Mostra de São Paulo – Dia 05

Abraços à aluna Michelle, que me cumprimentou no Arteplex, e ao leitor que mexeu comigo na Augusta sem me dar tempo de perguntar seu nome. (E quando digo “mexeu” e “Augusta”, não pensem bobagem!)

Ao trabalho:

18) Tatsumi (Idem, Cingapura, 2011). Dirigido por Eric Khoo.

Selecionado por Cingapura para representar o país no Oscar 2012, Tatsumi é uma curiosa biografia animada do desenhista de mangá Yoshihiro Tatsumi que, ao interessar-se por histórias mais sombrias e voltadas para o público adulto, cunhou o termo gekiga para descrever quadrinhos que seguissem estas temáticas mais pesadas. Com uma animação eficiente, mesmo que pouco rebuscada, o longa adota uma estrutura eficiente ao intercalar passagens da vida do artista com adaptações de cinco de suas histórias publicadas durante a década de 70, demonstrando, na prática, sua coragem e criatividade como autor.

Repletas de violência e sexo, as tramas concebidas por Tatsumi e vistas neste longa ilustram não só a maturidade dos mangá/gekiga ao lidar com temas como a tragédia em Hiroshima, a velhice e a insatisfação artística de um desenhista, como também as inúmeras possibilidades da mídia (incluindo, consequentemente, o animé) – e fica difícil imaginar imagens que expressem de maneira mais impactante as consequências da bomba atômica do que as vistas aqui ou em Gen Pés Descalços, por exemplo.

Adotando estilos diferenciados para as cinco curtas narrativas (que surgem – com exceção de uma – monocromáticas e mais cruas) e para a biografia de Tatsumi em si (que é representada com cores intensas e um tom nostálgico e reverencial), o longa peca apenas por muitas vezes não permitir que as imagens falem por si mesmas, como, por exemplo, ao comparar o metrô lotado com um caminhão que carrega alguns poucos cavalos ou ao mostrar um homem impotente observando um imenso canhão, quando a narração acaba expondo em palavras o que já havíamos observado perfeitamente na tela.

Por outro lado, se as tramas imaginadas pelo personagem-título frequentemente terminam em ironias tristes ou revelações angustiantes, o filme que este inspirou conclui de forma doce ao apresentá-lo surgindo magicamente de sua própria representação estilizada, transformando-o, na prática, em uma de suas próprias criações. (4 estrelas em 5)

 

19) Vida que Segue (De leur vivant, Bélgica, 2011). Dirigido por Géraldine Doignon. Com: Christian Crahay, Mathylde Demarez, Yoann Blanc, Raphaële Germser, Pedro Cabanas, Anne-Pascale Clairembourg.

Quando Vida que Segue tem início, acompanhamos imagens de uma câmera Super8 que traz uma família brincando feliz nos jardins esverdeados de uma grande propriedade. Enquanto uma bela mulher surge correndo ao lado dos três filhos, a própria textura típica da bitola já conduz o espectador a uma nostalgia antecipada que, claro, resulta em melancolia quando, no momento seguinte, descobrimos que aquela mãe acaba de morrer e que aqueles jardins, agora desfolhados e tristes, cercam um velho hotel de corredores escuros e ambientes silenciosos.

Escrito e dirigido pela estreante Géraldine Doignon, o longa passa a acompanhar, então, os dias seguintes ao enterro da esposa de Henri (Crahay), cujos três filhos se juntam ao pai no hotel da família, agora fechado, enquanto tentam decidir o que fazer em seguida – uma rotina perturbada pela chegada de uma hóspede inesperada que, grávida de oito meses, parece tão perdida quanto eles.

Hábil ao evocar a atmosfera de luto e perda sentida por aquela família (“As camisas que usarei nos próximos dias foram passadas por sua mãe”), Vida que Segue leva o espectador a sentir a ausência de uma personagem que sequer chegou a conhecer – e quando Dominique (Demarez) e Ludovic (Blanc) surgem assistindo a um filme de família antigo, o reflexo da tela sobre seus rostos funciona basicamente como a representação do brilho que sua mãe ainda emite em suas mentes, impossibilitando-os de seguir em frente.

Com a câmera sempre bastante próxima ao rosto de seus atores, a cineasta ainda cria paralelos interessantes ao trazer Henri deixando recados na secretária eletrônica da falecida esposa enquanto Alice, a hóspede grávida, insiste em ligar para um homem que suspeitamos ser o pai de seu filho, embora desligue sem deixar qualquer mensagem. Da mesma maneira, o longa frequentemente nos mostra as reações de seus personagens sem estabelecer conclusões definitivas, permitindo que reflitamos sobre o que vimos: por que, por exemplo, Dominique chora ao ver o pai brincando com a filha do irmão? Nostalgia da própria infância, quando ainda era próxima de Henri? Ressentimento por este nunca ter brincando com ela daquela maneira? Angústia por ainda não ser mãe? Não importa, já que as perguntas, neste caso, são mais importantes do que as respostas.

Representando visualmente a tentativa de reinício (e, paradoxalmente, mergulho no passado) feita pelos personagens ao trazê-los arrancando os papéis de parede dos quartos do hotel a fim de revelarem os padrões antigos sob estes, Vida que Segue ainda intriga pela boa lógica narrativa embutida em sua fotografia, que frequentemente investe em planos parcialmente desfocados que sugerem a falta de equilíbrio daquelas pessoas e a busca por um caminho claro que possam seguir – algo que se reflete nos dois planos finais, que, claro, são vistos em grande profundidade de campo, trazendo os arredores completamente nítidos em torno dos personagens e sugerindo que talvez tenham encontrado o que buscavam.

Ou não, já que a falta de respostas e a incerteza com relação ao futuro, compreende o filme, são partes integrais da experiência humana. (4 estrelas em 5)

 

20) Quem Vai à Guerra (Idem, Portugal, 2011). Dirigido por Marta Pessoa.

Décadas depois do fim das guerras coloniais que levaram tropas portuguesas à África, as consequências dos conflitos continuam a ser sentidas por milhares de famílias lusitanas – algo que a cineasta Marta Pessoa retrata com delicadeza em seu bom documentário ao optar por focar sua narrativa não nos homens que lutaram no conflito, mas nas mulheres que os apoiaram através de seu carinho, amor ou mesmo com seus cuidados no front de batalha.

Basicamente estruturado a partir dos depoimentos de suas várias entrevistadas, o filme eventualmente inclui alguma imagem de arquivo, um detalhe de uma carta antiga ou uma foto, mas na maior parte do tempo prefere se concentrar nos rostos envelhecidos, mas sempre dignos, de suas personagens enquanto estas relatam os choques experimentados não só pela convocação de irmãos, namorados e maridos para a guerra, mas também – no caso de várias, infelizmente – pelos telegramas que eventualmente informavam a morte destes.

Ilustrando as diversas estratégias adotadas para lidar com a situação, o filme inclui histórias de mulheres que aguardaram os homens em Portugal, mas também de diversas outras que tomaram a corajosa decisão de acompanhar as tropas até a África, permitindo, assim, que seus maridos pudessem revê-las sempre que não estivessem alocados no campo de batalha. Da mesma maneira, se algumas optavam por ser “madrinhas de guerra”, correspondendo-se com dezenas de soldados que não conheciam pessoalmente, outras não hesitavam em realizar intensos treinamentos, tornando-se enfermeiras paraquedistas especializadas em atendimentos em meio às piores situações.

Porém, a diretora vai além e, não satisfeita em discutir apenas o papel das mulheres durante o conflito, investiga também as consequências deste sobre aquelas famílias – e é triste e chocante perceber como, décadas depois, tantas pessoas continuam afetadas pelos efeitos psicológicos da violência, que resultaram em abusos domésticos por parte de ex-soldados enlouquecidos pelas lembranças e em lares desfeitos por suicídios ou divórcios (“O período entre 1986 e 1999 eu prefiro esquecer”, diz uma entrevistada, basicamente afirmando que nada menos do que 13 anos de sua vida representaram um verdadeiro pesadelo).

Como se não bastasse, há o fato ainda de que tantas vidas foram perdidas em função de uma guerra essencialmente injusta em seu objetivo colonialista – e mais trágico é perceber como aquele mesmo exército que insistia em invadir outras nações não hesitou em ignorar seus próprios soldados ao negar-lhes direitos básicos quando passaram a exibir sintomas graves de estresse pós-traumático.

Infelizmente, por mais justos que sejam seus propósitos e por melhores que sejam suas intenções, a diretora Marta Pessoa acaba tropeçando como realizadora ao incluir passagens absolutamente dispensáveis que envolvem jogos de luzes no cenário/locação montado para servir de palco às entrevistas e que em nada contribuem para a narrativa. Para piorar, os próprios depoimentos soam longos e muitas vezes sem foco, tendo faltado à cineasta e à montadora Rita Palma o discernimento necessário para enxugá-los, tornando-os mais diretos e eficientes.

Encerrando com fotos que trazem suas personagens sorrindo aos lados dos maridos em imagens que escondem a dor verdadeira por trás daquelas relações, Quem Vai à Guerra ao menos não falha ao responder o questionamento de seu título de maneira categórica: todos vão. (3 estrelas em 5)

 

21) As Canções (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Eduardo Coutinho.

Já escrevi isso diversas vezes, mas o fato é que Eduardo Coutinho não só é o maior de nossos cineastas, como também é um dos mais humanistas. Sempre demonstrando um carinho comovente para com seus entrevistados, o veterano documentarista invariavelmente consegue, através de sua doçura, levar-nos a também amar um pouco aquelas pessoas e suas histórias comuns, mas não menos admiráveis.

Com uma estrutura similar ao de seu ótimo Jogo de Cena, Coutinho basicamente constrói seu filme usando uma cadeira preta sobre um palco que, trazendo cortinas escuras ao fundo que revelarão os entrevistados, essencialmente leva-os a se assumirem como personagens de uma narrativa particular. Entrevistando de uma bela imigrante a um velho camponês, o longa pede algo simples a todos: que cantem a música mais marcante de suas vidas – sem instrumentos, sem acompanhamentos e apenas com suas vozes destreinadas e a emoção que os versos provocarem.

Normalmente trazendo melodias e letras melancólicas e remetendo invariavelmente a relacionamentos afetivos, as canções são usadas pelo cineasta como ponto de partida para dissecar, essencialmente, a alma humana – e se qualquer outro documentarista imediatamente perguntaria aos entrevistados por que estes escolheram determinada composição ou como a conheceram, Coutinho exibe sua sensibilidade ao questionar se estes “gostaram de cantar” ou o que sentiram ao recitar os versos. Sim, ele também se interessa pelo contexto que levou a música a ser escolhida, mas parece sempre mais fascinado pelos sentimentos de seus personagens, não em explicações que, ele sabe, nada explicariam de fato – e um bom exemplo disso reside no homem que, depois de se lembrar de uma melodia cantada pela mãe enquanto costurava, décadas antes, começa a chorar sem saber o motivo, já que a mãe ainda é viva e aquela é basicamente uma memória agradável (e talvez ele esteja chorando justamente por isso; pela nostalgia da lembrança infantil).

Mas esta é a magia dos filmes de Eduardo Coutinho: estabelecendo uma atmosfera de intimidade e confiança com seus entrevistados, ele é sempre hábil ao levá-los a se esquecer da câmera, permitindo que se inclinem, se movam livremente na cadeira e até mesmo atendam o celular – e, com isso, não é surpresa perceber como estes acabam se abrindo talvez mais do que desejariam (“Já cantei muito em puteiro!”). O resultado é que As Canções, como todos os trabalhos do cineasta, se apresenta não só emocionante, mas também constantemente engraçado em função da naturalidade dos depoentes – algo que Coutinho, experiente, já sabe antecipar, chegando a servir de escada por saber que uma tirada divertida virá a seguir (como no momento em que uma entrevistada diz “Fizemos e parimos um filho” e o diretor, inteligente, pergunta “fizeram e…?”, preparando o terreno para uma das melhores piadas do filme).

No entanto, para cada momento divertido há também um mais confessional e, por isso mesmo, comovente – como no instante em que uma bela mulher de meia-idade fala do ex-marido e conclui: “Eu não fui o grande amor da vida dele, mas ele foi o da minha”.

A verdade é que é impossível assistir a um filme de Eduardo Coutinho e não se apaixonar um pouco mais pela Humanidade ou constatar como as pessoas são, em sua essência, lindas à sua própria maneira. (5 estrelas em 5)

 

22) Raul – O Início, o Fim e o Meio (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Walter Carvalho.

Nunca fiz música de protesto. (O que eu faço) é raulseixismo”, diz Raul Seixas em certo momento de Raul – O Início, o Fim e o Meio, fantástico documentário dirigido por Walter Carvalho que jamais deixa de fazer jus ao personagem-título. Trata-se de uma afirmação divertida como tantas outras que o cantor fez ao longo da carreira, mas que, em sua essência, não correspondia à verdade: sua intenção podia até não ser exatamente o “protesto”, mas não há como negar sua coragem em cantar os versos de “Sociedade Alternativa” vestindo uma boina de guerrilheiro e tocando uma guitarra vermelha em pleno governo do sanguinário Médici.

Ouvindo de amigos de infância ao dentista de Raul, Carvalho já demonstra desde o início o belo trabalho de pesquisa feito por sua equipe ao resgatar fotos da adolescência do músico, quando este fazia parte do “Elvis Rock Clube” e, pouco depois, como vocalista das bandas Relâmpagos do Rock e Os Panteras. Fazendo um detalhado apanhado da trajetória do cantor ao longo das duas horas de projeção, o cineasta exibe ainda desenhos feitos por Raul na juventude, gravações de sua voz aos 9 anos de idade,  chegando finalmente à sua morte em 1989, aos 44 anos (quando parecia ter mais de 60).

Como é fácil imaginar, trata-se de uma viagem que, até chegar aos deprimentes anos finais do sujeito, revela-se divertida e envolvente, incluindo anedotas reveladoras como sua ideia de fingir abandonar a música a fim de convencer o sogro evangélico a deixá-lo casar com sua filha Edith e suas constantes “referências/homenagens” a rocks estrangeiros em suas próprias canções (“Não estou roubando; estou desapropriando!”, defendia-se). Mas talvez o mais interessante seja constatar como aqueles que o conheceram no início da carreira são unânimes em defini-lo como “careta” – um rótulo que se alteraria radicalmente ao conhecer Paulo Coelho, que o apresentaria a todas as drogas possíveis e imagináveis.

As entrevistas com os antigos parceiros musicais de Raul, por sinal, são fabulosas: mas se Claudio Roberto e Marcelo Nova oferecem bons momentos, é mesmo Coelho quem merece destaque absoluto não só pelos bons insights acerca do antigo companheiro, mas pelo bom humor e pela presença de espírito demonstrada quando um determinado incidente envolvendo uma mosca ocorre durante a conversa com o diretor. Por outro lado, é uma pena ver uma figura como Zé Ramalho surgindo sem dizer uma só palavra (embora seja listado como “entrevistado” nos créditos finais) enquanto o filme encontra tempo para incluir uma participação boba e dispensável do ator Daniel de Oliveira.

Estabelecendo o brilhantismo de Seixas ao combinar o rock e o baião (“Elvis e Luiz Gonzaga são a mesma coisa!”), Walter Carvalho e o montador Pablo Ribeiro criam uma narrativa coesa e bem encadeada do princípio ao fim – e se em um momento um velho amigo de Raul explica que este era um “guru que não queria seguidores”, o filme é inteligente por, logo em seguida, incluir imagens de dezenas de fãs que aparentemente levam a vida eternamente caracterizados como o ídolo, demonstrando não ter compreendido sequer a base de sua “Metamorfose Ambulante”.

Tornando-se melancólico à medida que os anos finais do músico começam a se aproximar, o documentário ainda encontra tempo para explorar a ambivalência de muitos com relação a Marcelo Nova, seu parceiro final – mas mesmo que alguns acreditem que este se “aproveitou” de Seixas, são indiscutíveis sua admiração por Raul e o carinho com o qual o tratava, chegando a promover um encontro entre ele e Coelho décadas depois de terem se visto pela última vez. Ainda assim, não deixa de ser angustiante ver o cantor arrastando-se pelas letras de suas músicas durante os últimos shows em função das bebedeiras, mesmo que a força de suas canções permaneça intacta até mesmo naquelas condições.

Porque o fato é que como “Toca Raul!” se tornou um clichê, uma piada, um bordão de gente sem imaginação querendo fazer graça, muitos parecem se concentrar apenas no caráter irritante deste grito aborrecido, esquecendo que, afinal, há uma razão para ele ter se tornado slogan de praticamente qualquer espetáculo musical: Raul Seixas era genial. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

2 Respostas para Mostra de São Paulo – Dia 05

Adicionar Comentário