Equívocos e Limites

Há um buraco no meu peito com o formato do Brasil.

É um vazio opressivo, que me angustia e me torna uma fração do que já fui. Um espaço oco, mas pesado, que me arrasta para o fundo de mim mesmo, que me afoga na consciência do muito que foi perdido e do que tanto que ainda será. Cada notícia inacreditável sobre a crueldade, o egoísmo e a desumanidade deste governo de sádicos adiciona algumas toneladas à âncora que me puxa para baixo.

Eu queria ser mais forte, creiam. Extrair ânimo do desastre, energia de cada ataque sofrido. Mas temo ter atingido meu limite. Despertar todos os dias se tornou um processo de pré-pânico diante do que descobrirei assim que me conectar à Internet. Qual terá sido a nova declaração odiosa do presidente? Qual elemento de suporte social terá sido desmontado agora? Que medida destrutiva terá sido implementada? Qual absurdo terá sido dito por algum ministro? Que desmando coordenado por figuras que deveriam prezar a Lei terá sido revelado?

O pior, contudo, é constatar como a lógica de intolerância, raiva e violência típica da família Bolsonaro vem contaminando o país como uma epidemia de preconceito, ignorância e rancor: indivíduos que serão alguns dos mais prejudicados pelo desmonte do Estado vomitam estupidez enquanto aplaudem a destruição do próprio futuro, convencidos que estão de que os interesses dos poderosos se alinham aos seus, de que se ao menos desejarem com muita força e se esforçarem bastante um dia farão parte da “elite” – falhando em perceber que as regras impostas por esta criam um campo desnivelado que torna o jogo injusto e impossível de vencer. O “mercado” – sempre prometendo que seus ganhos se tornarão aqueles dos mais vulneráveis, mas sempre falhando de alguma forma em cumprir o acordo – tem natureza sociopática; seu interesse único é o do lucro cada vez maior e que, por assim ser, jamais repassou ou repassará para a ponta seus ganhos. “Se desregularem as companhias aéreas, a passagem ficará mais barata”, “se desregularem as petrolíferas, o combustível ficará mais barato”, “se desregularem a telefonia, a Internet ficará mais barata”. E de novo e de novo e de novo tudo se torna mais caro, com pior qualidade e com menos alternativas.

Enquanto isso, os mais prejudicados pelo capitalismo selvagem gritam com ódio contra os “comunistas” e reproduzem mentiras repetidas por uma mídia controlada por aqueles que, minoria numérica, dependem da alienação da sociedade para conseguirem os votos que elegerão os representantes que atenderão os interesses da elite. “Comunista quer que todos sejam pobres”, “comunista quer pegar o que pertence a quem trabalha para entregar a quem nada faz”, “comunista não quer que ninguém tenha Iphone”, comunista isso e comunista aquilo. Porque o capitalismo, como sabemos, é um sistema justo que quer o bem de todos.

“Se o socialismo funciona, por que Cuba é pobre?”. E o Haiti é o quê? E por que metade da população mundial recebe menos do que 2,50 dólares/dia? (Aliás, 80% da população recebem menos de 10 dólares/dia.) Por que há cerca de um bilhão de crianças em situação de miséria no mundo? Por que um quarto da população mundial vive sem eletricidade? E mais de 800 milhões de pessoas passam fome?

E um dado curioso: entre 2002 e 2015, a desigualdade econômica no Brasil vinha caindo todos os anos, mas, de 2016 em diante (hum… o que será que aconteceu em 2016?), ela voltou a aumentar – e nos últimos dois anos, a renda da metade mais pobre da população caiu assustadoramente, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou consistentemente. Isso é sinal de que o capitalismo funciona?

(Só por desencargo de consciência, já que há muito desisti de dizer o óbvio, o socialismo não quer “tomar” dinheiro e propriedade de quem trabalha e nem quer que todos sejam igualmente pobres ou ricos – uma impossibilidade matemática. O que a esquerda deseja é diminuir a desigualdade a ponto de impedir que existam famintos, oferecer apoio à parcela da população que pouco tem (educação, saúde, infra-estrutura básicas) e criar condições para que alguém que nasceu na miséria possa sobreviver, estudar e melhorar de vida. A “meritocracia” é linda para quem nasceu com recursos, mas para quem se alimentou mal desde a infância e não podia estudar direito por estar desnutrido e doente, trata-se de um conceito de puro sadismo.)

Por que a esquerda se associa a pautas humanitárias enquanto a direita se preocupa com o “mercado”? Para mim, esta é a diferença ideológica essencial entre os dois campos – e aquela que me mantém lutando.

Ou tentando lutar. Porque estou, como já disse, no limite.

Ao contrário daqueles que vêm saltando do barco do bolsonarismo ou que saltaram do trem do ódio à esquerda depois de anos trabalhando para demonizá-la (e que agora se assustam diante do monstro da direita que criaram), minha batalha é antiga: fundei grêmio, dirigi D.A., militei em todas as eleições, me empenhei contra as canalhices de Aécio, lutei contra o golpe, fui às manifestações contra Bolsonaro, fiz campanha por candidatos de esquerda (de todos os partidos) e desde a vitória do cão venho me empenhando para denunciar seus horrores. Neste caminho, fui processado (por Aécio, inclusive), ameaçado, insultado e até mesmo atacado nominalmente pelo próprio presidente em todas as suas redes sociais. Comprometi minha carreira e minha saúde mental e física.

Antes que digam que estou tentando cantar minhas próprias virtudes, contudo, já me encarrego de dizer que é precisamente o contrário: se algo ficou claro é que minha jornada é de fracasso. Tudo isso para entregar aos meus filhos um mundo pior. Não sei como indivíduos tão medíocres intelectualmente conseguiram se sair vitoriosos, mas o fato é que Moro está aí, aparentemente imune a todas as evidências de suas ilegalidades reveladas pela VazaJato, e Bolsonaro segue demolindo o Estado, a democracia e a cultura apesar de já ter cometido diversos crimes de responsabilidade em apenas sete meses. A impotência diante de tudo isso não é uma sensação, mas uma realidade.

E se quem me acompanha sabe que sempre procuro encerrar meus textos com uma nota de otimismo, desta vez sinto em desapontá-las(os), mas o estoque aqui acabou. Nunca desistirei de lutar ou de denunciar o terror de Bolsonaro, mas já desisti de ter sucesso na empreitada.

Para ser sincero, mal estou conseguindo vencer o passar dos dias.

No entanto, mantenho os pés no chão e sigo caminhando. Por uma questão de sobrevivência, tento me convencer a me afastar um pouco do cotidiano do país e me concentrar no Cinema, mas me conheço o bastante para saber que esta é uma resolução que nunca dura muito tempo (se por consciência social ou por temperamento autodestrutivo, não sei).

De todo modo, peço desculpas se desaponto quem me lê. (Por outro lado, sou indiferente aos que celebram minha fragilidade; se há algo positivo em tudo isso, é que pareço ter finalmente aprendido a ignorar a opinião de canalhas.) Eu gostaria muito de ser mais resiliente, mas neste momento não consigo.

Se o Cinema antes era minha profissão, agora terá que ser meu salva-vidas. Por sorte, esta é uma função que a Arte sabe desempenhar bem.

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Update: se isto vai soar cínico ou oportunista, peço perdão e digo apenas para que ignorem, pois não é a intenção. Nunca adiciono essas coisas em meus textos, mas… enfim. CASO apreciem meu trabalho e o Cinema em Cena, convido a visitarem nossa página no Catarse em www.catarse.me/cinemaemcena. Mas caso prefiram ignorar isso, sem problema. Mesmo. Hesitei muito em acrescentar este “P.S.” e só o fiz algum tempo depois de publicar o texto porque… bom, sou assim.

postado em by Pablo Villaça em Política

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