Mostra de São Paulo – Dia 01

Pela primeira vez em quase dez anos, cheguei à Mostra depois de seu início. Porém, eu não podia vir para o evento diretamente do Rio sem antes passar em BH para um rápido respiro ao lado dos filhotes – algo que, estou certo, vocês compreenderão.

Dito isso, inicio os trabalhos da Mostra mandando um abraço para o leitor (e colega de profissão) Alexandre, que encontrei na fila do Arteplex, e para o colega Celso Sabadin, que generosamente me encaminhou informações importantes sobre cabines de imprensa.

Quanto aos filmes do meu primeiro dia de evento…

01) A Morte de Pinochet (La muerte de Pinochet, Chile, 2011). Dirigido por Iván Osnovikoff, Bettina Perut.

Não é novidade que o sanguinário general Augusto Pinochet tinha (e ainda tem) sua parcela de admiradores fanáticos e de inimigos ferrenhos. No entanto, ao registrar imagens de fãs e opositores no dia da notícia de sua morte, este documentário dirigido por Iván Osnovikoff e Bettina Perut confere rostos, sentimentos e cuspe aos dois lados, humanizando paixões e ódios ao retornar a quatro de seus personagens algum tempo depois para ouvir o que têm a dizer sobre o ditador.

Com uma fotografia absolutamente magnífica de Pablo Valdés, A Morte de Pinochet conta muito sobre aquelas pessoas apenas através do uso de sombras ou da composição de seus quadros, seja ao trazer um sujeito solitário engolindo taças e taças de vinho na escuridão de um bar ou ao criar uma moldura florida para uma florista que lamenta ter perdido seu quiosque após o falecimento do general. Transformando até mesmo as casas de seus personagens em verdadeiros cenários que poderiam ter sido criados por um talentoso diretor de arte, o longa ilustra a admiração de um velho apoiador do regime militar ao trazê-lo cercado de fotos suas com Pinochet, ao passo que a bagunçada casa de um seguidor de Allende reflete, nos livros amontoados e no rádio envelhecido, sua própria aparência desgrenhada. Aliás, o filme é tão eficiente ao converter seus depoentes em figuras emblemáticas que até mesmo pequenas reencenações protagonizadas por eles surgem orgânicas em vez de enfraquecerem o aspecto documental do projeto.

Colocando a câmera nos entrevistados, Osnovikoff e Perut parecem querer investigar cada linha, mancha e dobra de pele daquelas pessoas, como se tentassem enxergar, de certo modo, suas almas – e a aproximação física entre documentaristas e documentados é tamanha que não só a lente é coberta pelo cuspe destes últimos como ainda conseguimos enxergar, em certo momento, a própria equipe de filmagem refletida na íris de um depoente. Por outro lado, ao se afastar para registrar as manifestações da multidão no dia da morte de Pinochet, a dupla de diretores cria um painel assustador dos contrastes entre aquelas reações: se de um lado temos celebração e carnaval nas ruas, de outro temos indivíduos lamentando a morte do general (um deles o chama de “meu Führer”, o que é bem revelador) e uma repugnante cantoria dos versos “Comunistas veados! Seus parentes morreram porque eram imbecis!”.

Infelizmente, embora o longa supostamente tente apenas registrar as reações sem comentá-las ou tomar partido, a impressão que fica é a de que, de uma maneira bastante sutil, os pinochetistas são retratados sob uma luz mais favorável – e basta observar que se entre seus defensores há um senhor articulado e emotivo e a ex-florista que comove ao relatar as dificuldades de sua família e ao agradecer à viúva de Pinochet por suas poucas posses, de outro temos um velho louco que se veste de Papai Noel para protestar e um alcoólatra que parece mais interessado em usar a morte do general como desculpa para beber do que qualquer outra, já que nem mesmo o nome do ditador ele parece saber (“É… Pinóquio?”, ele responde sem qualquer sinal de ironia).

Ainda assim, não há como negar que o filme traz vários momentos memoráveis criados pela inteligência dos cineastas, que não perdem a oportunidade de registrar imagens profundamente evocativas – como ao capturarem, no enterro de Pinochet, o exato momento em que o pôr do sol mergulha o rosto do cadáver numa sombra inescrutável. Além disso, a boa montagem cria paralelos interessantes ao saltar repetidamente, por exemplo, entre o relato da morte de Allende e o velório de seu algoz.

Mas ao tentar sugerir que o Chile divide-se praticamente meio a meio no que diz respeito ao “legado” de um canalha sádico como Augusto Pinochet, o filme não só diz uma profunda inverdade (algo grave em um documentário) como ainda põe em cheque toda a sua abordagem supostamente imparcial. E neste aspecto, não há fotografia, por mais bela que seja, que possa salvar o longa. (3 estrelas em 5)

 

02) Vulcão (Eldfjall, Islândia, 2011). Dirigido por Rúnar Rúnarsson. Com: Theodór Júlíusson, Margrét Helga Jóhannsdóttir, Þorsteinn Bachmann, Auður Drauma Bachmann.

Candidato da Islândia ao Oscar 2012, Vulcão é um filme extremamente sensível que comove não apenas pela delicadeza com que lida com seus personagens e os dilemas por estes vividos, mas também pela riqueza de seus quadros – e, neste sentido, não sei o que é mais surpreendente: constatar a juventude de seu diretor ou o fato de que este projeto marca sua estreia em longas metragens.

Escrito pelo próprio cineasta Rúnar Rúnarsson, o roteiro acompanha Hannes (Júlíusson), zelador de uma escola que, após 37 anos de trabalho, encontra-se prestes a se aposentar. Sisudo e defendendo uma postura severa para ganhar o respeito dos alunos, ele permanece isolado até mesmo em sua pequena festa de despedida – e o desconforto dos demais ao seu lado fica evidente nas breves tentativas de piadas feitas pelo diretor em um discurso improvisado e recebido com risos desanimados por todos. É somente ao ver-se sozinho em seu carro e prestes a ir para casa pela última vez que Hannes expõe sua dor ao espectador, já que, diante da esposa e dos filhos adultos, ele mantém a mesma postura distante e séria que adotou como estratégia profissional por tantos anos.

Assim, logo compreendemos o motivo por trás de seu desespero frente à aposentadoria: visto com frieza pelos filhos e até pelo neto pequeno, que o evita a todo custo, Hannes é o oposto de sua calorosa e amável esposa Anna (Jóhannsdóttir) – e, assim, o que lhe resta sem o trabalho? Exibindo um sorriso satisfeito apenas ao sair para pescar em seu pequeno barco, já que isto o leva a se sentir ainda útil e ativo (e a solidão da tarefa não atrapalha, claro), o sujeito acaba se descobrindo até mesmo sem esta última válvula de escape quando a embarcação começa a naufragar, obrigando-o a levá-la para casa a fim de tentar reparar os danos – o primeiro passo de uma série de incidentes que, culminando no derrame sofrido pela esposa, levam o protagonista a tentar abrir-se para o mundo. Isto, aliás, é o que há de mais comovente em Vulcão: o esforço do personagem em mudar sua postura não apenas por ver-se obrigado a fazê-lo, mas pelo desejo de se relacionar melhor com as pessoas – e as mudanças graduais e sutis experimentadas por Hannes são retratadas com talento e doçura pelo excelente Theodór Júlíusson.

Mas tão importante quanto a performance do ator é a riqueza da narrativa concebida pelo jovem cineasta: reparem, por exemplo, como Hannes surge literalmente despido no momento em que se dá conta da imagem que projeta aos filhos e percebam como isto reflete perfeitamente o sentimento de que ele se encontra – talvez pela primeira vez – completamente exposto e vulnerável. Da mesma maneira, Rúnarsson não perde a oportunidade de empregar a reforma do barco como uma metáfora da tentativa de Hannes de reconstruir a si mesmo, o que é admirável.

Adotando uma fotografia granulada que torna o universo do sujeito ainda mais triste e opressivo, Vulcão constantemente encanta pela riqueza simbólica de seus quadros, desde aquele que traz Hannes sentado sozinho em um banco de hospital enquanto seus filhos se encontram abraçados a alguns metros do pai até um outro que mostra o aposentado sentado na parte traseira do carro conduzido pelo filho, o que o infantiliza de forma evidente. Contudo, é mesmo na utilização brilhante dos reflexos que o cineasta se destaca – e há dois instantes, em particular, que já seriam o bastante para garantir nossa profunda admiração pelo diretor: aquele que enfoca Hannes recebendo do filho a notícia sobre a gravidade do estado de Anna enquanto esta é vista num reflexo difuso na porta, quase já como um fantasma, e o outro, absolutamente magnífico, que traz o protagonista visto pelo espelho e sentado no vaso sanitário, acuado e mergulhado num frio tom de azul, enquanto a maior parte do quadro é dominada por sua esposa, que dorme tranquila e banhada numa luz quente e agradável.

Enriquecido também pelo design de produção, que acerta ao cobrir as paredes da casa de Hannes com pinturas que remetem à sua ilha natal, o filme explora também as várias fotografias que trazem Anna e as crianças – retratos que, em certo momento, cercam Hannes e levam o espectador a enxergá-lo como um homem rodeado de memórias que, no entanto, insistem em excluí-lo.

Devastador ao retratar o estado de saúde de Anna, que alterna entre a sedação absoluta e um choro contínuo e sofrido que parece perfurar o coração do marido (e do espectador), Vulcão consegue ainda discutir com sensibilidade um tema tão complexo quanto a eutanásia sem reduzi-lo e sem parecer estar pregando – embora seja impossível acompanhar o sofrimento daquela mulher sem avaliar com cuidado o que faríamos no lugar de Hannes.

Se houver justiça no mundo, este Vulcão certamente deveria figurar – ao lado do iraniano A Separação entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2012. (5 estrelas em 5)

 

 03) Unidade 7 (Paviljoen 7, Holanda, 2011). Dirigido por Zoli Schwarcz.

Último recurso para os prisioneiros do sistema penitenciário holandês que exibem um comportamento violento de fundo psicótico, a Unidade 7 é um pequeno pavilhão que, contendo apenas meia dúzia de celas de isolamento, conta com uma equipe desproporcionalmente grande que ilustra não só o cuidado exigido para atender aqueles pacientes, mas também o perigo por estes representado.

Construindo sua narrativa a partir do cotidiano da equipe da Unidade 7, o documentário acompanha as reuniões dos psiquiatras e enfermeiros e também as sessões de terapia dos internos – conversas que frequentemente envolvem a presença de cinco pessoas diante do paciente apenas para garantir a segurança do terapeuta. Beneficiado por um acesso praticamente irrestrito ao pavilhão, o diretor Zoli Schwarcz ilustra a dedicação de uma equipe que, além da tensão constante inerente ao trabalho, é obrigada a dividir-se entre tarefas típicas de enfermeiros e outras que parecem mais apropriadas a faxineiros, já que eles mesmos devem lavar as celas constantemente emporcalhadas pelos presos desequilibrados que abrigam e cujos rostos o longa jamais revela.

Infelizmente, porém, a necessidade de proteger a identidade dos pacientes acaba funcionando como um problema em Unidade 7 ao impedir que estes sejam humanizados, transformando-se apenas em borrões de loucura diante dos rostos sempre visíveis dos funcionários do pavilhão. E este obstáculo incontornável, associado à falta de estrutura do filme, acaba comprometendo um documentário que, de outra maneira, poderia ter se tornado realmente memorável. (3 estrelas em 5)

 

04) Happy People: A Year in the Taiga (Idem, Alemanha, 2010). Dirigido por Dimitry Vasyukov e Werner Herzog.

Num pequeno vilarejo localizado ao lado do rio Yenisei, na Sibéria, residem cerca de 300 pessoas cujas vidas se encontram completamente sincronizadas às mudanças das estações, já que cada período traz consigo tarefas particulares que, desempenhadas por aqueles indivíduos, garantem sua sobrevivência por mais um ano.  Mergulhando naquela cultura por um ciclo completo, Happy People procura retratar um estilo de vida que, embora soando impossível ao espectador acostumado às conveniências da civilização, parece funcionar perfeitamente para aqueles homens e mulheres de aparência exausta, mas, sim, contentes ao seu próprio modo.

Vivendo em harmonia com o ambiente hostil ao seu redor, os caçadores retratados pelo documentário extraem da mesma natureza que os ataca as soluções para enfrentá-la – e, assim, se os mosquitos tentam devorar até os cachorros, as cascas das árvores oferecem uma saída ao serem cozidas e transformadas em eficientes repelentes. Aliás, é notável como a floresta ao redor do vilarejo parece fornecer tudo que aqueles indivíduos precisam, tendo sua madeira utilizada para a construção de esquis, canoas, armadilhas e até mesmo de ferramentas como cunhas que garantirão o corte preciso das árvores na direção correta de suas fibras.

Oferecendo imagens memoráveis como aquela que exibe toda a paisagem se movendo à medida que o gelo que cobria o rio Yenisei se desloca no sentido da correnteza, Happy People peca, por outro lado, ao permitir que a natureza repetitiva e monótona do cotidiano de seus personagens dite também o ritmo do filme, que eventualmente se torna igualmente cansativo quando testemunhamos pela milésima vez um caçador partindo uma árvore ou caminhando pela neve.

Além disso, embora se encaixe perfeitamente na filmografia de Herzog ao ilustrar como de costume sua obsessão por histórias que contrapõem Homem e Natureza, o longa parece nos apresentar não a uma obra típica do fantástico cineasta, mas a uma espécie de caricatura de Herzog, que aqui pode ser ouvido dizendo coisas como “O filhote nada em direção ao cervo. É uma caçada infrutífera, mas tentá-la ele deve”, o que o faz soar mais como Yoda do que como o brilhante diretor de O Homem Urso. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

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