Breaking Bad S05E11

(Se reclamar de spoilers, te mandarei para Belize.)

O décimo-primeiro episódio desta quinta temporada de Breaking Bad foi um dos melhores de toda a série. Simples assim.

Em retrospecto, é impressionante perceber como Michael Slovis (diretor de fotografia habitual da obra e que aqui assinou a direção completa) e a roteirista Gennifer Hutchison conseguiram criar uma narrativa coesa mesmo saltando de um extremo a outro do espectro em termos de atmosfera e sentimento: em um instante, tínhamos Walt maniqueísta e frio; em outro, soando amedrontado; aqui, choramos com Jesse; ali, nos surpreendemos com sua fúria. Em comum, apenas o fato de todos agora estarem semi-mergulhados em sombras – enquanto Walter, claro, se entrega a elas completamente (e não é coincidência o fato de descrever seu câncer com a frase “Os médicos acharam uma sombra em meu pulmão”. Sim, apenas no pulmão – ao menos enquanto não inventarem um aparelho de tomografia capaz de enxergar o caráter e a alma de alguém.).

Investindo num prólogo que, trazendo Todd narrando o assalto ao trem, se encarrega de ilustrar como as ações de Heisenberg já se tornaram lendárias (ao mesmo tempo em que, num estilo próprio de Breaking Bad, comenta a maneira banal com que estes personagens enxergam a violência ao trazer um matador limpando casualmente o sangue do sapato e atirando-o na privada), este Confessions transporta o espectador diretamente ao episódio piloto ao retratar Walt novamente em frente a uma câmera enquanto confessa seus pecados. Porém, se suas confissões originais indicavam seus remorsos verdadeiros diante de suas ações criminosas, a trajetória assustadora do protagonista fica evidente aqui quando percebemos que, desta vez, ele mente com convicção não para se redimir, mas para ameaçar o concunhado.

Aliás, comprovando a inteligência da fotografia e da montagem da série, a cena em que Hank e Marie assistem ao vídeo gravado por Walter mostrou-se extremamente hábil ao alcançar um resultado quase impossível: ao mesmo tempo em que víamos o sujeito se confessando quase entre lágrimas no monitor, o que poderia fazê-lo soar vulnerável e frágil, a escolha perfeita de enquadramentos, mostrando Hank e Marie parados em pé diante da tevê, numa pose desprotegida e assustada, ajudou a estabelecer que o controle estava mesmo nas mãos do pequeno homem que víamos na tevê da sala do casal – e, da mesma maneira, a decisão de Slovis de incluir planos-detalhe da boca e dos olhos de Walt salientou a ameaça representada pelo sujeito, tornando-o perigoso mesmo ao chorar (e os olhos incrédulos de Hank, contrapostos ao do concunhado, completaram o efeito).

E se menciono a trajetória de Walter White, a maior prova de que agora estamos lidando mais com Heisenberg do que com o pacato professor de química do início da série pode ser encontrada no fato de que, neste episódio, tememos realmente pela vida de Jesse – e durante toda a cena no meio do deserto, é palpável a possibilidade de que o rapaz não saia dali vivo. Ora, se já somos capazes de acreditar que “Mr. White” mataria seu discípulo/filho sentimental, é porque não há mais redenção possível para o anti-herói. (Aliás, um comentário à parte: Saul Goodman é divertido e soa como um advogado picareta, mas se avaliarmos apenas suas ações ao longo da série, não restarão dúvidas de que é um profissional extremamente competente em seu… nicho.)

A passagem no deserto, vale dizer, acabou representando um dos pontos emocionais mais intensos e dramáticos de toda a história de Breaking Bad: depois de encarar o ex-professor como uma espécie de pai ao longo do tempo, Jesse aqui olha para Walter com expressão de estudo, desconfiada, quase incrédula. Já não acredita mais nas mentiras do velho parceiro, claro, mas há um lado de sua personalidade ainda tão jovem e imaturo que gostaria de acreditar e que grita por algum tipo de gesto de amor, amizade e/ou respeito. Assim, quando finalmente desaba, Jesse atira no rosto de Walter não recriminações pelos crimes e traições cometidos, mas seu ressentimento por ser tratado como uma criança manipulável, como uma mera ferramenta – e o abraço que o protagonista lhe dá – e que é devolvido com entrega absoluta do amigo/pupilo que deseja aquele carinho – representa o clímax emocional de cinco temporadas, resultado em lágrimas não só por parte de Jesse, mas também do espectador (ao menos, deste aqui).

E é outra comprovação das mudanças de Walt o fato de não termos certeza da legitimidade sentimental de seu abraço. Ele compadeceu-se diante da fragilidade infantil de Jesse ou percebeu que aquele abraço era o que precisava para convencê-lo a sumir? Afinal, considerando que mais cedo atirara uma notícia chocante sobre Walter Jr. apenas para manipulá-lo a permanecer ao seu lado, não seria difícil imaginar que abraçasse esta estratégia novamente.

(Como se não bastasse, ao trazer uma tarântula caminhando pela areia no início da cena, o episódio fez referência direta àquele outro que culminou na morte do garoto depois do assalto ao trem e que tanto marcou Jesse.)

Jesse, diga-se de passagem, é o centro dramático inquestionável de Confessions, a começar por seu confronto com Hank já no início do episódio, quando o agente do DEA surge com os olhos na sombra (o retrato da ameaça) diante de um Pinkman abatido, mas resoluto. A partir daí, vemos o rapaz oscilar entre a decepção, o apelo pelo respeito de Walt, a postura infantilizada e frágil no escritório de Saul e, finalmente, a surpresa, o choque e o ódio ao perceber a extensão das ações de Heisenberg, quando, então, entra em algo que poderíamos descrever facilmente como “modo rage” – e não ficaria espantado caso a performance de Aaron Paul aqui resultasse em mais prêmios no próximo ano.

Infelizmente, contudo, não creio que a raiva de Jesse possa alcançar muito diante da monstruosidade, da vaidade e do instinto de autopreservação de Walter White/Heisenberg. E como indica o impulso de Walt ao imediatamente resgatar a arma que guardara (o que comprova seu hábito de preparar-se para imprevistos futuros), a vida de Jesse não será exatamente sua prioridade caso se sinta realmente ameaçado pelo jovem e atormentado rapaz.

Em abril de 2012, ao assistir às primeiras temporadas, tuitei: “Um final eficiente para Breaking Bad seria se Walt matasse Jesse. Seria a perda completa de sua humanidade depois de tanto salvar (o parceiro)”. Temo muito ter acertado.

(P.S.: Minha admiração por Breaking Bad aumentou ainda mais ao constatar que os realizadores não se renderam ao impulso óbvio que a maioria absoluta dos roteiristas/diretores abraçaria: o de incluir flashbacks que revelassem o raciocínio de Jesse enquanto juntava as peças. Esta confiança da série nos espectadores é algo raro na televisão, que sempre presume que seus espectadores estão distraídos e precisam de exposição constante.)

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê

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