Meu amigo Omer

As pessoas adoram falar mal do Brasil. Qualquer tropeço em qualquer área e já soltam um “é este o país que quer sediar uma Copa?” ou um “só no Brasil, mesmo!”. (Já escrevi sobre isso aqui.) No entanto, basta vir aos EUA, por exemplo, para constatar que não apenas vários dos erros cometidos no nosso país são repetidos na terra de Obama como ainda temos uma vantagem imensa em relação aos norte-americanos: a educação. Porque é impressionante como os atendentes aqui costumam ser grosseiros. Eu já havia notado isso em visitas anteriores, quando, por exemplo, os funcionários da FAO Schwarz praticamente empurraram os clientes para fora da loja ao fim do expediente, mas hoje vivenciei algo que… bateu o recorde.

Estava com voo marcado para Nova York hoje à noite, saindo do aeroporto O’Hare, em Chicago. A ideia (que já havia sido executada ano passado sem problemas) era passar a noite na casa do meu amigo Josh, pegar algumas coisas que havia deixado lá antes de ir para o Ebertfest e embarcar para o Brasil na manhã seguinte, às 9:25.

Eu não contava com a chuva, os relâmpagos e o granizo.

Marcado para as 19h50, o voo começou a ser adiado em saltos de meia hora. Ninguém nos informava absolutamente nada sobre as condições meteorológicas ou do aeroporto e pareciam sugerir que, apesar do atraso, o voo aconteceria. No entanto, comecei a notar algo: sempre que alguém procurava os atendentes da American Airlines para fazer alguma pergunta, era recebido com uma resposta ríspida. Finalmente, depois de duas horas de atraso, me dirigi ao balcão e perguntei se iríamos mesmo para Nova York ou se o voo seria cancelado. A resposta do atendente?

– Sir, you’re wasting my time and your time with these questions.

Fiquei boquiaberto. Olhei fixamente para o sujeito e pensei seriamente em mandar um “Fuck you” caprichado, mas então me ocorreu que, caso o voo fosse mesmo cancelado, eu perderia a passagem para o Brasil e não poderia encontrar minha família amanhã. Como se não bastasse, onde eu ficaria esta noite? Mais deprimido do que irritado, afastei-me.

Minutos depois, o anúncio do cancelamento era ouvido. Imediatamente, uma fila imensa formou-se para a remarcação das passagens e, mesmo conseguindo ficar entre os primeiros no atendimento, só consegui um voo para a tarde da sexta. Aborrecido, perguntei se a American Airlines ajudaria os passageiros que não moram em Chicago a encontrar um lugar para dormir e a resposta, mais uma vez, beirou a provocação:

– Sir, the passengers have to take care of themselves. Next!

O “sir” é que me irritou mais.

Liguei para o hotel no qual havia me hospedado em Chicago e fui informado de que estava lotado. Mais cinco ou seis tentativas e nada. Eu teria que passar a noite no aeroporto. No desespero, decidi ligar para meu amigo Omer Mozaffar.

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Omer é um gênio.

Eu sei que esta palavra se tornou corriqueira no twitter, sendo usada para descrever absolutamente qualquer coisa, mas eu a estou empregando em seu sentido mais puro: Omer Mozaffar é dono de uma inteligência e de uma cultura impressionantes. Professor universitário de Humanas, Artes e Ciências, Omer é um professor amado pelos alunos e chegou a receber o prêmio de “Excelência no Ensino” em 2011. Oferecendo várias disciplinas relacionadas à cultura islâmica (começando por “Introdução ao Corão”), Omer me deixou ainda mais fascinado pelo brilhante A Separação, por exemplo, ao explicar nuances existentes no filme com relação ao choque entre a cultura persa e a árabe – e não me espantei quando descobri que ele entendia o persa falado pelos personagens apesar de ter nascido em Chicago (sua ascendência é paquistanesa). Por outro lado, eu fiquei surpreso quando, durante a exibição de Patang no Ebertfest, um problema na formatação da tela ocultou as legendas e Omer, sentado ao meu lado, imediatamente começou a traduzir o que aquelas pessoas diziam em hindu.

– Quantas línguas você fala?! – perguntei, fascinado.

– Seis.

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Em seu perfil no twitter, Omer se apresenta apenas com a frase “I solve problems” – e eu descobriria ser esta a pura verdade ao ligar para ele e informá-lo dos contratempos que enfrentara no aeroporto. Sem pensar duas vezes, ele sugeriu que eu pegasse o metrô para a cidade enquanto tentaria encontrar um lugar para eu dormir (ele mora ao sudeste de Chicago; o aeroporto fica a noroeste. Uma distância de 40 km. Quando cheguei à cidade, ele me buscou de carro (às 23h30!), me levou para comprar algumas coisas básicas (escova de dentes, desodorante – minha mala ficou presa no aeroporto) e então me conduziu até a casa de um aluno, Nader Ismail, que gentilmente me ofereceu um quarto em seu apartamento – que fica bem mais perto do O’Hare.

E aqui estou. (A TAM aproveitou para cobrar uma pequena fortuna pela remarcação do meu voo para o Brasil.)

Duas conclusões: os atendentes dos EUA são péssimos. E ter amigos é um troço muito bom. Especialmente quando estes são como meu querido Omer Mozaffar.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados, Viagens

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