Festival do Rio #05

Abraços ao casal de leitores Jarbas e Aline e também ao Igor, que vieram me cumprimentar durante os intervalos entre as sessões.

E:

25) A Imagem que Falta (L’image manquante, Camboja, 2013). Dirigido por Rithy Panh.

Em abril de 1975, quando o Khmer Vermelho de Pol Pot tomou o controle do Camboja, o cineasta Rithy Pahn tinha 13 anos de idade. Subitamente, sua vida foi radicalmente alterada: com o projeto de “reeducação” implantado no Kampuchea Democrático (como o regime se batizou), as grandes cidades foram esvaziadas, intelectuais e artistas foram executados, e milhões de pessoas passaram a trabalhar nos campos para construir uma sociedade utópica que, na prática, se revelou um genocídio através não só das execuções, mas também da fome.

Agora um homem de 50 anos, Panh cria, neste magnífico A Imagem que Falta, um depoimento pessoal sobre suas lembranças daquele período – mas o fato de não poder contar com fotos ou qualquer outro objeto de sua infância (todos abandonados às pressas) obrigou o diretor a uma saída única e, em retrospecto, perfeita para seu projeto: a utilização de dioramas para reencenar passagens da época. Empregando bonecos de argila tão frágeis quanto aquelas vidas demonstraram ser, os cenários são complementados por um trabalho impecável de design de som e por imagens de arquivo que o ajudam a estabelecer um retrato talvez mais evocativo e intenso do que um documentário convencional conseguiria sugerir.

Desta maneira, A Imagem que Falta (candidato do Camboja ao Oscar 2014) é um filme memorável que, através de arquivos, bonecos e dores, transporta o espectador à realidade de pesadelo erguida pelo Khmer Vermelho, que via o conhecimento como inimigo, empregava a fome como arma e adotava slogans como linguagem. Trazendo registros feitos pelo regime e que pintavam uma sociedade na qual crianças trabalhavam na colheita enquanto sorriam e cantavam versos inspiradores sobre o governo, o longa comprova ter feito a opção correta ao adotar brinquedos infantis como forma narrativa, já que estes nos apresentam a um mundo mais fiel aos fatos do que as imagens filmadas pelos seguidores de Pol Pot e nas quais os abundantes sacos de arroz provavelmente continham nada mais do que areia, atuando como meros e falsos objetos cenográficos. Além disso, há algo de profundamente patético em testemunhar os líderes de um país em ruínas percorrendo sorridentes os resultados de suas experiências fracassadas de reengenharia social enquanto literalmente aplaudem a si mesmos diante de multidões famintas que, obrigadas por armas, sorriem com seus rostos magros para os homens bem alimentados que as estão matando aos poucos.

Esta, diga-se de passagem, é outra virtude de A Imagem que Falta: seus bonecos, com seus rostos genéricos de argila, acabam funcionando como avatares de toda a humanidade. É fácil e inevitável, para o espectador, se projetar naquelas figuras sem raça, personalidade ou nomes e que, assim, se tornam símbolos de um sofrimento universal e aparentemente infindável – pois antes de Pol Pot, aqueles homens e mulheres já eram vítimas das classes dominantes e também das políticas internacionais norte-americanas.

A história é antiga: mudam os opressores; os oprimidos, porém, são sempre os mesmos.

Ao reconstruir o que viveu com objetos paradoxal e tragicamente lúdidos, Rithy Panh fez mais do que compartilhar suas memórias; compartilhou também a dor que sente ao lembrá-las. (5 estrelas em 5)

26) Houston (Idem, Alemanha, 2013). Dirigido por Bastian Günther. Com: Ulrich Tukur, Garret Dillahunt, Wolfram Koch, Jenny Schily, Jason Douglas.

Clemens Trunschka (Tukur) é um headhunter alemão que recebe a tarefa de abordar o CEO de uma empresa petrolífera a fim de lhe fazer uma proposta milionária para que assuma a presidência de outra companhia. O que poderia ser considerado um trabalho relativamente simples, porém, é dificultado não só pela necessidade de sigilo absoluto, mas pelo fato de que o tal executivo é basicamente inatingível: jamais está sozinho, é impossível chamá-lo ao telefone e sua vizinhança é patrulhada o tempo inteiro por seguranças que não permitem a aproximação de quem quer que seja. Ah, sim: e Clemens é alcoólatra.

Interessante enquanto enfoca as diversas estratégias empregadas pelo alemão, que é obrigado a viajar para Houston, sede da empresa do CEO, a fim de falar com seu alvo, o filme escrito e dirigido por Bastian Günther ainda ganha um necessário senso de humor ao introduzir o personagem do sempre eficiente Garret Dillahunt, que, interpretando um norte-americano carente e intrometido, força uma amizade com o protagonista ao conhecê-lo no bar do hotel em que ambos se encontram hospedados. A partir daí, o longa se divide entre os esforços de Clemens para conseguir acesso ao executivo e as interações com o novo amigo, o que eventualmente acaba prejudicando o foco das duas linhas narrativas e prejudicando o filme como um todo.

Aliás, Houston é um projeto que sofre justamente por parecer não ter a mínima ideia da história que quer contar. Depois de estabelecer os problemas causados pelo alcoolismo do protagonista em uma bela sequência que traz sua esposa (a ótima Jenny Schily, de A Gatinha Esquisita) rindo em uma festa apenas para surgir chorando de frustração ao volante por – provavelmente pela enésima vez – ter que conduzir o marido desacordado para casa, o filme simplesmente passa a ignorar a questão. Sim, Clemens é constantemente visto com um copo de uísque na mão, mas, na prática, isto não parece prejudicar em nada sua missão, transformando-o, no máximo, em um alcoólatra perfeitamente funcional, o que pode representar um problema para sua família, mas não para a questão central da história: sua missão.

Eventualmente entregando-se à autopiedade e descartando a presença do personagem de Dillahunt (que, infelizmente, se revela completamente dispensável), Clemens é um protagonista desinteressante, sem carisma algum e que, como o próprio filme que habita, jamais chega a lugar algum. (2 estrelas em 5)

27) Ouro (Gold, Alemanha, 2013). Dirigido por Thomas Arslan. Com: Nina Hoss, Marko Mandic, Uwe Bohm, Lars Rudolph, Peter Kurth, Rosa Enskat, Wolfgang Packhäuser.

Há algumas similaridades interessantes entre Ouro, novo filme do alemão Thomas Arslan, e o ótimo O Atalho, de Kelly Reichardt: ambos flertam com o western embora desafiem suas convenções ao narrarem histórias de pequenos grupos que, perdidos em meio a uma longa jornada, têm suas convicções e alianças testadas.

Ambientado no final do século 19, o roteiro do próprio Arslan acompanha um grupo de imigrantes alemães que decide partir rumo à região canadense conhecida como Klondike, na qual jazidas de ouro haviam sido descobertas (uma corrida pela riqueza que inspirou, claro, o clássico Em Busca do Ouro, de Chaplin). Liderados por um sujeito que, aos poucos percebemos, não conhece muito bem o caminho em meio às montanhas, os quatro homens e as duas mulheres que compõem a caravana começam a questionar não só o guia, mas também o a relação custo-benefício da viagem, que, na melhor das hipóteses, duraria seis semanas (e uma das falhas do filme é não estabelecer exatamente a duração da jornada ao longo da projeção).

Eficiente ao estabelecer as personalidades dos integrantes do grupo – mesmo que não nos importemos de fato com seus destinos -, Ouro cria tensão a partir da dinâmica entre aquelas pessoas e das condições extenuantes de sua trajetória. Além disso, ao evitar criar antagonistas claros, já que até mesmo o antipático jornalista de Uwe Bohm se transforma numa figura trágica, o longa investe na estrutura mais interessante de “Homem versus Natureza” – e eu não me espantaria caso Werner Herzog se revelasse um fã do filme.

Explorando bem as belas locações, Ouro é um filme intenso que emprega bem seus atores (incluindo a ótima Nina Hoss, de Bárbara) e dramatiza com eficácia os extremos aos quais o desejo por uma vida melhor é capaz de empurrar um indivíduo em determinadas condições. Não é uma obra-prima, é verdade, mas nem precisa ser para desempenhar bem seus propósitos. E desempenha. (4 estrelas em 5)

28) Fruitvale Station (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Ryan Coogler. Com: Michael B. Jordan, Octavia Spencer, Melonie Diaz, Ahna O’Reilly, Kevin Durand, Chad Michael Murray, Ariana Neal.

Rodney King e Trayvon Martin são apenas dois dos nomes mais conhecidos entre os milhares e milhares de jovens negros que, ao longo das décadas, foram vítimas de violência sistêmica por parte das autoridades ou – ainda mais assustador – por milicianos que, então, foram absolvidos de qualquer culpa pelas vidas que destruíram. E estou me referindo apenas aos Estados Unidos, que tantos conservadores brasileiros, numa mentalidade colonialista, apontam como um exemplo eterno a ser seguido. Sim, há pontos admiráveis na cultura norte-americana (e eu, como amante das Artes, seria tremendamente hipócrita caso negasse isto), mas alegar que aquele é um país “de igualdades” é mais que cegueira; é mau-caratismo.

Dirigido e escrito pelo estreante Ryan Coogler, Fruitvale Station resgata a história de mais um destes jovens negros massacrados: Oscar Grant. Morto – não: executado – por policiais na madrugada da virada de 2008 para 2009, o rapaz de 22 anos de idade teve seus últimos momentos registrados por dezenas de vídeos amadores que capturaram a ação absurda das autoridades numa estação de metrô – e quando vemos um destes registros logo na abertura do filme, podemos constatar como toda uma vida vitimada pela intolerância e pelo abuso de poder justificaria a postura defensiva, mas nada violenta, de Oscar ao ser encurralado na mureta da estação por um bando de brutamontes de distintivo. A partir daí, Coogler retorna 24 horas no tempo e transporta o espectador para o último dia da vida de Oscar Grant (Jordan), permitindo que testemunhemos suas interações com a namorada, com a filha de 4 anos e com a mãe (Spencer).

Rodado de forma direta, quase sugerindo um registro documental, Fruitvale Station evita qualquer sombra de melodrama ao acompanhar seu protagonista, que, vivido de maneira expressiva e carismática pelo jovem Michael B. Jordan (digno de prêmios), tampouco é retratado como um santo à espera do martírio. Dono de um passado conturbado e claramente capaz de explosões pontuais – o que fica claro quando puxa um ex-chefe pelo braço -, Oscar é um indivíduo falho: demitido por se atrasar constantemente para o trabalho e visto num breve flashback quando ainda se encontrava preso, o sujeito se mostra, por outro lado, disposto a tentar mudar e exibe imenso carinho pela família. Neste sentido, diga-se de passagem, as belas atuações de Melonie Diaz, Ariana Neal e Octavia Spencer (aqui, sim, merecendo os aplausos que ganhou injustamente por Histórias Cruzadas) ajudam a humanizar ainda mais o protagonista ao evidenciar o carinho que desperta, respectivamente, em sua namorada, na filha e na mãe, que viriam a se tornar vítimas indiretas da violência sofrida por ele.

Hábil ao sugerir um cotidiano problemático, mas caloroso, Ryan Coogler e a diretora de fotografia Rachel Morrison constroem uma atmosfera inquieta com a câmera móvel, sugerindo uma tensão subjacente que percorre a narrativa. Em contrapartida, os quadros fechados usados para retratar o jantar da família Grant são inteligentes por não só aproximarem o espectador daquelas pessoas, mas também por criar um clima de união entre aquelas pessoas – e me encantei particularmente com o plano que traz, no canto direito do quadro, a geladeira com diversos desenhos infantis e retratos da família enquanto, ao fundo, vemos aqueles indivíduos numa roda de oração antes do jantar. Além disso, ao constantemente sobrepor ao campo as telas do celular de Oscar enquanto troca mensagens com amigos e parentes, Coogler não só ressalta as ligações afetivas do personagem como nos lembra constantemente da onipresença daquela tecnologia que seria vital em registrar o fim do jovem.

Evitando pregações desnecessárias, o filme ainda assim sugere, aqui e ali, as desigualdades e preconceitos responsáveis por forjar uma atmosfera que resulta de forma tão frequente em atos de abuso contra minorias – como ao focar, mesmo com bom humor, a dificuldade de se encontrar um cartão de felicitações que não traga apenas famílias brancas no design ou na maneira com que a polícia se sente autorizada a abordar e oprimir alguém apenas em função da cor de sua pele. Ainda assim, é importante notar que Coogler não retrata nem mesmo os policiais envolvidos na tragédia como monstros unidimensionais – e ainda que se mostre brutal na abordagem inicial, o policial interpretado por Kevin Durand imediatamente revela uma faceta humana ao perceber que algo saiu tremendamente errado na plataforma do metrô.

Percorrido por uma sensação de tragédia iminente estabelecida pelo vídeo inicial, Fruitvale Station é um filme devastador por lembrar o público de algo que temos a tendência de esquecer quando lemos, vemos ou ouvimos notícias sobre atos de violência: a vítima era mais que um nome ou uma estatística; era um ser humano com sentimentos, história, amores, sonhos e família. Era um estranho, mas poderia ser um conhecido. Poderia ser… você ou eu, caso tivéssemos a cor de pele “errada” ou possuíssemos uma conta bancária com menos zeros do que o desejado.

Fruitvale Station nos lembra, enfim, de que somos todos Oscar Grant.

Ou Amarildo. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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