Festival do Rio #04

Abraços aos leitores Lincoln e Cássia, que vieram me cumprimentar entre os intervalos das sessões (e também ao meu amigo Francisco Russo e sua esposa).

E vamos trabalhar (de novo: não tive tempo de revisar os textos. Espero que perdoem erros eventuais.):

19) A Gatinha Esquisita (Das merkwürdige Kätzchen, Alemanha, 2013). Dirigido por Ramon Zürcher. Com: Jenny Schily, Anjorka Strechel, Mia Kasalo, Luk Pfaff, Matthias Dittmer.

Longa de estreia do alemão Ramon Zürcher, A Gatinha Esquisita é um belo exercício narrativo que, concentrado em um único espaço, substitui qualquer trama pela simples observação do comportamento de seus personagens, revelando surpreendentemente um mundo interior riquíssimo a partir de relativamente pouca ação.

Usando a cozinha do apartamento de uma família como ponto de partida (e como palco da maior parte da projeção, que eventualmente emprega alguns outros cômodos e, por um brevíssimo instante, o exterior do prédio), o filme nos apresenta àquelas pessoas no início da manhã, quando estão começando os preparativos para um jantar que contará com a presença de alguns poucos parentes. É neste ambiente que conheceremos a melancólica Mãe (Schily) e a caçula Clara (Kasalo), embora logo os irmãos mais velhos desta, que vieram passar o fim-de-semana em casa, também se juntem a elas: a irreverente Karin (Strechel) e o primogênito Simon (Pfaff) – e já é revelador que o Pai pouco apareça (e, quando o faz, seu rosto é raramente revelado, deixando-o distante e ausente).

Investindo em quadros fechados que acentuam a proximidade daquelas pessoas quase ao ponto da claustrofobia, Zürcher e o diretor de fotografia Alexander Haβkerl pouco movimentam a câmera, permitindo que os atores entrem e saiam de campo e criando, com isso, uma atmosfera de dinamismo e energia no cotidiano daqueles indivíduos. Além disso, o design de som explora com inteligência os ruídos e diálogos do fora de campo para manter o espectador consciente de toda a dimensão do apartamento, mesmo que mal saiamos da cozinha. Para completar, a própria marcação de cena é hábil ao sugerir subtextos importantes – e basta que vejamos a Mãe ao lado de um amigo da família que se ofereceu para consertar a lavadora para que percebamos uma leve tensão sexual que talvez explique em parte a postura da mulher.

Neste aspecto, aliás, as atuações se revelam igualmente fundamentais – e, como já dito, Jenny Schily, como a Mãe, é especialmente admirável em sua composição, levando o espectador a perceber sua melancolia sem que, para isso, precise expô-la verbalmente. Enquanto isso, a pequena Mia Kasalo exibe carisma e naturalidade ímpares, ao passo que Anjorka Strechel mostra-se igualmente capaz ao retratar as oscilações no humor de Karin, que pode sorrir abertamente num segundo apenas para mergulhar numa reflexão entristecida no instante seguinte.

É notável, também, observar como o diretor controla com segurança a passagem das horas através de breves interlúdios que, embalados por uma trilha evocativa, se concentram em planos-detalhe que revelam objetos utilizados ou mencionados pelos personagens nas cenas anteriores, o que também serve para pontuar suas experiências e conversas.

Retornando sempre à figura da pequena gata que dá título ao filme e que passa toda a projeção cruzando a tela como se observasse de forma distanciada a família à qual pertence (ou, sejamos honestos, apenas funcionando como nossa projeção constante de significados e sentimentos em função do efeito Kuleshov), A Gatinha Esquisita é uma estreia promissora de um cineasta que parece demonstrar uma sensibilidade particular para inspirar reflexão a partir da (nada) simples contemplação do comportamento humano. (4 estrelas em 5)

 

20) The Canyons (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Paul Schrader. Com: Lindsay Lohan, James Deen, Nolan Gerard Funk, Amanda Brooks, Tenille Houston, Gus Van Sant.

A primeira imagem que vemos em The Canyons é a fachada semidestruída de um cinema abandonado – algo que se tornará uma rima visual ao longo da projeção, funcionando como marcações de viradas no tom da narrativa e se transformando eventualmente em um símbolo da decadência crescente de seus personagens. Porém, se este parece ser o significado óbvio desta rima no contexto da história, é também perfeitamente possível interpretá-lo como um comentário quase metanlinguístico feito pelo experiente diretor Paul Schrader, que financiou o projeto através de crowdfunding: o Cinema clássico hollywoodiano – seja em seu modelo de produção ou em suas ambições artísticas – está morto ou quase; é hora de reinventá-lo ou de perecer com ele. E é isto que Schrader parece estar tentando fazer aqui com seu modelo de produção super-ultra-hiper-independente, mesmo falhando relativamente nos aspectos artísticos de sua obra.

Escrito por Bret Easton Ellis (responsável pelos livros que originaram Psicopata Americano e Regras da Atração), The Canyons acompanha um triângulo amoroso composto pela bela e problemática Tara (Lohan), o milionário Christian (Deen) e o aspirante a ator Ryan (Funk). Morando com Christian há cerca de um ano, a garota insiste para que este escale Ryan no filme de terror B que o namorado está financiando apenas para provar ao pai que está fazendo algo de produtivo na vida e sem revelar que tem um interesse oculto nisso, já que, há três anos, ela e o ator mantiveram um relacionamento. Não demora muito, porém, para que Christian descubra o envolvimento entre Tara e Ryan, o que desperta impulsos perigosos no já naturalmente agressivo rapaz.

Personagem típico de Elis em sua natureza niilista, Christian (o nome é de um simbolismo tolo) é encarnado como um tipo antipático e unidimensional pelo péssimo James Deen, astro pornô que Schrader escalou sabe-se lá por quê. Ao contrário do que ocorreu com Sasha Grey em Confissões de uma Garota de Programa, que oferecia uma performance convincente e reveladora, Deen jamais parece se descolar dos trejeitos de garanhão profissional, ignorando que seu personagem não é apenas obcecado por experiências sexuais, trazendo também traços de sociopatia que deveriam ser explorados com mais eficiência. E se Nolan Gerard Funk, como Ryan, consegue rivalizar com Deen em inexpressividade, Lindsay Lohan finalmente parece preocupada em demonstrar os talentos que a transformaram em uma estrela há tantos anos, já que confere ansiedade e angústia a Tara, retratando bem a divisão da garota entre o que sente pelo ex-namorado e o conforto material que finalmente conseguiu alcançar com o atual – e a cena na qual ela explica isto para Ryan, em um shopping, é provavelmente um dos melhores momentos da carreira da atriz.

É uma pena, portanto, que o roteiro de Ellis se mostre tão frágil, limitando-se a enfocar as obsessões de Christian (eventualmente transformando-o em um monstro completo) e Ryan, que se mostra incapaz de respeitar os desejos de Tara ao forçar sua presença na vida da moça. Sim, há uma dinâmica interessante entre os personagens de Deen e Lohan no que diz respeito às mentiras constantes que contam um para o outro, sempre tentando forçar-se mutuamente a uma postura defensiva, mas este é um elemento menor dentro da narrativa e, consequentemente, longe de ser suficiente para torná-la envolvente.

Prejudicado também pela fotografia digital absolutamente medíocre de John DeFazio, The Canyons não faz jus nem à carreira de Paul Schrader nem ao talento aqui demonstrado por Lindsay Lohan (embora sim à sua carreira problemática), mas é suficientemente eficaz para provar que ambos ainda têm potencial para trabalhos muito melhores do que este. (3 estrelas em 5)

21) Fading Gigolo (Idem, EUA, 2013). Dirigido por John Turturro. Com: John Turturro, Woody Allen, Sofía Vergara, Sharon Stone, Vanessa Paradis, Liev Schreiber, Bob Balaban.

Escrito e dirigido por John Turturro (seu quinto trabalho na função), Fading Gigolo traz o ator como um garoto de programa de meia-idade e Woody Allen como seu gigolô – e eu não precisaria escrever mais nada para que você, cinéfilo(a) dedicado(a), compreendesse o apelo do filme. Ainda assim, sinto-me forçado a acrescentar um detalhe: a ideia de oferecer o ex-funcionário de sua falida livraria como prostituto ocorre ao personagem de Allen quando a dermatologista deste, vivida por Sharon Stone, revela a intenção de participar de um ménage envolvendo sua amiga – interpretada por Sofía Vergara.

Sim, é uma premissa divertida que o roteiro de Turturro explora relativamente bem, demonstrando inspiração particular nas cenas envolvendo o gigolô-título, que, numa raríssima aparição de Woody Allen fora de seus projetos pessoais, oferece ao veterano comediante várias oportunidades de empregar seu timing cômico impecável. No entanto, o que faz de Fading Gigolo uma experiência realmente admirável é a atmosfera nostálgica criada pela abordagem direta de seu diretor e pela fotografia de Marco Pontecorvo, que criam uma Nova York quase de época ao através de suas comunidades amistosas e vizinhanças simpáticas e arborizadas.

Mas, mais do que isso, o filme realmente demonstra sensibilidade em sua abordagem da personagem encarnada por Vanessa Paradis, que, décadas distantes da jovem sedutora de Boda Branca, aqui interpreta uma viúva judia ortodoxa que, solitária e triste, recupera alguma espontaneidade ao conhecer o personagem de Turturro, que se apresenta a ela simplesmente como um “terapeuta” – e é comovente vê-la se entregar às lágrimas ao sentir o leve toque deste em suas costas, evidenciando sua imensa carência imposta pela rigidez de dogmas religiosos tolos e anacrônicos.

Não que o projeto condene as correntes mais ortodoxas do judaísmo (ou qualquer outra religião, diga-se de passagem), já que, na maior parte do tempo, mostra-se respeitoso diante destas crenças, mantendo um certo grau de pudor até mesmo ao usá-las como foco de piadas. Ainda assim, é curioso notar como Turturro alcança o equilíbrio entre o respeito e a irreverência, parecendo criticar a ortodoxia de forma quase carinhosa.

Doce e divertido na maior parte do tempo, Fading Gigolo peca pela obviedade pontual (como ao trazer um homem esguichando uma árvore logo após uma cena de sexo), mas até isto sugere uma certa ingenuidade por parte do projeto que encanta à sua própria maneira.

E há sempre o ménage envolvendo Vergara e Stone para levarmos em consideração. (3 estrelas em 5)

22) Corredor da Morte II – Retratos: Douglas Feldman + Darlie Routier (Death Row II – Portraits: Douglas Feldman + Darlie Routier, EUA, 2013). Dirigido por Werner Herzog.

Basicamente todo os pontos relevantes sobre este filme já foram discutidos quando escrevi sobre os outros dois episódios da série também exibidos no Festival do Rio. Basta dizer que, ao analisar mais dois casos envolvendo penas capitais, Herzog continua a demonstrar o absurdo desta punição em pleno século 21 – mesmo que jamais duvidemos da culpa de seus entrevistados. (4 estrelas em 5)

23) Jovem & Bela (Jeune & Jolie, França, 2013). Dirigido por François Ozon. Com: Marine Vacth, Géraldine Pailhas, Frédéric Pierrot, Johan Leysen, Fantin Ravat, Lucas Prisor, Charlotte Rampling.

Isabelle é uma bela jovem de 17 anos de idade que, em suas férias de verão, decide perder a virgindade ao sair com um turista alemão – uma decisão que compartilha de forma objetiva com o irmão mais jovens, Victor. Iniciada no sexo, porém, a garota toma uma atitude curiosa: de volta a Paris, ele se oferece como prostituta na Internet, passando a atender vários clientes sem que sua família desconfie de suas atividades e tornando-se companheira de cama frequente de um gentil senhor de idade.

Escrito e dirigido por François Ozon, cineasta tão ou mais obcecado com o universo feminino quanto o espanhol Pedro Almodóvar (embora com um estilo alguns degraus mais discreto), Jovem & Bela é um belo estudo de personagem ancorado por uma performance central sólida da novata Marine Vacht, que aqui assume seu primeiro papel como protagonista. Responsável por compor uma figura que tem a obrigação de ser simultaneamente capaz de despertar nosso interesse e de se manter inescrutável, Vacht investe numa abordagem inteligente ao transformar Isabelle em uma moça que parece – assim como o espectador – estar sempre curiosa a respeito das próprias reações, como se estudasse a si mesma a fim de descobrir o que a move ou interessa.

Direcionando o público a esta leitura também através do simbolismo de trazer a protagonista observando a si mesma enquanto perde a virgindade, como se fizesse questão de se afastar emocionalmente para analisar o que está ocorrendo, Ozon deixa claro que a motivação por trás das decisões de Isabelle não passa por dinheiro ou mesmo por um interesse excessivo por sexo – e, assim, a grande pergunta que move Jovem & Bela gira em torno deste mistério. Há, claro, alguns indícios de que a personagem sente algum tipo de prazer apenas em função da transgressão mesmo antes de sua primeira transa, quando, mesmo ficando óbvio que sua mãe permitiria um encontro com o alemão, Isabelle prefere mentir para a família, fingindo ir dormir apenas para escapar pela janela. Da mesma maneira, em vários momentos percebemos uma crueldade subjacente aos seus atos, como se estudasse formas sutis de julgar e condenar a mãe, testando também os limites daquela relação enquanto, por outro lado, faz questão de se manter cúmplice do irmão.

O mais curioso, no entanto, é avaliar como as atividades de Isabelle são eventualmente recebidas por quem a conhece – e é sintomático que sua mãe parta imediatamente para um julgamento moral acerca da prostituição da filha em vez de um psicológico. Neste sentido, tanto a protagonista quanto o próprio filme parece interessados em estudar a percepção da sociedade – especialmente da classe média – em relação ao sexo e à exploração da sexualidade feminina.

Não que Isabelle esteja se entregando a uma pesquisa antropológica, já que é obviamente uma garota imatura e, sim, problemática ao não saber lidar com suas questões internas. Além disso, a rica composição de Marine Vacht sugere um prazer revelador no poder que a moça descobre ser capaz de exercer sobre os homens. Ainda assim, o que parece realmente perturbá-la é sua aparente incapacidade de sentir o que quer que seja por seus parceiros – e ao longo de toda a projeção, ela só se emociona claramente ao relembrar determinada passagem durante uma sessão de terapia, embora logo processe a própria reação e pareça se esforçar para um rápido retorno à postura fria que mantém habitualmente.

Ao final, podemos até mesmo não compreender exatamente o que motiva Isabelle – e duvido que ela mesma saiba -, mas ao menos entendemos que esta busca revela, ao seu próprio modo, tudo o que precisamos saber sobre esta fascinante personagem. (3 estrelas em 5)

24) A Grande Beleza (La grande bellezza, Itália, 2013). Dirigido por Paolo Sorrentino. Com: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi, Galatea Ranzi, Giusi Merli, Isabella Ferrari, Giovanna Vignola e Fanny Ardant.

Responsável pelo curioso Il Divo e pelo fracassado Aqui é o Meu Lugar, o diretor italiano Paolo Sorrentino alcança um resultado infinitamente superior neste seu novo A Grande Beleza, que, escolhido como representante de seu país no Oscar 2014, soa quase como uma exploração felliniana da Itália dos tempos de Berlusconi, combinando os tipos (e alguns traços de estilo) de Fellini com passagens contemplativas cujas narrações em off parecem tentar emular a sensibilidade de Terrence Malick – uma mistura que se revela mais apropriada do que poderíamos imaginar a princípio.

Co-escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, o filme tem início com recortes que intercalam a celebração do aniversário do escritor Jep Gambardella (Servillo) e a visita de alguns turistas japoneses a Roma. Enquanto um dos visitantes morre ao contemplar a cidade maravilhado, somos apresentados ao círculo de amigos de Jep, que inclui Romano (Verdano), um homem desesperadamente apaixonado por uma ex-atriz que não se cansa de humilhá-lo; Viola (Villoresi), cujo filho mais velho deixou a fascinação por Proust afetá-lo mais do que deveria; Stefania (Ranzi), que não perde a oportunidade de julgar os amigos como seres intelectual e politicamente deficientes; e Dadina (Vignola), editora de uma publicação que, anã, se orgulha de manter algo da infância por enxergar o mundo a partir do ponto de vista das crianças. A partir destas figuras, o longa constrói uma narrativa que se preocupa mais com a exploração de certos temas do que em desenvolver uma história, ainda que, na maior parte do tempo, Jep sirva como centro da trama.

Fotografado por Luca Bigazzi com um interesse claro de remeter a opções estilísticas de Fellini – o que pode ser observado nos frequentes primeiríssimos planos e nas grandes angulares que deformam levemente estes quadros -, A Grande Beleza substitui os tipos circenses daquele cineasta pelos representantes claros de certos tipos clássicos da alta burguesia, remetendo, neste aspecto, até mesmo ao conceito de tipagem do cinema soviético da década de 20. Basicamente interessados em si mesmos, estes indivíduos refletem uma sociedade que – remetendo a uma fala presente no iraniano Manuscritos Não Queimam – optou por descartar Che Guevara como símbolo e substituí-lo por Steve Jobs. Assim, não é surpresa quando uma socialite que descreve sua profissão com um “sou rica” (“É uma ótima linha de trabalho”, responde Jep) logo explica que gosta de tirar várias fotos de si mesma para tentar “se conhecer melhor” e que, como não poderia deixar de ser, estes retratos atraem “vários elogios no Facebook”.

Da mesma maneira, se antes a curiosidade intelectual parecia ser o que distinguia jornalistas, escritores e poetas, agora – como aponta o filme, acertadamente – interessa mais a aparência de cultura e inteligência, o que resulta na disseminação de uma postura blasé que, disfarce de insegurança, se caracteriza por tentar diminuir aqueles que realmente se esforçam para crescer intelectual, cultural e politicamente. Não é à toa que uma das personagens de Sorrentino adora dizer que não tem televisão em casa e que só gosta de “jazz asiático”, atribuindo a si mesma um conhecimento especializado que a protege do escrutínio alheio e satisfaz sua vontade de achar-se especial.

Capaz de observar com cinismo estes traços de seus amigos, Jep orgulha-se de ser um estranho na alta sociedade, tendo comprado sua entrada graças ao sucesso de seu único e celebrado livro, escrito há 40 anos, e ainda assim ser considerado também seu centro, tornando-se capaz de “fazer uma festa fracassar” caso assim deseje. Mas o sujeito também se entrega à construção de um personagem, já que parece encarar com dedicação seu papel de intelectual celebrado com tendências misantropas, chegando a descrever detalhadamente o comportamento ideal em um velório, quando deve-se tomar cuidado para não exagerar no choro (o que seria imoral, já que a dor cabe aos parentes do falecido), mas encontrando uma maneira de ser visto por todos em uma atitude de sofrimento moderado.

O conceito de Arte, diga-se de passagem, é central em A Grande Beleza: se Jep (numa atuação sensível e divertidíssima do sempre excepcional Toni Servillo) encara sua postura na sociedade como uma performance, a ideia de expressão artística como forma de extrair beleza a partir do caos interior torna-se recorrente através do esforço criativo de vários personagens. Há, por exemplo, a artista performática que, claramente inspirada em Marina Abramovic, usa o próprio corpo como ferramenta de expressão; a garotinha que atira febrilmente várias cores numa tela imensa, cobrindo-se completamente de tinta; o aspirante a dramaturgo que busca escrever sua primeira peça para impressionar a amada; o homem que transforma suas fotos diárias numa exposição sobre seu próprio envelhecimento; e, claro, a mulher de 42 anos de idade que se recusa a parar de fazer strip-tease por sentir-se satisfeita apenas quando no palco. Em maior ou menor grau, todos estes indivíduos parecem obcecados em expressar suas inquietações através da Arte, mesmo que neste processo catártico se submetam ao ridículo aparente.

O que, claro, nos traz de volta ao personagem de Servillo, que se encontra paralisado como artista desde que publicou sua primeira obra e que, agora, confessa para si mesmo não conseguir mais escrever por não ser capaz de encontrar a beleza que buscava – e o que Jep parece momentaneamente (ou “momentaneamente”) incapaz de perceber é que esta surge em seu cotidiano através de um por-do-sol, de uma paixão (mesmo que fugaz) ou do simples prazer de se caminhar em sua Roma, mágica a ponto de oferecer um encontro fortuito com Fanny Ardant durante o amanhecer.

Ou, eu me atreveria a acrescentar, da simples observação de estranhos se abraçando na rua, de uma pessoa amada comendo sushi atabalhoadamente ou da alegria de ouvir uma canção que nos remete a reflexões nostálgicas. Nestes casos, a sensação de completude pode ser intensa a ponto do insuportável.

Como comprova o turista que, no início deste sensível filme, aparentemente morre intoxicado pela beleza que o cerca. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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