Política

E lá vamos nós de novo…

postado em by Pablo Villaça em Política | 99 comentários

É inacreditável, mas há uma enquete no site do Senado que pergunta simplesmente:

"Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?"

Ora, para mim, esta seria uma pergunta óbvia por natureza. Como assim, se sou a favor de uma lei que pune a discriminação? Isto é pergunta que se faça? O que perguntarão a seguir… se sou contra apedrejamentos e estupros? Que pergunta idiota. Quem, em pleno 2009, seria capaz de defender o preconceito? Quem, a esta altura do campeonato, poderia justificar que a intolerância se transformasse em lei?

Aparentemente, metade das quase 300 mil pessoas que votaram na enquete.

Há momentos em que, confesso, as palavras me fogem. Busco articular minha descrença, minha revolta, e é como se artigos, substantivos e adjetivos olhassem para mim e dissessem: "Que se foda! Se vire sem a gente; isso tudo é absurdo demais para nós!".

E é profundamente absurdo. Mais: é surreal. Que tipo de gente é esse? Quem são esses seres humanos que se julgam tão superiores aos seus colegas de espécie que são capazes de afirmar que o preconceito é algo que deveria ser permitido pelo Estado? Já não basta negar certos direitos aos homossexuais (como o casamento)? Agora é preciso tirar deles também o direito de serem respeitados?

Sério: quem são essas pessoas?

(A enquete, que já linkei duas vezes no twitter, está aqui.)

UPDATE: Para aqueles que insistem na odiosa argumentação de que discriminar homossexuais é apenas uma "questão de opinião", volto a este post.

Vergonha nacional

postado em by Pablo Villaça em Política | 41 comentários
Sou lulista assumido – algo que nem preciso dizer para os leitores deste blog. Dito isso, ver Lula acenando sorridente ao lado de um crápula como Ahmadinejad – um homem que nega o Holocausto e afirma que executar homossexuais é algo importante para a "continuidade da espécie" – é algo que não só me causa asco como me provoca uma profunda decepção.  Nunca deveríamos ter permitido a entrada deste verme no país.
 
Há limites para a diplomacia. Ahmadinejad vem depois deste limite.

Estúpidos “Piratas”

postado em by Pablo Villaça em Política, Twitter | 54 comentários

Se você acompanha este blog há algum tempo, sabe que levo política muito a sério. Você pode não concordar com minhas opiniões relativas ao assunto, mas não pode negar que, ao menos, encaro a questão com absoluto respeito. E é por isso que fico profundamente irritado quando percebo que há pessoas que encaram discussões vitais para o futuro do país como mera oportunidade de alcançaram algum tipo de notoriedade.

Primeiro, tiremos do caminho o óbvio: Sarney se transformou num imenso embaraço para o Senado. Não, não é o único a aproveitar brechas legais para benefício próprio – e muitos dos senadores que eventualmente o pressionarão para abandonar a presidência da Casa certamente foram presenteados direta ou indiretamente pelos mesmos atos secretos que derrubarão o vice de Tancredo e pai do Cruzado. E, sim, é lamentável que Lula tenha manifestado apoio a Sarney. Vergonhoso, até. Um ponto baixo de sua presidência.

Dito isso, retorno ao ponto inicial: toda esta crise no Senado representa uma enorme possibilidade de mudança nas regras do jogo. Portanto, é algo que deve ser encarado com sobriedade e maturidade, levando a discussões adultas e embasadas sobre como o país deve lidar com Sarney, o Senado e seu próprio sistema político.

Entram Júnior Lima (mais conhecido como SandyeJúnior), Marcos Mion (mais conhecido como Papito) e Vesgo (mais conhecido como… bom, Vesgo): vislumbrando na crise do senado uma oportunidade para a auto-divulgação, os três jovens imbecis criaram um "movimento" que batizaram de "Piratas-de-alguma-coisa" (não vou gastar tempo pesquisando o nome) e passaram a utilizar o Twitter com o objetivo de despertarem o interesse de… acreditem ou não… Ashton Kutcher para o seu "fora Sarney" particular.

Sim, Ashton Kutcher: o grandalhão abestalhado de "That 70s Show", marido de Demi Moore e rei do Twitter.

É uma história repleta de momentos absolutamente patéticos que ilustram apenas a estupidez, a imaturidade e o egocentrismo dos três envolvidos e que culmina – mais uma vez, acreditem ou não – com uma demonstração surpreendente de bom senso do sr. Moore, que, com 140 caracteres, cala a boca e envergonha os três "revolucionários" brasileiros.

Mas permitirei que o vídeo abaixo conte esta história para vocês:

 
"PUTZ, ASHTON DISSE QUE NÃO PODE AJUDAR! QUE NÓS TEMOS QUE LUTAR PELO NOSSO PAIS…fuck!"
 
Síntese perfeita da mente de três criaturas dignas de dó.

Al Franken

postado em by Pablo Villaça em Política | 11 comentários

Os norte-americanos têm que repensar urgentemente seu sistema eleitoral: depois do fracasso de 2000, quando Bush foi eleito num processo confuso e repleto de irregularidades, e de 2004, quando voltou à presidência embora tivesse conseguido menos votos do que John Kerry, em 2008 foi a vez da disputa ao senado trazer longas batalhas em torno dos resultados. Na noite do dia 5 de novembro, publiquei alguns comentários sobre a eleição e escrevi, entre outras coisas:

"(01:24) Uma outra disputa que desperta
meu interesse é pelo senado em Minnesota, onde o comediante Al Franken
(ex-roteirista do Saturday Night Live) pode derrubar o atual ocupante
do cargo, o repulsivo republicano Norm Coleman. Minha admiração por
Franken, que já era grande em função de sua atuação na ótima iniciativa
do Air America Radio, cresceu ainda mais quando assisti ao bom documentário Al Franken: God Spoke, sobre o qual escrevi o seguinte:

A inteligência, o carisma e a presença de
espírito de Franken são notórios, assim como seu pavor à retórica da direita
norte-americana – algo que o filme ilustra de maneira burocrática. Além disso,
a falta de foco do documentário leva-o a parecer um mero instrumento de
propaganda, o que é lamentável."

 

Depois dizem que não consigo separar minha ideologia do meu papel como crítico…"

Pouco depois, escrevi: 
 
"(03:16) Coleman voltou a ultrapassar Franken e está se
distanciando. Além disso, a "Proposta 8", que bane o casamento
homossexual, irá ser aprovada, provavelmente. Como disse antes, a noite
não será perfeita."

Pois bem: depois de perder a disputa por menos de 200 votos, Franken entrou com um pedido de recontagem. Seu adversário, Coleman, disse que jamais teria feito isso caso houvesse perdido. Foi aí que a recontagem deu a vitória a Franken e… Coleman exigiu uma re-recontagem. A disputa se arrastou por meses – período no qual Minnesta ficou sem representante no Senado – e hoje finalmente Al Franken foi empossado.

Pena que não dá para reverter também a aprovação da Proposta 8.

Hipocrisia às claras

postado em by Pablo Villaça em Política | 77 comentários

A Direita é inacreditável: quando publiquei o post sobre o blog da Petrobras, celebrei a iniciativa da empresa por expor claramente as indagações que lhe eram feitas e também suas respostas na íntegra – algo que estava causando revolta nos jornalistas da Velha Mídia, que não mais poderiam manipular as informações como bem entendessem. Para tentar justificar a revolta, a associação que representa os interesses dos jornais (das corporações, vejam bem, não dos profissionais mal pagos por estas) protestou contra a quebra da  "exclusividade" de suas matérias (como se fossem donas da informação), já que as entrevistas estavam sendo divulgadas abertamente.

O que a Petrobras fez, então? Tomou uma atitude extremamente inteligente e concordou em publicar suas respostas após a divulgação das matérias pelos jornais. Com isso, eliminou a desculpa da Velha Mídia e ainda manteve a estratégia de divulgar as indagações dos jornalistas, bem como suas respostas.

Em outras palavras: a empresa sacrificou um cavalo para vencer a partida; cedeu a batalha e ganhou a guerra. E a Velha Mídia sabe disso. O que poderão alegar, agora, para impedir que a Petrobras mantenha a iniciativa de responder publicamente o que lhe é perguntado?

Ah, mas como alguns reacionários aqui do blog já começaram a fazer, a idéia é tentar conferir uma aparência de vitória à derrota vergonhosa. A Petrobras, vejam vocês, "foi obrigada a recuar"! A Petrobras "cedeu às exigências dos jornais"! A Petrobras "fraquejou"! Eu, pobre "defensor" da empresa, fui "traído" por ela (como se em algum momento eu tivesse dito que publicar as respostas antes dos jornais era necessário ou mesmo proveitoso – e basta reler o post para constatar que este é um ponto que nem menciono no texto).

Pintem como quiser, meus caros. A verdade é que vocês sabem que a Petrobras fez exatamente a única coisa que os jornais temiam: em vez de abandonar a estratégia, apenas adaptou-a às circunstâncias.

E prevaleceu. Touché.

Sobre Gravataí Merengue e o blog anônimo

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Musas | 46 comentários

"Gravataí" (leia-se: Fernando Gouveia) publicou o seguinte comentário no post sobre Soninha:

"Oi, Pablo. Eu até agora não vi a URL ou mesmo o tal "blog anônimo". Nunca fiz
blog anônimo. Eu assino com o pseudônimo "Gravataí Merengue" desde 1997, na
Faculdade, embora meu nome seja Fernando Gouveia. Tenho blogs desde 2001. Jà
assinei com vários pseudônimos (como Isaías Camanducaia, Tô Cansadinho [contra o
Cansei] e muitos outros). Nunca tive 'blog anônimo'. Você me chama de imbecil,
assim gratuitamente, mas tudo bem. É seu direito, já que vivemos num mundo de
livres expressões. Engulo essa. Só não acho bacana endossar uma acusação que não
foi provada. E nem poderá ser, pois não é verdadeira. Discorde de mim, Pablo. É
seu direito. Mas reiterar uma acusação, assim dessa forma, poxavida… Não me
parece bacana. Um abraço Fernando"

Ele tem razão. Fui precipitado. Embora admire o "Dossiê Veja" de Nassif, Gravataí está certo ao dizer que reiterei uma acusação que não foi provada.

Da mesma forma, o "imbecil" foi absolutamente desnecessário e prova de que tenho que aprender a controlar meus impulsos no que diz respeito aos posts políticos, que despertam uma paixão perigosa. Para me deixar ainda mais embaraçado, Gravataí publicou um comentário elegante e educado em resposta às minhas palavras inflamadas. Vergonhoso para mim.

Tão vergonhoso que, em vez de responder através de comentário, resolvi publicar este post apenas para desculpar-me.

Observação sobre o post "Musas #13": Como não moro em São Paulo, não sabia que Soninha havia se transformado em defensora de José Serra. Isto, sim, teria me feito hesitar imensamente em colocá-la na série. Uma "musa" deve ser não só atraente fisicamente, mas despertar um fascínio que vai além da aparência, seja pelo charme, talento, inteligência, ideologias ou o que seja. E ser defensora de José Serra é, para mim, o equivalente a ter uma pinta cabeluda na ponta do nariz. Mas agora já foi.

Sem falar que não dá para negar: ela é uma gracinha.

Série Jornalistas #25

postado em by Pablo Villaça em Política, Série Jornalistas | 119 comentários

A fim de se proteger das deturpações freqüentemente levadas a cabo pela Velha Mídia (Veja, Folha, O Globo, etc) em seus esforços constantes de pintar o pior retrato possível de tudo que diz respeito ao governo federal, a Petrobras passou a utilizar um blog, Fatos e Dados, para divulgar as perguntas que são enviadas à estatal por jornalistas destes veículos – incluindo, nos posts, as respostas às indagações.

Há algo de mal nisso? De errado? De maligno? Se há, não consigo identificar o que seja. É uma maneira inteligente e válida de esclarecer publicamente o que lhe é questionado – e ao publicar as perguntas e respostas na íntegra, a Petrobras não apenas expõe formatações capciosas de certas perguntas como ainda se protege caso o veículo que receba a resposta decida editá-la ao seu próprio modo.

Assim, é claro que alguns destes veículos denunciaram a iniciativa como algo errado e maligno, como uma tentativa de manipular a opinião pública. Sim, você leu corretamente: responder perguntas publicamente é um artifício maniqueísta.

Como se não bastasse, até mesmo a Associação Nacional de Jornais (ANJ) entrou na confusão para defender seu pobres filiados – e num comunicado absolutamente inacreditável (que pode ser lido na íntegra aqui), ela chega a defender o seguinte (e ridículo) argumento:

"Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a
empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua
assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as
matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da
confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas
fontes
."
 
Hã… queridos?… esta confidencialidade estabelece obrigações do jornalista para com sua fonte (como preservar sua identidade, caso solicitado, e manter em off aquilo que a fonte não quer ver publicado), não o contrário. Em 34 anos de vida, nunca ouvi alguém dizer que a fonte deve manter em segredo o que lhe foi perguntado – a não ser em raros casos em que um acordo neste sentido é assinado pelo entrevistado.
 
Mas a estupidez continua:
 
"Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios
universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da
assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não
receberem um “tratamento adequado”."
 
Mais uma vez: como, exatamente, a Petrobras está ferindo a liberdade de imprensa ao publicar as perguntas e respostas em seu próprio blog? E a tal "ameaça" é um direito legal: o de ser assegurado que suas palavras não serão tiradas do contexto e modificadas para sugerir algo que não é verdade. Os jornais só devem temer tal "ameaça" se de fato tinham essa intenção; se pretendessem utilizar as respostas com honestidade, não há nada que a Petrobras pudesse fazer contra os veículos.
 
"Tal advertência intimidatória, mais que um desrespeito aos
profissionais de imprensa, configura uma violação do direito da
sociedade a ser livremente informada, pois evidencia uma política de
comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao
democrático escrutínio de seus atos."
 
Outro argumento ofensivo em sua lógica distorcida e estúpida: que "direito da sociedade" a Petrobras está violando ao responder as perguntas enviadas pelos jornalistas e ao exigir que estas respostas não sejam deturpadas quando publicadas? E como ela pode estar se negando "ao democrático escrutínio de seus atos" se está justamente respondendo as perguntas enviadas – e, ainda por cima, num espaço público?
 
Ou seja: o desespero da Velha Mídia em ver suas manipulações expostas é tão grande que os veículos (devidamente protegidos pelo testa-de-ferro corporativo) partiram para o nonsense a fim de justificar seus interesses obscuros e seu direito à deturpação.
 
Ridículo. E revelador.
 
Update: Ao ler o blog da Petrobras, a natureza maliciosa da nota da ANJ se torna ainda mais clara. Sabem as tais "ameaças de processo no caso de suas informações não
receberem um “tratamento adequado"
? Pois é: nada mais são do que aqueles avisos padrões que as empresas costumam incluir automaticamente no rodapé de cada email enviado através de seus servidores – uma mensagem incluída, por exemplo, em meus emails enviados pelo Cinema em Cena e que, no caso da Petrobras, diz: "O emitente desta mensagem é responsável por seu conteúdo e
endereçamento. Cabe ao destinatário cuidar quanto o tratamento
adequado. Sem a devida autorização, a divulgação, a reprodução, a
distribuição ou qualquer outra ação em desconformidade com as normas
internas do Sistema Petrobras são proibidas e passíveis de sanção
disciplinar, cível e criminal".
 
A não ser que todos os integrantes da ANJ sejam débeis mentais, é mais do que óbvio que este rodapé não representa uma ameaça de processo com o intuito de garantir que a Petrobras não seja atacada pelos jornais – e o fato de tentar vender esta mentira prova apenas o mau-caratismo dos autores do ridículo comunicado distribuído pela Associação e de seus "clientes".
 
Update 2: É claro que o verme-mor da VEJA, Reinaldo Azevedo, está defendendo a atitude da Petrobras como "manobra espúria" e de "guerra à imprensa". Se eu precisasse de mais algum motivo para esfregar esta imbecilidade na cara da Velha Mídia, bom… a simples presença de Azevedo entre os "ofendidos" pela Petrobras seria o bastante.
 
Update 3 (09/06): O presidente da Associação Brasileira de Imprensa enviou a seguinte carta à Petrobras:
 
"A ABI considera legítima a decisão da Petrobras de criar um blog
para divulgação das informações que presta à imprensa e especialmente
aos veículos impressos, uma vez que as questões relativas ao seu
funcionamento e aos seus atos de gestão interessam ao conjunto da
sociedade, que não pode ficar exposta ao risco de filtragem das
informações típica e inseparável do processo de edição jornalística. A
empresa tem o direito de se acautelar, através das informações que
difunde no blog, contra as distorções em que os meios de comunicação
têm incorrido, como a própria ABI registrou em matéria publicada da edição de 31 de maio de um dos jornais que agora se insurgem contra o blog da empresa.

A criação do blog constituiu-se em
instrumento de autodefesa da empresa, que se encontra sob uma barragem
de fogo crítico disparado por vários veículos impressos. Não se poderá
alegar que é assegurado à empresa o direito de resposta, uma vez que
quando este for exercido a informação nociva já terá produzido afeitos
adversos. Ademais, é conhecido principalmente dos jornalistas o
tratamento que a imprensa concede tradicionalmente ao direito de
resposta, se e quando o reconhece e o acata: a informação imprecisa ou
inidônea é divulgada com um destaque e uma dimensão que não se confere
à resposta postulada e concedida.

O presente confronto entre a empresa e
alguns veículos de comunicação tem inegável cunho político, com
favorecimento de segmentos partidários que se opõem ao Governo Lula. A
Petrobras encontra-se, infelizmente, na linha de tiro do canhoneio
contra ela assestado. Atacá-la com a virulência que se anota agora não
faz bem ao País.

Rio de Janeiro, 9 de junho de 2009
Maurício Azêdo, Presidente”

Um último post sobre monarquia

postado em by Pablo Villaça em Política | 108 comentários

Agora que um velho leitor do blog e do Cinema em Cena resolveu levar toda a questão sobre "o retorno da monarquia" para o campo pessoal, sinto-me na obrigação de publicar um último post com alguns questionamentos sérios sobre o assunto – justamente em respeito a este indivíduo, cuja participação sempre valorizei neste espaço e que, por isso mesmo, me surpreendeu com sua virulência recente.

É uma simples questão de bom senso: prezados monarquistas, em que aspecto o retorno da Coroa favoreceria o país? Uma pergunta curta e direta. Sejam convincentes.

Porque vejo a "discussão" (que só existe na mente dos monarquistas, já que o restante da população nem pensa mais no assunto) de uma maneira objetiva: se a monarquia retornasse no Brasil (e juro que sinto vontade de rir só em escrever isso), o Rei poderia: a) deter um poder político real, mesmo que em pequena escala; ou b) ser uma figura puramente decorativa.

No primeiro caso, é ofensivo pensar que alguém deteria algum tipo de poder de decisão política apenas por ter nascido em determinada família. Para começo de conversa, aqueles que carregam a Coroa não são exatamente conhecidos por sua grande compreensão das questões sociais prementes em um país pobre como o Brasil. Divorciados da realidade em todos os sentidos justamente por terem nascido quase que literalmente em berço de ouro, os monarcas tendem sempre ao conservadorismo e à religiosidade – duas características perigosíssimas em um político (vide Bushinho, que falava em nome de Deus em suas cruzadas movidas a petróleo). Além disso, volto à questão: como justificar que um "Rei" comande a política de um país (mesmo que em grau mínimo) apenas por pertencer a certa linhagem? Não é absurdo, mesmo ofensivo, que em pleno século 21 alguém queira deter algum grau de poder apenas por causa de um sobrenome? O que torna um Bragança "melhor" do que um Silva, Serra, Gomes ou Neves? Posso ter mil ressalvas contra este ou aquele tucano, mas ao menos sei como sua carreira foi construída e posso avaliar suas idéias a partir de seu passado, escolhendo votar ou não em sua campanha. Mas um Rei não precisa ter preparo ou trajetória; basta que seja quem é. E nada posso fazer a respeito, já que, de acordo com tradições absurdas, sua família sempre deteve o poder.

Em outras palavras: não há justificativa plausível para que uma família mande em um país apenas em função de sua linhagem sangüínea.

Quanto ao papel "decorativo" de um monarca sem poder, pergunto: qual sua razão de existir, então? Fazer figura? Alguém disse, num post, que a família real serviria de "exemplo de conduta" para o povo – o que não apenas é ridículo, como ofensivo. Então o "exemplo" a ser seguido é o de uma família conservadora, católica e que não tem que trabalhar para colocar comida na mesa? Em que o Príncipe Charles serve como exemplo para quem quer que seja? Ou qualquer um dos "Dons" brasileiros?

E mais: o Brasil não é a Inglaterra ou um país de primeiro mundo. Causa repulsa pensar que o povo teria que pagar para manter uma família inútil, sedentária e parasitária em seu estilo de vida luxuoso e repleto de ostentação enquanto crianças morrem de fome em nossas ruas. Alguém citou que os habitantes de Petrópolis têm que pagar, ainda hoje, uma taxa que vai parar nos bolsos da "família imperial" – se isto é fato, é um absurdo que já deveria ter sido interrompido há décadas. Por que teríamos a obrigação de arcar com as despesas dos descendentes dos velhos monarcas? Por que, então, não sustentarmos os descendentes de, sei lá, Tiradentes, Aleijadinho e tantos outros que, à sua própria maneira, marcaram nossa História?

Até entendo que os descendentes "imperiais" defendam a volta da monarquia: querem reviver os tempos áureos; querem voltar a ser "especiais". É lamentável e mesmo repugnante que pensem ter o direito a privilégios apenas porque o ta(ta?)taravô  foi alguém importante, numa versão radicalizada do playboy que, ao ser parado pela polícia por dirigir bêbado, pergunta se o PM sabe "quem é seu pai" – mas, repito, é compreensível: cada um defende o próprio interesse.

Menos aceitável (e nada compreensível) é o motivo que leva alguém que não é ligado à família "real" a defender o retorno da monarquia. Como argumentei nos parágrafos anteriores, não há justificativa racional para o retorno dos monarcas e, portanto, só resta pensarmos que se trata de algum tipo de idealização absurda do passado, do que significa viver numa monarquia. Não seríamos mais especiais apenas por sustentarmos uma família de parasitas (e que, na República em que vivemos, certamente devem trabalhar para se manter, sendo membros ativos da sociedade – ou assim espero) – e, portanto, me atrevo a pensar que a defesa da monarquia represente alguma forma recalcada de um intenso complexo de inferioridade.

(Também me chamou a atenção o fato de alguns leitores alegarem que um dos motivos pelos quais o regime monarquista não venceu o plebiscito de 93 foi o fato dos "negros" terem sido levados a pensar que a escravidão também retornaria – o que escancara uma visão revoltantemente racista ao classificar os negros brasileiros como criaturas estúpidas e facilmente manipuláveis.)

Sinceramente, quando publiquei o primeiro post sobre o assunto, jamais pensei que pudesse gerar algum tipo de controvérsia, já que considero a monarquia como um assunto do passado, algo que, do ponto de vista evolutivo, já aprendemos a considerar como um troço arcaico por definição. Que exista uma comunidade com 11.000 "monarquistas" no Orkut é algo assustador, mas compreensível – o Orkut é famoso por agregar aberrações em comunidades específicas (para que tenham uma idéia, há até uma comunidade dedicada a mim!). Mas que leitores deste blog, figuras que aprendi a respeitar com o passar dos anos, pareçam pensar que o retorno da monarquia é algo minimamente razoável… bom, aí a história é diferente.

Neste caso, o que era apenas hilário se torna preocupante.

Um último pensamento sobre a monarquia

postado em by Pablo Villaça em Mundo, Política | 65 comentários

E eis que, em pleno século 21, me encontro "lutando" contra a monarquia. Uau.

Isso me faz sentir um pouco como Benjamin Button: minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura Militar, eu enfrento os monarquistas e meus filhos… o quê?… combaterão os dinossauros?

(Update: não se preocupem, pois não pretendo dar início a uma série de posts como aqueles contra a homofobia ou pastores preconceituosos. Por quê? Simples: ao contrário dos anteriores, os monarquistas não representam uma ameaça real. São apenas… divertidos.)

(Update 2: meu velho amigo Hélio Flores me alertou para o fato de que os monarquistas, num sentido literal, representam, sim, uma ameaça "real". Zing!) 

Mais monarquia

postado em by Pablo Villaça em Política | 44 comentários

Ao que parece, os fãs de confusão levaram meu post sobre monarquia para certas comunidades no Orkut e, vejam só, acabei recebendo uma mensagem de um integrante da família imperial. Quanta honra!

Como não tenho autorização para divulgar a identidade do "dom" que me escreveu (e que, pelos problemas gramaticais de sua missiva, não tem o "dom" da escrita. Ha!), copio apenas alguns trechinhos do email sem revelar seu looooongo nome:

"Talvez tenha sido sua intenção, ou não, mas no seu artigo “Reis da estupidez”
você acaba por ofender a memória de um grande homem e a de muitos que seguem sua
filosofia."

Que homem seria este?, pergunto. Espero sinceramente que ele não esteja se referindo a Pedro Luiz e que não tente transformar meu post em um ataque à memória do rapaz, já que, como falei, lamento sua morte da mesmíssima maneira com que lamento a morte dos "plebeus" com os quais ele dividia o avião. 

"Inicialmente, pra começar, independente do Brasil ainda ser uma república
presidencialista (nada é eterno meu amigo) é de direito da nobreza manter seus
títulos nobiliárquicos."

"Nada é eterno". Uau. Vá sonhando, "dom", vá sonhando. Quanto aos direitos da "nobreza", decidi não respeitá-los a partir do momento em que comecei a estudar História na quinta série do ginásio. Por uma pura arbitrariedade histórica, gerações e gerações de famílias "nobres" se sentiram no "direito" de se julgarem superiores, por comando divino ou linhagem sangüínea, a outros seres humanos constituídos exatamente pelo mesmo código genético. Isto é arcaico, é anacrônico, é estúpido.

"Se referir à Sua Alteza Real e Imperial, Dom Pedro Luiz, como príncipe, nada
mais é do que fornecer informações de quem se trata, assim como um deputado ou
um presidente".

Presidentes, deputados, advogados, médicos, escritores e afins fizeram por merecer seus títulos. Não se intitularam "Alteza Real e Imperial" apenas por um acidente genealógico. Meu lamento é pela morte de um jovem com toda a vida pela frente, não pela queda de uma cabeça que poderia ser coroada num universo paralelo e atrasado.

"Antes de desabafar seu contragosto deveria estudar mais história do Brasil,
assim, não seria ridicularizado em comunidades no Orkut, que acharam sua
postagem absolutamente desnecessária e infantil."

Oh, Deus! Comunidades no Orkut me ridicularizaram?! O que farei agora que o grande baluarte da intelectualidade latino-americana zombou de mim?

Primeiro, as fãs de "Crepúsculo"; agora, os monarquistas. Por que atraio inimigos tão poderosos, brilhantes e articulados?

"P.S. Se fosse um tanto mais atualizado, saberia que o movimento monárquico
existe e tem um numero de adeptos talvez muito maiores do que você, "Líder
maligno indiscutível da Terra" imagina."

Isso é porque a monarquia já barbarizou, executou e explorou as riquezas de vários países durante séculos, ao passo que o movimento "Villaciano" tem apenas um dia. Aguarde mais 2.500 anos e verá, prezado "dom".

Seja como for, agora tenho um motivo a mais para combater os monarquistas: caso voltem ao poder, irei para a guilhotina.