Mostra de São Paulo – Dia 04

Abraços ao aluno Paulo e aos leitores Allan e Bruno, que gentilmente me cumprimentaram no intervalo entre as sessões.

E ao trabalho:

13) Respirar (Atmen, Áustria, 2011). Dirigido por Karl Markovics. Com: Thomas Schubert, Karin Lischka, Gerhard  Liebmann, Georg Friedrich, Stefan Matousch.

Respirar marca aos menos duas promissoras estreias: depois de atuar como dublê em quatro projetos, o jovem Thomas Schubert surge aqui como um ator intenso e capaz de carregar praticamente sozinho um longa metragem, ao passo que Karl Markovics, mais conhecido por protagonizar Os Falsários, agora se lança como diretor com uma segurança impressionante. Não é de espantar, portanto, que o filme tenha sido selecionado para representar a Áustria no Oscar 2012.

Também escrito pelo cineasta, o roteiro acompanha cerca de uma semana na vida de Roman (Schubert), que, criado em um orfanato e enviado para um centro de detenção juvenil após provocar a morte de outro interno, está prestes a ser ouvido em uma audiência que poderá garantir sua liberdade condicional, enviando-o para o mundo pela primeira vez em seus 19 anos. A fim de demonstrar seu desejo de ressocialização, o rapaz consegue licença para trabalhar durante o dia, arrumando um emprego em uma companhia especializada em transportar cadáveres – e não demora muito até que Roman aproveite a oportunidade para tentar entrar em contato com sua mãe biológica.

Acompanhando inicialmente a rotina do protagonista no centro de detenção e, mais tarde, em seu novo trabalho, Respirar mantém sua câmera sempre concentrada no jovem em planos frequentemente bastante fechados e que o destacam do ambiente ao seu redor através de uma pequena profundidade de campo, obrigando o espectador a aproximar-se do personagem e a reconhecer até mesmo sutis alterações em suas expressões – e, assim, quando Roman abre um raríssimo sorriso, a sensação que experimentamos é quase de choque.

Introspectivo e desconfiado, Roman é vivido por Thomas Schubert como um indivíduo que, depois de quase duas décadas trancafiado, desenvolveu mecanismos de defesa próprios para sobreviver à pressão, sendo óbvio o fato de que até mesmo os demais internos parecem temê-lo embora jamais o vejamos alterando a voz ou agredindo alguém. Deixando clara sua personalidade ao demorar a sair da piscina quando o oficial responsável ordena que os detentos deixem o local, Roman faz questão absoluta de ser o último a abandonar a água – obedecendo a ordem, portanto, mas não sem antes demonstrar uma certa rebeldia. Da mesma maneira, é interessante perceber como em alguns momentos, ao mostrar-se prestes a explodir, o rapaz parece conter-se no último momento, saindo de perto de quem o aborreceu ou transformando sua raiva em uma manifestação produtiva (como carregar um colchão para o depósito, por exemplo).

Permitindo que seus atores construam uma dinâmica eficaz através de ações minimalistas, Markovics cria momentos fascinantes como na cena em que Roman e um colega de trabalho que insistia em provocá-lo preparam o corpo de uma senhora e sussurram respeitosamente apesar das diferenças, alcançando um entendimento mútuo não através de longas conversas, mas por dividirem um instante de máxima e estranha intimidade diante da morte de uma desconhecida.

Um belíssimo trabalho, sem sombra de dúvidas. (4 estrelas em 5)

 

14) Green (Idem, EUA, 2011). Dirigido por Sophia Takal. Com: Kate Lyn Sheil, Sophia Takal, Lawrence Michael Levine.

Não contei o número de vezes em que os três personagens principais de Green dizem a palavra “cool” em resposta a praticamente tudo, mas, se tivesse, desconfio que ultrapassaria a quantidade de “fucks” ouvidos em toda a filmografia de Quentin Tarantino. E isto não deixa de ser uma imensa ironia, considerando que, de “cool”, esta bobagem indie não tem absolutamente nada.

Girando em torno de um possível triângulo amoroso entre um casal de pseudointelectuais nova-iorquinos e uma garota do interior que demonstra sua natureza caipira através de insistentes “y’all”, o longa de estreia de Sophia Takal consegue ser simultaneamente tolo, pretensioso e preconceituoso – e como a diretora não apenas escreveu, montou, dirigiu e atuou no projeto (ela é a tal caipira), fica difícil apostar em seu futuro como realizadora sem saber qual destas funções ela desempenharia de maneira menos desastrosa.

Protagonizado por Kate Lyn Sheil, que parece alternadamente gripada e/ou à beira do suicídio na maior parte da projeção (e reparem que em nenhum momento é sugerido que a personagem seja depressiva), Green traz apenas personagens que usam aquela irritante entonação de pergunta para tudo que dizem, já que seus fracos intérpretes parecem acreditar que isto torna seus diálogos mais naturais. Aliás, classificar de “diálogos” o que ouvimos ao longo da narrativa é um insulto à comunicação humana, já que a maior parte do filme é devotada a extensos planos que trazem aquelas pessoas discutindo coisas como os diferentes gostos de sorvete ou a feiura de um determinado sujeito (“Ele é um dos homens mais feios que já vi”, diz alguém, ouvindo em resposta um brilhante “Mas não é o mais feio”) – e espero muito que estas trocas tenham sido improvisadas, já que seria profundamente deprimente imaginar Sophia Takal sentada diante do computador e escrevendo estas falas deliberadamente.

Sem jamais conseguirem convencer o espectador de que são um casal, já que não demonstram qualquer dinâmica ou a mínima naturalidade um com o outro, Sheil e o péssimo Lawrence Michael Levine (provavelmente escalado por ser o produtor do filme) ainda soam extremamente irritantes em seu pedantismo – e ao discutirem os Batmans de Burton e Nolan, por exemplo, não hesitam em dizer que “um é para retardados e o outro para cripto-fascistas”. Não duvidem: passar 75 minutos ao lado destas criaturas é uma tortura.

Fotografado por um tal de Nandan Rao que parece ter segurado uma câmera pela primeira vez na véspera das filmagens, Green traz planos que entram e saem de foco constantemente, como se isto conferisse estilo ao projeto (estilo de algo mal feito, eu diria) – e chega a ser inacreditável que, mal conseguindo rodar um plano decente durante o dia, Takal e Rao ainda tentem usar sua câmera digital à noite, resultando em um material tão ruim que a diretora/montadora teve que usar fusões com imagens de uma fogueira para despistar a má qualidade e salvar alguma coisa do que havia feito (nem deveria ter tentado). E prefiro não gastar palavras para descrever a irritante trilha sonora eletrônica, já que Ernesto Carcamo não se importou em gastar notas musicais ao compô-la.

Com um título tolo que certamente se julga inteligentíssimo por usar Green para descrever não só a natureza que cerca os personagens, mas também o “monstro de olhos verdes” do ciúme descrito por Iago em Othello, este trabalho de Takal não é estudo de personagem, não é exercício de estilo, não é filme de gênero e tampouco oferece qualquer insight relevante sobre a natureza humana. É apenas o resultado de uma diretora sem talento brincando de cineasta ao lado de um grupo de atores medíocres. (1 estrela em 5)

 

15) O Dedo (El dedo, Argentina, 2011). Dirigido por Sergio Teubal. Com: Fabián Vena, Gabriel Goity, Martín Seefeld, Mariana Briski, Mara Santucho, Rolly Serranos, Rubén Pinzini, Hervé Segata.

Se há um filme que pode se gabar por ter sido salvo por sua trilha sonora, este é o argentino O Dedo. Ocasionalmente engraçado e pontualmente inventivo, o longa de Sergio Teubal oscila entre o fabulesco e o western para contar a história de uma pequena comunidade que se torna obcecada pela sabedoria manifestada pelo dedo amputado de um cadáver e que, mantido num jarro sobre o balcão de um armazém, aponta sempre as soluções para os dilemas dos habitantes do vilarejo.

Escrito por Carina Catelli a partir de argumento de Alberto Assadourian, o projeto até demonstra certa ambição narrativa em sua introdução ao investir em uma estrutura que alterna entre a trama principal e um pseudo-documentário protagonizado pelos personagens “reais” daquela história, que chegam a comentar sobre os atores escolhidos para representá-los, mas, infelizmente, esta ideia jamais chega a lugar algum e em nada contribui para o filme, o que é uma decepção.

Por outro lado, Teubal é hábil ao estabelecer a lógica daquela pequena comunidade e de seus habitantes, conseguindo criar tipos marcantes que se tornam queridos para o espectador – e, neste sentido, destaca-se (talvez surpreendentemente) o vilão Don Hidalgo, que, vivido por Gabriel Goity, mantém um sorriso sempre cínico e arrogante nos lábios, divertindo por sua impaciência diante da mediocridade que o cerca.

Mas é mesmo a música composta pelo grupo Supercharango que confere personalidade e ritmo a O Dedo, oscilando com eficiência entre temas mais clássicos que remetem aos faroestes até chegar a canções que acabam servindo como acompanhamentos para personagens específicos. Assim, não deixa de ser sintomático que provavelmente eu jamais tenha o desejo de assistir a este filme novamente, sendo possível, por outro lado, que escute sua trilha mais algumas vezes. (3 estrelas em 5)

 

16) Frango com Ameixas (Poulet aux prunes, França, 2011). Dirigido por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. Com: Mathieu Amalric, Edouard Baer, Maria de Medeiros, Jamel Debbouze, Golshifteh Farahani, Chiara Mastroianni, Enna Balland, Mathis Bour, Eric Caravaca, Isabella Rossellini.

Escrito e dirigido por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, responsáveis pelo mágico Persépolis, este Frango com Ameixas é mais uma vez adaptado a partir de uma obra original da primeira, investindo numa trama cronologicamente fluida, encantadora e comovente – e ainda que, diferente daquele filme, esta produção seja rodada em live action, os cineastas acabam criando uma aura igualmente inventiva ao flertarem com colagens, pequenas sequências de animação e efeitos visuais estilizados que constroem uma atmosfera de fábula a fim de contarem uma história de amor tocante, divertida e, sim, devastadora.

Encantando com seu belo design de produção já na introdução da narrativa, que constantemente remete aos livros de pop-up que produzem mundos inteiros ao virar de uma página, Frango com Ameixas já intriga ao trazer um narrador que, embora identificando-se como parte da história e afirmando testemunhar fisicamente todos os incidentes, parece jamais ser visto pelos demais personagens – e quando sua verdadeira natureza é esclarecida, a revelação vem como uma surpresa ao mesmo tempo divertida e assustadora (uma ambiguidade presente em toda a narrativa, diga-se de passagem). Centrado no músico Nasser Ali (Amalric), o filme acompanha os últimos oito dias de vida do sujeito, que decide morrer após ter seu violino favorito quebrado pela esposa (Medeiros) durante uma discussão. Sem sair da cama, o protagonista recorda as principais passagens de sua existência em uma jornada cuja subjetividade é constantemente ilustrada através da fotografia, da direção de arte e dos efeitos visuais.

Neste aspecto, aliás, o longa muda de estilo fluidamente ao seguir as memórias de Nasser Ali: em um momento, por exemplo, suas recordações da infância surgem representadas numa sequência expressionista cujos cenários e sombras conferem um tom opressivo à cena (e não é à toa que o único adulto presente, um rígido professor, tem o rosto oculto na escuridão); já em outros, os diretores investem numa lógica quase surrealista ao trazerem o sujeito diminuído por uma cama gigantesca enquanto mergulha o rosto num par de seios colossais. Da mesma maneira, é impossível ver um pequeno ônibus equilibrando-se à beira de um despenhadeiro em uma estradinha sem pensar no universo das animações – e é realmente admirável que Satrapi e Paronnaud consigam navegar de um estilo a outro enquanto criam uma narrativa coesa e uniforme.

Investindo também em atuações grandiosas que trazem os atores vestindo os sentimentos sem qualquer sutileza, Frango com Ameixas é beneficiado pela presença do sempre brilhante Mathieu Amalric, que compõe Nasser Ali como um homem cuja paixão por sua arte o transforma num sujeito capaz de terríveis gestos de egoísmo e crueldade – algo que o ator ilustra sem jamais permitir que o personagem se torne repulsivo a ponto de afastar o espectador, que continua torcendo por sua redenção/recuperação. E se Isabella Rossellini traz uma elegância fria à mãe do protagonista (basta dizer que sua alma é representada por uma densa nuvem de fumaça), Maria de Medeiros inicia a narrativa encarnando a esposa de Nasser Ali como uma caricatura de bruxa apenas para acrescentar nuances tocantes à medida que a história avança, eventualmente se estabelecendo como uma figura tocante ao seu próprio modo.

Capaz de provocar risos até mesmo com a mais velha e tola das piadas (o som de gases), o filme ainda traz sequências que hipnotizam e tocam na mesma medida – como aquela que, através de travellings contínuos, reconta rapidamente a vida do protagonista em sucessivos saltos temporais.

Mas talvez o mais surpreendente seja perceber como, no fim das contas, Frango com Ameixas é mesmo uma trágica de história de amor – algo que só constatamos, estupefatos, nos momentos finais, quando um pesado nó se forma em nossas gargantas e percebemos que nos importávamos bem mais com aqueles personagens do que poderíamos imaginar. (4 estrelas em 5)

 

17) O Futuro (The Future, EUA, 2011). Dirigido por Miranda July. Com: Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky, Isabella Acres, Angela Trimbur, Joe Putterlik.

Miranda July é uma artista performática que, estreando na direção de longas em 2005, dividiu a crítica com seu excêntrico Eu, Você e Todos Nós: enquanto alguns enxergavam naquele trabalho a confirmação do potencial do cinema independente norte-americano, outros viam nos estranhos personagens de July apenas o senso de humor pretensioso de uma elite intelectual que acredita que até mesmo suas fezes merecem admiração (e não uso esta comparação à toa, já que o filme apresentava a ideia da “troca” de dejetos humanos como expressão de amor). Naquele caso, fiquei ao lado de July e seu trabalho encantador; desta vez, porém, não estou bem certo, já que este O Futuro parece apenas interessado em lançar o meme dos “Lolcatz” como gênero cinematográfico (e mal acredito que acabei de escrever esta frase).

Escrito pela própria diretora, o filme conta a história do casal Jason (Linklater) e Sophie (July), que decidem adotar um gato que encontraram ferido na rua. Obrigados a esperar um mês até que ele receba alta, eles concluem ser necessário mudar o estilo de vida que levam e, assim, largam os empregos e tentam encontrar novos rumos até que o animal esteja pronto para ser levado para seu novo lar.

Tolice, eu sei, mas filmes melhores já foram feitos a partir de ideias mais estúpidas – e o fato é que O Futuro consegue explorar com certa eficácia sua premissa graças aos personagens interessantes vividos pelos bons atores. Sonhadores e nada pragmáticos, eles se parecem até fisicamente, mantendo conversas divertidas que comumente terminam em pequenos jogos fantasiosos sobre situações improváveis.

Pecando aqui e ali por apostar em diálogos que, supostamente profundos, soam apenas juvenis (“Por que esta pinta está aqui?” “Não sei.” “Nem eu.”), o longa também tropeça ao levar a personagem de July a tomar determinadas atitudes inverossímeis que parecem ter sido incluídas no roteiro com o único objetivo de criar algum conflito dramático, enfraquecendo o centro da narrativa (o relacionamento dos dois) e nos afastando de Sophie. Além disso, a diretora falha ao incluir elementos supostamente sobrenaturais ou fantasiosos de maneira abrupta e nada orgânica.

Mas o grande problema de O Futuro reside mesmo nos interlúdios protagonizados por “Patinhas”, o gato a ser adotado pelo casal: dublado pela própria Miranda July, que tem sua voz modificada eletronicamente enquanto fala lenta e pausadamente, Patinhas soa como um esforço desesperado da diretora de acrescentar algo bonitinho ao filme, já que desta vez não conta com o encantador garotinho de Eu, Você e Todos Nós – mas, no processo, consegue apenas soar infantil, já que “I Can Has Cheezburger” pode até funcionar como legenda de gifs de 10kb, mas num longa metragem resulta simplesmente em desastre. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

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