Ela

Sem você, não funciono. Simplesmente não funciono. 

Digo… posso funcionar, mas como um desses computadores velhos que subitamente travam, reiniciam, não entendem comandos, apagam arquivos misteriosamente ou mudam outros de lugar. Por fora, pareço intacto (mesmo que um pouco decadente, reconheço), mas por dentro estou em pedaços.

Você me tornou um ser humano melhor. Você me torna um ser humano melhor. Dizem que por trás de todo grande homem, há uma grande mulher – e se não sou um grande homem, a culpa certamente não é sua, pois eu sei como você tenta. 

Você é mais do que minha namorada; é minha companheira e minha salvadora.

E quando digo “salvadora”, digo literalmente: você salvou a minha vida. Uma vez, literalmente; em inúmeras outras, metaforicamente. 

Quando nos conhecemos, eu era um tolo imaturo. Com temperamente explosivo, me metia em confusões e até mesmo brigas com direitos a socos e pontapés. Depois me envergonhava, mas no calor do momento não conseguia me controlar. Infelizmente, você teve que testemunhar alguns destes incidentes lamentáveis, mas, em vez de desistir daquele imbecil que a constrangia em público, decidiu que conseguiria levá-lo a agir com bom senso e equilíbrio. E conseguiu. Posso não ser hoje o mais calmo dos homens, mas há anos e anos e anos não me permito agir como um animal. Se percebo que estou perdendo o controle, me afasto. Covardia é ceder ao impulso de ser subhumano.

Quando me conheceu, há 14 anos, eu havia permitido que meu primeiro cartão de crédito, oferecido por uma bandeira que buscava seduzir universitários, me endividasse. Sem entender que o “pagamento mínimo” não era um passe para comprar sem poder pagar, permiti que os valores se acumulassem e vi meu nome se tornar “sujo” na praça. Com paciência, você me guiou pelos meandros burocráticos do banco, me ajudou a renegociar a dívida e a me livrar do débito. Nunca mais me permiti efetuar o “pagamento mínimo” ou contrair dívidas que não poderia quitar com facilidade.

Quando nos casamos, tínhamos a cama, um sofá, duas poltronas, a geladeira, o fogão e uma tevê de 20 polegadas. Comíamos no chão da cozinha e usávamos lençóis como cortinas. Tivemos que vender o carro para nos mantermos no azul – o mesmo carro que você comprara com o fruto do seu trabalho antes de nos casarmos.

Quando decidi largar a Medicina para investir em um site na internet, algo impensável naqueles tempos, você me apoiou sem hesitar. Apostou em mim; confiou no que eu poderia conquistar.

Quando percebemos que nossas finanças estavam equilibradas, dois anos após nos casarmos, planejamos e fizemos nosso lindo Luca. O site continuou a crescer, passei a escrever e apresentar um programa de tevê e a vida parecia se encaminhar. Quando vovó morreu sob um ônibus, perto do Natal que tanto amava, você me segurou quando saí do IML após reconhecer o corpo demolido de minha amada avó. E me ajudou com os preparativos do funeral e do enterro, já que eu não podia deixar isso a cargo de minha pobre mãe, tão abatida e triste. E na noite seguinte ao enterro, quando finalmente acusei o golpe e o peso das últimas 48 horas, desmaiando subitamente, foi seu rosto que vi ao despertar.

18 meses depois, fui eu quem quase parti.

Subitamente, eu estava entre a vida e a morte, os médicos não sabiam exatamente o que dera errado na primeira cirurgia de emergência que eu fizera e percebi que estava morrendo. Meu corpo não respondia, eu não conseguia andar, o pensamento se nublava e o frio me abraçava. Na UTI, suas visitas me mantinham esperançoso na cura. Durante 30 dias, permanecemos no hospital e você, ao lado do melhor dos cirurgiões (Dr. Gustavo Abras), salvou minha vida. Assistia ao meu sono, controlava minha medicação, me banhava, me dava carinho e palavras de amor e força. Já em casa, trocava meus curativos sem hesitar – justo você, que quando ainda namorávamos, chegou a desmaiar quando fui mordido por um cão e lhe mostrei minha mão ensanguentada.

Seis meses depois, quando tive que me submeter a outra cirurgia, você novamente ficou ao meu lado do princípio ao fim – e novamente foi mais que uma companheira, mas uma enfermeira dedicada.

Pouco depois, planejamos e fizemos nossa linda Nina.

As coisas começaram a melhorar. Construímos uma bela família, minha carreira entrou numa bela fase e…

… novamente minha imaturidade voltou a nos sabotar. Passei a me sentir inquieto e me distanciei. Muito. No último ano, com mais intensidade; estávamos em lugares diferentes: você, no delicioso lar que construíramos juntos; eu, perdido em incertezas, buscas fúteis e becos sem saída.

E a palavra “divórcio” surgiu em nossas vidas. 

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Você sempre prezou a privacidade. Ironicamente, casou-se com alguém que parece sentir compulsão em expor pensamentos, ideologias, sentimentos e momentos particulares através de todo tipo de texto: críticas, posts de blog, roteiros, contos e tweets. 

Entendo, portanto, porque em certo ponto me proibiu de citar seu nome em meus textos ou de dividir sua vida com meus leitores. Por outro lado, admiro a compreensão por permitir que ao menos os casos de nossos pequenos aqui fossem narrados.

Mas o fato é que você é parte fundamental de minha vida e sua ausência em meu contexto virtual me deixou confuso com relação às nossas circunstâncias. Confusão parece um padrão em minha trajetória de amadurecimento.

Seja como for, você novamente se manteve forte, mesmo quando nos afastamos, e continuou a me tratar com carinho, amor, respeito… e esperança. Esperança de que aquele moleque tolo com o qual se casara entenderia um dia a beleza do que havia construído ao seu lado. E aos poucos, especialmente nos últimos dois meses, comecei a entender.

Ah, eu aprendo devagar, às vezes. Mas quando capturo o sentido de algo, você bem sabe, torno-me obstinado como poucos. Teimoso como uma mula, diria meu velho e querido avô Tatão, dedico-me àquilo como se não houvesse outra preocupação em mente. Torno-me mesmo obsessivo.

E minha obsessão, bela moça, passou a ser certificar-me de que não perderia você. Não posso. Ninguém me faz tão bem, ninguém me estimula a ser um homem melhor como você faz. Deixá-la orgulhosa de mim sempre foi um imenso fator motivador – e quando eu encontro-me fraco, inseguro, amedrontado, ninguém consegue me acalmar e me ajuda a recuperar meu centro como você.

Como se não bastasse, nunca tive uma namorada capaz de me fazer gargalhar com tanta facilidade. E o fato de ser tão inteligente apenas a torna ainda mais engraçada quando deseja sê-lo.

Como mãe, não posso imaginar alguém melhor para meus filhos: carinhosa, atenciosa, dedicada, sempre presente, mas também firme (sem exageros) quando necessário. É o centro de nossa família e também sua bússola moral. 

E… como é bela. Lembro-me ainda hoje da primeira vez que a vi, quando era produtora de uma peça para a qual eu fôra convidado, e me recebeu na bilheteria. Lembro-me de pensar: “uau”. Lembro-me de desejar estar ao seu lado, de beijá-la, de tê-la em minha vida. Lembro-me de como meu coração disparou alucinadamente quando a convidei para jantar – e de como fiquei feliz quando aceitou. Ainda hoje, 14 anos depois, olho para você e me encanto.

O que me traz a esta longa viagem na qual me encontro. Há duas semanas fora do Brasil, percebi o óbvio: ao ligar para casa diariamente para falar com as crianças, era sua voz que me fazia sorrir em primeiro lugar. Eram suas inflexões, sua doçura, seu carinho e seu senso de humor que me deixavam com saudades de casa. De nossa casa.

Construímos mais do que um lar nos últimos 14 anos (12 de casados); construímos memórias. Boas e más, alegres e tristes, mas memórias. 

E se você já se sentiu incomodada por este longo post, que expõe justamente a privacidade que tanto preza, certamente ficará ainda mais enlouquecida ao ver sua foto logo abaixo. No entanto, depois de ouvir tantos leitores perguntando por que “nunca menciono minha esposa”, depois de quase perdê-la, depois de ser tão tolo e irritantemente imaturo, acho que chegou a hora de bradar, orgulhoso, minha maior conquista: você, Ioná. Você.

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina, Variados

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