Diário de Los Angeles – Dia #02



Diário
de Los Angeles – Dia #02

Por
Pablo Villaça*

Há pouco tempo,
publicamos, no Cinema em Cena, uma
matéria
sobre a fundação do International Film Institute (ou InFilm),
uma criação do empresário brasileiro Marcos Wettreich que tem, como objetivo
principal, produzir programas educacionais e turísticos para cinéfilos de todo
o mundo que se interessem em conhecer um pouco melhor a indústria do
entretenimento em Hollywood. Contando com uma equipe que se divide entre Los
Angeles e Rio de Janeiro, o InFilm traz a veterana jornalista Ana Maria Bahiana
como um importante trunfo no sentido de planejar e organizar os eventos que
farão parte de cada tour, desde o
especializado programa sobre Efeitos Visuais (sobre o qual comentarei esta
semana) até chegar a outros que trazem descrições um pouco mais genéricas como
“Programa para Cinéfilos”.

A convite do
Instituto, viajei para Los Angeles a fim de participar do primeiro programa
realizado pela empresa, que não apenas já conta com clientes pagantes (um
sinal promissor para o InFilm) como também com jornalistas brasileiros e
norte-americanos que têm buscado justamente avaliar a proposta da instituição –
e se você já acompanha o Cinema em Cena há algum tempo, certamente não
estranhará minha decisão de escrever sobre o evento da maneira habitual,
investindo no mesmo tipo de informalidade que, diga-se de passagem, serve como
atmosfera do programa sobre o qual escreverei.

Depois de uma longa
viagem de São Paulo a Los Angeles e de um primeiro dia devotado a explorar os
arredores do hotel (algo que descrevi aqui), descemos ao lobby do hotel Le Parc para o encontro inicial com a equipe do
InFilm, que, além de contar com a participação do próprio Wettreich (algo que
obviamente não se tornará prática comum), traz também Bahiana no papel de
informada guia da tour e com a eficiente Joana Ericson, vice-presidente do instituto, que vem oferecendo apoio logístico dos passeios. Já de imediato,
Wettreich tomou para si a responsabilidade de explicar algo que logicamente
despertara a curiosidade de todos os presentes: por que empresas como a Digital
Domain, Rhythm & Hues e profissionais experientes como Robert DeVine
aceitaram receber os grupos do InFilm? Qual seria o incentivo para que assim
agissem?

De acordo com o
presidente do InFilm, a empresa não tem apenas o caráter de promovedora de
excursões turísticas: como é de se esperar, muitos profissionais estrangeiros
interessados em acesso aos bastidores de Hollywood poderão compor os grupos –
algo que, financeira e estrategicamente, interessaria aos profissionais
norte-americanos, que enxergam, assim, a possibilidade de conhecerem novos
clientes e/ou parceiros comerciais em potencial. Wettreich explicou, também,
que o InFilm pretende atingir brevemente um ponto no qual passarão a realizar
até 15 programas por mês, alcançando clientes em todo o planeta.

Feita esta
introdução, partimos para a primeira atração do programa: uma visita à
biblioteca da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood
(AMPAS).

A
Biblioteca Margaret Herrick

Sediada no antigo
prédio que servia como estação de tratamento de água em Los Angeles (seus
antigos tanques sendo convertidos em fortes cofres), a biblioteca da Academia homenageia,
em seu nome, a antiga bibliotecária e diretora da instituição, Margaret Herrick,
que costuma receber o crédito por ter batizado a estatueta dourada de “Oscar”
ao dizer que esta se parecia com seu tio homônimo.

Exibindo um lobby
amplo e bem iluminado que traz imensos cartazes de filmes como King Kong e também o busto de Douglas Fairbanks
Sr. (o primeiro presidente da Academia), a biblioteca impõe rígidas regras de
acesso ao segundo andar, no qual se encontra seu acervo, proibindo a entrada
com canetas, máquinas fotográficas ou bolsas de qualquer tipo e liberando
apenas a utilização de notebooks, cadernos para anotação e lápis (que eles
mesmos fornecem, caso você tenha levado apenas canetas).

Com um acervo que
conta com mais de 30 mil livros, 70 mil roteiros, 32 mil cartazes e 12 milhões
de fotografias, a biblioteca traz desde livros teóricos obrigatórios a
newsletters que eram produzidas na década de 20 pelos estúdios apenas para
consumo interno – incluindo, portanto, informações sobre nascimentos, mortes,
casamentos e festas de seus funcionários, bem como matérias triviais sobre
times de boliche da empresa e por aí afora (o que, de maneira curiosa, acabou
contribuindo para que os integrantes menos “nobres” da indústria tivessem seus
nomes registrados na História da cidade).

Mas não é só: além de
servir como fonte de pesquisa para historiadores, acadêmicos e teóricos, a
biblioteca ainda acaba funcionando como um mini-museu, já que conta com
exibições dos roteiros encadernados que pertenciam às coleções particulares de
diretores como John Huston, Lewis Milestone e George Cukor e também de roteiristas
como o inacreditavelmente produtivo Nunnally Johnson (As Vinhas da Ira). Além disso, como se trata da Academia, é claro
que, aqui e ali, acabamos vendo uma ou outra estatueta do Oscar, como a
recebida por Edith Head e Charles Le Maire pelos figurinos de A Malvada. Como se não bastasse, discretamente
enfeitando um canto da sala encontrava-se nada menos do que um cinetoscópio
original construído pela empresa de Thomas Edison.

O ponto alto da
visita para mim, no entanto, ocorreu quando recebemos um cartãozinho de associado
da biblioteca, o que me permitiu solicitar um roteiro que se encontrava no
arquivo: o de O Poderoso Chefão. Para
minha surpresa, no entanto, a prestativa atendente me entregou dois tratamentos diferentes: o segundo,
datado de 01 de março de 1971, e o terceiro, finalizado 28 dias depois.
Folheando os dois roteiros, constatei que Coppola e Puzo diminuíram em 15
páginas o terceiro tratamento, retirando quatro cenas – entre estas, uma que
deveria ocorrer depois do momento em
que Kay (Diane Keaton) vê seu marido Michael Corleone (Al Pacino) ter a mão
beijada pelos caporegimes da família,
estabelecendo-se como o novo Don: na cena em questão, Kay surgia numa Igreja
depositando moedas numa caixa de madeira e acendendo 30 velas como
penitência pelos pecados de Michael, quando, então, o filme se encerrava.

(É fácil entender por
que Coppola, de família ítalo-americana e, portanto, de formação católica,
incluiria uma cena como esta. Felizmente, porém, ele percebeu que a imagem da
porta se fechando entre Kay e Michael era emblemática o bastante para encerrar
o longa.)

Feliz com a visita e
a oportunidade de ter folheado o roteiro de O
Poderoso Chefão
arquivado na biblioteca da Academia, saí dali satisfeito e
pronto para a próxima parada. 


A
Digital Domain

Quando conversei com
meu colega Jeffrey Wells sobre os passeios presentes no programa, uma das
coisas que mais chamaram sua atenção foi o acesso às empresas de efeitos
visuais, o que achei interessante, já que, embora tenha morado mais de 20 anos
em Los Angeles e conheça todos os principais nomes da indústria, Wells jamais
entrara na Digital Domain – e seu fascínio pelo sucesso do InFilm em conseguir
a visita revelou, para mim, como aquela oportunidade se mostrava rara e,
conseqüentemente, digna de nota.

Fundada por James
Cameron em 1993 para conceber parte dos efeitos visuais de True Lies, a Digital Domain criou, nestes seus 16 anos de
existência, efeitos para obras como Entrevista
com o Vampiro
, Apollo 13, Uma Mente Brilhante e Transformers 2, tendo recebido o Oscar
da categoria recentemente em função de seu trabalho em O Curioso Caso de Benjamin Button.

Mostrando-se
imensamente simpático e acessível, o RP da Digital Domain, Tim Enstice, nos
guiou pelos dois prédios da empresa, revelando, inicialmente, os modelos
criados por esta para filmes como O
Quinto Elemento
, Na Roda da Fortuna,
True Lies e, claro, Titanic, desde os prédios construídos
para os dois primeiros até a miniatura do navio naufragado, passando pelos
caças vistos no longa estrelado por Schwarzenegger. Em seguida, nos dirigimos à
sala de projeção presente no próprio prédio e que é utilizada praticamente
durante todo o dia para que os técnicos confiram a qualidade de seus trabalhos
em uma tela grande e também para que os diretores possam avaliar os planos
solicitados.

Mais uma vez, a experiência
se revelou interessante e agradável justamente pela sensação de estarmos tendo
acesso a algo ao qual pouquíssimas pessoas fora da indústria têm habitualmente –
e os clipes apresentados por Enstice e que revelavam os processos empregados em
filmes como O Curioso Caso de Benjamin
Button
e Transformers 2 serviram
apenas para estimular ainda mais a imaginação do grupo.

Paciente e simpático,
o funcionário da Digital Domain revelou, entre outras coisas, que a atriz que
interpreta a universitária-robô de Transformers
2
havia sido completamente recriada em computador para um close no qual
deveria beijar Shia LaBeouf e que não fôra filmado por Michael Bay – um entre
os mais de 125 planos do filme que envolveram a participação da empresa e que
exigiram o envolvimento de 155 funcionários ao longo dos 13 meses de
superprodução (e ainda assim os efeitos só foram concluídos três semanas antes
da data de estréia). Considerando que a DD conta com 420 funcionários, torna-se
assustador perceber que mais de um terço do pessoal ficara focado na obra de
Michael Bay durante mais de um ano.

Mas o que seria
possível realizar neste período de tempo? De acordo com Enstice, “com tempo e
dinheiro, literalmente tudo”. Convencido de que a Digital Domain ultrapassara
aquele que era considerado o limite final dos efeitos visuais (a criação
digital de um personagem humano realista, o que ocorreu em Benjamin Button), Enstice chegou a afirmar que, com tempo e
dinheiro suficientes, “qualquer coisa” poderia ser criada no computador
hoje em dia – e, para provar seu argumento, explicou (e mostrou clipes
ilustrativos) que a atuação de Brad Pitt no trabalho de David Fincher não se
resumira a uma simples “substituição de cabeças”, que implicaria filmar a
performance de Pitt e transplantá-la para o corpo dos atores que interpretaram
Benjamin Button em diversas fases de sua vida; em vez disso, eles dividiram o
processo em duas etapas: inicialmente, pintaram o rosto do ator de verde e
pediram que ele fizesse inúmeras expressões, desde as óbvias “caras tristes” ou
“felizes” até caretas absurdas. Mais tarde, filmaram Pitt (mas sem qualquer
processo de motion capture) lendo
seus diálogos. A partir daí – e isto me espantou profundamente – a Digital
Domain criou a atuação a partir do “banco
de expressões”.

– Isto é assustador. –
comentei neste momento. – Teoricamente, isto quer dizer que vocês podem pegar
um ator medíocre, pintá-lo de verde e captar centenas de caretas absurdas,
criando, a partir daí, uma performance digna de prêmios apenas no computador.

– Sim, teoricamente,
podemos. – foi a resposta sincera. Que imediatamente cedeu lugar a uma
explicação não muito convincente sobre como, na verdade, o ator ainda seria
necessário para a referência de interpretação – o que, como qualquer animador
tradicional seria capaz de dizer, não é realmente fato.

Em outras palavras:
não se espantem caso Keanu Reeves ganhe um Oscar algum dia e agradeça aos
amigos da Digital Domain.

Outra revelação
interessante feita durante a visita dizia respeito ao melhor tipo de efeito
visual: aquele que não se apresenta como tal e que, portanto, passa
despercebido pela platéia. Ao citar alguns dos filmes nos quais a empresa
trabalhara, Enstice citou Os Donos da
Noite
, de James Gray, sobre o qual escrevi em novembro de 2007 e cuja
crítica continha a seguinte passagem:

Em contrapartida, Gray exibe seu talento como diretor nas seqüências de
ação, destacando-se no violento tiroteio que ocorre na “fábrica” dos
traficantes e, principalmente, na brilhante perseguição sob a chuva, quando
o cineasta mantém sua câmera no carro ocupado por Bobby, prendendo-nos ao seu
angustiante ponto de vista, e descartando uma trilha sonora convencional a fim
de utilizar ruídos orgânicos à cena para aumentar a tensão, como o som do
limpador de pára-brisa
.

Pois Enstice comentou
que, na realidade, aquela brilhante seqüência havia sido rodada durante um dia
de sol e que a chuva e o céu nublado surgiram apenas graças aos efeitos criados
pela Digital Domain – algo que eu desconhecia e que me fez admirar ainda mais o
talento da equipe da empresa. (Outro filme que contou com mais de 400 planos envolvendo
efeitos visuais imperceptíveis criados por eles foi o magnífico Zodíaco, de David Fincher).

A chuva, aliás, é uma
das especialidades da DD, que expõe a animação de fluidos como seu ponto forte,
assim como a criação de carros digitais (e não é à toa que, portanto, tenham
sido contratados para trabalhar em Speed
Racer
).

Vendida por James
Cameron há alguns anos, a Digital Domain agora tem, entre seus donos, o diretor
Michael Bay, o que não impediu Enstice, no entanto, de fazer um breve
comentário sobre Avatar, dirigido por
seu ex-chefe: “Parece que não será como nada que tenhamos visto antes”,
confessou o sujeito, completando: “E deverá mudar as regras do jogo. Pelo
menos, é o que todos vêm dizendo”.

E considerando que
esta foi apenas a primeira vez das várias
ocasiões em que algo similar foi dito em relação ao longa de Cameron, é
bastante provável que algo realmente revolucionário esteja sendo realizado pelo
diretor de obras como Titanic e O Exterminador do Futuro.


A
Palestra de Paul Salamoff

Algo importante a ser
lembrado com relação aos programas do InFilm é que a idéia é levar amantes do
Cinema aos bastidores de Hollywood – e não necessariamente conhecedores de Cinema. Assim, como já seria de se esperar, há
determinados momentos dedicados justamente à instrução destes participantes.

O que justifica a
palestra de Paul Salamoff.

Inspirado pelo
veterano Tom Savini (você se lembrará dele em Um Drink no Inferno: é o sujeito que exibe uma pistola cujos dois
tambores e a localização na virilha remetem a um pênis capaz de metralhar
qualquer inimigo), Salamoff decidiu ainda jovem se dedicar aos efeitos visuais.
Filho de dentistas, ele usava os materiais que os pais compravam para a
fabricação de próteses a fim de criar seus próprios efeitos de maquiagem – e não muito depois ele conseguiu trabalhar no departamento de maquiagem de filmes tão
díspares quanto o barato e divertidinho Criaturas
3
(que marcou a estréia de Leonardo DiCaprio no cinema) e o caro e pavoroso
Batman & Robin.

Sujeito simpático e
visivelmente apaixonado por seu trabalho, Salamoff ofereceu uma palestra de 90
minutos durante a qual traçou uma linha do tempo didática e abrangente sobre a
História dos Efeitos Visuais, explicando também as diferenças entre efeitos
óticos, práticos e digitais – e mesmo que não tenha descoberto um único fato
novo durante a fala do profissional, apreciei sua empolgação (e, como já dito,
os integrantes do grupo que pouco sabiam sobre o assunto demonstraram
satisfação com o que aprenderam).

O irônico é que, após
concluir a palestra, Salamoff exibiu seu portfólio profissional, despertando
meu interesse sobre sua experiência particular e as técnicas envolvidas no
processo de criação das miniaturas e da maquiagem – algo que ele talvez aborde
diretamente no workshop que oferecerá na sexta-feira.

De todo modo, o dia
se mostrou interessante o bastante para manter o grupo alerta mesmo apesar do
cansaço, o que sempre é um bom sinal. Além disso, como relaxar sabendo que o
dia seguinte nos proporcionaria testemunhar o encontro entre duas verdadeiras
lendas da animação?


(Para maiores informações sobre o InFilm e futuros programas promovidos pela empresa, clique aqui.)

 

* Pablo Villaça viajou a convite do evento.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Variados, Viagens

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