Festival de Tribeca 2011 #01

Direto ao assunto:

1)    Apflickorna ou She Monkeys (Apflickorna, Suécia, 2011). Dirigido por Lisa Aschan. Com: Mathilda Paradeiser, Linda Molin, Isabella Lindquist, Sergej Merkusjev, Adam Lundgren, Kevin Caicedo Vega.

As garotas vistas no sueco Apflickorna transformaram a auto-disciplina em uma quase obsessão. Já na primeira cena do filme, quando acompanhamos a jovem Emma (Paradeiser) treinando seu cão, percebemos a rigidez em seus movimentos e a determinação em manter o animal sob controle – um traço que parece tentar impingir também à sua irmã caçula, Sara (Lindquist), que surge como uma criança aparentemente sempre prestes a desmoronar diante das próprias preocupações.

Escrito pela diretora estreante Lisa Aschan e por Josefine Adolfsson, o roteiro é beneficiado pela autoria feminina ao lidar com o universo feminino e suas crises particulares, desde o despertar da sexualidade à necessidade de aprender a lidar com os avanços masculinos nem sempre respeitosos ou sutis. Novata em uma equipe de malabarismo sobre cavalos (não me perguntem o nome do esporte), Emma rapidamente torna-se próxima da bela Cassandra (Molin), cujo interesse em treiná-la mal esconde o interesse obviamente sexual que esta nutre pela colega. Enquanto isso, a pequena Sara, intimidada pelas mudanças em seu corpo, apaixona-se pelo primo Sebastian (Veja), que, bem mais velho, não parece perceber o interesse da criança.

Usando o esporte praticado por Emma e Cassandra como metáfora da necessidade de disciplina e auto-controle que estas jovens mulheres adotam como filosofia de vida, o longa depende pesadamente da atuação contida da protagonista – e Paradeiser, também estreante, corresponde ao encarnar Emma como uma adolescente de expressão impassível que faz a mais absoluta questão de esconder seus sentimentos de todos que a cercam. Com isso, os avanços sutis de Cassandra tornam-se fonte de constante tensão, já que jamais sabemos de fato se estes serão correspondidos pela moça ou não – especialmente considerando que há uma agressividade subjacente na relação da dupla manifestada pela rigidez dos treinamentos e por alfinetadas mútuas (e é interessante observar como Aschan transforma os exercícios das jovens em uma espécie de ritual de acasalamento).

Sara, por sua vez, é vivida pela pequena Isabella Lindquist com uma vulnerabilidade admirável – e não há como negar que o filme ganha sempre que a menina encontra-se em cena, já que sua subtrama é infinitamente mais interessante e tocante do que a da protagonista. Combinando a fragilidade da infância com a insegurança da pré-adolescência, Sara tem o curioso hábito de sempre levar uma chave inglesa para a cama, traindo assim seus impulsos violentos (de auto-defesa, talvez?), o que, por sua vez, torna ainda mais triste (mesmo que bonitinho) vê-la ensaiando uma dancinha sensual para sua paixão sem, claro, perceber que esta apena expõe ainda mais sua inocência.

Conduzindo com segurança a narrativa, Lisa Aschan se sai especialmente bem ao usar as locações bucólicas como símbolos constantes da inquietação das personagens, acertando também ao concentrar-se nos constantes planos-detalhe que salientam os toques entre as personagens, que se abraçam, se acariciam ou se agridem durante toda a projeção. Além disso, a bela e inteligente fotografia (o plano no qual Emma abraça seu cão no centro de um quarto escurecido é magnífico) e a trilha sonora que investe em acordes dissonantes merecem aplausos, ainda que o desfecho desaponte pela fragilidade.

Fragilidade esta, diga-se de passagem, compartilhada pelos homens vistos ao longo da produção, que, como o cão treinado pela protagonista, parecem adestrados e submissos diante da sexualidade das garotas. Que, interessadas ou não, se divertem imensamente ao explorar esta fraqueza. (3 estrelas em 5)

 

2)    The Trip (Idem, Inglaterra, 2010). Dirigido por Michael Winterbottom. Com: Steve Coogan, Rob Brydon, Margo Stilley, Claire Keelan, Paul Popplewell, Dolya Gavanski, Rebecca Johnson.

“Tudo é exaustivo na nossa idade”, diz Steve Coogan (interpretando a si mesmo – ou uma versão de si mesmo) em The Trip, sua terceira parceria com o diretor Michael Winterbottom. Concebido como uma série para a tevê britânica e agora lançado em uma nova versão para o cinema, o longa traz o comediante ao lado do colega Rob Brydon, acompanhando a dupla em uma viagem de cinco dias pela Inglaterra enquanto visitam e avaliam vários restaurantes para um artigo de jornal, entregando-se a longas e divertidas conversas ao longo do caminho.

Sem receio de abraçar uma persona egocêntrica e quase antipática e apresentá-la como seu verdadeiro rosto, Coogan surge aqui como um sujeito que insiste em ser hospedado no maior quarto mesmo que vá passar apenas uma noite no hotel, mas que, em particular, exibe uma grande vulnerabilidade ao discutir com os amigos e com os agentes seu futuro artístico, já que as propostas vêm rareando (ou, como ele lamenta em certo momento, sendo direcionadas apenas ao conterrâneo Michael Sheen). Em contrapartida, Rob Brydon se estabelece como um amigo dedicado, um marido e pai amoroso e como um homem capaz de rir de si mesmo – basicamente o oposto de seu companheiro de viagem.

Obviamente construído a partir de longos improvisos da dupla, The Trip foca sua atenção nas conversas repletas de trivialidades de Coogan e Brydon, que, através de suas piadas, imitações e discussões, revelam bastante sobre suas personalidades e se entregam a uma divertida competição regada a tiradas absurdas, mas geralmente eficazes (e vê-los disputando com as vozes de Woody Allen e Michael Caine ou bancando o Blofeld já vale a projeção).

Intercalando estas conversas com seqüências que acompanham a preparação dos rebuscados pratos servidos à dupla (e que, nada de entendendo de culinária, apenas ressaltam o desperdício dos esforços dos chefs), o filme peca pela obviedade, aqui e ali, ao questionar a análise crítica direcionada a qualquer elemento que julgue capaz de provocar alguma reação visceral – algo que fica claro, por exemplo, quando os personagens lêem críticas contraditórias relacionadas a um restaurante ou quando um sujeito arruína o contato de Coogan com a natureza ao dissertar sobre a formação geológica da região. Por outro lado, é interessante como Winterbottom constantemente foca o protagonista sendo obrigado a buscar pontos isolados para encontrar sinal telefônico, num comentário sutil sobre sua solidão disfarçada pela fama.

É uma pena, portanto, que o filme soe tão episódico e sem estrutura – algo quase inevitável considerando-se sua origem. Assim, quando inclui uma ponta de Ben Stiller ou emprega intertítulos para indicar a passagem do tempo, The Trip tropeça na falta de fluidez, salvando-se apenas graças às tentativas constantes de Coogan e Brydon de provocarem o riso um no outro – um esforço que acaba beneficiando sempre o espectador. (3 estrelas em 5)

 

3)    Like Water (Idem, EUA, 2011). Dirigido por Pablo Croce. Com: Anderson Silva.

Eu não sabia praticamente nada sobre o lutador Anderson Silva antes de assistir ao documentário Like Water. Apesar de ter acompanhado sua rápida luta contra Vítor Belfort, na qual derrubou o oponente com um chute ainda no primeiro round, Silva me pareceu apenas mais um brutamontes descerebrado que decidiu transformar em ganha-pão seu interesse em socar estranhos. Pois após a projeção, eu já havia me juntado à legião de admiradores do “Spider”.

Dirigido por Pablo Croce, o filme já surpreende a partir do momento em que Anderson abre a boca pela primeira vez e escutamos a voz calma e ponderada de um homem que, devotado à família e aos amigos, permanece casado com a namorada da adolescência e sofre ao ser obrigado a permanecer longe dos filhos durante os vários meses exigidos por seu árduo treinamento. Demonstrando imenso respeito pelas artes marciais (sua humildade diante de Steven Seagal chega a ser divertida), Silva considera-se um discípulo de Bruce Lee, que, não por acaso, abre a projeção em uma entrevista que explica o título do projeto, sendo seguido por outras imagens de arquivo que, trazendo momentos das lutas do protagonista, pinta rapidamente sua ascensão no Ultimate Fighting até chegar ao combate com Demian Maia, que gerou várias críticas pelo aparente descaso demonstrado pelo lutador.

E é aí que Like Water encontra sua estrutura: focando nos ataques na mídia sofridos por Silva, o documentário concentra-se em sua preparação para a luta seguinte contra Chael Sonnen e que passa a ser encarada não só como grande desafio, mas como a chance do UFC se livrar de um astro que se recusava a promover o evento com a presteza desejada pelo chefe do campeonato, Dana White. Assim, Croce e sua equipe ganham acesso quase irrestrito a treinamento do Aranha, que surge assistindo a lutas antigas do oponente e condicionando seu corpo até mesmo a receber pesados golpes (cuja força o diretor ressalta de forma simples e eficaz ao tremer a câmera a cada soco desferido pelo sparring). Além disso, ao longo dos 60 dias de preparação Anderson tem a chance de discutir vários aspectos de sua formação como lutador e suas preocupações com o futuro e com a família, estabelecendo-se, no processo, como um homem simpático e admirável.

Mas se o propósito do filme é pintar o lutador com as melhores tintas possíveis, isto se torna ainda mais óbvio ao percebermos que Sonnen é retratado como um vilão unidimensional: se Silva treina em um pequeno ginásio cercado pelos amigos, por exemplo, o norte-americano aparece no imenso e luxuoso centro de treinamentos da Nike. No entanto, o próprio desafiante se encarrega de destruir a própria imagem ao insistir em provocações baratas, insultos absurdos (dirigidos a Silva e ao Brasil) e ao não hesitar nem mesmo em criticar o ciclista Lance Armstrong por ter “bancado o coitado” ao anunciar ter câncer – e, desta forma, fica difícil condenar Like Water de maniqueísmo, já que Sonnen é claramente um imbecil.

Fascinante ao revelar os bastidores do UFC e do cotidiano dos lutadores (há uma cena especialmente divertida na qual vemos o cinturão do campeão na esteira de raios-X de um aeroporto), o filme só desaponta ao expor a artificialidade de alguns planos, como, por exemplo, aquele em que a câmera supostamente espia Silva rezando através de uma porta entreaberta – algo obviamente armado (e a narração do lutador nos momentos finais, embora se apresentando como um depoimento espontâneo, também peca pela falsidade). Ainda assim, é impossível manter-se impassível diante da imagem de um homem que, mesmo atacado de maneira baixa por com um adversário, faz questão de ajoelhar-se diante deste, expondo não só um senso esportivo irretocável como um imenso caráter. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos

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