Em Salvador

Depois de pousar em Salvador, passei na casa de meu tio (o mesmo que me hospedou em janeiro) para um almoço rápido com a família e, em seguida, fui para a pousada que o pessoal da Caixa Cultural reservou em meu nome. (Para quem não sabe, vim dar uma palestra sobre crítica a convite do Ciclo Salvador de Cinema.) Ao chegar ao Pelourinho, toquei a campainha da pousada e fui recebido por uma baiana simpática que imediatamente se mostrou surpresa com minha presença.
 
– Pois não?
 
Olhei de novo a placa acima da porta e confirmei estar no lugar certo.
 
– Tudo bem? Eu tenho uma reserva em nome de Pablo Villaça.
 
Ela abriu a porta e me deixou entrar, dirigindo-se rapidamente a uma mesa localizada ao lado da janela que tinha um mapinha da ocupação dos quartos.
 
– Qual seu nome?
 
– Pablo. Villaça.
 
Ela olhou o papel intrigada.
 
– Tem certeza que é aqui?
 
– Ah… bom… eu tinha, mas agora que você falou dessa maneira… não sei mais.
 
Ela riu e jogou o papel na mesa.
 
– Na verdade, não sou eu quem faz isso. É a dona da pousada, mas ela foi em casa almoçar. 
 
– Ah.
 
– Você sabe o nome do seu quarto?
 
– Se eu sei o quê?
 
– O nome do quarto. Aqui os quartos não têm números, têm nomes. Senzala, Colonial, etc.
 
– Ah… só sei que o nome dele é Quarto. O sobrenome eu desconheço.
 
– Jaciara!
 
Assustei com o berro repentino. Ela estava chamando uma colega.
 
– Jaciara, você sabe em que quarto o Pablo está?
 
– Sei, não. Ligou para a dona Marlusa?
 
– Vou ligar.
 
Ela discou alguns números.
 
– Ih, caiu na caixa postal!
 
– Liga pra casa dela!
 
– Ah, é.
 
Discou de novo.
 
– Dona Marlusa? O Pablo chegou aqui. Ele tá em que quarto? Ah, tá. 
 
Desligou.
 
– Você tá no Colonial.
 
Ela me entregou uma chave e, olhando para a escada, disse:
 
– Pode subir ali. Fica à direita.
 
– Vocês têm internet no quarto?
 
– Tem, não. Mas aqui em baixo tem. Fica cheio de gente aqui nas poltronas mexendo na internet.
 
– Ah, ok. Obrigado.
 
Subi e, ao abrir a porta, senti o vapor abafado de um quarto que permaneceu algumas horas fechadas no calor de Salvador. Abri o frigobar para pegar um refrigerante. Vazio. Voltei para a escada e comecei a descer.
 
– Ei! – já gritou a moça, ao ver que eu descia. – Tá precisando de alguma coisa?
 
– O frigobar tá vazio…
 
– Ah, eu sabia que tinha esquecido uma coisa! Quando você sair do quarto eu encho pra você, tá? Mas você quer um suco de maracujá com acerola? Eu faço um pra você rapidinho!
 
– Quero, sim, por favor.
 
Voltei para o quarto rindo comigo mesmo. Há coisas que são inexplicáveis: o mesmo tipo de tratamento que me deixaria enfurecido em qualquer outro lugar… em Salvador me deixa apenas alegre graças à informalidade, à alegria e ao carisma de um povo pelo qual me apaixono um pouco mais sempre que passo por aqui.
 
Além disso, como ficar ranzinza se, ao abrir as portas da varanda do quarto, me deparo com esta vista?

Mais tarde, depois de passar algumas horas trabalhando no saguão do hotel, comprovo que a informalidade do baiano não apenas é geral, mas contagiosa: o dono da pousada, um francês radicado no Brasil há anos (e que fala o português – com sotaque baiano – maravilhosamente bem), se aproxima de mim e diz:

– Rapaz, mas você é estudioso, viu? Se alguém perguntar, eu sou testemunha!

Adoro esse povo, nativo ou importado.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Viagens

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