Mostra de São Paulo 2009 – Dia 01

(A crítica de Substitutos pode ser lida aqui.)

E vamos ao primeiro filme que vi nesta 33a. Mostra:



1)     
Oye
Lucky! Lucky Oye!
(Idem, Índia, 2008).
Dirigido por Dibakar Banerjee. Com:
Abhay Deol, Paresh Rawal, Neetu Chandra, Archana Puran Singh, Manu Rishi, Richa
Chadda, Manjot Singh.

O cineasta
indiano Dibakar Banerjee e seu diretor de fotografia Kartik Vijay certamente
sabem como criar um filme visualmente envolvente que usa com propriedade as
cores, o grão, as composições e a mise-en-scène
para contar uma história – e ao longo de suas mais de duas horas de duração,
Oye Lucky! Lucky Oye! jamais deixa de
ser interessante em seus aspectos estéticos. O que é fundamental, já que seu
roteiro (co-escrito por Banerjee) é pavorosamente fraco.

Iniciando com
uma razão de aspecto standard (o “Full Screen”) que simula um programa de
televisão (no caso, um noticiário policial popularesco ao pior estilo Ratinho),
o longa já inicia com uma brincadeira visual bem mais interessante do que o
propósito com o qual é empregada – e a partir da narração do apresentador do
tal programa, somos apresentados ao famoso ladrão Lucky (Deol), que, capturado
pela polícia de Nova Delhi, está prestes a ser apresentado à imprensa quase
como um astro. É então que voltamos num extenso flashback à sua juventude e descobrimos o que o levou a se tornar
um criminoso: sua incrível cara-de-pau e o sentimento de que tomar para si a
propriedade alheia não representa problema moral algum.

Investindo pesadamente
num tom cômico, Banerjee cria um filme que, dos créditos iniciais
multicoloridos à gritaria com que todos parecem se comunicar o tempo inteiro, esbanja
energia – e é exatamente por isso que a narrativa sofre um choque incômodo nos
instantes em que o cineasta parece tentar conferir um tom mais dramático à
trama, como, por exemplo, ao mostrar o sofrimento de uma mãe ao lado do cadáver
do filho (e os chumaços de algodão que saem das narinas do morto tornam a cena
ainda mais destoante). Da mesma forma, o tom grandioso com que o narrador
anuncia a passagem do tempo revela-se apenas cafona, transformando a tentativa
de estabelecer aquela história como uma fábula num fracasso imediato.

Pouco
eficazes, também, são os esforços do diretor e de seus montadores de
estabelecerem a passagem do tempo através de seqüências de fotografia
amareladas – e as insistentes câmeras lentas usadas para enfocar as mulheres
que despertam o encantamento do protagonista acabam soando cada vez mais ridículas
com a repetição.

Em
contrapartida, Abhay Deol (um sósia de Mark Ruffalo) faz um bom trabalho de
composição ao retratar de maneira sutil o complexo de inferioridade de Lucky e
seus sonhos de grandeza, indicando que sua vida de crimes possivelmente foi
motivada pela necessidade de se sentir respeitado. Da mesma forma, o veterano
Paresh Rawal acaba se revelando uma espécie de Alec Guinness/Peter Sellers
indiano ao encarnar três personagens diferentes: o pai de Lucky, o “mafioso”
Gogi e um veterinário que deseja abrir um restaurante – e a caracterização do
ator é tão perfeita que confesso só ter descoberto se tratar da mesma pessoa ao
ler os créditos.

Mas ainda que
tenha seus pontos fortes, Oye Lucky! falha
por não ter estrutura narrativa alguma; a história se desenrola de maneira
repetitiva e desinteressante sem que o espectador jamais tenha uma clara idéia
do propósito por trás de tudo aquilo – e quando o filme se arrisca a copiar uma
das cenas mais célebres de Os Bons
Companheiros
(aquela em que Joe Pesci pressiona Ray Liotta depois que este
ri de seus casos), acabamos entrando no território do patético.

Ainda que seja
um fracasso interessante, Oye Lucky!
Lucky Oye!
não deixa de ser um fracasso.

Observação: Embora tenha 127 minutos, o
filme aparentemente tinha um intervalo (desnecessário) durante a projeção em
sua versão original; o cartão de “Intermission” continua a ser exibido depois
de um freeze frame, mas, claro, a narrativa é retomada sem interrupções na
projeção brasileira.
(2 estrelas em
5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos

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