Lá e de volta outra vez

A escrita é fruto da prática. É como um músculo que, exercitado, se mostra capaz de carregar mais e mais peso; ignore-o, porém, e logo perceberá ter dificuldades para desempenhar tarefas antes consideradas fáceis.

Neste sentido, as redes sociais são como um sofá confortável e tentador no qual nos deitamos para um cochilo e, quando nos damos conta, doze horas se passaram: com sua natureza de gratificação instantânea, seja através de RTs ou de likes, elas seduzem também por sua efemeridade, já que, abrigando palavras que em pouco tempo ficarão no passado da timeline, estimulam certa preguiça na estruturação do texto. Um tweet, com seus 280 caracteres (ou mesmo uma thread), tem vida útil de pouco mais de meia hora, ao passo que um post no Facebook, mesmo durando um pouco mais, logo é enterrado pelo algoritmo do site.

O arquivo de um site ou de um blog, por outro lado, permanece vivo; algo embaraçoso publicado em 2012 pode ser encontrado com facilidade através não só do Google, mas das tags, da indexação por meses ou por uma navegação simples por páginas passadas. Irrelevantes ou não, os textos ficam – e ter consciência disso é um estímulo (ou uma coação) para construí-los com cuidado.

Meu primeiro blog – já chamado “Diário de Bordo” – surgiu em 2005 e, programado por meu irmão Daniel (numa era pré-templates e na qual o WordPress era tudo, menos intuitivo), logo se tornou uma de minhas plataformas favoritas. Se no Cinema em Cena eu tinha o espaço para críticas cinematográficas, no blog eu podia escrever sobre o que bem entendesse, incluindo reflexões sobre a Sétima Arte que não se encaixavam bem em lugar algum do site. Poucos anos depois, em 2008, fiz a transição para o WordPress (perdendo três anos de arquivos) e, entre junho daquele ano e julho de 2016, publiquei 1.751 posts, embora ao final estes surgissem cada vez mais espaçados.

Se antes, ao ter minha atenção capturada por algo, eu buscava desenvolver a ideia de modo cuidadoso e mais aprofundado, com o Twitter passei a disparar meia dúzia de tweets e considerar o serviço feito. Além disso, quando sentia ter mais a dizer, compunha de forma rápida um post no Facebook e clicava em “publicar”, sem encarar aquilo como algo que se tornaria parte de fato do meu histórico profissional, já que, na prática, estava produzindo conteúdo para um espaço que não era meu.

Pois agora resolvi caminhar na contramão: se vou escrever algo, que seja para um veículo que de fato me pertence; depender da boa vontade dos algoritmos da corporação de Zuckerberg é estupidez, é levar uma rasteira todos os dias e voltar a dançar perto de quem a aplica.

Assim, retomo este espaço com a esperança de que, além de tudo, me traga o estímulo necessário para escrever, escrever e escrever.

Se serei lido ou não, se aqueles habituados ao Facebook e ao Twitter se sentirão estimulados a passar por aqui com regularidade, bom… veremos. O que sei é que, destes 25 anos de estrada, quase 22 foram dedicados à construção do meu pequeno canto na Internet com o Cinema em Cena e este Diário de Bordo. E sinto que é hora de voltar a cultivá-los.

Ficarei feliz se tiver sua companhia.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Editorial, Sem categoria, Variados

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