O deputado e o ursinho

Tornou-se clichê usar o belo poema de Eduardo Alves da Costa, escrito como desabafo libertário diante da ditadura militar, mas é inevitável pensar neste trecho de “No Caminho com Maiakóvski” diante de certas manifestações de autoritarismo cultural que vêm acontecendo no Brasil com frequência cada vez mais alarmante:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Este é o problema em ser seletivo ao decidir quais batalhas se quer lutar em uma guerra – se você abandona umas e abraça outras, não está realmente defendendo seu lado; está comodamente lutando apenas em causa própria.

Pois minha causa é a de liberdade absoluta para a Arte, aprovando ou não seu conteúdo. Desprezei profundamente Um Filme Sérvio; isto não me impediu de defendê-lo a ponto de escrever sobre sua proibição, ajudar a organizar e participar de uma exibição pública e de um debate ao seu respeito. Considero Rafinha Bastos uma das piores coisas que o humor nacional já produziu, mas protestei quando seu DVD foi proibido pela justiça de São Paulo. O que me motivou a fazer tudo isso foi a certeza de que eram os primeiros passos para que a ideia de censura voltasse a circular aos poucos entre os brasileiros – e era apenas uma questão de tempo até que representantes eleitos democraticamente começassem a vomitar o desejo de proibir outras obras baseados puramente em seu gosto pessoal.

Entra Protógenes Queiroz, delegado da PF, deputado federal e um sujeito que, até então, vinha colhendo elogios por sua postura inabalável de combate à corrupção. Provando que o ser humano é a mais complexa das criaturas e que o mesmo homem que representa uma bandeira fundamental pode meter o pé em outra igualmente imprescindível, o deputado decidiu que era o momento de usar sua posição para defender a censura.

O caso, porém, começa de forma patética, digna de umas das notícias falsas publicadas pelo Piauí Herald: depois de levar o filho de 11 anos de idade para assistir ao longa Ted, de Seth MacFarlane, Protógenes, chocado com o que viu, decidiu agir como um fã de Restart e xingar muito no Twitter:

Foi o primeiro passo de uma cruzada pessoal cuja etapa seguinte foi uma matéria no Estadão que, esta sim, parece ter saído do The Onion brasileiro: com o título “Deputado quer proibir filme de ursinho viciado” (ok, podem rir), o texto traz as seguintes pérolas:

“O deputado, também delegado da Polícia Federal, criticou os Ministérios da Justiça e da Cultura por terem liberado o filme para maiores de 16 anos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas”, afirmou. Protógenes disse que, como deputado, pedirá explicações dos dois ministérios sobre a liberação do filme.”

Em primeiro lugar, o óbvio: depois de se ver numa situação constrangedora ao levar o filho de 11 anos para assistir a uma obra cuja classificação indicativa era “16 anos”, Protógenes resolveu descontar o embaraço que sentiu na própria democracia. Assumindo o papel de um juiz Dredd da moral e dos bons costumes, ele assistiu ao filme, avaliou o material e decidiu que ninguém mais deveria ter o direito de vê-lo. “Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma”, sentenciou do alto de sua visão megalomaníaca de mundo. E, dentro desta lógica, não hesitou em “pedir explicações” sobre a “liberação do filme”.

A explicação é simples, deputado: o Brasil voltou a ser uma democracia. Não temos mais, felizmente, um comitê central que decide arbitrariamente, a partir de critérios morais, religiosos e/ou ideológicos, o que o resto do país pode ou não ver. Para o bem ou para o mal, somos tratados como adultos pelo governo (ao menos neste aspecto), não como crianças que devem ser orientadas com relação ao que devem consumir culturalmente.

Mas Protógenes prossegue em seu show de embaraço ao alegar que o filme “instrui o espectador a não estudar e a não trabalhar”. Ora, mesmo que isto fosse verdade (e não é; o modo de vida de Ted e seu dono é claramente retratado como empecilho para o crescimento da dupla, demonstrando que o deputado não sabe sequer interpretar uma obra), que ideia absurda é esta de que um longa consegue “instruir” alguém a fazer algo? Se uma pessoa decide se tornar consumidora de drogas porque viu isto num filme, seu problema já antecedia a ida ao cinema; era uma questão de caráter, imaturidade ou insanidade, não de um longa-metragem perverso agindo sobre sua mente.

Porém, a experiência do parlamentar se torna realmente hilária quando ele relata:

“Protógenes disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. “Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.””

Recapitulemos: o filho de 11 anos de idade perguntou se ele queria ir embora. E ele disse “não”.

Mas a culpa é do filme, não de sua falha como pai.

A sessão de embaraço termina com este pequeno momento de surrealismo:

“Protógenes disse ainda que ficou indignado ao ver um herói de sua juventude – Flash Gordon – usando cocaína.”

E aí começo a entender a lógica (ou falta) de Protógenes: para alguém que aparentemente acredita que Flash Gordon é real e cocainômano, é realmente difícil estabelecer o limite entre ficção e realidade.

Insanidades à parte, porém, a postura do deputado é perigosíssima: muitos de vocês talvez não se lembrem, mas eu ainda me recordo de uma época em que obras de arte eram impedidas de chegar aos brasileiros por quaisquer motivos arbitrários alegados pela Censura – e não foi um período bonito, acreditem. A arrogância de Protógenes, aliás, é tamanha que ele não hesita em escrever como se estivesse de fato falando em nome de todos os brasileiros:

 A melhor parte para mim, claro, é o fato de ele protestar contra os “enlatados culturais americanos”… via twitter for iPad. 

Dito isso, o tempo verbal “Não aceitamos” é de uma arrogância assustadora – e preocupante. Assim como é alarmante perceber como Protógenes se encontra tão convencido de seu papel como juiz do que o povo brasileiro merece ou não ver que não se dá conta de contradições patentes em sua postura como “defensor da democracia”. Ora, no dia 23 de setembro, o deputado publicou o seguinte tweet:

“Não concordo com a restrição a (sic) liberdade de expressão”. Perfeito, Protógenes. Sua postura é admirável. Aliás, sabe para quem você deveria ensiná-la? Para o Protógenes 24 horas mais velho:

Espero que vocês se entendam, pois certamente parecem ter visões bastante conflitantes de mundo. A propósito: aproveite que irá conversar com ele e envie um recado por mim, por gentileza: diga a ele que a imagem que exibe no cabeçalho de seu blog pessoal é uma das mais honestas que já vi no espaço oficial de um parlamentar. Deprimente, claro, mas ainda assim honesta.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política