Democracia é mais do que uma simples questão de gosto

Não gosto de Rafinha Bastos. Não como pessoa, pois não o conheço (embora, pelo estilo de suas piadas, tampouco queira conhecer), mas como humorista. Considero-o dono de um humor óbvio, juvenil (no pior sentido) e que aposta no simples choque para provocar o riso – e escrevi sobre isso há algum tempo neste post. Assim, vê-lo sem espaço na televisão, confesso, me agradou. Não por um sentimento cínico de “revanche”, mas porque é sempre bom ver alguém medíocre perdendo espaço na mídia (e agora resta apenas torcer pelo fim do Zorra Total, do BBB, do… desisto.)

Hoje, porém, li a notícia de que o novo DVD do comediante havia sido “proibido pela Justiça de São Paulo”. O motivo: piadas (ou, conhecendo Bastos, “piadas”) feitas sobre deficientes físicos e mentais.

Em primeiro lugar, não é surpresa que estes sejam os alvos do “humorista”: Rafinha Bastos notoriamente prefere ridicularizar alvos fáceis. Como se não bastasse, suas tiradas frequentemente confundem ofensa e humor, já que ele parece acreditar que ser “politicamente incorreto” é o bastante para ser relevante e inteligente. Não é; o que importa é como você expressa esta natureza “politicamente incorreta”. 

Mas o objetivo aqui não é analisar as razões por trás da mediocridade de Bastos, mas a proibição da venda de seus DVDs. Pois, gostando ou não do comediante (não), simplesmente não posso aprovar uma medida dessas. Ninguém deveria.

Iniciada pelo secretário municipal Marco Belizário, responsável por uma pasta que pretende defender os interesses dos deficientes, a ação confunde responsabilidade legal e censura. Na primeira, qualquer um deve ser responsabilizado pelas besteiras que diz ou faz, sendo passível de consequências legais; na segunda, um grupo reduzido de pessoas define o que é aceitável ou não para toda a sociedade e interfere com a postura arrogante de impedir que julguemos por nós mesmos.

De acordo com Belizário, “humor tem que ter limite; não pode ser uma coisa nojenta”.

Ok, duas considerações, cara-pálida:

1) Quem define estes limites? Quais são os critérios objetivos para traçá-los? Porque o humor frequentemente tende a ser julgado segundo o gosto pessoal – e o que é inaceitável ou “sem graça” para um, não é para outro. Sim, há declarações (ou piadas) que se encaixam na definição de difamação e/ou injúria, mas a lei já cobre estes casos, prevendo punições. Como, então, defender que alguém avalie previamente algum material, julgando se ele deve ou não ser exposto para o público em geral? Aliás, sabe a frase anterior, sr. Belizário? Pois é, ela poderia ser a definição de “censura”.

2) É claro que o humor pode ser “uma coisa nojenta”. Não vou nem entrar na discussão sobre o que é “nojento” ou não, já que (novamente) isto seria algo absolutamente subjetivo, mas mesmo algo reconhecidamente nojento pode, claro, representar um válido esforço humorístico. Há quem consideraria o nascimento de Macunaíma uma cena “nojenta”, mas poucos negariam se tratar de algo genial – e se definirmos que o humor “nojento” merece ser proibido, não demorará muito até que Quem Vai Ficar com Mary? seja retirado das lojas em todo o Brasil, já que ver Cameron Diaz usando um gel de esperma não é visão das mais agradáveis (embora, novamente, seja algo hilário).

A decisão da justiça de São Paulo (“justiça” com minúsculas) casa-se com aquela do Rio sobre Um Filme Sérvio: juntas, formam não só precedentes perigosíssimos, mas – o pior – começam a estabelecer um padrão. E isto, sinceramente, me apavora: estamos em 2012 e dois produtos culturais (ambos de qualidade no mínimo questionável, mas isto não importa) foram proibidos por uns poucos de chegarem ao alcance de muitos a partir da alegação de que são “ofensivos”. 

Mas a Justiça (agora, sim, com maiúsculas) não serve para isso? Para punir excessos? Rafinha Bastos não foi processado por Wanessa Camargo por ofendê-la em rede nacional e perdeu? Maravilha: justiça feita. Falou uma imbecilidade e foi punido por isto. Ninguém o censurou; ninguém exigiu que a piada fosse retirada de onde quer que seja – e se Bastos foi demitido da Band, isto é simplesmente a atitude de uma empresa procurando defender os próprios interesses. 

O que ocorreu agora, porém, é completamente diferente: se você quiser ouvir as piadas de Bastos, não conseguirá (ao menos, não legalmente). Vivemos numa sociedade democrática que, depois do período sombrio da Ditadura, aprendeu a defender a liberdade de expressão – e não há “limites” para a “liberdade de expressão”, sr. Belizário, pois isto seria um paradoxo legal. O que há, repito, é a possibilidade de punir excessos, o que é completamente diferente de impedir a expressão.

Não, Rafinha Bastos não torna fácil a tarefa de defendê-lo. É arrogante, tolo e reage como um adolescente ao comentar o caso – e tampouco foi fácil defender o péssimo Um Filme Sérvio, mas não acredito que meu dever, como cidadão, seja defender apenas aquilo que aprovo e condenar o que desprezo. Ser cidadão é abraçar uma sociedade livre na qual meus fihos possam crescer certos de que têm responsabilidade sobre o que dizem, mas também liberdade para se manifestar. E me choca terrivelmente ver colunistas e blogueiros liberais, sempre dispostos a defender boas causas, celebrando a censura a Rafinha Bastos apenas porque o sujeito é um babaca. 

Não se iludam: o que aconteceu hoje, meus amigos, não é motivo de riso para absolutamente ninguém.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Política

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