Preto Velho, modelo temperamental

Sempre que venho a Salvador, vou ao Pelourinho – e como tenho parentes por aqui, isto ocorre com certa freqüência. No entanto, jamais me canso daquele espaço histórico, maravilhoso, colorido, que combina a imponência dos séculos e a miséria absoluta. Faz parte da experiência de ir ao Pelourinho olhar para um lado e perder o fôlego diante da beleza castigada da região apenas para olhar na direção oposta e perder o fôlego diante da tristeza de ver um “sacizeiro” (como são chamadas aqui as crianças viciadas em crack) tentando descolar trocados para comprar mais uma pedra que contribuirá para mandá-lo jovem para debaixo da terra. É um espetáculo trágico ambientado num palco de cores belas.

Mas divago.

O fato é que todas as vezes que vou ao Pelourinho, sou atraído pela figura marcante de um senhor que, sempre sentado na mesma posição do lado de dentro de uma janela, parece observar a vida com uma indiferença (ou cansaço) curiosa, sem jamais se esforçar para vender o rapé que a placa diante de si anuncia com tamanha pompa. E considerando a insistência de todos os representantes do comércio local, só isto já seria o bastante para torná-lo ímpar. Mas há mais: sua própria figura parece exalar uma autoridade antiga de quem viu muito e sabe muito, transformando sua indiferença não em apatia, mas em uma espécie de exaustão vinda de alguém que já sabe há décadas que não há solução para a natureza humana.

Ou talvez eu esteja romantizando tudo e a simples verdade seja a de que ele tem um rosto muito bacana.

De todo modo, sempre que o via ali, sentia vontade de fotografá-lo. Em 2009, quando ainda tinha uma câmera fraquinha, arrisquei-me até a registrá-lo de longe, mas a qualidade da imagem, claro, era terrível. Assim, desta vez não pensei muito antes de me dirigir à ruela na qual sempre o encontrei – e à medida que me aproximava, senti o coração disparar com medo de não encontrá-lo mais ali. Talvez ainda não tivesse chegado. Talvez tivesse mudado de lugar. Talvez tivesse morrido.

Ele estava na mesma janela de sempre. E em sua aparentemente estatuesca posição. Respirei aliviado.

Comecei a pensar em como fotografá-lo. De modo geral, não gosto muito de fotografar pessoas, mas quando alguém me interessa, tento fazer um registro sem que o “modelo” perceba, já que detesto fotografias nas quais o retratado olha para a câmera de forma artificial. É o movimento natural do cotidiano que me atrai, fotógrafo amador que sou. Posteriormente, posso até me aproximar da pessoa e perguntar inocentemente se ela se importa que eu a fotografe (algo que raramente é negado, o que acho curioso) – e já com a autorização, simplesmente bato uma foto para atirá-la na lixeira digital, já que a imagem que me interessava já havia sido capturada.

Com isso em mente, entrei na loja em frente à janela do senhor, que se identificava na placa como “Preto Velho”, para tentar fotografá-lo sem que visse. Expliquei minha intenção para a vendedora, que me alertou:

– Então tome cuidado mesmo para que ele não veja, porque ele fica bravo quando tiram foto dele.

Era o que eu não queria ouvir. Porque agora, sabendo que ele não gostava de ser fotografado, eu não me sentia mais à vontade para tirar a foto sem permissão. A saída seria obter uma.

Aproximei-me do Preto Velho:

– Tudo bom com o senhor?

– Tudo.

– Bacana, a loja do senhor.

– …

– O senhor vende só rapé?

– E cigarro.

– Ah. Hum. (…) Vejo sempre o senhor por aqui. Está aqui há muito tempo, né?

– 95 anos.

E aí soltei uma expressão tipicamente mineira que, em retrospecto, foi um erro grotesco:

– Mentira!

– Por que eu iria mentir que tenho 95 anos? – respondeu ele, já irritado.

– Não… não foi isso… eu… não, não. É que… o que eu quis dizer é que o senhor não parece ter 95 anos. Eu… não daria mais de 70 para o senhor! É isso!

– …

– Meu nome é Pablo. – falei, estendendo a mão. Ele a apertou com preguiça.

– Meu nome é Domingos.

– Prazer em conhecê-lo, seu Domingos.

– …

– Então. O senhor… é… quanto é o rapé?

– 25 reais. – informou ele, pegando um vidrinho minúsculo. Por este preço, imaginei que o rapé fosse de ouro.

– 25 reais?

– É, mas isso aqui cura tudo.

Ele despejou o pó na palma da mão direita e, com dois dedos da mão esquerda, pegou um punhado do farelo e enfiou nas narinas. Em seguida, apanhou mais um bocado e estendeu a mão para enfiar o rapé no meu nariz. Pego de surpresa, recuei num susto.

Ele me olhou com indiferença.

– Eu… agradeço muito, seu Domingos, mas não cheiro rapé. Eu não cheiro nada, na verdade. Quer dizer… bom… nada, nada, não. Claro que cheiro outras coisas. Quero dizer… perfume, essas coisas. Eu tenho olfato, é o que eu quero dizer. Mas… hum.. rapé eu não… (suspiro exausto)

Desastre. Eu havia me transformado num idiota incoerente. Ele devia estar perdendo a fé nas gerações mais jovens num ritmo exponencial, agora.

Decidi me arriscar.

– Posso tirar uma foto do senhor?

– Não.

– (…) Por que, seu Domingos?

– Só se você comprar rapé. Aí eu te deixo tirar uma foto.

– Mas, seu Domingos, eu não cheiro rapé.

– Então sem foto.

– O senhor não tem nada mais barato aí, não?

– Não. Só rapé.

Pensei em desistir. Mas… 95 anos de idade. Eu não podia.

– E se eu pagar… não sei… dez reais para o senhor só para tirar uma foto?

Sem olhar na minha direção, ele respondeu imediatamente:

Uma foto.

Vitória.

– Errr… o senhor tem troco para vinte?

Ele me encarou com olhar assassino, mas me entregou uma nota de dez.

Afastei-me da janela tenso. Tentei encontrar a melhor posição, o melhor quadro, o melhor tudo rapidamente, antes que ele mudasse de idéia. Turistas e locais atravessavam na minha frente dificultando o trabalho. Ajustei a luz, a exposição, o quadro e disparei. Sem pensar, fiz o que qualquer um na minha posição faria automaticamente e me preparei para uma segunda foto.

– Não!

– Hein?

– Você já tirou a foto. Era uma só.

– Mas seu Domingos…

Mas ele já havia coberto o rosto com a mão e virado na outra direção. Sem se virar para mim, acenou um “vá embora”.

Derrotado e finalmente descobrindo como os fotógrafos que tentam trabalhar com Naomi Campbell se sentem, enfiei a câmera na bolsa e me afastei.

E descobri que, curiosamente, agora amava um pouco aquele velhinho.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Fotos, Variados, Viagens

49 Respostas para Preto Velho, modelo temperamental

Adicionar Comentário