Ponderações, Decisões, Explicações

Por onde começar?

Não, sério, por onde começar?

Não me lembro, em toda minha trajetória profissional, de ter vivido um período tão desgastante física e emocionalmente quanto os últimos meses. Se por um lado era extremamente empolgante estar mergulhado no trabalho em uma empresa nova e cheia de potencial como o InFilm, por outro eu me via afastado de minha família (mesmo antes de viajar para Los Angeles) e em débito com o Cinema em Cena (site e blog).

Por algum tempo, acreditei que daria conta de conciliar tudo e que eventualmente as coisas se tornariam mais tranqüilas. O InFilm é uma empresa jovem e, no cargo de diretor geral, minha responsabilidade é completa em sua estruturação: do estabelecimento de contatos com clientes à operacionalização dos programas, passando por negociações junto a possíveis parceiros e contratação de pessoal, meu dever é estar a par de absolutamente tudo e – mais – de estar diretamente envolvido em todas estas facetas. Ao menos até que, já madura, a empresa já tenha uma dinâmica que dispense tamanho envolvimento de minha parte em tudo.

Mas quanto tempo isto levaria? Três meses? Seis? Um ano?

E o Cinema em Cena? E este blog? Como ficariam neste período? Se no início julguei que conseguiria fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora, percebi que isto era uma ilusão. Embora tenha feito – aqui mesmo, neste espaço – promessas de que nada mudaria, de que voltaria a escrever com a freqüência habitual, o dia-a-dia do InFilm simplesmente não permitia que isto acontecesse: trabalhando do momento em que acordava até voltar para a cama (normalmente por volta de 3h da manhã), sem praticamente parar para nada, confesso que praticamente não consegui encaixar nenhuma de minhas obrigações com o site ou com este blog nas quase 18 horas de trabalho diário.

Ou mesmo meus filhos.

Se a rotina estava se revelando massacrante, porém, as coisas se tornaram ainda mais claras com minha ida para Los Angeles.

A questão é que, embora não tenha dito isso no blog, os planos iniciais previam que eu já ficasse no mínimo três meses por lá, retornando apenas em 19 de dezembro. Depois das festas de fim de ano, nova viagem para Los Angeles sem previsão de retorno.

Em três semanas, já enlouqueci de saudades dos meus pequenos.

No post intitulado "Toy Stories, Píer Santa Monica e Saudades", expressei minha angústia por estar longe das crianças e um leitor, sugerindo que talvez eu estivesse sendo "melodramático", ponderou que um de seus amigos, embora também muito apegado aos filhos, teve que se manter afastado destes em função de exigências profissionais e oportunidades de carreira. Enquanto isso, outro leitor argumentou, em post relacionado, que o InFilm representava uma oportunidade única em minha carreira e que, de qualquer forma, eventualmente meus filhos cresceriam e deixariam o lar – e que, portanto, seria prudente fatorar tudo isso na equação.

Ambos estavam certos. E tenho a convicção de que publicaram seus pontos de vista com a mais nobre intenção de me ajudar a avaliar este momento profissional e pessoal.

Sim, o InFilm é uma oportunidade ímpar. Sim, meus filhos eventualmente vão crescer e tocar suas vidas, saindo de casa, estabelecendo suas próprias famílias e por aí afora.

Mas querem saber o que também é uma oportunidade única? A de vê-los crescendo –  especialmente porque eventualmente eles vão se tornar adultos e abandonar o ninho. Quando viajei para Los Angeles, por exemplo, Nina já andava para baixo e para cima, mas ainda demonstrava certa insegurança revelada pelo seu jeitinho meio trôpego, quase bêbado, de caminhar – algo que eu achava lindo. Isso acabou. Ela agora caminha com segurança absoluta. Já Luca, que estava lendo muito bem, mas ainda tropeçava aqui e ali, evoluiu tremendamente nesse período, praticamente deixando de lado as gaguejadas e aqueles errinhos que tanto me comoviam.

E eu perdi todo esse processo. Crianças muito jovens mudam muito rapidamente; sempre quis ser um pai presente e estar ao lado delas em todas as suas descobertas e evoluções. Talvez porque meu próprio pai não teve essa chance por ter morrido aos 40 anos e quando eu tinha apenas 5 anos e minha irmã, pouco mais de um. Ou talvez porque eu não tenha tido a oportunidade de ter crescido com meu pai ao meu lado, não sei. Mas o fato é que saber que perdi momentos importantes nas vidas de Luca e Nina é algo que me angustia tremendamente.

Ah, mas e se eu levasse toda a família para Los Angeles?

Acreditem, pensei muito nisso. Exaustivamente. E cheguei à conclusão de que não seria uma atitude responsável de minha parte. Aliás, seria tremendamente egoísta. Além de ter que abandonar escola e amigos, Luca teria que mergulhar numa cultura radicalmente diferente enquanto ainda enfrentaria dificuldades com a nova língua. E sei como as crianças podem ser cruéis com aqueles que julgam "estranhos", vindos de fora. Por outro lado, é fato que crianças se adaptam muito mais facilmente a novas circunstâncias do que os adultos.

Mas mantê-los longe da família? Das avós, tão carinhosas e sempre presentes em suas vidas? Dos tios? Dos primos? Luca e Nina já perderam os dois avôs (Luca ainda conviveu um pouquinho com o avô materno; Nina nem chegou a conhecê-lo.); seria justo impedir que convivessem com as avós?

De todo modo, apesar de todos os problemas, ainda seria possível resolver o impasse – eles poderiam passar algum tempo comigo em Los Angeles; eu poderia voltar uma vez por mês; eventualmente poderíamos arrumar uma maneira deles se mudarem para lá com um esquema de viagens pré-planejado para que vissem as avós com a maior freqüência possível; e por aí afora.

Seria sofrido para mim, claro, mas possível.

Mas e o Cinema em Cena? Prestes a completar 12 anos de existência, o site é o mais antigo do gênero na internet brasileira. E também é um "filho" querido para mim. Eu poderia abandoná-lo? Esta seria a única alternativa viável, já que tentar me manter a bordo seria apenas adiar o inevitável, prejudicando-o (e aos leitores) no processo. Além disso, e minha responsabilidade para com meus sócios? Há oito anos, a AeC, uma das empresas mais bem sucedidas em seu setor no Brasil, tornou-se acionista do site e, desde então, vem investindo em sua manutenção e infra-estrutura. Ao aceitar o convite para dirigir o InFilm, conversei com meus sócios, Cássio e Guilherme, e os assegurei de que continuaria a ter o Cinema em Cena como prioridade – e eles, sempre compreensivos e confiantes em minha honestidade, abandonaram as reservas e me parabenizaram pela oportunidade conquistada. O que me deixou profundamente grato.

Como eu poderia decepcioná-los depois de todos esses anos de apoio constante? E os leitores, que vinham reclamando (com propriedade) de minha ausência? Como reagiriam à minha saída do site? 

Acho que já sabem onde vou chegar.

Depois de ponderar por dias sobre todas estas questões, procurei Marcos Wettreich, criador e principal acionista do InFilm – e também a pessoa que me convidara a dirigir a empresa. Expliquei toda a situação e confessei que não sabia como resolvê-la, como encontrar uma maneira de conciliar todos os elementos em jogo. Manifestei minha paixão pela proposta do InFilm e minha crença absoluta de que ela se tornará uma empresa extremamente bem-sucedida. E também confessei como adoraria fazer parte desta trajetória, embora não visse como isto seria possível.

E aqui preciso fazer parênteses para falar sobre Marcos: empresário absurdamente bem-sucedido e com uma reputação admirável no mercado, ele se tornou não apenas um amigo querido nos últimos meses, mas também uma espécie de tutor. Embora eu tenha orgulho de ter mantido o Cinema em Cena vivo e em trajetória crescente por mais de uma década, assumir a direção de uma empreitada como o InFilm representou um desafio amedrontador e inédito em minha vida – e que me trouxe a oportunidade de discutir e aprender com Marcos diariamente, já que, neste período, conversamos várias vezes ao dia, todos os dias (sim, inclusive aos sábados e domingos; o homem é um cavalo no que diz respeito ao trabalho). Com isso, praticamente fiz um curso intensivo e imensamente útil de gestão nestes últimos meses – e com um professor que, caso cobrasse por isso, me custaria uma fortuna.

Pois bem: como pai de crianças jovens e também como empresário, Marcos demonstrou uma compreensão absurda diante do que coloquei. Como pai, percebeu como eu estava sofrendo em função da distância de meus filhos; como empresário, aplaudiu minha preocupação para com meus sócios de tantos anos. E, embora lamentássemos ambos diante do impasse, concordamos que, neste momento, permanecer no InFilm era algo que eu não poderia me dar ao luxo de fazer.

Foi uma conversa não só amigável, mas reveladora e repleta de otimismo. De seu lado, Marcos deixou claro que as portas do InFilm continuam abertas para que, no futuro, eu possa voltar a fazer parte da empresa (nem que seja como cabeça de algum programa específico); do meu, aproveitei meus contatos com a OFCS para deixar pessoas competentes e apaixonadas à disposição do InFilm em Los Angeles – além de ter assegurado estar à disposição para resolver qualquer questão mais urgente que dependa de mim neste período de transição. Além disso, me dispus a auxiliar na intermediação de outros contatos em L.A., já que acabei conhecendo várias pessoas e reforçando relacionamentos estabelecidos ao longo dos anos por email.

E, acreditem, para mim é extremamente importante saber que deixo portas abertas e que tenho, em Marcos, um novo amigo; teria sido terrível caso esta minha passagem pelo InFilm tivesse originado ressentimentos ou algum mal-estar profissional. E sou e serei sempre grato a ele pelo generoso convite e por todas as "aulas" que tive neste período.

Aulas que, aliás, serão colocadas em prática com todo o vigor no Cinema em Cena a partir de agora. Percebi, entre outras coisas, que andava no piloto automático como editor e administrador do site e que preciso sacudir um pouco as coisas. Em termos de audiência, o site nunca esteve tão bem; mas isso não pode ser o bastante. E não será.

Página virada, capítulo novo. Volto aos meus filhos biológicos e ao meu filho jurídico. E espero vê-los, todos, crescendo muito e sempre.

I'm back, baby.

postado em by Pablo Villaça em Editorial, Infilm, Luca & Nina

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