Somos humanos, não um canal de notícias

Há alguns dias, um blogueiro famoso morreu precocemente em função de problemas crônicos de saúde. Eu não o conhecia e tampouco o lia, mas a reação à sua partida me chamou a atenção. Em um primeiro momento, dezenas (talvez centenas) de tweets se espalharam com palavras do tipo:

“Morreu FulanodeTal. Muito triste. #FulanodeTal #RIP”
“Arrasado com a morte de FulanodeTal. Descanse em paz! #FulanodeTal #RIP”

E assim por diante. O que mais me intrigou, no entanto, foi perceber que, minutos depois, aquelas mesmas pessoas seguiam suas mensagens de “arrasado” e “muito triste” com outras que diziam algo como

“Vazou o novo episódio de Glee!!!!!!”
“Ai, bati o dedão no sofá. PQP essa merda! rsrssrsrs”

Confesso que senti dificuldades em conciliar imagens tão contrastantes: a de alguém chateado com a morte de um jovem e a de uma pessoa excitada pelo lançamento do episódio semanal de uma série. Especialmente considerando a justaposição imediata destes sentimentos.

Isto me remeteu ao que ocorreu há cerca de um mês e meio, quando o crítico mineiro Marcelo Castilho Avellar faleceu. Chateado e surpreso com sua morte súbita, postei vários tweets, publiquei um post e comentei o ocorrido no Facebook (além, claro, de conversar com diversos amigos em comum pelo telefone). Mesmo em meio à mostra de SP, decidi não publicar qualquer outro tweet sobre os filmes daquele dia, já que não me senti à vontade para tanto – e, para meu espanto, não tardou até que começasse a receber mensagens de leitores através das redes sociais dizendo que “ok-já-haviam-entendido-que-eu-estava-chateado-com-a-morte-do-“sujeito”-e-será-que-por-favor-eu-poderia-mudar-de-assunto-antes-que-me-dessem-unfollow?”. Talvez eu não devesse me surpreender com este tipo de reação, mas a verdade é que não só me surpreendi como fiquei chocado. Quem eram aquelas pessoas? Que caráter monstruoso era esse?

A resposta, claro, é que eram pessoas comuns que provavelmente nada tinham de monstruosas. Eram apenas pessoas agindo com a frieza habitual da Internet.

Em um mundo no qual a comunicação se dá primordialmente através de toques num teclado dirigidos a nicks numa tela de computador, muitos acabam se esquecendo de que por trás daqueles apelidos há pessoas e que as palavras digitadas provocam efeitos reais sobre elas. De “sociais”, redes como Facebook e Twitter trazem apenas a característica de associação entre pessoas, mas é um erro crasso acreditar que esta ligação se dá em qualquer nível além do mais superficial. Há algum tempo, por exemplo, profundamente chateado com a informação que havia recebido de que Leon Cakoff estava à beira da morte, cometi o erro de ventilar o lamento no Facebook – mas como não seria certo divulgar o estado de saúde do criador da Mostra sem autorização de sua família, escrevi algo como “Muito chateado por saber que logo receberemos uma notícia trágica”. Em questão de segundos, uma leitora respondeu: “E aí? Vai fazer cu doce e não vai contar pra gente o que é?”.

Meu equívoco, claro, foi confundir contatos do Facebook com “amigos”; achar que se importariam com meu estado de espírito e não com o valor de fofoca da informação que eu tão “egoisticamente” negara a eles. Sim, há contatos que ainda se comportam como seres humanos, manifestam empatia, sensibilidade e calor humano, mas não são a regra. Além disso, há a impessoalidade implícita na própria natureza da comunicação virtual – algo que vem se disseminando, infelizmente, para o mundo real. 

Lembro-me, por exemplo, de quando a mãe de um amigo que reside em outro estado faleceu, há alguns meses, e liguei para manifestar meu pesar por sua perda. Depois de me ouvir, meu amigo disse: 

– Como é bom ouvir a voz de alguém dizendo isso.

Espantado, já que sabia como ele é uma figura querida e cheia de amigos, perguntei o que queria dizer:

– Recebi mensagens de texto pelo telefone a manhã inteira, mas só duas ou três pessoas me ligaram de verdade.

“De verdade” sendo a expressão-chave. Como alguém pode acreditar que enviar um SMS é o mesmo que buscar fazer uma conexão real com alguém? Sim, é mais cômodo – especialmente em situações potencialmente desconfortáveis como conversar com alguém que acabou de perder a mãe, mas gaguejar de forma desajeitada pelo telefone enquanto buscamos o que dizer é certamente melhor do que enviar uma mensagem eloquente sobre luto e perseverança frente à morte; um simples gaguejar diz mais sobre seu lamento diante do sofrimento do próximo do que a melhor das frases de efeito.

Às vezes, penso que estamos nos esquecendo de que somos humanos, não avatares. E certamente este “esquecimento” já se aplica à maneira com que enxergamos muitos dos que nos cercam. Somos invulneráveis no mundo virtual – e também frequentemente frios. Insultamos alguém e ameaçamos “cuspir em sua cara” se o “encontrarmos”, mas basta que a pessoa do outro lado se ofereça para um encontro real que o valente virtual alega não querer “perder tempo” – dedicando-se, em vez disso, a vandalizar a página do “inimigo” na wikipedia. (Sim, história verídica.)

É fácil ser cruel, altruísta, apaixonado, generoso ou ativista na Internet. Mas não vivemos na Internet, vivemos?

Antes nos permitíamos tempo para sentir. A morte de alguém querido ou admirado era abraçada como um sentimento digno de ser experimentado, processado, sentido. Hoje recebemos a notícia, a expurgamos num tweet e imediatamente nos entregamos a outro assunto. Se antes apenas o jornalismo vivia num ciclo contínuo de 24 horas, cuspindo trivialidades para preencher todos os espaços de sua programação, agora estamos nos transformando em indivíduos que seguem este mesmo ciclo, como se precisássemos de estímulos contínuos para nos sentirmos vivos e relevantes – e nem mesmo a morte, a mais definitiva das notícias, pode interromper este fluxo. Nossos corações podem estar partidos, mas nossas mentes parecem exibir aquelas legendas que percorrem a base das telas dos canais jornalísticos: “Morreu FulanoDeTal **** Nova foto de Anne Hathaway como Mulher-Gato sai na Internet **** Luana Piovani alfineta atriz global **** Mulher maltrata cachorro em vídeo no YouTube **** Ouça o novo hit de…”.

Uma hashtag não substitui uma pessoa. Somos mais que nossos nicks.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Mundo

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