Gerações em Conflito

Comentei brevemente sobre isso no twitter, agora há pouco, mas achei que valia também um post aqui no blog, já que sempre tenho curiosidade de ler as posições de vocês a respeito de assuntos como este.
 
A questão teve início hoje à tarde, quando um ex-aluno me chamou no MSN para protestar contra o cinema brasileiro atual, que ele classifica como "cinenovela". Jovem diretor de arte, ele se mostrou revoltadíssimo com o cinema nacional contemporâneo, afirmando que nada produzido desde 2000 presta – nem mesmo os projetos nos quais ele trabalhou. Ele perguntou, então, se eu conseguia pensar num único filme bom produzido no Brasil esse ano e citei Hotel Atlântico, O Amor Segundo B. Schianberg e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo.
 
Ele não vira nenhum deles, mas insistiu em seu ponto.
 
Perguntei, então, se não considerava nem mesmo Cidade de Deus como um bom filme.
 
Não. Era uma semente do "fascista" Tropa de Elite. Cansado desta visão limitada, superficial e incorreta sobre o filme de José Padilha, apontei que aquela era uma interpretação rasa que não considerava sequer as ligações do longa com Ônibus 174. Resposta: Ônibus 174 é uma visão imbecil burguesa sobre a vida na favela, que o diretor desconhece. 
 
Como se tratava de um ex-aluno (e tenho essa besteira de me considerar responsável pela educação de quem passa por meus cursos), insisti e perguntei se ele não valorizava nem mesmo os documentários brasileiros, que considero entre os melhores do mundo. Ele disse que sim, mas que nossa ficção era pedestre. E rapidamente emendou um discurso sobre "produtores ladrões", comparando Helvécio Ratton e Daniel Filho. Apontei que era uma comparação que simplesmente não procedia, já que eles diferiam em tudo, de trajetória pessoal a profissional, passando pelos temas que desenvolviam, linguagem, etc. 
 
Nesse instante, ele pareceu apelar, dizendo que Batismo de Sangue era um "lixo megalomaníaco" e que meu livro sobre Ratton "legitimava" esse "péssimo" cinema brasileiro atual. Foi aí que perdi a paciência, falei que não iria mais gastar meu tempo sendo ofendido gratuitamente e que desejava sorte a ele em seus projetos futuros. Falei ainda que, como jovem realizador, sua revolta era natural, mas que (rezemos) passaria com o tempo e que ele trabalharia em muitos bons projetos. 
 
E realmente acredito nisso. 
 
Aliás, vou além: compreendo perfeitamente a inquietação deste ex-aluno, que é um jovem inteligente e com um brilhante futuro pela frente. E também entendo esta postura de "nada que veio antes de mim presta; sou eu quem vai mudar o mundo e abrir os olhos dos meus contemporâneos cegos!".
 
Por que entendo? Porque já fui assim.
 
Quando comecei como crítico, insistia em repetir que a crítica brasileira não tinha "História e tradição". Que ninguém prestava. O que eu queria dizer com isso, claro, era que eu merecia a atenção e admiração irrestrita de todos. Era uma maneira imatura, tola, de tentar provar meu valor, já que eu me sentia inseguro quanto a mim mesmo. Hoje me lembro de certas coisas que falei neste sentido, desmerecendo uma galeria de profissionais magníficos apenas para me posicionar acima deles, e sinto imenso embaraço; uma vontade colossal de voltar no tempo e dizer: "Cala a boca, moleque!".
 
Mas isto fez parte de meu crescimento; era preciso passar por aquilo para chegar onde estou hoje. Portanto, não condeno a intensidade do radicalismo deste meu ex-aluno; sei que ele se suavizará com o tempo e encontrará seu próprio equilíbrio ao perceber que não é preciso atacar o passado (ou o presente) para encontrar seu próprio lugar. Aprender com os erros dos outros, sim, é sempre válido; generalizar que "ninguém presta" é manter-se propositalmente cego e, com isso, dificultar o próprio aprendizado.
 
Hoje vejo isso com maior clareza. E, como profissional seguro do meu valor, consigo finalmente aplaudir sem reservas ou receios o valor dos outros.
 
(Dito isso, eu sou foda. Bom pra caralho. E se os moleques das gerações futuras negarem isso, serão uns idiotas sem salvação.)
postado em by Pablo Villaça em Variados

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