Mostra de São Paulo – Dia 06

Abraços aos alunos Márcio (que fez o curso em Fortaleza) e Charles, que encontrei ontem na correria da Mostra.

E…

 23) Las Acacias (Idem, Argentina, 2011). Dirigido por Pablo Giorgelli. Com: Germán de Silva, Hebe Duarte, Nayra Calle Mamani.

Filme de estreia do roteirista e diretor Pablo Giorgelli, Las Acacias é o longa que os irmãos Dardenne falharam em trazer para a Mostra este ano. Construído basicamente através da observação do comportamento de seus três personagens principais em planos nos quais os diálogos jamais têm a mesma importância que as mais corriqueiras ações, este é um trabalho admirável que já estabelece Giorgelli como uma das grandes revelações de 2011.

Sem contar com um único diálogo em seus dez primeiros minutos, Las Acacias emprega esta introdução para nos apresentar de forma eficiente ao protagonista, o caminhoneiro Rubén (Silva, fantástico), enquanto este inicia sua viagem, faz uma parada em um posto a fim de banhar-se em uma pia e aguarda a chegada da paraguaia Jacinta (Duarte), que concordou em levar a Buenos Aires a pedido do patrão. Surpreso ao constatar que a moça traz consigo um bebê, o sujeito se mostra visivelmente contrariado – e é justamente por termos passado aqueles minutos iniciais ao seu lado que compreendemos perfeitamente por que aquela intrusão representa um aborrecimento em seu silencioso cotidiano.

Buscando o realismo absoluto, Giorgelli descarta, entre outras coisas, qualquer tipo de recurso mais artificial de montagem, como fades, fusões ou elipses muito bruscas, optando também por investir exclusivamente em sons diegéticos para compor sua narrativa (leia-se: tudo que ouvimos ao longo do filme tem origem naquele universo; não há trilha sonora, por exemplo). Desta forma, sentimos a passagem do tempo ao lado dos personagens – e quando Rubén finalmente pergunta a Jacinta qual é seu nome, nos surpreendemos ao constatar que praticamente um dia inteiro de viagem se passou sem que ele demonstrasse a mais básica das cortesias.

Desenvolvendo o relacionamento entre aquelas pessoas de maneira delicada, o filme  é tão sensível em seu olhar que, quando o caminhoneiro joga fora o cigarro que acabara de acender por perceber que a fumaça seria danosa ao bebê, imediatamente enxergarmos naquela atitude aparentemente tão corriqueira uma colossal mudança de comportamento e, a partir deste instante, de fato o homem parece se abrir levemente para suas passageiras.

Não que Rubén se torne outro personagem – e é admirável perceber como, mesmo tornando-se mais simpático, o sujeito mantém seus modos reservados, demonstrando coesão em sua composição. Por outro lado, Giorgelli não precisa de muito para revelar detalhes importantes ao espectador: quando Jacinta pergunta ao motorista se este tem filhos, por exemplo, sua resposta de duas palavras (“Não. (pausa) Tenho.”) é o suficiente para que percebamos um mundo de tristeza e arrependimentos.

Mas se os atores adultos merecem aplausos por seus trabalhos, é mesmo a bebê Anahi (Mamani) quem rouba a cena do início ao fim, já que, além de absolutamente adorável, teve suas ações observadas com tamanha paciência pelo diretor que chega a dar a impressão de ter sido ensaiada, já que brinca, boceja, sorri e fecha os olhos para dormir nos momentos exatos exigidos pela narrativa – e posso apenas imaginar a quantidade de material que a montadora Maria Astrauskas teve que analisar para chegar àqueles planos tão perfeitos.

Permitindo que o espectador apreenda elementos importantes da história dos personagens através de um número reduzido de informações, Las Acacias aproxima o público daquelas pessoas de maneira tão eficiente que, ao final, apenas a respiração mais pesada de Rubén já nos comove profundamente. E, neste aspecto, a inteligência do diretor estreante é também demonstrada quando o sujeito revela não ter visto seu único filho nos últimos oito anos e Jacinta não se preocupa em perguntar o motivo – e nem precisaria, já que sabe que aquela não será uma história feliz.

Las Acacias é um dos melhores filmes desta edição da Mostra de São Paulo. (5 estrelas em 5)

 

24) O Dominador (Haunters, Coréia do Sul, 2010). Dirigido por Kim Min-suk. Com: Go Soo, Kang Dong-won, Choi Deok-Moon.

Quando O Dominador tem início, vemos uma mulher ansiosa arrastando o filho pequeno por uma multidão: com uma prótese no lugar da perna direita e os olhos vendados, a criança surge frágil e vulnerável – e só um pouco depois descobriremos que o garoto, Cho-in (Soo), é de fato o vilão da narrativa. Capaz de controlar as ações de qualquer pessoa que consiga enxergar, o menino cresce para se tornar um verdadeiro psicopata, roubando e matando sem qualquer pudor até que, certo dia, se depara com Gyoo-nam Lim (Dong-won), que se mostra invulnerável ao seu poder.

Trata-se de uma premissa interessante que, infelizmente, o diretor Kim Min-suk desperdiça através de uma abordagem desastrosa que tenta combinar sem sucesso o terror inerente à situação a um humor cartunesco que falha na maior parte do tempo e ainda compromete o peso do restante da narrativa. E isso é lamentável, já que a sequência pré-créditos, que nos apresenta a Cho-in, é eficaz ao nos apresentar ao seu poder e ao trazer planos inteligentes como aquele no qual ele observa um cardume de peixes nadando em sincronia enquanto ele observa tudo diante de um aquário – o que resume numa única imagem sua própria situação de isolamento.

Eis então que o longa salta para acompanhar Gyoo-nam, o suposto herói da história, e tudo começa a se perder. Vivido com modos infantis por Kang Dong-won, o rapaz muitas vezes parece um débil mental com seu sorriso exagerado e modos estabanados – e, assim, quando ele tenta se estabelecer como um herói sério e angustiado, levamos algum tempo para nos ajustar a ideia. Infelizmente, porém, assim que começamos a aceitar a nova situação, o diretor cria momentos que estariam mais à vontade em uma animação, como ao trazer a van dirigida pelo protagonista se equilibrando nas rodas dianteiras depois de uma freada brusca ou ao tentar fazer comédia com os dois amigos do sujeito, que se comportam como caricaturas grosseiras.

Ainda assim, O Dominador consegue capturar nossa atenção através de confrontos bem conduzidos entre mocinho e vilão, construindo também alguns momentos silenciosos que se mostram bastante eficazes – como aquele em que Cho-in, testando seus poderes, controla as ações dos trabalhadores vistos através das várias janelas do prédio diante de seu hotel. Da mesma maneira, vê-lo transformar dezenas de transeuntes em uma espécie de exército zumbi é o bastante para gerar uma forte tensão ao levar o público a compreender os obstáculos no caminho do herói.

No entanto, o fato é que o longa não consegue resistir ao próprio (e falho) senso de humor – e fica difícil levar a sério a morte de personagens importantes, por exemplo, quando a gravidade da situação é constantemente diluída por gags tolas. Além disso, O Dominador peca pelo epílogo estúpido ao tentar revelar-se como um filme de origem de um novo super-herói sem que, para isso, tenha feito qualquer esforço para construí-lo como tal.

Taí uma produção que merecia uma refilmagem.

Observação: os cineastas contemporâneos precisam urgentemente compreender que o plano que traz alguém parado na rua até ser atropelado por um veículo que surge de maneira súbita na tela já se tornou um clichê irritante. (3 estrelas em 5)

 

25) A Ilusão Cômica (L’illusion comique, França, 2010). Dirigido por Mathieu Amalric. Com: Loïc Corbery, Suliane Brahim, Julie Sicard, Muriel Mayette, Cyril Hutteau, Alain Lenglet.

Adaptação da peça de Pierre Corneille, A Ilusão Cômica traz o texto escrito no século 17 para os dias atuais limitando-se a cortar boa parte do original, mas jamais modificando ou acrescentando algo aos seus diálogos. Produzido para a televisão francesa e marcando o retorno de Mathieu Amalric à função de diretor depois de sua excelente estreia em Turnê, o filme conta a história do amor proibido de Clindor (Corbery) e Isabelle (Brahim) e as traições e triângulos (às vezes, pentágonos) amorosos que surgem em função deste romance.

Beneficiado pelos diálogos elegantes e melódicos de Corneille, o longa leva algum tempo até se mostrar completamente à vontade com as rimas do texto, já que inicialmente depende de longas narrações que finalmente cedem lugar à ação propriamente dita, só então permitindo que as falas fluam naturalmente (ainda assim, alguns dos atores falham ao recitarem seus diálogos de maneira excessivamente monocórdia e sem vida).

Inteligente em sua ideia de transformar o mago Alcandre (Pierre) em um detetive particular que basicamente conta toda a história de Clindor ao seu pai através de monitores de segurança – o que também serve como comentário sobre a própria relação entre narrador e espectador -, A Ilusão Cômica é hábil ao transformar um imenso hotel numa versão moderna de um castelo, permitindo, assim, que as ocasionais menções a reis e princesas sejam interpretadas de maneira simultaneamente literal e simbólica.

É uma pena, portanto, que o design de produção com suas cores chapadas e a própria abordagem visual de Amalric se mostrem tão convencionais e desinteressantes, jamais fazendo jus à intensidade de uma trama repleta de reviravoltas e interesses obscuros, transformando A Ilusão Cômica numa mera e decepcionante curiosidade. (2 estrelas em 5)

 

26) Eu, Você, os Outros (Toi, moi, les autres, França, 2010). Dirigido por Audrey Estrougo. Com: Benjamin Siksou, Leïla Bekhti, Cécile Cassel, Marie-Sohna Conde.

Segundo longa de Audrey Estrougo, Eu, Você, Os Outros é um interessante musical urbano que usa uma historinha de amor boba como justificativa para investir em mensagens de fundo político – e mesmo falhando no romance e no protesto, é simpático o bastante para merecer aplausos comedidos.

Demonstrando sua intenção de trazer a magia do musical para o cotidiano urbanizado dos personagens já em seus excelentes créditos iniciais, o filme acompanha Leïla (Bekhti), que, morando num bairro repleto de imigrantes ilegais, está prestes a se formar em Direito. É então que ela conhece o playboy Gabriel (Siksou), que se encontra prestes a se casar, mas prefere passar as noites jogando pôquer e evitando a noiva socialite.

Retratada através de cores intensas e da vivacidade de seus habitantes, a comunidade de imigrantes concebida por Estrougo é um universo vivo e agradável no qual mesmo as constantes batidas policiais são retratadas através de coreografias envolventes e criativas – mas é sinal da inteligência da cineasta que, mesmo que o processo de revista ocorra numa dança, os demais personagens observem a ação da polícia com expressões de realista tensão. Da mesma maneira, mesmo que os figurinos não apelem para a estilização, mostrando-se verossímeis em seu naturalismo, as cores empregadas em seus tecidos refletem a força e a energia daquelas pessoas.

Prejudicado pelas canções irregulares e por vezes aborrecidas, Eu, Você, os Outros ainda assim encanta ao incluir momentos de óbvia magia em sua narrativa, como as borboletas que, simbolizando a paixão dos amantes, encontra vários personagens – e, da mesma maneira, as coreografias simples mas eficazes conferem seu próprio vigor ao filme. Por outro lado, o romance entre Leïla e Gabriel jamais evoca a grandeza e a urgência exigidas pelo filme, já que não acreditamos que aquele envolvimento seja de fato o grande caso de amor que os jovens insistem estar vivendo. Além disso, os conflitos jogados no roteiro soam artificiais e são sempre rapidamente resolvidos para que outro obstáculo possa surgir no caminho dos amantes: em um instante, Leïla descobre que Gabriel é noivo e foge, perdoando-o na cena seguinte; mais tarde, ressente-se ao descobrir que o pai do namorado prendeu sua amiga, mas logo esquece o assunto quando este promete resolver a questão; e assim por diante.

Artificial em sua resolução (que nada resolve de fato), Eu, Você, os Outros ainda soa pretensioso ao incluir em seu clímax imagens de arquivos de um protesto pelos direitos dos imigrantes, trivializando a questão sem, com isso, conferir peso à própria narrativa. Com isso, o filme se apresenta como um musical pontualmente envolvente, mas nada mais do que isso. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

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