Visita à Disney Animation

(O texto abaixo faz parte do Diário de Bordo que escrevi durante o programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos, que comandei no InFilm em setembro de 2009.)

Comentei anteriormente que certas
empresas visitadas pelo grupo do InFilm normalmente
não recebem visitas de cinéfilos ou mesmo profissionais interessados apenas
em conhecer seu espaço de trabalho; pois com a Disney Animation é diferente:
ela nunca abre seu prédio a
visitantes. Caso você não seja um artista trabalhando em algum projeto
diretamente relacionado à companhia ou não tenha interesses comerciais ligados
ao estúdio, a entrada é inevitavelmente barrada – e por isso percorrer aqueles
corredores representou uma experiência ainda mais fascinante.

Preparando-se
para o lançamento da animação A Princesa
e o Sapo
, a Disney Animation praticamente redecorou a maior parte de seu
interior com elementos relacionados ao filme, desde o lobby (que trazia partituras com trechos da trilha, células
originais da animação e uma tevê exibindo seqüências finalizadas do filme) até
aposentos inteiros que recriavam o French Quarter de New Orleans, onde a
história se passa. Primeira animação tradicional, em 2D, produzida desde que
John Lasseter assumiu o posto de chefão da Disney, A Princesa e o Sapo também traz a primeira princesa negra da
história do estúdio, além de marcar também a estréia do compositor Randy Newman
no departamento 2D depois de colaborar por mais de uma década com Lasseter nos
projetos da Pixar.

Caminhando
pelo prédio da Disney Animation, aliás, fomos surpreendidos pela quantidade de
desenhos expostos em praticamente toda a extensão das paredes – e logo fomos
informados de que boa parte daquelas magníficas pinturas, que poderiam
facilmente ser emolduradas e penduradas em qualquer sala, havia sido produzida
por estagiários do estúdio, que
sempre recebem a tarefa de conceber peças de naturezas diferentes para que os
supervisores de animação possam avaliar quais são os pontos fortes e fracos de
cada artista da empresa. Além disso, storyboards
de várias produções Disney e artes conceituais dos projetos mais recentes
dividiam aquele espaço igualmente com as obras dos iniciantes, numa atitude
admirável por parte dos diretores da empresa.

Aliás,
ao assumir a Disney Animation, Lasseter levou para o estúdio a mesma filosofia
que adotou na Pixar e, assim, uma de suas primeiras providências foi demolir
todas as paredes das salas dos executivos no centro do prédio, criando uma
imensa área aberta que passou a servir de espaço de convivência dos
funcionários, contando com uma lanchonete (na qual tudo é gratuito), uma mesa
de reunião, confortáveis e coloridas poltronas e um jukebox. Da mesma maneira, cada novo projeto da Disney Animation
ganhou seu próprio centro de produção em um canto do edifício, sendo
completamente decorado com os temas principais da obra: assim, ao atravessarmos
um arco contendo as palavras “New Orleans”, mergulhamos num ambiente repleto de
pinturas, objetos de decoração e desenhos relacionados a A Princesa e o Sapo – e, mais tarde, ao atravessarmos outro
“portal”, chegamos a uma área dominada por elementos que remetiam ao projeto
seguinte da companhia, Rapunzel.

Incluindo
artes conceituais originais desenhadas
pela lendária Mary Blair para Cinderela,
de 1950 – pinturas que certamente arrecadariam (no mínimo) alguns milhares de
dezenas de dólares em qualquer leilão.

E
por falar em Rapunzel, pudemos
apreciar vários estudos feitos para o filme que a Disney lançará no final de
2010, desde diferentes versões criadas para a personagem-título até esculturas
que servirão de referência para os animadores na criação deste que será o
primeiro musical em 3D do Cinema, além de ser também uma animação tradicional
em 2D apresentada em 3D, outra inovação do estúdio (já as músicas serão
compostas por Alan Menken, figura tradicional da Disney). De acordo com Jessica
Hallock, relações-públicas da empresa, a Rapunzel vista no longa (e que terá a
voz de Mandy Moore) será bastante diferente da heroína tradicional da fábula,
surgindo como uma jovem independente e forte que não hesita em partir para a
ação quando julga necessário, surpreendendo até mesmo o príncipe dublado por
Zachary Levi (da série Chuck).

Depois
de sairmos da “ala Rapunzel”, fomos
levados a uma pequena sala que trazia um quadro imenso com as datas previstas
de lançamento de A Princesa e o Sapo
em dezenas de países, bem como os nomes dos principais parceiros comerciais que
o estúdio havia estabelecido nestes mercados, mas nossa atenção foi logo
deslocada para o imenso monitor no qual assistimos a uma das seqüências do
longa: um número musical protagonizado pelo vilão, Dr. Facilier (voz de Keith
David), pelo mocinho (o brasileiro Bruno Campos) e pelo melhor amigo deste,
cujo visual foi claramente inspirado nas feições do ator Timothy Spall, embora
não seja dublado por este. Embora trouxesse um ou outro plano ainda não
finalizado, a seqüência se mostrou inventiva e divertida, indicando que
Facilier talvez se torne mais um vilão memorável da galeria Disney.

Para finalizar o passeio,
visitamos a sala que pertenceu a Roy Disney, sobrinho de Walt que abandonou a
empresa em 2003: localizada no interior do imenso chapéu de mago usado por
Mickey em Fantasia (e que enfeita a
fachada do prédio), a sala tem, claro, paredes inclinadas e uma pintura que,
composta por faixas verticais, logo passou a provocar vertigens nos integrantes
do grupo – e foi aí que Hallock explicou que a sala, inicialmente usada para
reuniões, foi logo abandonada justamente por gerar desconforto nos ocupantes,
transformando-se quase numa espécie de pequeno museu. Um museu que ninguém se
atreve a visitar sem tomar remédios para labirintite.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Infilm, Viagens

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