Um veterano

Eu me lembro de quando comecei a escrever sobre cinema. Estávamos em 1994 e, depois de assistir a Instinto Selvagem, senti o impulso de tentar discutir os temas do filme (sexualidade, força feminina, misoginia, o sexo exposto de Sharon Stone) em um breve texto para consumo próprio. Na realidade, eu já devorava textos sobre linguagem e teoria cinematográficas desde os 14 anos, mas jamais pensara em transformar aquela paixão em profissão – e desde que vira Tempo de Despertar eu tinha a mais plena convicção de que meu futuro residia na Medicina, que eu finalmente começara a cursar no ano em que me aventurei a escrever sobre o filme de Paul Verhoeven.

Infelizmente, não me ocorreu guardar aquele primeiro exercício – e tantos outros que se seguiram. Alguns meses depois, porém, comecei a escrever pequenas resenhas (sim, “resenhas”; eu não me atreveria a chamar aquelas tentativas de “críticas”) para praticamente todos os BBS (Bulletin Board System – a pré-Internet no Brasil) de Belo Horizonte, atribuindo cotações para todos os lançamentos da semana. Sem perceber, eu havia dado meus primeiros passos na carreira que, 18 anos depois, se transformaria em meu meio de vida e que me levaria a fundar o Cinema em Cena três anos depois, em 1997.

Foi um período de incertezas: há um futuro no que faço? Conseguirei viver disso, manter meus filhos (que ainda não existem)? Eu tenho algo a acrescentar neste campo? Devo largar a Medicina a dois anos e meio da formatura e me dedicar ao Cinema? É prudente? É viável? É sensato?

Tropeços, inseguranças e conflitos internos se seguiram, mas de alguma forma as coisas pareceram se ajustar – elas sempre se ajustam. O curioso é que, embora tenha percorrido todo este caminho, não percebi de fato a distância coberta pelo tempo. Mas ontem, subitamente, aconteceu algo que me fez parar, olhar para trás e perceber, chocado, como já não conseguia enxergar o ponto de partida. Eu tinha a impressão de ter iniciado a corrida há alguns dias, mas quase duas décadas se passaram.

O “algo” foi esta matéria que, publicada no jornal O Estado de Minas neste domingo, me pegou completamente de surpresa.

Minha primeira reação foi de alegria, obviamente. Ser chamado de “unanimidade” e saber que inspirei de certa forma uma nova geração de cinéfilos é algo que me deixa feliz e orgulhoso. E esta alegria, claro, se mantém.

Porém, como dono de uma natureza melancólica, logo passei a refletir sobre a passagem do tempo: ontem eu iniciava no caminho da crítica; hoje sou visto como um veterano pelas novas gerações. Quando isso aconteceu? Sim, eu já havia percebido uma certa mudança de “status” na simples reação provocada por meus textos: antigamente, praticamente tudo o que eu publicava alcançava uma reação calorosa – eu era uma “nova voz”, representava algo novo. Com os anos, surgiram detratores e aquilo que chamo de “anti-fãs”: pessoas que parecem me odiar e desprezam tudo o que escrevo, mas que ainda assim parecem ler todas as palavras que publico apenas para poderem manifestar seu desgosto. Foi quando percebi que já não era mais uma “novidade”: quando além de comentários negativos construtivos, que querem acrescentar algo à discussão, surgiram também aqueles que querem apenas ofender, ferir, alfinetar.

Mas este artigo… não sei. De certa forma, virou uma chave em minha mente. Percebi, por exemplo, que minha reação às provocações e ofensas era fruto não do orgulho ferido ou mesmo de raiva, mas do contraste entre o feedback que recebia na juventude da carreira e o que surge em sua maturidade. E subitamente me vi capaz de fazer algo que sempre invejei em outros: ler um tweet ou uma mensagem ofensiva, de provocação, e rir. Não de escárnio ou por desprezar o autor, mas por achar genuinamente divertido ver tanta raiva brotando de alguém que nem me conhece e que decidiu que me detesta porque… porque… não gostei de algum filme que ele(a) curtiu.

E só por isto eu já sou eternamente grato ao artigo publicado neste domingo e também aos jovens blogueiros que me citaram com tamanha generosidade. 

O que eu precisava perceber é que envelheci e que a percepção de quem me lê mudou comigo. Parece óbvio, eu sei, mas enxergar-se nem sempre é fácil como acreditamos.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano

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