60 anos, finalmente irão se casar graças à aprovação do matrimônio gay em Nova York. Reparem: quando eles se conheceram, a homossexualidade era crime em todos os estados norte-americanos.

Hoje, a proporção da população que aprova o casamento gay é de 2 para 1 entre aqueles com menos de 35 anos de idade.

Somos cada vez mais tolerantes enquanto espécie – e a estatística acima comprova isso. E a tendência é a de que as novas gerações sejam ainda mais liberais que as anteriores. Não duvido que em mais alguns anos a intolerância sexual se tornará crime. Os jovens se encarregarão disso.

E quando isto acontecer, figuras como Myrian Rios, Bolsonaro e Silas Malafaia serão considerados espécimes tão absurdos quanto o motorista de ônibus que quis obrigar Rosa Parks a ceder seu lugar no ônibus a uma passageira branca.

Por que o MinC está certo em autorizar Maria Bethânia a captar 1,3 milhão para seu blog

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política, Variados | 204 comentários

Se eu fosse um troll querendo irritar propositalmente meio mundo, este seria o título de um post dedicado a defender o deferimento do projeto de Maria Bethânia.

Mas não sou e este post não fará isso.

Porque não há como defender um absurdo como este. Sim, a Lei Rouanet é, hoje, um dos principais mecanismos fomentadores da cultura brasileira. É um sistema imperfeito, repleto de falhas, mas é o que temos – e, bem ou mal, tem conseguido viabilizar uma infinidade de projetos importantíssimos que, de outra maneira, jamais sairiam do papel e que, ao saírem, se revelaram contribuições importantíssimas para a história cultural de nosso país. No entanto, é preciso que haja bom senso na avaliação das rubricas aprovadas – e esta foi claramente a falha grosseira aqui cometida.

Em primeiro lugar, há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação. É um valor ofensivo quando consideramos que é um dinheiro saído do bolso do contribuinte para, a rigor, apoiar um projeto de cunho cultural – não para enriquecer uma empresa (ou, em muitos casos, laranjas) que fez a intermediação do negócio. A porcentagem da comissão deveria ser bem menor – e deveria, também, ter um limite quanto aos números absolutos relativos a cada projeto. 130 mil reais é um valor indecente. (Update: há um teto – ainda absurdo – de 100 mil reais por projeto.)

Dito isso, é importante avaliar o projeto de Bethânia. Esqueçamos, de cara, a interpretação ridícula da Foxlha, sempre disposta a criar factóides, de que o dinheiro tem como objetivo a criação de “um blog”. Colocado nestes termos, é claro que a revolta se torna maior, já que todos aqui sabem que o custo de criação de um blog – mesmo com software e layout proprietários – não chegaria a 5% do valor aprovado. Não, o projeto prevê a produção de 365 vídeos, o que é bastante diferente.

Ignoremos, por um momento, o valor de produção e manutenção do blog em si e consideremos que todo o dinheiro seria investido na produção das peças. R$ 1,17 milhão (já descontados os 10% dos captadores) dividido por 365 resultaria em um valor bruto de R$ 3.205 reais por vídeo – algo muito mais razoável de se aceitar, mesmo que o interesse despertado por um projeto como este junto à população seja mínimo (algo que não devemos jamais levar em consideração, posto que a lei não pode e nem deve tentar avaliar subjetivamente o alcance popular de uma iniciativa cultural, o que prejudicaria artistas dispostos ao choque e ao novo).

A pergunta, então, deveria ser: três mil reais por vídeo é um valor tão absurdo assim? Impulso inicial de quem sabe como é caro produzir audiovisual: não, não é. (Especialmente porque não estamos falando de um vlog produzido por um Felipe Neto da vida em seu quarto na casa da avó enquanto vomita obviedades, mas de algo protagonizado por uma das maiores representantes de nossa música e dirigido por um de nossos cineastas mais bem-sucedidos, Andrucha Waddington.)

Mas basta analisar a lógica por trás da produção para ver que, sim, o valor é absurdo. Porque, a rigor, não estamos tratando de 365 produções individuais que envolverão pré, filmagem e pós isoladas, mas de um grande projeto que envolverá estas três etapas em um momento único (e se não for assim, então os produtores são picaretas e desorganizados). Dita o bom senso que todos os vídeos provavelmente serão produzidos no espaço de um ou dois meses e que não terão, individualmente, mais do que 3-5 minutos cada – e a não ser que cada peça seja ambientada em um cenário absurdo como um dos braços do Cristo Redentor, uma base submarina e a Lua, é lógico supor que o grosso do trabalho será feito em estúdio.

Igualmente razoável é imaginar que a montagem dos vídeos não será uma destas loucuras experimentais que envolverão centenas de horas de pesquisas de imagens de arquivos, já que o projeto é centrado em Maria Bethânia e mantê-la fora de campo seria uma ofensa ao contribuinte.

Temos, então, uma ou duas semanas de diárias de estúdio, produção de figurinos, cenários (estou pensando grande), equipe de filmagem (reduzida,  já que não posso acreditar que Waddington vá investir em uma decupagem muito complexa para 365 vídeos de Internet) e as dezenas de horas de ilha de edição (e repito: estamos falando de vídeos de 3-5 minutos envolvendo Bethânia recitando poesias).

Um milhão, cento e setenta mil reais por isso?

Aí, sim, a palavra “absurdo” pode ser dita com propriedade. (E não como a Foxlha e tantos outros blogueiros apressados fizeram ao repetir uma acusação sem qualquer embasamento ou estudo mais detido da natureza da projeto.)

Claro que, para ser completamente justo, eu (na verdade, qualquer um) só poderia bater o martelo nesta acusação depois de estudar a planilha de custos apresentada pelos proponentes ao Ministério da Cultura. Mas ainda assim, considerando a logística da produção e uma experiência básica em audiovisual, a conta ainda soa exageradamente salgada e fora de propósito.

Especialmente quando consideramos que Bethânia já foi beneficiada pelo MinC há pouco tempo depois que uma comissão do ministério deu parecer negativo ao seu pedido de captação apenas para que Juca Ferreira ignorasse a opinião de seus próprios técnicos e concedesse à cantora a autorização para captar outra fortuna.

Bethânia é – e me perdoem o clichê faustosilvano – um monstro sagrado de nossa cultura. Mas isto não quer dizer que ela tenha o direito de enfiar as mãos em nossos bolsos desta maneira – especialmente por um projeto que qualquer produtor competente faria (e muito bem feito) por um terço do valor aprovado.

E a vocalista do Doces Bárbaros certamente concordaria comigo quanto a isso.

Update: Para ler o projeto aprovado, clique aqui (154,53 kb). (Obrigado ao Otávio Ugá por enviá-lo.)

Observação: 600 mil reais para a “diretora artística” (leia-se: Maria Bethânia). Inaceitável. (E observem que, sem este valor, o custo aproximado fica em torno do 1/3 que calculei em meu post.)

Update 2: O valor inicial do projeto era 1,8 milhão. O MinC aprovou “só” 1,3 milhão. Deveria ter cortado mais fundo; o projeto é bom, mas não a este preço.

Update 3: O leitor Narcélio Filho, nos comentários abaixo, aponta que o texto enviado pelos proponentes ao MinC inclui trechos retirados da Wikipédia sem citação da fonte. Esta história fica mais patética a cada minuto que passa.

Update 4: A cópia da Wikipedia é mais patética do que imaginei. Sabe aquele aluno que cola na hora da prova e, sem notar, escreve coisas como “Assim como vimos no capítulo 27” ou “Vide apêndice 3”? Pois é, os proponentes do projeto fizeram coisa parecida no seguinte trecho:

“Entre os filmes estão o longa-metragem 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, que teve uma bilheteria de mais de 5,3 milhões de espectadores aos cinemas em 2005, maior público do cinema brasileiro nos últimos 25 anos.[carece de fontes?]”

“Carece de fontes”?

Update 5: Recebi de uma fonte que prefiro manter anônima, a fim de evitar problemas para a mesma, a planilha de custos readequada do projeto. Há várias modificações feitas em função do valor menor aprovado (cerca de 500 mil reais), mas o que mais me chamou a atenção é que o valor destinado à própria Maria Bethânia, inacreditáveis 600 mil reais, permaneceu inalterado. A justificativa apresentada no projeto que recebi:

“Segundo resposta à diligência: De forma a readequar o orçamento, propomos novos valores para a remuneração da artista Maria Bethânia (antes designadas somente como direção artística total R$ 600.000,00), da seguinte forma:
Direção artística: R$ 100.000,00
Seleção de textos e pesquisa: R$ 135.000,00
Atuação em vídeos (365 videos): R$ 365.000,00
(Total: R$ 600.000,00)”

Update 6: O cineasta Jorge Furtado, um de nossos melhores e mais subestimados, escreveu um post em seu blog defendendo o projeto. Acompanho o blog de Furtado desde o início e é a primeira vez que discordo dele – e é uma discordância das mais significativas e por vários motivos:

1) Furtado, como homem inteligente, comete uma falsidade que não faz jus ao seu próprio histórico político ao argumentar que o projeto não envolve dinheiro público, mas apenas o direito dos realizadores “se humilharem” diante dos empresários (pobrezinhos). Ora, ele sabe muito bem que a renúncia fiscal é, por definição, dinheiro público: em vez de ir para os cofres do Estado, parte do imposto vai para o projeto, permitindo que as empresas transformem tributos em verba publicitária, já que sua marca será associada a um projeto cultural.

(Pra esclarecer: não tenho absolutamente nada contra isso. Como falei lá em cima, a Rouanet é imperfeita, mas viabilizou uma infinidade de projetos maravilhosos. E se permitir que as empresas divulguem suas marcas é um incentivador para que isto ocorra, ótimo. Mas não vamos fingir que não se trata de dinheiro público.)

2) Furtado parece acreditar que devemos dinheiro a Bethânia por seu histórico como artista. Sugere até que, em circunstâncias ideais, o governo deveria dar o 1,3 milhão de reais para a cantora com um “buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão”. Desculpe, Furtado, mas o único dinheiro que, como fã de Bethânia, devo a ela é aquele que já entrego ao comprar seus CDs. Seguindo esta lógica absurda, deveríamos depositar fortunas nas contas não só de Bethânia, mas de Fernanda Montenegro, João Gilberto e – por que pararmos por aí? – dos herdeiros de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Noel Rosa e companhia.

3) A atitude lamentável de Furtado em colocar no mesmo balaio todos aqueles que criticaram o projeto. Aparentemente, eu, com meu histórico de defesa esquerdista, agora sou irmão de alma de serristas, da Foxlha, Veja e etc. Em vez deste reducionismo ofensivo, Furtado talvez devesse analisar o projeto em si – como fiz neste post – em vez de usar generalizações que tentam despistar a essência do problema (como os absurdos 600 mil reais previstos apenas para Bethânia).

4) Prefiro nem comentar a argumentação de que os protestos revelam “preconceito contra a Internet” (minha carreira foi construída aqui) e “contra baianos” – apenas porque uma meia dúzia de imbecis resolveu fazer piadas a respeito da naturalidade de Bethânia.

Lamentável. Esta defesa cega só pode ser fruto de um corporativismo, de um coleguismo incapaz de críticas. Porque Furtado é um homem inteligente demais, íntegro demais, sensato demais para aprontar uma dessas. Continuo fã, mas a admiração incondicional se quebrou um pouco.

Update 7: Uma outra revelação grave relacionada ao projeto original: o texto apresentado ao MinC pelos proponentes traz a seguinte passagem ao descrever a equipe envolvida:

Agência de conteúdo para celular: Aorta Entretenimento
Empresa de Belo Horizonte especializada em aplicativos e produção de conteúdos para novas mídias. Em
seu portfolio de clientes, estão grande empresas como Claro, Oi, Globosat, Ig, Skol e Vivo.”

Pois o coordenador do núcleo de webradio da Aorta, meu amigo Rodrigo James, respondendo a uma indagação minha via twitter, fez o seguinte (e surpreendente) comentário:

“E se eu te falar que a gente nem sabia que tava lá? Foi surpresa pra todo mundo”.

A coisa só piora.

Update 8: Jorge Furtado deixou um comentário abaixo esclarecendo suas posições questionadas aqui. Peço que leiam, por gentileza.

Dilma Presidente

postado em by Pablo Villaça em Política, Videocast | Comente  

Vídeo que meu amigo João Papa gravou assim que soubemos do resultado das eleições (e não deixe de ler, no post anterior, críticas sobre os filmes vistos nos últimos dois dias na Mostra SP):

MUITO, MUITO, MUITO FELIZ

postado em by Pablo Villaça em Política | 37 comentários

Duas coisas que escrevi no twitter e repito aqui: eleitores do Serra, sem revanchismos ou babaquices do tipo “perderam! perderam!”. Como indubitavelmente verão, todos ganhamos.

Dito isso, não sejam maus perdedores que não seremos maus ganhadores.

(Obs: Tentei abrir os comentários; se os spams voltarem, fecharei novamente até encontrar outra solução. Se quiserem usar este post para comentar algo sobre a cobertura da Mostra SP, sintam-se à vontade. Update: Não teve jeito. Foi virar a meia-noite e os spam-bots começaram a inundar o blog com comentários. Que porre.)

Serra, a bolinha de papel, o telefonema e o teatro

postado em by Pablo Villaça em Política | 252 comentários

A atitude de Serra de fingir um ferimento é a prova de seu despreparo para governar o país: não só pela falsidade do gesto e da artimanha, mas por não medir as conseqüências de suas ações, que têm o potencial óbvio de inflamar a militância e vir a provocar uma tragédia – aí, sim – real.

Update (21/10): Flagrada na mentira pela reportagem do SBT, a campanha de Serra, através de seus porta-vozes Reinaldo Azevedo e William Bonner, já apresentou uma nova versão: a de que Serra teria sido atingido não por um, mas dois objetos – e que o segundo é que provocou o ferimento. Para comprovar isso, usam um vídeo gravado de celular no qual não podemos enxergar absolutamente nada. Enquanto isso, Índio da Costa declara que Serra foi atingido por um “pacote” que pesava “1kg ou 2kg”.

Ninguém explica, porém, por que o tal projétil, capaz de deixar Serra tonto e nauseado, não deixou absolutamente nenhuma marca visível em sua cabeça – nem mesmo um mínimo hematoma. E também não explica por que Serra, tendo supostamente recebido a instrução de permanecer 24 horas em repouso, hoje chegou atrasado a um evento e se desculpou dizendo que havia ficado “gravando” até tarde da noite na véspera.

Enquanto isso, os seguidores tucanos abandonam qualquer bom senso ou auto-crítica e abraçam as teorias estapafúrdias de um sujeito que inflamou tanto a militância com sua farsa rojaseana que, já no dia seguinte, tentaram atingir Dilma em Curitiba com um balão cheio de “líquido não identificado”. Enquanto ficarmos na bolinha de papel e no balão com água, vá lá – é desrespeitoso, mas mais irreverente do que agressivo. O problema é que a tendência é de escalar – e a mentira de Serra desempenha papel fundamental nisso.

Update 2 (23/10): Quer dizer que a Globo revelou um “segundo objeto” atingindo Serra, né? Hum:

Pra você que não vai votar em Dilma

postado em by Pablo Villaça em Política | 55 comentários

Sem mais, subscrevo-me.

Serra se revela

postado em by Pablo Villaça em Política | 106 comentários

Numa campanha eleitoral, os candidatos obviamente (e compreensivelmente) tomam um imenso cuidado para esconder algumas de suas idéias e visões de mundo, por julgarem que estas afastarão os leitores, enquanto conferem destaque a outras que acreditam ter maior apelo popular. É algo que faz parte do jogo e, por isso mesmo, é tão fascinante quando percebemos um ou outro ato falho revelando a verdade por trás das posições públicas (como, por exemplo, o vídeo recente no qual Serra diz: “Nunca disse ser contra o aborto porque sou a favor do aborto. Digo… nunca disse ser a favor do aborto porque sou contra o aborto”).

(Pausa para a seguinte observação: a regulamentação feita por Serra do aborto no SUS é uma das raras atitudes admiráveis de sua carreira pública. Ele deveria se orgulhar disso, não buscar esconder ou reinterpretar o que fez.)

Porém, ainda mais revelador do que um ato falho é quando um candidato expõe sua visão de mundo não por um tropeço verbal, mas por realmente não perceber como esta é absurda e ofensiva. Nestes raros casos, é possível perceber que determinada postura é tão entranhada na personalidade do indivíduo que ele se torna incapaz de notar o preconceito por ela revelada.

Caso em questão: o que vocês diriam, por exemplo, se um candidato, ao ouvir a afirmação de que é contra a distribuição de carne para a população pobre, se defendesse afirmando com orgulho que, no passado, foi responsável por um programa que ajudava os miseráveis a comer carne de gato uma vez por semana? Ou se, para se defender da acusação de querer interromper um programa de distribuição de sapatos para as crianças de rua, afirmasse que já as ajudou bastante ao distribuir papelões e barbantes para que improvisassem seus próprios calçados?

Seria o tipo de argumentação que exporia simplesmente a visão de um indivíduo que, tendo dinheiro e acesso a tudo, encara o problema dos miseráveis com um preconceito e com uma condescendência alarmantes: “pobre se contenta com qualquer coisa”.

Pois no último debate da BAND, foi exatamente esta triste visão com relação às necessidades dos mais carentes que Serra revelou quando Dilma apontou suas constantes críticas ao programa “Minha Casa, Minha Vida”:

Agora, mesmo que alguém não queira enxergar a triste natureza desta declaração feita por Serra (embora eu não veja como isso é possível), ainda assim ela representa uma confissão de incompetência, já que o máximo que o candidato conseguiu encontrar para se comparar ao sucesso do “Minha Casa, Minha Vida” foi a “carta de crédito de relativa… de significativa… importância” para viabilizar “puxadinhos”. Terrível.