A Promessa e a Realidade

O mundo hoje é um lugar pior do que era há 10 anos. É triste constatar isso, já que o ideal seria seguirmos num processo de melhora coletiva como espécie, mas negar o óbvio é impossível: em todo o planeta, governos com viés nacionalista, xenofóbico e autoritário vêm assumindo o poder graças a campanhas consistentes de demonização do que é “diferente”. Insuflar o ódio é mais fácil do que estimular o afeto – o primeiro envolve apenas fechar os olhos para o próximo; o segundo, investir numa relação que reconheça o próximo como igual.

Relendo posts que publiquei no Facebook há muitos anos com o objetivo de ver o que valeria a pena arquivar neste espaço renascido, fui tomado por uma melancolia crescente ao perceber como os problemas sobre os quais escrevia em 2012 hoje soam quase triviais se comparados aos que passaram a nos atormentar. Se antes havia meia dúzia de criacionistas querendo ver dinossauros e homens convivendo em dioramas em museus de História Natural, agora há milhares de terraplanistas insistindo que a negação de sua “teoria” é resultado de uma conspiração global – e, sim, usam a palavra “global” sem aparentemente perceber a ironia da situação.

Em 2012, Bolsonaro era uma aberração vista como tal; hoje, é uma aberração que ocupa a cadeira de presidente da república. Onde erramos? Como este futuro distópico virou presente?

Particularmente, deposito parte da responsabilidade sobre as redes sociais. Há (vários) outros fatores, é claro, mas tenho convicção de que espaços como o Facebook e o Twitter tornaram possível a coordenação de narrativas falsas usadas para despertar e inflamar o medo de boa parte da população, já que este frequentemente é seguido pela raiva. Medo da “ditadura gayzista“, do comunismo (como se tivéssemos retornado à década de 50), das “feminazis” que querem destruir o patriarcado, das minorias dispostas a tomar tudo dos homens brancos cis heterossexuais.

Minha queixa não é contra a Internet em si, percebam; a democratização da informação e a facilidade na comunicação obviamente trouxeram avanços indiscutíveis – e por alguns anos gloriosos, entrar na rede representava a possibilidade de descobrir o mundo, fosse”visitando” o Louvre e apreciando suas obras, fosse pesquisando em bases de dados antes fora de alcance. Se havia um ponto negativo reconhecido universalmente, este residia no baixíssimo nível dos comentários publicados em portais e sites e que todos reconheciam como o esgoto da web.

Pois as redes sociais serviram justamente para transformar os comentários no centro da Internet.

A partir daí, todos aqueles que viviam isolados na escuridão de seus porões repletos de intolerância puderam descobrir seus pares, empoderando-se mutuamente e passando a vomitar sua irracionalidade sob a luz do dia. Aos poucos, a desinformação se tornou estratégia destes grupos e, com isso, a maior virtude da rede se perdeu à medida que a mentira passou a ocupar o mesmo espaço dos fatos. A era da pós-verdade se estabeleceu e, no meio de toda a confusão, tudo perdeu a credibilidade. E se ninguém é mais fidedigno, aqueles capazes de gritar mentiras em maior volume ganharão.

E estão ganhando.

Como conceito, a Internet era a promessa de um mundo melhor; na prática, contudo, comprovou apenas que não éramos evoluídos o bastante para lidarmos com o poder que trazia.

Acho que nunca seremos.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Mundo, Política

12 Respostas para A Promessa e a Realidade

  1. Rodrigo Fernandes

    Acho que o que deu vida ao esgoto de comentários da web foi muito mais o zap do que qualquer outra rede. Ali os grupos formaram as confrarias de ódio, e a extrema direita soube surfar na onda como ninguém. Vi muita gente inteligente ser engolida pelo lance dos grupos de zap, pessoas que vc conseguia trocar uma ideia produtiva ao vivo, que aos poucos foram virando reprodutores de piadas de meme que rolavam no whatsapp. Triste.

    • Roger Maioli

      Isso pode ser verdade, mesmo. Uma coisa interessante, porém, é que o Whatsapp não tem a mesma presença em outros países que tem no Brasil. Eu moro nos EUA, e aqui as pessoas quase não usam. Mas o problema que você e o Pablo descrevem também existe — e existe no Facebook, no Twitter, no Reddit e em blogs e fóruns que funcionam como bolhas para o preconceito.

  2. Nicia Medalha Calaza

    Dói não poder contestar. Dizer: Pablo, Pablo, você está errado, nada é tão grave e sem saída? Como você, constato, imaginamos um caminho bacana, mas saiu o avesso do sonhado. Etica, e moralmente involuímos. O humano piorou. Aos 65 não verei a renovação deste ciclo. Ouvi de alguém: o mundo foi sempre assim. É verdade, a História confirma.
    Ainda vou às ruas exercer minha cidadania. No 15M e 30M vi uma grande quantidade de velhos mais velhos, uns com mais de 80, presentes pela Educação Pública, por respeito a si próprios, pela juventude linda que encheu de alegria a Avenida como bandos de passarinhos. Eles metecemsonhar, ter esperanças. A gente cai, levanta e segue. Pablo, os passarinhos têm de voar.

  3. Marco Antônio de Almeida

    Você mais uma vez fez uma análise perfeita. Também cheguei a essa conclusão.

  4. Luiz Felipe Pereira de Carvalho

    Antes de mais nada, que alegria nostálgica voltar a ler seus textos aqui do Diário de Bordo, praticamente onde te conheci. E depois de mais nada, o texto é tristemente perfeito. Abraço!

  5. Paulo Galindo

    Parabéns, Pablo. Nada tenho a acrescentar de substancial.

  6. Chandra

    Pouco tempo atrás fiz o mesmo comentário de que o mundo estaria pior. Meu interlocutor sabiamente me respondeu que eu estava errada. Parece que está pior, mas isso é porque pra cada salto evolutivo que damos em termos de sociedade, temos uma resposta reacionária forte e barulhenta, que nos confunde e coloca pra baixo. Porém, se analisarmos com frieza, o mundo está melhor, tanto em termos de ciência, como de tecnologia, de saúde, de sociologia, de antropologia, enfim, pode parecer que estamos retrocedendo mas é ilusão. Cabe enxergar isso pra assegurar que as vozes retrógradas não sejam ainda mais empoderadas pela falsa ilusão de vitória.

  7. Daniel Costa

    Umberto Eco: “As Redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”

  8. Larissa Brito

    Muito difícil lutar pela democracia hj em dia..

  9. Vanilde De Faria Geronimo

    A situação é desesperadora. Vamos espalhar amor , só empatia pode nos salvar

  10. Bruno

    Pablo, concordo com muito o que dizes no texto. A situação geral é muito ruim e, de fato, as redes sociais abriram a possibilidade de muitas pessoas darem vazão a seu lado mais negativo, agindo como não agiriam (na maioria das vezes) em contatos pessoais. Se me permites a sugestão (dada por quem não enfrenta essa avalanche de manifestações de ódio por que passas, admito), tenta ignorar as mensagens que não te trarão nada de útil. Repara que isso não significa não trocar ideias com pessoas de diferentes opiniões políticas e sociais. Acredito que na maioria desses temas polêmicos que tanto vêm polarizando a opinião pública nos últimos tempos, há argumentos interessantes e razoáveis em ambos os lados (e alguns intermediários) e que podemos ter diálogos produtivos com quem pensa o exato oposto da nossa posição inicial. O que tenho reparado é que ambos os “lados” se apegam ao que há de mais negativo e grotesco no outro, e o tomam como síntese de todo ele. Sou de esquerda, mas tenho grandes amigos e pessoas que admiro bastante que têm ideias bem diferentes. Quando converso com elas (de verdade, com real interesse em entender o modo como veem o mundo e porque pensam daquela forma), percebo que são bem intencionadas e que, embora todos queiramos um mundo melhor em geral, divergimos sobre a melhor forma de se chegar a esse resultado. Deste modo, percebo que, no fundo, convergimos em relação ao mais importante. Em relação à forma para se chegar ao resultado que todos queremos, procuro exercitar uma postura de não ter apego às minhas posições iniciais e estar sempre atento a todos os argumentos.
    PS: Parabéns pelo retorno do blog! Acompanho o cinema em cena (e o diário de bordo) desde a fundação e fiquei bem feliz com essa novidade!

  11. Eulalia Leite

    Atualmente tenho postado besteirol e críticas bobas no Facebook. Gostam deste tipo de matéria. Diante do Brasil que temos hoje, procuro entender tal opção. As pessoas querem distração. Vivemos períodos extremamente difíceis e tristes. Não sei quais as consequências de tanto desacerto. Nunca esperei viver quase 72 anos (completo no dia 15 de julho), para ver e viver neste Brasil de hoje. É triste constatar, mas minhas lutas foram em vão. Não sou nada nesta engrenagem que nos engole e teu vida.

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