A documentarista e a arquivista da Sony

Durante o programa do InFilm, em setembro passado, assistimos ao bom documentário The
Cutting Edge: The Magic of Movie Editing
, dirigido pela pesquisadora Wendy
Apple em 2004. Girando em torno da história da montagem e das diferentes
filosofias envolvidas no processo, o longa é interessante e didático, contando
com uma quantidade surpreendente de entrevistas e de imagens de arquivos.

Aliás,
ao fim da exibição, uma das primeiras perguntas que fizemos à cineasta foi
relativa à sua estratégia para conseguir os direitos de utilização daquelas
seqüências. “Bom, não pudemos invocar a lei do Fair Use, já que, embora tenha propósitos educativos, o filme
também tinha natureza comercial”, explicou Apple. “Assim, bati na porta dos
estúdios explicando o propósito do documentário e solicitando que liberassem as
imagens”.

Mas
não foi fácil. Em uma reunião na Universal, por exemplo, o executivo
responsável por atendê-la foi direto ao assunto: “Por que eu deveria ceder os
direitos gratuitamente para você? Isso seria estupidez. Não podemos fazer isso.”.
Sentindo que receberia um “não” inevitável, a cineasta não hesitou e partiu
para o blefe: “Bom, eu conversei com o Spielberg sobre isso e ele ficou
entusiasmado. Quer que eu ligue agora para ele para que possam discutir o
assunto?”. Ciente de como a relação entre a Universal e Spielberg era
importante para o estúdio e de que ela se encontrava abalada, a diretora
observou como aquela informação abalou o executivo, que imediatamente mudou de
tom. “Ok, vamos fazer o seguinte…”, ele reconsiderou. “Se você conseguir que
a Sony libere seus filmes, nós cobraremos o mesmo preço que eles”.


era alguma coisa. Porém, era uma vitória agridoce, já que Apple sabia o motivo
por trás da condição imposta pelo sujeito: os arquivos da Sony eram
administrados por uma veterana notória por sua rigidez ao discutir os direitos
sobre as propriedades do estúdio. E, assim, foi com imensa preocupação que
Apple marcou uma reunião com a executiva.

O que ela não podia antecipar, porém, era o golpe de sorte que teria em seguida:
ao entrar na sala para a esperada reunião, a diretora percebeu que a outra se
encontrava num mau humor tenebroso. “Você viu o cara que acabou de sair daqui?”,
perguntou a mulher. “Pois ele queria que eu liberasse os direitos sobre os
nossos filmes para um documentário que está fazendo!”, comentou, quase com
asco, despertando pânico na cineasta, que, afinal, estava ali pelo mesmo
motivo. Mas a frase seguinte finalmente a acalmou: “O documentário dele é sobre
mulheres em cenas de sexo envolvendo lesbianismo. Só sobre isso! Ele estava
interessado em filmes que trouxesse atrizes se beijando!”.

Sentindo
a oportunidade que se apresentava, Apple respondeu: “Bom, o meu documentário é sobre
a História da Montagem”. A abordagem se mostrou perfeita, já que a executiva imediatamente
abriu um sorriso e exclamou: “Que maravilha! Esse, sim, é um projeto digno!”.

No
final, a Sony liberou os direitos cobrando o valor simbólico de um dólar por
filme – e os demais estúdios não demoraram a seguir o exemplo.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Infilm

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