Prisioneiro de quem sou

Não sou perfeito. 

Ninguém é, claro. Porém, às vezes, penso que sou menos ainda. 

Ah, sim, sou arrogante. Egocêntrico. Teimoso como uma mula. Não há semana em que não leia uma acusação destas via Twitter ou Facebook. O que os “acusadores” talvez não saibam é que eu sei de tudo isso. E não posso dizer que me penitencio ou lamento assim ser. Em alguns momentos, rio destas características; considero-as idiossincrasias divertidas. Todos têm as suas; a minha é julgar-me… bom no que faço. Muito bom. Se não acreditasse nisso, não teria coragem de continuar. Meu trabalho é público; não trabalho num escritório ou numa empresa na qual meus erros e acertos são vistos e avaliados apenas por meus superiores diretos. Tudo o que escrevo é imediatamente visto, avaliado, celebrado ou condenado por um número considerável de pessoas. E eu não suportaria a pressão de produzir cada texto se não acreditasse com toda a força estar fazendo algo digno de ser consumido.

Não considero a humildade uma virtude. Não a humildade profissional, daquele tipo que alguns exigem ver nos demais. A humildade que rebaixa todos ao mesmo nível do “sua opinião é tão válida quanto a minha”. Sinto muito, mas não é. Acreditar que toda opinião é igual é reduto escapista dos medíocres. A validade de uma opinião depende do argumento que a embasa. Não escrevo um texto de mil palavras para que um tweet do tipo “você é ridículo” me faça acreditar que tudo o que argumentei de nada valeu. Se você discorda de mim, terá que fazer melhor do que isso; terá que apresentar argumentos.

E, acredite, ficarei feliz em encontrar contrapontos válidos. Acredito que a crítica – qualquer exercício intelectual e artístico, na realidade – existe como iniciadora de debates, de discussões. Crescemos todos com o debate. Não é à toa que leio sempre o que Armond White escreve: detesto suas posições, considero-o um cretino, mas trata-se obviamente de um homem inteligente que simplesmente decidiu usar a crítica como arma de trollagem. No entanto, mesmo discordando de praticamente tudo que ele escreve, sigo lendo por saber que ele me oferecerá argumentos que, ainda que absurdos, jamais me ocorreriam justamente por sermos tão diferentes. Ao lê-lo, aprecio o prazer de ver um ponto de vista diametralmente oposto ao meu e que, assim sendo, me desafia. 

E querem saber? Isto, para mim, é ser “humilde”. Não a humildade hipócrita, reducionista e adolescente daqueles que querem trazer todos ao seu nível, mas sim aquela que percebe a beleza do debate; de ver alguém inteligente ao menos tentando demolir seus argumentos com contrapontos calculados, pensados, pesados e bem articulados.

Nos últimos dias, ouvi de três leitores a frase “você é uma decepção como pessoa”. Lamento que pensem assim, mas não posso e nem quero controlar a percepção que os outros têm de mim. Ninguém é bonito visto de perto (Julie Delpy, talvez); quanto mais conhecemos alguém, mais somos capazes de identificar suas falhas. Esta é a grande vantagem e, ao mesmo tempo, desvantagem das redes sociais: antes, nossos ídolos (ou, no mínimo, aqueles cujos trabalhos acompanhávamos) estavam fora de nosso alcance. Eram entidades longínquas, etéreas, que, filtradas pela distância, chegavam até nossos olhos e ouvidos como aparições profissionais irretocáveis – e mesmo nossas discordâncias ficam apenas neste nível: o profissional.

Hoje, porém, lemos os erros ortográficos e gramaticais dos atores que admiramos e percebemos que não são muito diferentes, neste aspecto, daquele primo ignorante que mal parece capaz de assinar o próprio nome. Lemos o feed de um pensador que amávamos e, lá pelas tantas, este solta um comentário preconceituoso que desfaz a imagem que dele tínhamos.

Não, meus amigos, não sou perfeito. Nem de perto.

Sou arrogante. Tenho orgulho de meu intelecto, de minha cultura e do que escrevo. Sou vaidoso – não em relação à minha aparência física, já que nunca fui um modelo, mas do que conquistei profissionalmente ao longo dos anos. Tenho orgulho de ter vocês como leitores. Ou ao menos da maioria de vocês. E me irrito facilmente diante de argumentos medíocres quando talvez soasse mais simpático manifestar paciência mesmo ao ler bobagens dignas de um indigente intelectual. Explodo, reajo, abuso do sarcasmo e mesmo da agressividade pontual. Sou excessivamente assertivo.

Há dias em que nem eu mesmo me suporto. Mesmo. Dias nos quais gostaria de ser capaz de dissociar-me de mim mesmo, de tirar férias da minha personalidade. De ser meu primo Pedro, tão risonho e alegre; ou meu irmão Daniel, tão sereno e maduro.

Mas não posso. Ao mesmo tempo em que exibo o já notório orgulho recheado de arrogância, tenho também que viver preso a mim mesmo. Em mim mesmo.

Claro, tenho também virtudes. Mas deixarei estas para algum outro dia. Por enquanto, queria dizer para todos que me detestam ou nutrem antipatia por mim que…

… eu sei.

postado em by Pablo Villaça em Variados

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