Política

Pastor Serra

postado em by Pablo Villaça em Política | 112 comentários

"A pessoa que fuma sabe que o cigarro vai fazer
mal, mas continua assim mesmo.
Depois, adoece e mesmo assim continua fumando.
Assim, é uma pessoa sem Deus. Sabe que Ele está ali, mas não o procura." – pastor José Serra, em encontro no último fim-de-semana com pastores evangélicos em Camboriú, Santa Catarina, quando foi saudado por estes como "futuro presidente".

Em um evento que contou com 540 mil reais gentilmente fornecidos pelo governo tucano do estado e pela prefeitura tucana da cidade.

A propósito: Serra conseguiu, com esta frase,  aumentar meu repúdio à sua candidatura em 100% – algo que eu julgava ser impossível a esta altura do campeonato. Comparar alguém que "não procura Deus" a um fumante em busca de câncer? Genial.

Update: A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) divulgou uma nota perfeita sobre a declaração de Serra, lembrando, inclusive, que o Brasil que o ex-prefeito e ex-governador (abriu mão de ambas as gestões) pretende governar é um Estado laico. 

"A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) vem a público
protestar contra a declaração do pré-candidato José Serra que compara
ateus a fumantes. Ao participar de evento religioso em Santa Catarina, o
ex-governador afirmou que "a pessoa que fuma sabe que o cigarro vai
fazer mal, mas continua assim mesmo. Depois, adoece e mesmo assim
continua fumando. Assim é uma pessoa sem Deus. Sabe que Ele está ali,
mas não o procura." A manifestação de Serra é infeliz e inapropriada em
diversos níveis. 

Em primeiro lugar, a frase revela desinformação,
pois ao contrário do que Serra imagina, os ateus não "sabem" que o deus
do monoteísmo ocidental "está ali": somos ateus precisamente porque
analisamos as evidências e argumentos em favor de sua existência, e
entendemos que eles não se sustentam. Afirmar que em verdade somos
teístas é zombar de nossas convicções pessoais que resultaram de análise
profunda e cuidadosa. Significa menosprezar quem somos e como nos
definimos, negando a própria existência dos ateus. 

A frase ainda é
insultuosa porque iguala uma convicção filosófica a uma doença. Para
Serra, não apenas somos incompetentes e contraditórios como ateus, mas
somos como doentes: indivíduos que precisam de tratamento e de leis que
protejam os demais contra a influência perniciosa de nossas atividades.

Por
fim, a declaração também é preconceituosa por fazer uma generalização
negativa que atinge rigorosamente a todos os ateus e avilta o caráter
laico da república que ele pretende governar. Se ganhar a eleição, Serra
será presidente tanto de teístas como de ateus e agnósticos, e não
parece haver nele qualquer disposição de reconhecer ateus e agnósticos
em pé de igualdade com seus compatriotas teístas. Aparentemente, seremos
cidadãos de segunda categoria, nada mais do que teístas envergonhados e
birrentos.

A afirmação de Serra não apenas denigre a todos os
ateus. Recebemos a rejeição absoluta que é a negação de nossa própria
existência. Esse tipo de comportamento é inadmissível em qualquer
cidadão civilizado, quanto mais de um pretendente ao cargo mais alto da
nação. O contexto sugere que Serra teria feito esse tipo de declaração
para satisfazer uma plateia que ele aparentemente imaginava ser tão
preconceituosa quanto ele, o que é ainda mais embaraçoso. 

A Atea é
uma associação civil sem fins lucrativos com mais de mil membros que
tem entre seus objetivos a luta contra o
preconceito e a desinformação a respeito do ateísmo e do agnosticismo,
dos ateus e dos agnósticos. O IBGE se recusa a divulgar dados referentes
ao ateísmo no país, mas de acordo com diversas pesquisas particulares,
sabe-se que representamos aproximadamente de 2% da população, ou cerca
de 4 milhões de brasileiros. A declaração de Serra exige reparo amplo e
imediato em respeito a esses milhões de ateus brasileiros e às centenas
de milhões de ateus no mundo."

Update 2: A RBS, que originalmente havia noticiado a fala de Serra, agora corrige a matéria dizendo que ele não fez uma comparação direta entre ateus e fumantes. Ótimo. Isso não muda o fato dele ter aberto mão de participar dos eventos de Primeiro de Maio, apesar de convidado pela Força Sindical, e de ter preferido ir puxar o saco dos pastores evangélicos em um evento patrocinado pelo PSDB.

Aprendam com os mestres

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 88 comentários

Como transformar em algo negativo o fato da TIME, uma das revistas mais importantes do planeta, ter apontado Lula como um dos principais líderes do mundo?

Simples e só leva alguns passos:

1) Diga que, embora esteja em primeiro lugar na lista, esta não foi colocada em ordem de importância. Curioso, já que tampouco está em ordem cronológica ou de idade dos indivíduos listados. Na falta de explicação, diga que é porque o texto que o homenageia foi escrito por um cineasta importante norte-americano, Michael Moore, mas esqueça de perguntar por que justamente Lula foi escolhido para ter um texto escrito por alguém famoso.

2) Concentre-se no fato de que Lula, embora seja listado entre os 25 mais importantes do mundo, não é o mais importante.

3) Bata nesta tecla.

E pronto.

Caso FHC ou Serra tivessem sido citados numa lista que trouxesse, digamos, os cem homens mais importantes do mundo, o UOL manteria uma chamada imensa em destaque por três dias. Como foi Lula, deixou por algumas poucas horas e enterrou a manchete. Não satisfeito, resolveu voltar com a seguinte chamada: 

Em outras palavras: a notícia positiva se transformou em uma manchete negativa. Em vez de "Em destaque na revista TIME, Lula é eleito um dos homens mais influentes do mundo" (uma manchete que, aposto meus dois rins, seria a escolhida caso o homenageado fosse tucano), o UOL aposta em "Time nega ter escolhido Lula o líder mais influente do mundo". Com essa manchete na capa, o portal mais acessado pelos internautas brasileiros cria uma impressão negativa no leitor casual, que não procura se informar mais, e ainda faz uma sutil sugestão de que alguém – possivelmente o PT ou o próprio Lula – mentiu dizendo que o Presidente foi honrado pela revista com o tal título.

Detalhe: o UOL pertence ao mesmo grupo da Foxlha.

Agora digam se estou louco ou se não se trata mesmo de uma imensa desonestidade por parte do portal?

VEJA: Filhote Ideológico do DOI-CODI

postado em by Pablo Villaça em Política | 50 comentários

Nojo.

Raiva profunda.

Vontade de socar.

Reações viscerais que eu gostaria de conseguir eliminar do meu temperamento, mas que simplesmente me dominam quando vejo canalhas como Reinaldo Azevedo, uma desgraça com genoma humano, tentando criar uma imensa controvérsia em cima de uma foto trocada.

Para quem não sabe, o site oficial de Dilma Rousseff exibia, em certo ponto da página, uma montagem que trazia três fotos: Dilma criança e na atualidade e, no meio destas, uma mulher em passeata contra a Ditadura. Pois bem: a mulher era Norma Bengell, não a candidata à sucessão de Lula.

Um erro? Sem dúvida alguma. Mas seria isto algo grave? Sim, seria – caso o site tivesse usado a imagem para passar a impressão de que Dilma Rousseff participou de protestos do tipo sem que isto fosse verdade, numa lógica do tipo "Hum… Dilma era revolucionária de mesa de bar. Nunca fez nada de fato. Falou muito, mas não fez nada. Não seguia o que pregava. Então vamos tentar enganar a população e usar uma dublê! Yes!".

No entanto, para uma direita desesperada em vender seu candidato (José Serra), qualquer factóide é útil para criar uma tempestade onde só existe orvalho. E assim, vira-latas raivosos como o colunista/blogueiro de VEJA foi acionado para criar posts nos quais usa a foto errada como desculpa para acusar Dilma de ser… stalinista!

Sim: aparentemente, usar a foto de Bengell no site é o equivalente ao costume de Stalin de apagar desafetos políticos de fotos oficiais para mudar a História. Claro que uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra, mas para o exército de imbecis que seguem as palavras de Azevedo como algo sagrado, é o bastante para que testemunhemos um espetáculo de ignorância e ódio nos comentários do blog do calhorda-mor. Tentar dizer que a imagem de Bengell no site de Dilma é uma "fraude" ou algo minimamente significativo seria o mesmo que alegar que o fato de Serra ter comentado o jogo do Santos em uma rádio paulista deveria ser investigado como uso da máquina estatal, já que a rádio em questão tem concessão pública. Besteira (mas que, em teoria, seria bem mais grave do que uma foto trocada).

Mas o que mais me espanta nisso tudo é perceber como a direita, representada com orgulho por VEJA, vem lutando para transformar a história pessoal de luta de Dilma Rousseff contra a Ditadura em algo "vergonhoso", "reprovável". Inventam ações das quais ela não participou, atribuem a ela papéis que não desempenhou e ignoram os atos reais e admiráveis que ela protagonizou naquele período trágico da história de nosso país. 

Para VEJA, os inúmeros torturados, mortos e desaparecidos graças às ações dos militares brasileiros são "terroristas", são homens e mulheres que mereceram o destino que tiveram. Afinal, de acordo com a irmã de sangue da VEJA, a Foxlha, aquele foi um período de "Ditabranda" – algo menor, sem conseqüência.

Claro que basta folhear o "Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985)" (link) para ver que a única coisa "branda" nesta história toda é a concentração de humanidade e ética nestes veículos.

Já disse e repeti isso aqui várias vezes: venho de uma família que combateu os militares. Tive parentes presos e torturados – e estes tiveram grandes amigos que morreram nas mãos dos militares. Se ter combatido a Ditadura agora faz de alguém um "terrorista", bom…

… então devo dizer que sou membro orgulhoso de uma família de grandes terroristas.

VEJA: Dois Candidatos, Duas Medidas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 139 comentários

Capa de 24 de fevereiro anunciando a candidatura de Dilma Rousseff: 

Em preto-e-branco, triste, enquanto Dilma olha para o lado com expressão séria, quase calculista. Referência aos "radicais do PT", alusões à sua ideologia (e contraste ao pragmatismo necessário para governar um país) e, claro, referência a um mundo "em crise".

Agora vejamos a capa de 21 de abril anunciando a candidatura de Serra: 

O candidato olha diretamente nos olhos do (e)leitor em uma capa viva, colorida, enquanto procura sorrir abertamente. O texto faz alusão à sua vitória ("Brasil pós-Lula") e traz uma única chamada com a garantia (feita pelo próprio Serra) de que se preparou a vida inteira para ser presidente.


I rest my case.

Update: Como o Datafolha manipulou sua última pesquisa para colocar Serra 10 pontos acima de Dilma. (Update do update: algumas das colocações feitas pelo autor do blog geraram controvérsia. Sugiro que leiam também os comentários daquele blog e as respostas do autor.)

Update 2: Graças a uma dica do leitor Tadeu Porto, fui conferir a capa que a revista TIME deu a Barack Obama quando este venceu as eleições. E… 

VEJA: Duas Chuvas, Duas Medidas

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 82 comentários
Encontrei essa comparação de capas no twitter da leitora Renata Arruda e… bom, as imagens falam por si mesmas: a falta de ética (não, dane-se o eufemismo: a corrupção moral e jornalística de uma revista canalha) é ilustrada pela abordagem das matérias sobre as chuvas em SP (território tucano) e no Rio. 
 

Capa da edição de 10/02/2010
 

Capa da edição de 14/04/2010

Observatório de Imprensa

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 17 comentários

Trecho do artigo de Alberto Dines:

"A Folha de S.Paulo consegue se
superar a cada nova edição. Mais surpreendente do que a publicação do
abjeto texto de Cesar Benjamin (sexta, 27/11), sobre o comportamento
sexual do líder metalúrgico Lula da Silva quando esteve preso em 1979,
foi a completa evaporação do assunto a partir do domingo (29), exceto
na seção de cartas dos leitores.

Num dia o jornal chafurda na lama, dois dias depois se apresenta
perante os leitores de roupa limpa e cara lavada, como se nada tivesse
acontecido. E pronto para outra.

Não vai pedir desculpas? Não pretende submeter-se ao escrutínio da
sociedade? Não se anima a fazer um debate em seu auditório e depois
publicá-lo como faz habitualmente? E onde se meteram os procedimentos
auto-reguladores que as empresas de mídia prometem há tanto tempo
quando se apresentam como arautos da ética? Não seria esta uma
oportunidade para ensaiar algo como a britânica Press Complaints
Comission (Comissão de Queixas contra a Imprensa)?

E por que se cala a Associação Nacional de Jornais? Este não é um
episódio que põe em risco a credibilidade da instituição jornalística
brasileira? Um vexame destas proporções não poderia servir de pretexto
para retaliações futuras? Ficou claro que depois do protesto inicial
("Isto é uma loucura!"), o presidente Lula encerrará magnanimamente o
episódio. A Folha, em compensação, enfiará o rabo entre as pernas."

Como fico chateado quando alguém copia um texto meu na íntegra em vez de linká-lo, roubando pageviews, caso queiram ler o restante do ótimo texto de Dines, cliquem aqui.

Ainda a Foxlha e o “menino do MEP”

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 28 comentários
Para aqueles crédulos, ingênuos (eufemismo), que compram tudo o que sai impresso na Folha ou adotam a filosofia do "Se publicaram, é porque deve ter algum fundo de verdade", recomendo a leitura da edição de hoje (mas só a de hoje; não renovei minha assinatura do UOL, enojado que estou com um portal que faz parte do mesmo grupo de Foxlha e Veja, mas ainda tenho uma semana de "crédito").
 
Depois de publicarem o artigo revoltante acusando o Presidente da República de tentativa de estupro, a Foxlha resolveu fazer o dever de casa em função da péssima repercussão que sua atitude gerou. E vejam que surpresa: entrevistando companheiros de cela do Lula, carcereiros, o delegado e o próprio (suposto) "menino do MEP" (bem como sua esposa), o jornal apurou que nada estranho aconteceu.
 
Que surpresa.
 
Jornaleco vergonhoso.

Enquete do Senado

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política | 28 comentários
Confesso que eu já esperava isso: os líderes evangélicos, que estão fazendo um lobby pesado contra a lei que puniria discriminação contra homossexuais, moveram sua massa nos últimos dias da enquete sobre o assunto no site do Senado – e o "sim", que vencia por 2%, agora está perdendo para o "não". E hoje é o último dia. Triste.

Folha de São Paulo: a Fox News Brasileira

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 64 comentários

Não é preciso ser lulista como eu para concluir que a Folha de São Paulo desta vez passou de qualquer limite aceitável no que diz respeito à ética jornalística. Vou além: se o conto (porque é um conto) de César Benjamin girasse sobre Fernando Henrique ou José Serra, minha revolta com relação a este tablóide (porque virou um tablóide) seria absolutamente a mesma.

Senão vejamos: um sujeito escreve um artigo afirmando que, há 15 anos, o atual Presidente da República confessou, durante um almoço, ter tentado estuprar um jovem militante do MEP enquanto dividiam a mesma cela. O autor do texto não possui qualquer evidência que comprove sua gravíssima denúncia, afirma não se lembrar direito de quem estava à mesa, identificando apenas dois nomes diretamente ligados ao Presidente, e confessa não saber quem era a tal vítima de estupro.

O que a Folha faz? Ora, óbvio: publica o artigo sem pensar duas vezes.

Este é o exemplo perfeito da extrema irresponsabilidade que tomou conta de órgãos como Folha, Veja e afins. É por isso que a nova Lei de Imprensa se tornou pauta. Se os grandes veículos passaram a se comportar como crianças, dizendo o que lhes vem à mente sem avaliar as conseqüências e sem embasar o que afirmam, a coisa está muito errada. 

Aliás, retiro o que disse: eles avaliam, sim, as conseqüências. E é isso que motiva artigos como este. Se a reputação do Presidente e sua aprovação pela população parecem inabaláveis depois de tantos artigos de ataque, resta apenas a apelação total: acusá-lo de crime sexual. E de natureza homossexual. Chego a me questionar se a Folha não cogitou a possibilidade de dizer que Lula ainda chutou uma Santa depois de tentar violentar o "menino do MEP", já que isto seria o complemento perfeito para um artigo que visa despertar a revolta do brasileiro médio. 

A tática politiqueira da Folha (abraçada com entusiasmo pelo canalha Reinaldo Azevedo, que saltou sobre a notícia como um cão faminto salta sobre um osso) em nada difere do que vermes como Glenn Beck, Bill O'Reilly e Sean Hannity vêm fazendo na Fox News ao sugerirem que Obama é "comunista" e quer "matar velhinhos" com seu projeto de atendimento médico patrocinado pelo Estado. Ou ao insinuarem que ele não nasceu em solo norte-americano. 

Publicar um artigo desses é a morte definitiva da Folha. Que começou a se matar ao emprestar seus furgões para transportar presos torturados na Ditadura, ao calar-se no meio da investigação sobre o Sr. X que pagou 200 mil dólares para os deputados federais pela emenda da reeleição e ao rebatizar o período mais trágico de nossa história política recente como "ditabranda". 

E que ela cumpra seu dever agora e apure o factóide que criou, buscando o "menino do MEP" e tentando confirmar o depoimento de Benjamin – lembrando-se de que, ao falhar, cimentará de vez qualquer vestígio de integridade que ainda possuía.

Update: Na edição de hoje, sábado (28/11), a Folha apurou a informação de que a denúncia de tentativa de estupro era infundada (oh!). Deveria ter feito isso ontem, antes de publicar essa coisa nojenta. Além disso, a VEJA (um amálgama de Pat Robertson, Rush Limbaugh, Ann Coulter e o Diabo) entrevistou o suposto "menino do MEP", que negou tudo. A manchete usada pela VEJA para a matéria? Se você pensou em algo como "Menino do MEP nega que Presidente tenha tentado estuprá-lo" ou algo mais claro, não conhece as táticas repulsivas da revista. O título é, simplesmente, "Triste e abatido".

Enquanto isso, o cineasta Silvio Tendler afirmou estar presente durante a tal conversa e negou categoricamente que Lula tenha confessado ter tentado estuprar um colega de cela e…

… não dá. Simplesmente não dá. Só de escrever esta última frase senti vontade de rir do absurdo. Então um candidato à Presidência, em meio a uma campanha disputadíssima, confessaria durante um almoço com meros conhecidos, de maneira absolutamente casual, ter cometido um crime de natureza sexual? Uma história cabeluda que nunca veio a público em 30 anos? E tem gente que acredita nisso? E FOLHA e VEJA publicam como fato? E Marcelo Madureira (do Casseta) escreve para a Folha para elogiar a "denúncia", provando que, além de sem graça, é também um imbecil? E Reinaldo Azevedo passa a chamar Lula, o Presidente da República, de "estuprador" sem ter qualquer evidência para isso?

E tem gente que ainda acha isso tudo "normal"? Não, não, a vontade rir passou. A reação mais apropriada é a ânsia de vômito.

Update 2: "O que está em discussão aqui é justamente a maneira de lidar com
dois fatos que guardam certa semelhança. FHC tinha um filho na Europa,
era algo sabido e comprovado, e ninguém falou nada para não arranhar
sua reputação. Agora, vem um cara dizer que Lula tentou estuprar um
colega de cela, sem prova alguma, sem evidência nenhuma, e ganha uma
página inteira no maior jornal do país. Tenho muita saudade dos tempos em que trabalhei na “Folha”, e do
jornal que fazíamos então. Jamais publicaríamos um artigo desses, com
acusação tão grave, sem a menor comprovação. O jornalismo, tal qual
aprendi a fazer na Barão de Limeira, não existe mais." – excelente post de Flávio Gomes sobre o assunto.

Maurício de Sousa, orgulho nacional

postado em by Pablo Villaça em Política, Variados | 128 comentários
Maurício de Sousa é um patrimônio nacional. Não apenas conseguiu algo que parecia impossível (criar um verdadeiro império de quadrinhos completamente baseado em território brasileiro e focado em personagens brazucas) como ainda usou sua galeria de criações para promover a aceitação da diferença e da individualidade, estabelecendo personagens cegos, paraplégicos e por aí afora. Sim, aqui e ali ele tropeça ao investir em homenagens comerciais como Ronaldinho e Pelezinho, mas estas são exceções num universo que inclui de dinossauros filósofos (Horácio) a monstros que ajudam as crianças a encarar o desconhecido com mais naturalidade (Penadinho, Cranicola, etc).
 
Não é à toa que depois de passar a infância lendo a Turma (embora eu também seja um fã do proletário Pato Donald, confesso, embora despreze o ícone norte-americano CIAsesco e ufanista Mickey), assinei para Luca dois pacotes, o do Almanaque e o da turminha. E todas as noites leio uma revistinha completa para o baixinho, que adora (ele já sabe ler, mas curte sentar comigo enquanto faço as vozes).
 
Pois bem: hoje, ao ler um comentário deixado no post anterior pelo leitor Rafael Fontenele, descobri que Sousa criou um personagem gay para a recém-lançada revista da Tina.
 
Meu orgulho por ter Maurício de Sousa como compatriota redobrou. Aos 74 anos, esse belo artista (e inteligentíssimo homem de negócios, é preciso dizer) demonstrou permanecer antenado às mudanças do tempo e às questões sociais e decidiu corajosamente abraçar uma causa controversa por natureza. Ele não precisava fazer isso; ninguém jamais pensaria em cobrar de Sousa a criação de um personagem de quadrinhos homossexual. Mas ele o fez assim mesmo. 
 
Pode parecer que minha reação à notícia é exagerada, mas, acreditem, não é: a importância deste personagem é indizível. Ao criar um personagem gay para revistas consumidas por crianças e adolescentes, Sousa está desmistificando essa "criatura" amedrontadora pintada por conservadores e tornando o conceito mais natural para as novas gerações. Em vez de ouvirem falar dos gays como seres estranhos e pervertidos, as crianças se lembrarão de Caio, um personagem tão inofensivo e comum quanto Rolo, Tina e Pipa. 
 
E isto, num mundo ameaçado por crápulas como o "pastor" Jorge Linhares (ler estes três posts sobre o sujeito, além deste outro), é algo fundamental. Como pai de duas crianças que, espero, crescerão num mundo infinitamente mais tolerante do que o nosso, agradeço de coração a Maurício de Sousa pela magnífica iniciativa.
 
Agora… é claro que isso despertará a ira dos reacionários preconceituosos – e, de fato, Fontenele linkou para uma notícia que trata do protesto feito por uma advogada de Manaus contra Sousa e seu personagem Caio. Não vou nem comentar os grosseiros erros de português (algo que desqualificaria qualquer um que se diga advogado), mas as seguintes passagens resumem perfeitamente o discurso odioso feito por esses vermes que defendem a discriminação (grifos meus):
 
"O que passou pela sua cabeça? Será que porque a turminha cresceu o Sr.
Achou por bem conviver com os absurdos da modernidade?. Sr. Mauricio,
eu lhe pergunto, qual será a postura do Anjinho diante de Caio? O que o
Sr. Quer ensinar para as crianças ? por acaso o Sr. Agora acha normal o
homossexualismo somente porque a Monica Cresceu e já tem definida a sua
sexualidade?
"
 
Deus despreza os gays – dizem os homens que, aparentemente, têm linha direta com o Divino.
 
"Sou Mãe, tenho 41 anos de idade, advogada e hoteleira, presidente de
uma instituição de turismo, vice presidente de um sindicato,
conselheira do club de mães da escola dos meus filhos. Enfim , me acho
uma formadora de opinião
na cidade que moro, e fique certo Sr. Que a
TODAS as mães que conheço e que tenho aproximação estão absolutamente
chocadas com a sua nova criação
. O que o Sr. Pretende é passar para as nossas crianças e adolescentes
que ser Gay ou ser Bissexual e normal? Foi isso que o Sr. Aprendeu da
sua Mãe e do seu Pai?
"
 
Tenho dó não apenas dos filhos da doutora adêvogáda, mas também daqueles que se deixam influenciar por suas opiniões. E que medo desta sociedade que ela descreve: dominada por mulheres preconceituosas que certamente farão o possível para que seus filhos sigam seus passos de intolerância.
 
"O sr. Mauricio já parou para pensar que suas revistinhas podem viram uma ótima ferramenta na mão de aliciadores de crianças?"
 
Isto… prefiro nem comentar. É de uma imbecilidade tão colossal que me faz desconfiar não só da sanidade, mas do Q.I. mínimo para que uma pessoa seja considerada funcional.
 
"Os ensinamentos deixados por Jesus, Maome , Buda, Alan Kardec, Dalai
Lama e etc… nenhum deles deixou escrito essa normalidade em relação
aos homossexuais e bissexuais.
"
 
Aqui este refugo genético busca posar de porta-voz de todas as religiões para disfarçar o preconceito de sua própria "fé". Buda condenou a homossexualidade? O Dalai Lama?? Kardec??? 
 
"Entenda Sr. Mauricio não estou sendo discriminativa, tenho amigos gays."
 
Não, não tem. Acredite. 
 
"Somente penso que a infância deve ser poupada do que é errado, é na
infância que aprendemos os conceitos do que é certo e do que é errado.
"
 
E amar uma pessoa do próprio sexo é errado, claro.
 
"Essa Opinião descrita aqui não é somente minha, mas de todos os do meu meio , pais e mães, irmãos, tios e tias e amigos."
 
Escrever "Opinião" com maiúscula não a torna mais legítima. E lamento por sua família.
 
"Tenho Muito orgulho do seu trabalho como brasileira, e quero continuar tendo. (…) Portanto se o Sr. Não que ver desaparecer os seus personagens das bancas
de revistas e dos lares do Brasil, mude a sua forma de pensar com
relação a infância, pois DEUS existe e Lá de cima, seja qual for o nome
de DEUS, ele esta vendo as ações de todos nos, inclusive as suas Sr.
Mauricio.
"
 
Finalizando seu texto como uma típica mafiosa, ela ameaça Maurício de Sousa e assume o papel de capanga divino. Que exemplo de brasileira. 

Dito tudo isso, se a versão teen do Zé Vampir brilhar sob a luz do sol, eu mesmo escreverei uma carta de protesto a Maurício de Sousa repleta de ameaças.