Conversão para 3D: a nova colorização

Não, não assisti a Star Wars: A Ameaça Fantasma em 3D e não pretendo fazê-lo. Em primeiro lugar, já não gosto tanto assim do filme para justificar uma revisita; em segundo, não vejo sentido em voltar ao cinema para assistir a uma versão inferior à original em técnica e linguagem.

Sim, “inferior”. Assim como as versões colorizadas de obras em preto-e-branco representavam um atentado artístico ao alterarem a fotografia cuidadosamente planejada dos originais, a conversão de longas tradicionais para o 3D é uma estupidez do ponto de vista artístico, fazendo sentido em apenas um aspecto: o financeiro. E este, claro, interessa exclusivamente aos estúdios. O fato é que o Cinema, ao longo de mais de cem anos, encontrou maneiras próprias de levar o espectador a perceber a profundidade de seus universos mesmo estando preso à bidimensionalidade: não apenas empregou o conceito de “perspectiva” desenvolvido pelos artistas plásticos da Renascença como ainda desenvolveu formas de empregar a profundidade de campo para evocar a distância entre os elementos em cena – e discuto isso amplamente em meu curso. Assim, quando um filme concebido em 2D é convertido para 3D, todas estas decisões artísticas e técnicas tomadas durante sua realização se convertem instantaneamente de algo orgânico e funcional para um obstáculo a ser contornado. É como se os cineastas estivessem lutando contra si mesmos e contra o próprio filme enquanto tentam enfiar na obra pronta um recurso que simplesmente não tem espaço ali.

Assim, é espantosa, a hipocrisia de James Cameron: depois de atacar vários cineastas por converterem seus filmes para 3D, dizendo que estavam matando a tecnologia em seu berço, o cineasta não hesitou em converter seu próprio Titanic, como se subitamente suas críticas (relevantes, vale apontar) não se aplicassem às suas próprias ações.

Mas aqui prefiro abrir espaço para meu amigo e mentor Roger Ebert, que, num post recente sobre o relançamento de Titanic, concluiu o texto com as seguintes observações:

“E agora à falha final: o processo 3D, claro. Cameron foi elogiado justamente por ser um dos poucos diretores a empregar o 3D de maneira eficiente em Avatar, mas Titanic não foi rodado para o 3D – e assim como você não consegue maquiar um porco, não pode transformar 2D em 3D. O que você pode fazer – e ele tenta fazer isso bem – é encontrar certas cenas que possa apresentar como tendo pontos de foco em primeiro, segundo e terceiro planos. Mas e daí? Você sentiu falta de alguma dimensão quando assistiu a Titanic pela primeira vez? Não importa quanto tempo ou dinheiro Cameron gastou na conversão, o fato é que esta é um 2D readaptado. Caso encerrado.

Ou não exatamente. Há mais do que isso. O 3D causa uma perda considerável no brilho da tela – alguns dizem que esta perda chega a 20%. Se você visse um filme comum obscurecido desta maneira, reclamaria com o gerente do cinema. E aqui você supostamente deve se sentir agradecido por ter a oportunidade de pagar mais por algo danificado. Se estiver atento, aliás, perceberá que muitos planos e sequências nesta versão não estão sequer em 3D, permanecendo em 2D. Se tirar os óculos, as imagens saltarão da tela com uma melhora dramática de luz. 

Eu sei por que este filme está em 3D: é para justificar o ingresso mais caro. Péssima maneira de se tratar uma obra-prima”.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões

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