Ágatha

Não há morte de criança que não seja uma tragédia – seja por acidente ou doença, acaso ou genética. No entanto, quando esta ocorre por ação do mesmo Estado que deveria protegê-la, à tragédia se junta a revolta.

Ágatha Félix tinha oito anos de idade. Mesmo vivendo uma realidade distante do conforto da classe média, certamente se divertia com brincadeiras infantis, curtia ver desenhos animados e colorir. Ficava amedrontada diante da agulha ao ser vacinada, empurrava com a língua os dentinhos de leite amolecidos para mostrá-los aos adultos e desejava poder brincar com as bonecas que via na tevê. Corria com as amiguinhas, ficava orgulhosa ao vestir uma roupinha nova e comemorava a nota boa da prova de matemática. Tinha sonhos agitados e cheios de aventuras, sentia-se feliz ao ganhar um abraço apertado dos pais, dos tios ou dos avós e pensava no que seria quando crescesse. Talvez tivesse medo do escuro e do estrondo de trovões. Talvez.

Mas indubitavelmente tinha medo do som de helicópteros.

É aí que a breve vida de Ágatha se distanciava das crianças de classe média: para estas, a visão de um aparelho que mesmo sem asas sobrevoava a cidade era algo quase mágico, uma curiosidade; para meninos e meninas como a pequena Ágatha, contudo, ele representava o prenúncio do pânico. Estivesse em casa, na rua ou na escola, a menina sabia que lá de cima viriam estouros capazes de destruir e matar. Ainda jovem demais para compreender que não deveria ser obrigada a viver aquele pesadelo, que sua realidade difícil era resultado de séculos de desigualdades motivadas pelos interesses egoístas de indivíduos e corporações que a viam como simples número, Ágatha provavelmente chorou de medo várias vezes, encolhida junto à parede ou sob a cama, enquanto esperava o ruído das hélices e das metralhadoras diminuir e desaparecer.

Enquanto meninas brancas de sua idade em bairros horizontais se preparavam para ir ao balé, à aula de inglês ou de natação, Ágatha aprendia a olhar para baixo ao avistar um policial fardado. Talvez ela imaginasse um futuro no qual seria médica, advogada ou presidenta, sem saber ainda como todos os seus caminhos estavam se tornando cada vez mais tortuosos e repletos de obstáculos à medida que qualquer programa de inclusão era desmontado por gente mais interessada em manter os privilégios de quem já tinha todos do que em oferecer qualquer apoio a quem não tem nenhum.

Ágatha deveria ter tido tempo de descobrir a vida e curti-la. Deveria estar aproveitando o sábado para brincar.

Em vez disso, está numa mesa de metal do IML com um rombo em suas costas diminutas causado pelo tiro de um policial militar aplaudido por um governador sociopata. Até o fim do dia, ela estará debaixo da terra e terá deixado um vazio no coração de seus pais que solidariedade alguma será capaz de preencher.

A morte de Ágatha é a morte do Brasil, um país controlado por “cidadãos de bem” que se certificam de que seus pobres assim permaneçam e que, por desprezá-los e se negarem a enxergar sua humanidade, os tratam como inimigos.

Eu queria poder acreditar que Ágatha agora é um anjinho; é com desespero que reconheço, porém, que é apenas uma estatística.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano

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