Dexter – Sexta Temporada – Episódio Final

(Spoilers abundam como as vítimas de Dexter.)

Oh, Dexter.

Depois de um começo apenas correto, a temporada ganhou relativa força à medida que a história ia sendo desenvolvida e os temas principais iam sendo apresentados: se lá atrás Dexter insistiu para colocar Harrison numa escola católica, isto eventualmente se refletiu no arco do sexto ano, que girava em torno de um serial killer com motivações apocalípticas; por outro lado, se o personagem-título se tornou próximo do “irmão” Sam, isto obviamente cumpriu apenas a função de evitar protestos de religiosos com relação à maneira com que a fé foi abordada pelos roteiristas, o que não deixa de ser uma atitude cínica e covarde. Ainda assim, a revelação envolvendo Travis e o professor Gellar foi bem trabalhada, mesmo que nada original, e Colin Hanks, com sua imagem de bom moço herdada do pai, conseguiu criar um vilão relativamente eficiente.

Dito isso, nada justifica a queda abrupta de qualidade dos episódios na reta final da temporada e que comprova apenas o que comentei ao escrever sobre a passada: a entrada dos responsáveis por 24 Horas, cuja qualidade oscilou pavorosamente ao longo dos anos, comprometeu de forma irremediável a série.

Já no início deste último episódio, a cara de pau dos roteiristas se faz presente através de uma saída ridícula para a sobrevivência de Dexter no mar (lembrando também que jamais descobrimos como ele poderia ter escapado daquela explosão no episódio passado): exibindo o nome “Milagro”, o barco que trazia imigrantes ilegais é introduzido quase com orgulho pelos autores do episódio, como se o tema religioso justificasse a artificialidade da solução (teria sido mais honesto – e igualmente apropriado – batizar o barco como Deus ex machina). Porém, este seria apenas o primeiro de uma série de tropeços: se na quinta temporada a babá contratada por Dexter e o ex-policial vivido por Peter Weller ocuparam mais espaço do que deveriam, sugerindo uma importância que jamais teriam, isto se refletiu na sexta através da irmã de Batista e do assistente de Masuka. Além disso, o que dizer de toda a subtrama envolvendo o roubo da mão de uma vítima do Ice Truck Killer, que começou do nada e não chegou a lugar algum?

Infelizmente, há mais. Conte quantas vezes ao longo dos seis anos de Dexter o personagem-título chegou a uma cena de crime apenas para receber a notícia de que todos estavam esperando sua presença para entrarem no local? Pois isto ocorre aqui sem a menor justificativa (havia duas entradas para a casa; Dexter apenas salta uma pocinha de sangue; Masuka já estava lá; etc) apenas para que o rosto do protagonista na pintura deixada por Travis não seja visto por mais ninguém, permitindo que ele a destrua antes que esta seja vista pelos demais – e que sorte que ninguém ouviu as marteladas, não? Como se não bastasse, a velha ideia do “heroi-tendo-que-salvar-uma-pessoa-amada-das-mãos-do-vilão” já é batida por natureza, tendo sido utilizada à exaustão pela própria série – e, assim, é espantoso que os roteiristas tenham decidido utilizá-la sem qualquer vergonha.

Ou talvez não seja tão espantoso assim, já que, se considerarmos toda a História das Más Ideias na Ficção, com seus milênios de dados, possivelmente poucas serão piores do que (e não sei se rio ou choro ao escrever isso) criar tensão sexual entre os irmãos Debra e Dexter. Porque, sim, são irmãos: quando Dexter foi levado por Harry, tinha a idade de seu filho Harrison – e ao longo de seis anos, nenhuma sugestão foi feita de que Deb e Dex jamais tenham tido qualquer tipo de envolvimento que os diferenciasse de irmãos biológicos. Será possível que os roteiristas introduziram este elemento na temporada apenas para tornar a descoberta de Debra sobre a natureza psicótica de Dexter mais… traumática? Será mesmo que o fato de serem irmãos não seria suficientemente forte? É preciso que ela tenha (oh, Deus) tesão por ele para que se sinta dividida?

Errando até mesmo ao exibir a morte de Travis em um plano conjunto, ignorando que passamos doze episódios esperando pelo momento final do vilão e que este merecia ao menos um primeirinho plano em sua despedida ou algo do gênero, a sexta temporada de Dexter terminou com uma reviravolta que, embora há muito esperada pelos espectadores (nem usarei mais a palavra “fãs”; não consigo), foi encenada de forma desajeitada e novelesca, merecendo figurar mais num Vale a Pena Ver de Novo do que numa produção que incluiu um arco tão magnífico quanto aquele visto na quarta temporada (e estou começando a torcer até mesmo por uma imbecilidade do tipo “o irmão gêmeo de Trinity decide vingar-se de Dexter”, já que isso seria melhor do que o que temos visto no projeto). Ao menos, a descoberta de Debra obrigará os responsáveis pela série a alterarem completamente o rumo da narrativa no próximo ano, embora eu esteja certo de que irão encontrar uma maneira de errar espetacularmente em sua condução.

Ah, sim, já erraram: Debra quer ir pra cama com o irmão.

Puta. Que. Pariu.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê

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