A situação na Bahia

A greve faz parte das ferramentas democráticas de pressão trabalhista. É um recurso extremo, claro, mas legítimo. E também é fato que os policiais brasileiros historicamente recebem mal em uma profissão que exige muito – e mesmo que estejamos falando de uma categoria imprescindível para o bom funcionamento da sociedade, negar a eles o direito de greve é absurdo. O ideal, obviamente, é que um acordo seja alcançado através de negociações, mas impedi-los de usar um recurso tradicional do sindicalismo mundial seria inaceitável.

Dito isso, não se faz greve com armas na mão. Da mesma maneira que os PMs têm o direito de greve, têm também que seguir as regras que valem para todos – e qualquer grevista que disparasse tiros para o alto seria imediatamente preso.

Não é possível exigir que o governador da Bahia, petista ou não, negocie com manifestantes armados. E é preciso, também, avaliar o histórico do movimento dos PMs para entender o que está acontecendo agora no estado governado por Jacques Wagner: há um movimento nacional dos PMs para equiparar os salários em todo o país àqueles praticados em Brasília (a PEC 300). A Bahia não foi o primeiro palco de manifestações neste sentido – e todos os envolvidos nos procedimentos sabem que o Rio de Janeiro provavelmente será o alvo seguinte dos manifestantes. Mais do que isso: bombeiros e outros integrantes da PM de outros estados já foram identificados nas manifestações na Bahia, o que comprova a ideia de um movimento conjunto amplo e ambicioso. Isto não é problema – quanto mais organizada for uma classe, melhor.

O problema é a maneira como a greve foi iniciada e conduzida.

A associação comandada por Marco Prisco (ASPRA) não é a única representação dos militares – e possivelmente nem mesmo a mais significativa. Além disso, Prisco tem um histórico de confusões, não sendo acaso o fato de ter sido expulso da PM em 2001, entrando com processo para ser reincorporado (algo que, salvo engano, continua em andamento). Para piorar, há fortes indícios de que Prisco esteja usando a causa dos militares com propósitos partidários (ele é filiado, vejam bem, ao PSDB) – e estes indícios estão diretamente relacionados à maneira com que a greve foi iniciada: na última terça-feira, os representantes da ASPRA foram à governadoria e apresentaram oficialmente sua pauta de reinvidicações para a classe. Ótimo. A etapa seguinte seria a abertura de negociações sob a ameaça de uma greve caso as exigências não fossem atendidas.

No entanto, assim que saíram da governadoria, os representantes foram para a Assembleia Legislativa e a ocuparam.

Opa, há algo errado aí, não? Como é possível que a associação apresente suas reinvidicações num instante para, no minuto seguinte, iniciar uma greve com direito à ocupação de um prédio público? Onde está o tempo para que o governo avalie o que foi exigido e negocie com a classe? E como um movimento pode iniciar suas ações já ocupando um prédio público, sem qualquer tipo de ação prévia?

Para piorar, os ocupantes encontravam-se armados, o que é impensável e inaceitável. 

E foi aí que começaram ações aparentemente aleatórias de terror público: homens encapuzados invadindo e tomando ônibus para atravessá-los em via pública e disparando tiros contra vidraças de bancos e lojas.

Que assaltante ou bandido faz isso? Como pode ser que mercadinhos no subúrbio sejam incendiados (sempre por homens encapuzados) e nada seja roubado? Sim, há muitos indícios de que elementos ligados à manifestação sejam os responsáveis por estas ações – evidências tão fortes, aliás, que o governo decretou a prisão de 12 destes indíviduos. 

E agora Prisco e seus seguidores exigem a anistia destes homens (e não à toa, já que o próprio Prisco é um dos que tiveram sua prisão preventiva declarada). Mas como um governador poderia: 1) negociar com grevistas armados e 2) anistiar homens que atiraram em vidraça de banco? Só o precedente que seria aberto já comprometeria qualquer negociação durante os próximos cem anos.

Não é à toa, aliás, que a maioria dos policiais militares baianos não aderiu ao movimento. E tampouco é acaso que o governo federal tenha se envolvido imediatamente a pedido de Wagner – se as estratégias criminosas de Prisco funcionarem na Bahia serão exportadas para todo o país (e não se iludam quanto a isso), a começar pelo Rio de Janeiro. 

Não há como justificar um movimento que usa crianças como escudo humano, dispara tiros para o alto durante ato de greve e que tem como cabeça um indivíduo politicamente motivado e que não hesita em ameaçar o terror em interesse próprio.

Vale lembrar, ainda, que as PMs de Jequié e Ilhéus fizeram manifestações recentemente, mas com respeito ao patrimônio público, à ordem e à Lei. O que está acontecendo na Bahia, então, não é indicativo de um comportamento generalizado da corporação, mas de algumas centenas de policiais que parecem seguir cegamente o líder errado. 

Um líder que, com seus 800 companheiros armados, tornou-se o general de um pequeno exército. E não é assim que uma manifestação trabalhista deve funcionar numa democracia moderna como a nossa.

postado em by Pablo Villaça em Política

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