Festival do Rio #06

Abraço ao aluno Thiago, que veio me cumprimentar durante um dos intervalos.

Quanto aos filmes vistos…

29) Layla Fourie (Idem, Alemanha/África do Sul, 2013). Dirigido por Pia Marais. Com: Rayna Campbell, August Diehl, Rapule Hendricks, Terry Norton.

Indecisa entre a vontade desenvolver um tema sócio-político e a necessidade auto-imposta de criar um thriller, a diretora Pia Marais realiza, em Layla Fourie, um filme que falha nos dois aspectos – e, considerando a forte metade inicial da projeção, isto é uma pena.

Co-escrito por Marais e Horst Markgraf, o longa nos apresenta à personagem-título (Campbell), que se encontra na fase final de contratação por uma empresa especializada em realizar testes com polígrafo. Entrevistada pelo futuro chefe e indagada sobre suas motivações para seguir aquela linha profissional, Layla expõe de maneira óbvia a linha principal da narrativa: “Porque mentiras levam a mentiras” – e o fato de o roteiro sentir a necessidade de telegrafar de forma tão expositiva a questão acaba sendo um indício precoce da mão pesada com que a história será conduzida.

De todo modo, em sua primeira hora, Layla Fourie é uma produção sólida: sugerindo com talento a longa viagem empreendida pela protagonista ao lado do filho em direção ao cassino no qual realizará uma série de testes, a cineasta cria uma atmosfera tensa que resulta no incidente motor da trama, quando a personagem de Campbell atropela um homem na estrada e, depois de tentar ajudá-lo, decide ocultar o cadáver por temer a prisão.

E é neste ponto que um dos temas principais da produção é escancarado: embora ambientado numa África do Sul pós-Apartheid, o filme reconhece que os traumas deixados no país são grandes demais para que uma mãe solteira negra se sinta confiante de que as autoridades acreditarão em sua versão sobre um acidente que resultou na morte de um homem branco. Da mesma maneira, é curioso perceber como as novas gerações dos setores caucasianos da sociedade ressentem serem julgadas pelos atos de seus pais – e, assim, quando o ambíguo Pienaar (Diehl) percebe que Layla desconfia de suas atitudes, acaba desabafando mal se lembrar do período do Apartheid. Mas é claro que, para as vítimas, as lembranças permanecem com mais força e, desta maneira, a protagonista acaba sendo vivida por Rayna Campbell como uma mulher sempre tensa e desconfiada.

É lamentável, portanto, quando o roteiro começa a se esforçar demais para desenvolver seus temas, dependendo de forma exagerada de coincidências e mal conseguindo se decidir com relação à dinâmica entre Layla e o filho pequeno, que ora parecem excelentes amigos, ora quase inimigos.

Desapontando também em seu desfecho desnecessariamente aberto, Layla Fourie é uma imensa oportunidade desperdiçada. (2 estrelas em 5)

30) Uma História de Crianças e Cinema (A Story of Children and Film, Inglaterra, 2013). Dirigido por Mark Cousins.

Responsável pela ambiciosa série A História do Cinema: Uma Odisseia, o pesquisador Mark Cousins faz, em Uma História de Crianças e Cinema, um vídeo-ensaio em forma de longa-metragem buscando analisar as diversas maneiras com que o universo infantil foi registrado pela Sétima Arte ao longo de seus cerca de 120 anos de existência. Trata-se de um propósito intrigante e que, ao longo da projeção, acaba rendendo alguns insights dignos de nota; na maior parte do tempo, porém, as associações feitas por Cousins soam terrivelmente forçadas, o que acaba diminuindo bastante a força de seu projeto.

Parente próximo do igualmente problemático O Guia Pervertido do Cinema, que trazia Slavoj Žižek oferecendo seu olhar particular sobre títulos específicos (incluindo uma visão fascinante sobre o significado dos três andares da casa de Norman Bates em Psicose), o trabalho de Cousins é válido por fazer uma colagem que inclui títulos de Spielberg, Tarkovski, Ozu, Buñuel, Panahi, Kaige, Kiarostami e outros, mas o ensaio já parte de uma premissa problemática ao tentar empregar um vídeo caseiro dos sobrinhos do autor como base para suas observações, que acabam parecendo extrapolações artificiais do que de fato vemos na tela.

Em certo momento, por exemplo, Cousins parte das ações do sobrinho, que quebra um brinquedo, para comentar o “impulsivo destrutivo infantil” – o que o leva a discutir Oliver Hardy e Stan Laurel, que, convenhamos, já haviam passado alguns anos da infância quando se tornaram famosos como O Gordo e o Magro. Já em outro instante, ao observar uma mulher que se posiciona de costas em um determinado título e que traz os cabelos presos em um coque, o diretor subitamente a compara a Kim Novak em Um Corpo que Cai, o que não faz sentido absolutamente algum dentro da lógica da cena analisada.

Extrapolações e interpretações são mecanismos analíticos sempre bem-vindos, claro – e um dos méritos deste trabalho é incentivar o espectador a adotar seu olhar inquisitivo sobre o Cinema -, mas se parecem surgir do mero desejo do crítico/acadêmico/cinéfilo em enxergar uma conexão que não está de fato lá, o exercício se torna fútil e tolo. E, infelizmente, é exatamente assim que várias conclusões de Cousins acabam soando.

Como se não bastasse, o realizador tem o terrível hábito de empregar hipérboles: “nenhum cineasta jamais entendeu solidão infantil como Bergman”, “jamais houve um diretor que desenhasse mais seus planos como Minnelli”, e por aí afora. Para piorar, Cousins frequentemente se entrega a construções verbais que, dissecadas, nada revelam: “Muitos bons filmes são sobre crianças”, diz ele em certo ponto, completando a seguir: “E muitos destes são dirigidos por mulheres”.

Ora, duh e duh. Eu poderia dizer que “muitos bons filmes são sobre sapos e que vários destes foram dirigidos por franceses”, mas isto não revelaria nada de particularmente relevante ou novo.

Mas algo eu posso afirmar com certeza: há muitos bons longas sobre Cinema, mas Uma História de Crianças e Cinema não é um deles. (2 estrelas em 5)

 

31) Antes Sexo do que Nunca (Concussion, EUA, 2013). Dirigido por Stacie Passon. Com: Robin Weigert, Maggie Siff, Julie Fain Lawrence, Laila Robins, Johnathan Tchaikovsky, Emily Kinney.

Há alguns anos, algumas pessoas se apaixonaram por uma produção independente chamada Minhas Mães e Meu Pai, acreditando que a abordagem que o longa dirigido por Lisa Cholodenko lançava um olhar natural e realista sobre famílias compostas por casais homossexuais. O que vi naquela bomba, porém, foi o oposto: uma produção cínica que tratava sua visão liberal como algo digno de congratulações, já que a cada cena parecia estar dando tapinhas nas próprias costas por trazer duas lésbicas como protagonistas (o que, claro, não o impedia de introduzir um homem pelo qual uma delas pudesse se interessar, já que, aparentemente, toda lésbica está a um pênis bem utilizado de se tornar heterossexual).

Pois este ano, há de fato um independente norte-americano digno de aplausos pela abordagem da sexualidade de sua protagonista: dirigido e escrito por Stacie Passon, este Antes Sexo do que Nunca (não me perguntem a razão pela tradução estúpida do título original) jamais trata a homossexualidade de Abby (Weigert) como algo a ser observado – e seu casamento com Kate (Lawrence) é visto como uma união comum, com seus problemas e momentos de alegria. Sim, elas são lésbicas (que, vale observar, jamais se interessam por um homem ao longo da narrativa), mas isto não as define e nem ao filme, o que é admirável.

Surgindo como uma mistura de Fading Gigolo e Jovem & Bela (ou, como a sinopse no guia do Festival do Rio prefere colocar, “um A Bela da Tarde lésbico”), o longa acompanha a bela Abby que, aos 42 anos de idade e depois de sofrer uma concussão, passa a sentir-se inquieta com seu cotidiano ao lado da esposa e dos dois filhos. Sexualmente frustrada em função do distanciamento de Kate, ela finalmente decide pagar uma garota de programa e, pouco depois, está atendendo suas próprias clientes em um loft que vem reformando no centro da cidade.

A transição da personagem de mãe suburbana e insegura a garota (não: mulher) de programa experiente é conduzida pelo filme e pela excelente atriz Robin Weigert com delicadeza e sem qualquer grau de sensacionalismo ou apelação, indicando, também, a posição do roteiro sobre os interesses sexuais de Abby: o fato de gostar disso ou daquilo na cama não muda quem ela é como indivíduo.

Contando com um humor sutil que torna seus personagens ainda mais interessantes, Antes Sexo do que Nunca (ai, ai) acaba funcionando como um bom estudo de personagem ao contemplar as mudanças experimentadas por Abby em função de seus experimentos, mas peca por jamais desafiar a protagonista de fato, já que tudo parece ocorrer de maneira simples demais: da decisão de se tornar prostituta ao desfecho bonitinho.

De todo modo, a maneira franca e direta com que a estreante Stacie Passion lida com o material e seu talento para conduzir o forte elenco indicam o surgimento de uma cineasta repleta de potencial. (3 estrelas em 5)

 

32) 7 Caixas Paraguaias (7 cajas, Paraguai, 2012). Dirigido por Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori. Com: Celso Franco, Lali Gonzalez, Victor Sosa, Nico García, Paletita, Manu Portillo, Mario Toñanez, Nelly Davalos, Roberto Cardozo, Jin Hyuk Johnny Kim.

Considerado o maior sucesso da história do cinema paraguaio, este 7 Caixas Paraguaias é um filme com ambições simples que acabam sendo atingidas com competência admirável. Dirigido por Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori a partir de um roteiro escrito pelo primeiro, o longa gira em torno do jovem Victor (Franco), que, carregador de caixas no maior mercado aberto de Assunção, sonha em aparecer na televisão. Deslumbrado com um celular capaz de registrar pequenos vídeos, ele aceita a tarefa de transportar sete caixas às pressas para fora de um açougue sem desconfiar que estas trazem um conteúdo macabro – e eventualmente passa a ter que fugir não só da polícia, mas de um carregador rival que acredita haver uma pequena fortuna na carga que o garoto transporta.

Dinâmico e sempre envolvente ao investir em várias histórias que vão se cruzando de maneira engenhosa, 7 Caixas Paraguaias é dono também de um senso de humor negro inesperadamente eficiente, oscilando bem entre o suspense, a ação e a comédia. Empregando bem o mercado que ambienta a trama – e cuja geografia os dois diretores são hábeis em deixar evidente para o espectador -, o filme também busca criar personagens multidimensionais ao oferecer, por exemplo, uma motivação pessoal mais do que compreensível para o vilão de Victor Sosa, que está desesperado para comprar remédios para o filho doente.

No entanto, a grande revelação do elenco é mesmo a expressiva Lali Gonzalez, que não só convence como uma garota de 15 anos de idade (embora tenha quase 30) como ainda a transforma numa moça forte, decidida, mas também capaz de momentos de inquestionável vulnerabilidade.

Pecando pontualmente em seus quesitos técnicos (como ao empregar uma câmera lenta adicionada na pós-produção que traz resultados esteticamente pavorosos), o filme é uma das boas surpresas desta edição do Festival do Rio. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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