Festival do Rio Dia #01

Abraços ao leitor Ricardo, que, antes da sessão de Mapa para as Estrelas, gentilmente veio desejar boa sorte ao Cinema em Cena. (Ei, quer ajudar a manter o site vivo? Quer? Legal! Então clique aqui!)

Vamos aos filmes:

1) Maria e o Homem-Aranha (María y el Araña, Argentina, 2013). Dirigido por María Victoria Menis. Roteiro de María Victoria Menis e Alejandro Fernández Murriay. Com: Florencia Salas, Diego Vegezzi, Mirella Pascual, Luciano Suardi.

Logo no início de Maria e o Homem-Aranha, encontramos a personagem-título acompanhando brincadeiras e danças infantis de um grupo de amigos em um terreno baldio que sugere um ar quase bucólico em seus verdes e no lago que se encontra próximo – e, então, a diretora María Victoria Menis e o montador Alejandro Brodersohn cortam subitamente para os colossais arranha-céus que podem ser vistos no horizonte e percebemos que, em vez de um tom bucólico, aquela paisagem revela uma prisão social: estamos na periferia de Buenos Aires e aqueles adolescentes são vítimas das desigualdades econômicas de um país de terceiro mundo.

No entanto, a questão social representa apenas a superfície do roteiro co-escrito por Menis e Alejandro Fernández Murriay: Maria (Salas) não é só uma adolescente com profundas carências financeiras; é, antes de tudo, uma jovem com carência afetiva. Abandonada pela mãe e vivendo com a avó (Pascual) e Garrido (Suardi), o namorado desta, a garota é uma estudante boa o suficiente para merecer uma bolsa integral em um colégio da região, mas também triste a ponto de preocupar a professora que tanto a admira. Aos poucos, percebemos que esta retração deve-se não a uma timidez natural, mas a traumas constantes: Maria vem sofrendo abusos sexuais por parte de Garrido. É então que a menina conhece um rapaz (Vegezzi) que, vestindo-se de Homem-Aranha, faz malabarismos no metrô da cidade em busca de alguns trocados com os quais possa cuidar do pai doente.

Embora a personagem tenha 14 anos de idade, aliás, não é à toa que usei a palavra “menina” para descrevê-la no parágrafo anterior: ainda que já adolescente, Florencia Salas encarna Maria como uma criança cujo corpo se desenvolveu quase como se para contrariar sua dona. Introspectiva e emitindo meia dúzia de palavras ao longo de toda a projeção, Maria é uma garota cuja imensa tristeza se torna ainda mais tocante quando contraposta aos poucos momentos nos quais ela sorri – e seu sorriso é algo que precisa ser visto para ser apreciado, sendo um daqueles exemplares que levam a pessoa a fechar os olhos quase completamente e a mostrar todos os dentes, contagiando qualquer um que esteja nas proximidades. Por outro lado, o “Homem-Aranha” é um jovem de expressão sempre fechada, como se estivesse sempre ansioso para provocar uma briga na qual pudesse socar alguém que, naquele momento, representaria todas as suas frustrações diante do universo – e é quando conhece Maria que ele troca esta postura por um sorriso discreto, mas que, em sua natureza, parece surgir em seu rosto por vontade própria, como se o garoto fosse incapaz de impedi-lo.

Estas performances sutis e delicadas, vale apontar, são resultado também da sensibilidade da cineasta Maria Victoria Menis, que também é hábil ao retratar os abusos sofridos por Maria de maneira sutil, mas impactante: ao vermos a sombra de seu estuprador projetada sobre a menina, que se encolhe na cama à espera do ataque, enxergarmos mais do que um pervertido, mas um monstro – numa ideia que é ressaltada pelo plano excepcional no qual este, usando óculos de festa que trazem pequenas lanternas nas laterais, surge quase como um alienígena hostil em busca de sua presa. Assim, quando contrapomos esta figura grotesca ao cantinho humilde que a menina chama de quarto, com seus desenhos infantis espalhados nas paredes sobre a cama, a natureza vil daquele crime se apresenta ainda mais chocante embora nada gráfico seja mostrado pela diretora.

Da mesma maneira, o romance entre o casal principal é enfocado com delicadeza por Menis, que é inteligente também ao trazer os jovens numa cena delicada no metrô no qual praticamente trabalham enquanto, ao fundo, ouvimos uma trilha romântica que eventualmente se revela diegética, já que está saindo da pequena viola de um companheiro pedinte que toca por moedas.

De modo geral, porém, este é um instante raro de leveza em uma narrativa que na maior parte do tempo surge como um verdadeiro pesadelo e cujos habitantes, por mais frágeis que sejam, podem esperar da vida – no máximo – um mínimo de amor. 4 estrelas em 5

 

2) Sétimo (Séptimo, Argentina, 2013). Dirigido por Patxi Amezcua. Roteiro de Patxi Amezcua e Alejo Flah. Com: Ricardo Darín, Belén Rueda, Osvaldo Santoro, Luis Ziembrowski, Guillermo Arengo, Abel Dolz Doval, Charo Dolz Doval, Jorge D’Elía.

Sétimo é um thriller dinâmico que, mesmo ambientado na maior parte do tempo em um único ambiente (um prédio), é suficientemente ágil para levar o espectador a se envolver na lógica de seus momentos individuais sem ter tempo para refletir exatamente sobre o que está vendo – e é apenas quando a projeção chega ao fim que qualquer breve discussão sobre o filme acaba revelando uma série de furos que tornam a obra frágil em retrospecto, impedindo que se solidifique como uma experiência memorável na mente do público.

Escrito pelo diretor Patxi Amezcua ao lado de Alejo Flah, o roteiro acompanha o bem-sucedido advogado Sebastián (Darín), que se encontra prestes a encerrar um dos maiores casos de sua vida e que traz implicações políticas graves. Enquanto se prepara para ir ao tribunal, ele busca os dois filhos na casa da ex-esposa Delia (Rueda) a fim de levá-los para a escola e, numa brincadeira, permite que as crianças desçam pelas escadas enquanto ele usa o elevador. Ao chegar ao térreo, porém, ele descobre que os filhos desapareceram e, então, inicia uma busca desesperada que envolve diversas possibilidades: teria sido o sequestro uma estratégia dos inimigos de seu cliente? Ou o responsável seria aquele homem estranho do quarto andar? Ou o vizinho, inspetor de polícia, com o qual teve uma discussão durante a reunião de condomínio?

Claro que, pelo número limitado de personagens, não se espera que Sétimo traga uma revelação das mais surpreendentes, mas, na medida do possível, o roteiro provoca boas reviravoltas especialmente ao lidar com as expectativas do público: quando Sebastián vai perceber que aquilo pode ter a ver com seu caso? Será que ele não vai investigar o “Urso” que dividiu com ele o elevador? Ao plantar pistas (falsas e autênticas) e esperar que o espectador perceba-as antes do protagonista, o filme cria um suspense eficaz através de nossa frustração diante das ações pouco focadas do herói.

Não que Sebastián seja estúpido – e Ricardo Darín, um dos mais competentes atores da atualidade, se esforça para retratar a maneira furiosa com que o sujeito tenta desvendar o que aconteceu. Sugerindo uma tensão crescente através da respiração pesada do personagem, Darín encarna Sebastián como um homem ambicioso, mas cujo amor pelos filhos suplanta quaisquer aspirações profissionais, já que não hesita em deixar a audiência de lado quando as crianças somem. Pai carinhoso e claramente ressentido diante do recente divórcio (mesmo que reconheça sua culpa no processo), o advogado é um herói eficaz não só graças à humanidade que Darín confere a ele, mas também à sua complexidade: percebemos que é um homem falho e corrompido, mas jamais questionamos seu amor pela família e os sacrifícios que faz para salvá-la.

Empregando planos frequentemente fechados para sugerir ainda mais uma atmosfera claustrofóbica, o diretor Patxi Amezcua exagera pontualmente no número de travellings em torno do protagonista, que, longe de criarem uma rima visual ou salientarem a já presente claustrofobia, soam apenas como evidência de sua falta de imaginação. Por outro lado, é interessante perceber como o filme aqui e ali parece oferecer pequenos instantes de alívio (como no instante em que Sebastián julga ouvir os filhos no elevador) que, ao serem descartados, ajudam a tornar a atmosfera ainda mais tensa.

Infelizmente, o roteiro, como já dito anteriormente, não sustenta um escrutínio maior – já começando de uma pergunta essencial: e se as crianças não tivessem descido pela escada? Além disso, para um projeto que se propõe a criar um mistério que essencialmente recria a velha proposta do “assassinato no quarto fechado”, a solução apresentada para o desaparecimento das crianças é decepcionante e prosaica demais, mesmo que a narrativa busque oferecer alguma satisfação emocional em seu desfecho (sem, com isso, lidar com todas as consequências que as ações tomadas pelo protagonista ao longo da projeção inevitavelmente trarão).

Ainda assim, Sétimo é eficaz enquanto dura. E traz Ricardo Darín carismático e eficiente como sempre. É o que basta, não? (3 estrelas em 5)

 

3) Quod erat demonstrandum (Idem, Romênia, 2013). Dirigido e roteirizado por Andrei Gruzsniczki. Com: Sorin Leoveanu, Ofelia Popii, Florin Piersic Jr., Dorian Boguta, Virgil Ogasanu, Marc Titieni.

Não é coincidência que Quod erat demonstrandum conte uma história ambientada em 1984. Situada durante o governo do ditador romeno Nicolae  Ceausescu, o filme traz ecos do livro de George Orwell na maneira com que os cidadãos vistos na narrativa são constantemente monitorados pelo Estado e mesmo influenciados para que ajudem a espionar amigos e vizinhos. No processo, o filme escrito e dirigido por Andrei Gruzsniczki se apresenta não só como um retrato de uma época triste da história de seu país, mas como uma reflexão sobre a própria natureza humana.

Acompanhando inicialmente o matemático Sorin Parvu (Leoveanu), que desenvolveu uma solução importante para o teorema de Fermat, o roteiro ilustra sua frustração por não conseguir ser publicado em nenhuma revista importante, já que não é filiado ao partido que rege o país, tornando-se um indivíduo naturalmente “suspeito” em função disso. Determinado a publicar seus achados em algum país estrangeiro, ele passa a ser monitorado pelo órgão de Inteligência do país e por um de seus principais agentes, Voican (Piersic) – que, ao seu próprio modo, encontra-se frustrado por não conseguir subir na carreira também graças a questões políticas. Para provar que Sorin é um traidor em potencial, Voican tenta manipular a amiga deste, Elena (Popii), que quer conseguir um passaporte a fim de se reunir ao marido, que se exilou na França ao participar de um congresso.

Elegante na construção de sua narrativa ao estabelecer paralelos frequentes entre os personagens que criam uma simetria que faz eco à própria formulação matemática de Sorin, Quod erat demonstrandum ainda é beneficiado pela ótima fotografia em preto-e-branco de Vivi Dragan Vasile, que não só ressalta a recriação de época como ainda mergulha a narrativa em um clima naturalmente opressivo e melancólico. Fugindo do estilo que se tornou habitual no Novo Cinema Romeno, o diretor Andrei Gruzsniczki, por sua vez, não adota os longos planos estáticos que caracterizam a produção recente do país, optando, em vez disso, por movimentos mais fluidos e cortes (relativamente) mais frequentes (o “relativamente”, claro, se deve ao fato de que, mesmo com mais cortes, o filme jamais se aproxima da média de duração dos planos da maior parte do Cinema ocidental). Por outro lado, a essência do Novo Cinema Romenos se mantém aqui, já que a obra constantemente usa ações prosaicas de seus personagens para ilustrar suas personalidades – seja um avô colocando pilhas no rádio, um garoto que coleciona pedras ou uma mulher que usa produtos racionados para presentear os amigos.

Aliás, a recriação de época feita pelo designer de produção Christian Niculescu é fantástica ao trazer os ambientes diminutos habitados por aqueles indivíduos e ao ressaltar a realidade opressiva que habitam através de seus lares entristecidos e com poucos elementos decorativos. Da mesma maneira, ver Sorin empurrando o carro em uma longa fila para abastecê-lo revela muito mais sobre as falhas de um governo supostamente preocupado com o coletivo do que poderíamos apreender através de longos diálogos expositivos.

Vale apontar, neste sentido, que uma das principais virtudes de Quod erat demonstrandum reside em sua habilidade ao expressar visualmente ideias complexas – e quando vemos Sorin encarregado de tirar uma foto de um grupo de pessoas que celebram um batizado, percebemos como o pobre sujeito vive uma existência de exclusão em função até mesmo de sua própria introspecção, já que quem tira o retrato é, por definição, excluído da lembrança que este passa a representar. Além disso, é interessante observar como Voican frequentemente pede que seus contrariados informantes assinem um pequeno documento (“É só uma formalidade”) que, de maneira sutil, oficializa suas traições, tornando-os colaboradores antes mesmo que se deem conta disso.

Em última análise, porém, a força deste desgastante filme é mesmo sua capacidade de escancarar a maior das contradições de um regime totalitarista como o de Ceausescu: aquela que, supostamente em nome de um governo que procura valorizar o coletivo, acaba por inspirar um profundo individualismo em cada um de seus sufocados cidadãos. (4 estrelas em 5)

 

4) Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá/EUA, 2014). Dirigido por David Cronenberg. Com: Bruce Wagner. Com: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher.

Em uma carreira repleta de personagens e momentos repugnantes, o cineasta canadense David Cronenberg talvez tenha concebido, neste Mapa para as Estrelas, uma galeria povoada por algumas de suas criações mais repulsivas. No entanto, em vez de um homem cujo DNA se mistura ao de uma mosca ou de um indivíduo cuja cabeça explode subitamente, o filme se concentra em figuras que, se julgarmos por todos os livros e relatos jornalísticos sobre a comunidade cinematográfica de Los Angeles, são essencialmente reais: os astros e estrelas de Hollywood.

Roteirizado por Bruce Wagner, que de certa forma construiu toda uma carreira (medíocre) a partir da desconstrução da “meca do Cinema”, o filme acompanha a atriz Havana Segrand (Moore), que, decadente, se encontra obcecada em protagonizar a refilmagem de um clássico estrelado por sua própria mãe na juventude (uma estrela (Gadon) que morreu precocemente e de forma trágica em um incêndio). Enquanto isso, o astro mirim Benjie Weiss (Bird), recém recuperado de dependência química embora tenha apenas 13 anos (“Funcionou com Drew Barrymore”, diz alguém em certo instante), prepara-se para protagonizar uma continuação de seu maior sucesso, sendo perturbado por visões do fantasma de uma garota que visitou quando esta encontrava-se ainda hospitalizada. Para complicar ainda mais a situação, a irmã mais velha do rapaz, Agatha (Wasikowska), voltou à cidade depois de passar anos internada por ter incendiado a casa em que moravam – e seu retorno é mal visto por seus próprios pais, Christina (Williams) e o dr. Stafford Weiss (Cusack), um guru de autoajuda prestes a lançar seu novo livro.

A partir desta galeria de personagens desajustados, Cronenberg cria uma colagem quase surreal que, em certos momentos, parece oscilar entre O Jogador e Cidade dos Sonhos, mas sem jamais atingir a grandeza temática destes. Não que esta seja a intenção do cineasta, que parece bem mais interessado em explorar um curioso humor negro a partir da incapacidade que seus personagens têm de se identificar com qualquer questão minimamente humana, já que surgem como seres despreparados para a vida e que parecem fisicamente impossibilitados de escutar um “Não!” sequer, já que o narcisismo que define suas personalidades já parece ter cruzado a fronteira da pura sociopatia.

Frequentando uma sociedade na qual a aparência define as relações pessoais e profissionais, os homens e mulheres vistos em Mapa para as Estrelas são constantemente pressionados pela própria finitude, já que, naquele mundo, uma atriz jovem como Emma Watson já é cogitada para papéis de “mãe” e cada recusa em um teste significa mais um dia no qual aspirantes a atores e roteiristas se veem obrigados a trabalhar como garçons, motoristas e assistentes pessoais. Não é à toa, portanto, que cada interação soa menos como uma oportunidade de estabelecer uma ligação emocional com alguém e mais como uma oportunidade profissional, já que mudanças de religião são vistas como meios de impulsionar a carreira e flertes são abandonados assim que se apresentam ineficazes como networking.

Construindo a narrativa a partir de pequenas informações pontuais que vão se juntando em um quebra-cabeças que, mesmo jamais formando um quadro completo e coeso, é curioso justamente por sua fragmentação, Mapa para as Estrelas constantemente se diverte com a falsidade de seus personagens e mesmo com sua crueldade – e, neste sentido, ninguém ganha mais oportunidades de se divertir com a podridão daquele mundo do que Julianne Moore, que protagoniza ao menos duas cenas que beiram o absurdo em seu descolamento da realidade: aquela na qual mantém uma conversa enquanto sentada no vaso sanitário e outra na qual celebra ter conseguido um papel.

E se o roteiro se diverte com pequenas piadas envolvendo a história de Hollywood (como no momento em que Carrie Fisher diz que “toda filha deveria ter a chance de interpretar a própria mãe”), o próprio Cronenberg acrescenta a estas suas próprias brincadeiras particulares, como ao escalar Robert Pattinson como um motorista de limusine depois de ter construído todo um filme no qual o ator era passageiro de uma (Cosmópolis, claro). Menos bem-sucedidas são as pinceladas de sobrenatural jogadas ao longo da narrativa, já que aqueles personagens são suficientemente estranhos para descartarem qualquer influência metafísica – e se a abordagem visual de Cronenberg se limita ao uso de grandes angulares para ressaltar a estranheza de suas criações, ao menos os figurinos de sua irmã Denise se mostram mais imaginativos (das roupas absurdas usadas por Havana ao vestido preto e roxo, simbolicamente perfeito, que cobre Agatha em vários momentos).

Divertido e chocante na medida apropriada, Mapa para as Estrelas é um retrato de um mundo que, mesmo produzindo beleza, parece apodrecido por dentro por se ver obrigado a criá-la a partir do confronto de egos – e é sintomático que, entre todos os personagens aos quais nos apresenta, a mais humana e sensível seja aquela que passou a vida internada por ser uma esquizofrênica piromaníaca. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Videocast

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