Mostra de São Paulo 2009 – Dia 06

(Abraço ao velho leitor Renato Gaiarsa, que finalmente conheci pessoalmente depois de tantos anos lendo seu nome entre os comentaristas mais freqüentes do Cinema em Cena e deste blog.)

E…



16)     
Zero (Idem, Polônia, 2009). Dirigido por Pawel
Borowski. Com: Robert Wieckiewicz, Marian Dziedziel, Agnieszka Podsiadlik,
Andrzej Mastalerz.

Mais um filme
que usa a estrutura de múltiplas narrativas paralelas para apresentar o
espectador a uma imensa galeria de personagens cujas vidas se tocam direta ou
indiretamente em vários momentos. A mensagem é sempre a mesma: somos criaturas
solitárias, tristes, egoístas e cegos para o próximo. Vivemos num planeta gigantesco,
mas afetamos uns aos outros constantemente, mesmo que não percebamos.
Blábláblá, chororô, epifanias, final em aberto.

Isto não quer
dizer, é claro, que todos os longas que adotam esse tipo de narrativa ou que
buscam desenvolver temas similares estão fadados ao fracasso: obras como Nove Vidas, 21 Gramas, Magnólia, Nashville, Grande Hotel, entre outras, conseguiram fazer isso com competência
e de maneira interessante, mas, aqui, o diretor polonês Pawel Borowski carrega
a mão em sua insistência de estabelecer as ligações, tênues ou não, entre todas
aquelas pessoas – ao mesmo tempo em que nos tortura com uma trilha que contém
apenas dois temas repetitivos: um melancólico (que dura quase todo o filme) e
outro mais pesado (para cenas tensas e/ou dramáticas).

Mas, esforços
à parte, o longa acaba soando tão vazio quanto seus personagens. (2 estrelas em 5)

  

17)     
O Apedrejamento de Soraya M. (The Stoning of Soraya M, EUA, 2008). Dirigido por Cyrus Nowrasteh. Com: Shoreh Aghdashloo,
Mozhan Marnò, Jim Caviezel, Navid Negahban, Ali Pourtash, David Diaan, Parviz
Sayyad, Vachik Mangassarian.

Com um título
como este e o crédito de “efeitos de maquiagem” surgindo já no início da
projeção, é fácil imaginar que O
Apedrejamento de Soraya M.
não poupará munições ao enfocar o evento que
originou o livro de Freidoune Sahebjam e que aqui foi adaptado pelo casal Betsy
Giffen Nowrasteh e Cyrus Nowrasteh, com este último assumindo também a direção –
e, de fato, não seria absurdo reintitular esta produção como A Paixão de Soraya M.

Trazendo Jim
Caviezel com um pronunciado sotaque e um ainda mais pronunciado nariz, o filme
recria os eventos que levaram ao julgamento e à execução pública da
personagem-título, injustamente acusada de adultério pelo marido. Empregando
com eficácia as locações, que refletem a aridez daquele mundo através da miserável
vila que parece escavada nas pedras, o longa é hábil ao retratar como
interpretações maldosas do Corão são utilizadas por mulás e outros indivíduos
(invariavelmente homens) em benefício próprio para cimentar seu poder ou mesmo
ganhos financeiros. Relegando as mulheres a um papel de subserviência absoluta,
esta leitura do livro sagrado dos muçulmanos estimula o machismo desde a
infância – e não é à toa que Soraya demonstra verdadeiro medo até diante dos
próprios filhos do sexo masculino (infelizmente, com razão).

Adotando um
estilo melodramático que freqüentemente dilui o impacto que vários momentos
poderiam ter justamente ao carregar nas tintas, o filme peca também pela
deselegância de sua montagem –  o que se
torna claro especialmente nas cenas que envolvem simples planos e contraplanos
e durante as quais os dois montadores praticamente esperam o início de cada fala
para realizarem seus cortes. Da mesma forma, o diretor Cyrus Nowrasteh
freqüentemente se entrega ao lugar-comum, como no terrível plano em que a
câmera sobe num plongé enquanto a
personagem de Aghdashloo olha para o céu com os braços abertos e na cena em que
vemos a protagonista percorrendo campos verdes e iluminados com suas duas
filhas, numa tentativa patética de amenizar um pouco o impacto de seu martírio
e evitar que o público saia do cinema excessivamente deprimido (o mesmo, aliás,
vale para a gag pavorosa – e ofensiva
– que envolve saltimbancos chegando à vila no momento do julgamento de Soraya).
Ainda assim, confesso ter apreciado o plano-detalhe que se concentra no olhar
agonizante da moça em seus instantes finais.

Mas o grande
equívoco de O Apedrejamento de Soraya M.
reside, de fato, no maniqueísmo da trama: ao apresentar o marido da
protagonista e o mulá da vila como dois grandes vilões, o filme praticamente
anula a própria denúncia sobre os crimes cometidos em nome de interpretações
equivocadas do Corão ao sugerir que a morte de Soraya M. tenha sido fruto das
ações específicas daqueles dois indivíduos – que, para piorar, são encarnados
por Navid Negahban e Ali Pourtash como caricaturas de vilania, levando o
espectador a odiá-los, e não às circunstâncias
que permitiram que aquilo ocorresse. De maneira similar, a partir do momento em
que recebe a sentença de morte, Soraya passa a ser vivida por Mozhan Marnò como
uma autêntica santa, enfraquecendo a tragédia humana ali contida.

E chegamos,
enfim, à presença de Jim Caviezel no filme – uma das escalações de elenco mais
mal-intencionadas que já vi: notório por encarnar ninguém menos do que o
símbolo máximo do Cristianismo no sádico longa de Mel Gibson, ele aqui se torna
o porta-voz da crítica ao Islamismo, ganhando a oportunidade até mesmo de encarar
os algozes de Soraya e dizer: “Como puderam fazer isso?”, numa cena que prova
que o cineasta Cyrus Nowrasteh é um tremendo preconceituoso ou um tapado
colossal por não ter percebido a bagagem que Caviezel traria consigo para a
narrativa.

Em qualquer um
dos casos, o diretor merece um colossal puxão de orelha. (2 estrelas em 5)

 

18)     
Morrer como
um Homem (
Idem, Portugal, 2009). Dirigido
por João Pedro Rodrigues. Com: Fernando Santos, Alexander David, Gonçalo
Ferreira de Almeida, Jenni La Rue, Chandra Malatitch.

Tônia é um
travesti que, sucesso absoluto em uma boate de Lisboa, sofre pela instabilidade
do jovem parceiro, o costureiro Rosário (David), que rouba seus pertences para
comprar drogas. Pressionada pela competição oferecida por uma nova artista,
Jenny (La Rue), Tônia (Santos) também deve lidar com a rejeição do filho Zé
Maria (Malatitch), cuja própria insegurança sexual o leva a culpar o pai por
sua infelicidade.

Embora soe
como uma trama previsível e batida (e é, de fato), a narrativa de Morrer como um Homem ganha força graças
ao tratamento visual oferecido pelo diretor João Pedro Rodrigues: já na cena
inicial, por exemplo, o cineasta compara a força destrutiva do sexo e da morte
num encontro clandestino que culmina em ambos – e, da mesma forma, é fascinante
perceber como Tônia (que adotou este nome, acreditem ou não, por admirar nossa Tônia
Carrero) é constantemente traída pelo próprio corpo não só por já ter nascido
com o sexo errado, mas também por ter seus implantes de silicone rejeitados pelo
organismo.

Por outro
lado, Rodrigues revela uma auto-indulgência pavorosa em inúmeros planos que,
intermináveis, parecem não exercer outra função a não ser a de provar como o
diretor não teme alienar seu público – e por mais que tenha admirado o plano
que, capturado sob filtro vermelho, traz vários personagens, absolutamente imóveis,
escutando “Calvary”, de Baby Dee (“Take
up your cross and follow / Wake up from your sleep / Wake up, wake up in sorrow
/ Wake up, wake up and weep
”), o fato é que Morrer como um Homem traz vários outros interlúdios musicais que
nem sempre conseguem provocar o impacto desejado pelo cineasta.

Ainda assim, é
impossível não admirar a lógica de várias decisões narrativas da obra, como a
de jamais mostrar a platéia de fãs de Tônia, guardando sua única apresentação pública
para o belíssimo plano final, onde esta performance soa apropriada e comovente.
É uma pena, portanto, que a sutileza não seja uma virtude presente na maior
parte deste filme que, mesmo com seus momentos de brilhantismo, resulta tristemente
irregular. (3 estrelas em 5)

 

19)     
Esburacando
(
Man Tänker Sitt, Suécia, 2009). Dirigido
por Henrik Hellström, Fredrik Wenzel. Com: Sebastian Eklund, Jörgen Svensson,
Hannes Sandahl.

Outro exemplo
de projeto que busca retratar a melancolia da condição humana ao seguir vários
personagens, o sueco Esburacando se
diferencia um pouco de seus primos ao adotar o ponto de vista de uma criança
como guia da narrativa: passeando sem supervisão pelo imenso condomínio fechado
no qual reside com sua mãe, o pequeno Sebastian (Eklund) raramente abre a boca
em público e logo concluímos, ao observá-lo com um pouco mais de cuidado, que
ele provavelmente sofre de algum grau de autismo. Ainda assim, é em sua vozinha
frágil e infantil que surge a narração em off
que abre, comenta e encerra o longa, o que, de certa forma, confere grande
força ao que é dito.

Um dos poucos
filmes que vi nesta edição da Mostra que sabem a diferença entre uma abordagem contemplativa
e outra meramente entediante, Esburacando
surge comovente sempre que se permite observar seus personagens sem julgá-los –
e se inicialmente somos levados a atribuir mau-caratismo ao pai solteiro que
troca a fralda do filho no chão sujo de um estacionamento ou uma personalidade
deprimida a um faxineiro que aos poucos vem construindo sua casa, eventualmente
notamos que todas aquelas pessoas
parecem sofrer de alguma forma de autismo (e que este, na realidade, é um mero
símbolo do isolamento auto-imposto no qual vivemos hoje em dia).

Usando os
conflitos entre pais e filhos como algo recorrente em sua abordagem temática, o
longa traz um elenco sólido em papéis que exigem um grau de concentração
colossal. O destaque, aliás, fica por conta do pequeno Sebastian Eklund, que
protagoniza um momento verdadeiramente mágico: ao mentir para a mãe, ele não
consegue deixar de sorrir levemente – o que imediatamente o leva a comentar
baixinho “Eu não gosto deste sorriso”. Improvisado ou não (para dizer ao certo,
seria importante saber se o pequeno ator é realmente autista, mas, embora julgue
que sim, não posso afirmar), a cena é soberba ao capturar um pequeno e
verdadeiro instante de intimidade entre mãe e filho.

Com uma trilha
profundamente evocativa que combina uma melodia lúdica com um coro gregoriano
que confere um caráter religioso à sua investigação sobre o Homem, Esburacando, como tantos outros desta
Mostra, eventualmente acaba pecando pela repetição, já que, sem confiar em seu
público, parece acreditar que a única maneira de estabelecer seu tema é
martelando-o incansavelmente na cabeça do espectador. (3 estrelas em 5)

 

20)     
Backyard (Idem, México, 2009). Dirigido por Carlos
Carrera. Com: Ana de La Reguera, Asur Zagada, Iván Cortes, Marco Pérez, Joaquín
Cosio, Alejandro Calva, Amorita Rasgado, Enoc Leaño.

Embora representem
um subgênero extremamente prolífico, os filmes que giram em torno de serial killers costumam adotar uma de
poucas abordagens – em ordem de preferência: a) a metodologia particular do
assassino; b) a personalidade do(s) herói(s); c) o processo investigativo em
si. Raramente, portanto, estas obras se concentram naquela que é a figura que
mais tem a perder na história: a vítima. E ainda mais raro é um longa que
procura estudar a natureza do crime –
normalmente cometido contra mulheres.

Pois Backyard é notável justamente por
encarar seus cadáveres não como atrações mórbidas, mas como verdadeiros
testemunhos de nosso fracasso como espécie: se muitos filmes tratariam as
dezenas de corpos putrefatos como maneira de provocar um choque visual e de
atestar a competência do supercriminoso, esta obra mexicana se esforça para
estabelecer que cada uma daquelas mortes não apenas representa uma tragédia
coletiva, mas individual. E o mais assustador: inspirado em fatos reais, o roteiro
de Sabina Berman estabelece o crime de natureza sexual como uma verdadeira
epidemia (ou pior: pandemia), usando como microcosmos a cidade Juárez, na
fronteira com os Estados Unidos.

Começando com
uma narração feita pelo radialista Peralta (Cosio), que funcionará como arauto
e consciência da narrativa, BAckyard
já traz um plano brilhante em seus minutos iniciais, quando, através de uma
simples panorâmica, justifica o título ao apresentar Juárez como o quintal da
rica El Paso, nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que estabelece as condições
miseráveis da cidade mexicana. A escolha das locações, aliás, é um dos grandes
méritos da produção, já que ajuda a estabelecer aquele universo sem que quase
nada precise ser dito – e que diálogo poderia substituir a imagem da escadaria
feita de pneus velhos num barranco de um bairro miserável ou as verdadeiras
montanhas de borracha formadas por estepes descartados?

Focando os
esforços da detetive Blanca (de la Reguera, excepcional) ao assumir a
impossível missão de esclarecer as mortes e os desaparecimentos de dezenas (provavelmente
centenas) de mulheres na cidade, o impecável roteiro de Berman divide sua
narrativa em várias linhas paralelas: há o governador de Chihuahua, ansioso
para evitar que os crimes sujem sua reputação como administrador e que se vê
pressionado pelos empresários que investem no Estados; a imigrante Juana, que
se muda para a casa da prima em Juárez a fim de trabalhar em uma fábrica local;
a assistente social que, revoltada com os desparecimentos, tenta chamar a
atenção da imprensa e das autoridades para o caso; e, finalmente, o já
mencionado radialista da cidade – além, claro, de personagens secundários como
o rapaz apaixonado por Juana, o incompetente parceiro da policial Blanca (e que
é recompensado por sua estupidez apenas por ser homem), e, finalmente, o
empresário vivido pelo sempre ótimo Jimmy Smits. A partir destas figuras, o
diretor Carlos Carrera cria um painel ambicioso e admirável sobre o que
significa ser mulher em certas partes do planeta mesmo nos dias de hoje: temer
constantemente pela própria integridade física, moral e psicológica.

E não nos
iludamos: por mais que tenhamos caminhado como Sociedade, ainda vivemos num
mundo primordialmente machista: as mulheres recebem menos pra realizarem o
mesmo trabalho que seus colegas do sexo masculino; são assediadas
agressivamente nas ruas, no trabalho e na faculdade; e caso se atrevam a
assumir a própria sexualidade, são tachadas de “puta” – como testemunhamos
recentemente no caso dos universitários (repito: universitários) que lincharam moralmente uma colega que se atreveu
a mostrar as coxas na faculdade. Além disso, a violência doméstica e sexual
contra as mulheres mantém-se em índices alarmantes – e quando lemos algumas
rápidas estatísticas ao final de Backyard,
percebemos que ainda há muito a caminhar para que possamos ser realmente tão evoluídos
quanto nos julgamos.

Mas talvez
lugar algum seja pior, neste aspecto, que a Juárez que inspirou o filme – e na
qual o assassinato de mulheres se tornou comum a ponto de parar de ganhar as
manchetes dos jornais. Seguindo a
teoria da “Janela Quebrada”
de James Wilson e George Kelling, aliás, a
situação se torna cada vez pior justamente por não ser atacada em suas raízes:
a criação machista dos países latinos, a estrutura paternalista da família, a
falta de punição para agressões domésticas e assim por diante.

Indicado
oficial do México ao Oscar 2010, Backyard
consegue provocar uma bela reflexão sobre o tema sem, com isso, soar excessivamente
didático ou condescendente – e também sem se esquecer de funcionar, sim, como
um thriller policial envolvente e bem
construído. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

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