Festival de Tribeca 2011 #03

Direto ao assunto:

7)    Treatment (Idem, EUA, 2011). Dirigido por Sean Nelson e Steven Schardt. Com: Joshua Leonard, Sean Nelson, Ross Partridge, Jessica Makinson, Chris Caniglia, John Hodgman, Robyn Hitchcock.

Julgando-se claramente mais inteligente do que é na verdade (não muito), Treatment é mais um subexemplar do subgênero “indie mumblecore” que, inspirado por John Cassavetes (mas sem uma molécula de seu talento), busca extrair charme do improviso absoluto, substituindo diálogos bem construídos por murmúrios muitas vezes incompreensíveis (daí o termo “mumblecore”), a decupagem cuidadosa por planos rodados com descaso e o desenvolvimento de personagens pela aposta em relações disfuncionais tão clichês quanto uma explosão num filme de Michael Bay.

Co-dirigido por Steven Schardt e Sean Nelson (que também co-protagoniza o projeto, usando milhares de vezes a expressão “Well, I mean…”), Treatment gira em torno do aspirante a cineasta Leonard, que, determinado a convencer o astro Gregg D (Partridge) a participar de seu novo projeto, finge ser viciado em drogas para se internar na mesma clínica na qual o sujeito se encontra – e, no processo, acaba se tornando realmente dependente químico, destrói sua amizade com o velho parceiro de trabalho (Nelson) e se interessa por uma bela psiquiatra.

Batizando os personagens principais com os nomes de seus intérpretes, como se isto tornasse a produção mais “autêntica”, o longa é visualmente patético, adotando o close como regra e permitindo que os planos entrem e saiam de foco propositalmente com o objetivo de evidenciar o caráter “independente” (neste caso, leia-se: tosco) da obra. Além disso, a trilha revela-se apenas irritante, ao passo que o roteiro limita-se a criar piadinhas que depois são comentadas pelos próprios envolvidos (em certo momento, por exemplo, Leonard se aproxima de um grupo para comprar drogas e descobre que abordou integrantes dos Narcóticos Anônimos – uma piada tola que logo é salientada por Nelson: “Não acredito que você perguntou para os Narcóticos Anônimos onde poderia comprar drogas!”).

Como se não bastasse, o filme traz um protagonista absolutamente detestável que, vivido por Joshua Leonard (A Bruxa de Blair) como um sujeito egoísta, imaturo e picareta, é apresentado como alguém sensível e sonhador, chegando a fazer um discurso patético durante a terapia de grupo que inexplicavelmente provoca a admiração de todos os companheiros da clínica.

Eu, por outro lado, torcia por uma overdose que o matasse logo, poupando-me do desprazer de assistir ao restante desta bobagem. (1 estrela em 5)

 

8)    Bombay Beach (Idem, EUA, 2010). Dirigido por Alma Ha’rel.

Bombay Beach é um documentário estranho: dividindo-se em três linhas narrativas que acompanham um velho “profeta”, um adolescente que tenta se afastar do passado ligado a gangues e um garotinho bipolar, o longa ao mesmo tempo reforça os estereótipos associados aos rednecks (caipiras do sul dos EUA) e apresenta facetas diferentes do habitual ao apresentá-los, criando uma narrativa envolvente e tocante que, mais do que acompanhar as vidas de seus personagens, leva o espectador a mergulhar de fato naquele universo.

Comunidade miserável e afastada dos grandes centros urbanos da Califórnia, a Bombay Beach do título serve de palco a vários dramas pessoais narrados pela diretora Alma Ha’rel com delicadeza e sem pré-julgamentos: sim, o velho Red manifesta um preconceito odioso ao se colocar contra a miscigenação racial, mas, por outro lado, parece conviver sem problemas com a população negra de sua vizinhança (um estacionamento de trailers) e leva uma vida atípica com suas três namoradas (uma delas, uma velhinha que mal consegue caminhar). Da mesma maneira, CeeJay é um rapaz romântico e de bom coração que sonha em conseguir uma bolsa para a faculdade, mas cujo passado associado à violência deixou uma marca indelével em sua personalidade (algo ilustrado pelo vídeo caseiro que traz imagens do enterro de seu primo, morto por uma gangue rival). E se os pais do pequeno Benny Parrish demonstram preocupação e cuidado com sua saúde mental, o fato é que certamente ajudaram a comprometê-la ao serem enviados para a prisão, anos antes, ao serem flagrados com uma quantidade monstruosa de armamentos e explosivos.

Povoado por rostos tristes, magros e desdentados, Bombay Beach não procura maquiar a triste realidade daquelas pessoas deprimidas e deprimentes – e, assim, mal nos surpreendemos quando, ao passear com a mãe pela vizinhança, Benny casualmente se abaixa para pegar um objeto brilhante no chão, descobrindo tratar-se de uma bala de revólver. O menino, aliás, acaba se revelando o verdadeiro protagonista do documentário, partindo o coração do público, por exemplo, ao responder a pergunta da mãe sobre o que será quando crescer com um simples “Esquisito” (uma resposta que leva sua mãe a retrucar sem tato algum: “Eu perguntei o que vai ser!”).

Trazendo Bob Dylan como um de seus produtores executivos e também como um dos nomes presentes na boa trilha, Bombay Beach representa uma experiência quase onírica durante boa parte do tempo, remetendo mais a alguma viagem de David Lynch do que ao mundo real. Uma pena, portanto, que o sofrimento ali retratado seja inquestionavelmente verídico. (4 estrelas em 5)

 

9)    The Bully Project (Idem, EUA, 2010). Dirigido por Lee Hirsch.

Não há como negar: o bullying se transformou em um problema sério nas escolas de todo o mundo. Ganhando força graças às redes sociais e à Internet de modo geral, que agora permitem que o assédio moral ultrapasse as fronteiras da escola e persiga suas vítimas em suas casas, esta intimidação constante de crianças e adolescentes considerados “diferentes” ou apenas “fracos” freqüentemente é difícil de ser detectada por nem sempre envolver agressões físicas, deixando, em vez disso, marcas psicológicas muito mais profundas e graves. Como resultado, o número de suicídios em razão do bullying passou a crescer exponencialmente.

Concebido como forma de chamar a atenção para o problema e de divulgar o projeto que lhe dá título, o filme acompanha algumas crianças em diferentes estados norte-americanos, concentrando-se principalmente no pré-adolescente Alex: desajeitado, retraído e com um visual pouco atraente, ele encara uma rotina diária de socos, tapas, empurrões e ofensas que começa no ônibus escolar no caminho de ida para a escola e só termina ao descer em sua casa ao final do dia. E é aí que percebemos que o garoto se transforma, mostrando-se inteiramente à vontade ao lado da família, rindo e brincando como qualquer criança e estabelecendo um forte contraste com o menino que, há alguns minutos, tentava se esconder apavorado atrás do banco do ônibus.

Um dos pontos fortes de The Bully Project, aliás, reside justamente nas imagens obtidas pelo diretor Lee Hirsch, que, através de câmeras escondidas, consegue capturar o cotidiano infernal de seus personagens com uma clareza impressionante. Além disso, o cineasta também é hábil ao ilustrar o dia-a-dia familiar daquelas crianças, obviamente deixando as famílias confortáveis com sua presença a ponto de levá-las a se comportar com uma naturalidade admirável diante das lentes. Como se não bastasse, as entrevistas feitas por Hirsch buscam revelar a forma como aquelas pequenas vítimas processam o bullying – e é devastador notar, por exemplo, como o contido Alex discute os abusos sofridos com imenso auto-controle apenas para trair o impacto de suas experiências através de um tremor nos lábios que revela, num segundo, a força que está fazendo para não se entregar às lágrimas.

Da mesma maneira, The Bully Project não ignora o preconceito sexual como fator importante destas agressões, expondo também as agressões dirigidas à adolescente Kelby, que, lésbica assumida, chegou a ser sexualmente molestadas pelos atletas de sua escola (e mesmo atropelada por outros alunos) sem que os responsáveis pela instituição demonstrassem qualquer intenção de punir os culpados. Aliás, esta passividade por parte de diretores e professores é o que leva a jovem Ja’Meya, de 14 anos, a tentar colocar um fim à tortura que vinha sofrendo há anos – e ao apontar uma arma para seus agressores, acaba sendo presa, correndo o risco de passar o resto da vida na cadeia.

Mas o mais inacreditável é que, ao focar também os esforços da diretora da escola na qual Alex estuda, o filme expõe de forma inquestionável o absoluto despreparo daqueles que deveriam combater o problema: dizendo-se incapaz de resolver a questão (mas sempre prometendo “cuidar do assunto”), a mulher chega ao ponto de repreender uma vítima de bullying por não aceitar as desculpas de seu agressor pego em flagrante, dizendo que aquilo torna o garoto “tão culpado quanto o outro”. E chega a ser hilário testemunhar o instante em que, ao ouvir as queixas dos pais de Alex, ela usa a conversa como desculpa para exibir as fotos do neto recém-nascido.

Adotando uma postura nada passiva (algo relativamente incomum durante a realização de documentários do tipo), o diretor Lee Hirsch – ele próprio, vítima de bullying na infância – finalmente interfere na história de um de seus personagens ao assustar-se com o grau de violência ao qual Alex passa a ser submetido, quando, temendo pela segurança do garoto, decide mostrar as imagens para os pais do menino e os diretores da escola – algo que, não surpreendentemente, pouco efeito provoca no cotidiano torturado do garoto.

Acompanhando também os esforços das famílias de duas vítimas de assédio escolar que acabaram se matando em função disso (o adolescente Tyler e o pequeno Ty, de apenas 11 anos de idade), The Bully Project é, para qualquer pai, um verdadeiro filme de terror – com a diferença que seus vilões têm a aparência tão inofensiva quanto às de suas vítimas.

O que, claro, apenas os torna ainda mais ameaçadores. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos

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