In memoriam

Quando descobri sua existência, você já estava morta há uma semana.

Foi ao folhear um jornal que vi seu rosto feliz e sorridente me cumprimentar. Bonita e com um brilho intenso nos olhos, você parecia repleta de vida, sonhos e energia – algo que contrastava tragicamente com a moldura que destacava sua foto e um convite à missa de Sétimo Dia organizada em sua memória.

Por alguma razão, não consegui desviar os olhos de seu retrato: como num transe, estudei cada traço, cada detalhe, cada elemento que pudesse me dar uma pista de quem você foi. Nascida em março de 1985, você tinha 26 anos de idade quando deixou de existir – um destino cruel que a sua versão alegre da foto fazia soar ainda mais injusto. Será que ao posar para aquela imagem com tamanha felicidade passou por sua mente a assustadora possibilidade de que ela ilustraria o pior dos convites? Em algum instante de sua juventude invencível você considerou que jamais chegaria a deixá-la para trás?

Fechei o jornal depois de alguns minutos, mas não conseguia parar de pensar em você. O que a teria tirado do mundo? Teria sofrido em função de alguma doença lenta e sádica? Teria partido depois de padecer por alguns dias graças a um mal inexplicável? Morrera sem nem se dar conta do que acontecera em um acidente de trânsito? 

Quem foi você?

Tomado por um impulso inexplicável e inédito, posto que sempre fujo da morte (mesmo de desconhecidos), corri à Internet para tentar descobrir o que havia perdido – ainda que jamais houvesse tido a chance de tê-la em primeiro lugar. Digitei seu nome no Google e encontrei 412 pegadas de sua breve existência. Uma rápida história de quem você foi e do que começou a construir: seu nome na lista de aprovados para o curso de Direito de uma boa universidade, em 2002 (imaginei seu salto de alegria ao descobrir-se naquela relação); o convite online para sua formatura, anos depois (uma conquista que você certamente celebrou mesmo com um leve receio acerca das responsabilidades que sua vida adulta lhe traria); clippings com autos de processos que traziam seu nome, ao lado do título de “advogada”, já no início de sua atuação profissional.

Mas vi também fotos suas em festas, cercada por amigos e parentes: aqui, erguia dois dedos num sinal de vitória enquanto abraçava uma colega; ali, surgia dançando com um rapaz loiro que a segurava pela cintura. As imagens me conduziram até seu álbum no Orkut, que, intitulado “2011!!!”, indicava sua recepção calorosa àquele que seria seu derradeiro ano e que figuraria ao lado do símbolo fatal que apontaria a data de sua morte – uma realidade que, a julgar por sua euforia nos retratos ali contidos, provavelmente lhe pareceria impossível, uma piada de mau gosto, apenas um pesadelo distante.

Continuei minha busca por quem você foi: no Facebook, sua foto do perfil já fora trocada pela reprodução do chamado à sua missa de sétimo dia – uma tarefa simples que deve ter provocado uma dor indizível naquele que a executou. Ali, entre seus “interesses e atividades”, uma página de apoio a Serra que me fez lembrar de que não deveria idealizá-la, que me forçou a constatação de que, viva fosse, talvez não aprovasse minha defesa da candidatura Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, como descobrir sua adoração por Alexandre Dumas pai, Asimov e Machado e não flertar com a ideia de que nossos gostos literários similares contornariam nossas divergências políticas?

Mas não: o aviso de que você estava “em um relacionamento sério” apontava que outro homem já sonhara com você e a alcançara de alguma maneira. Senti uma ponta de ciúme ao pensar que ele tivera a oportunidade de conhecê-la, de encantá-la, de fazê-la sorrir, mas também me compadeci da dor que ele agora sentia por não tê-la mais ao seu lado, arrancada de seus braços por uma tragédia que, independentemente de sua razão, não deveria ter lugar em uma vida que durara apenas 26 anos.

Ao final, não descobri o que a levou ou mesmo quem você foi de fato, mas sofri por sua partida.

E por saber que o que resta de você agora são apenas as memórias daqueles que te amaram e os poucos traços que a Internet conservou de sua breve trajetória no planeta.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano

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