Mostra de São Paulo 2010 – Dias 06 e 07

Abraço grande ao ex-aluno Leonardo (que fez a edição de maio de 2009) e ao meu querido amigo João Papa, com o qual estou desenvolvendo um projeto que, espero, vocês irão apreciar. Aproveito também para mandar um beijo para a ex-aluna Samantha, que veio de Natal para a Mostra.

Esclareço, ainda, que fui obrigado a desabilitar temporariamente os comentários do blog depois que mais de 3 mil comentários de spam foram publicados por um robô em menos de 24 horas. Espero encontrar uma solução em breve para o problema, mas, até lá, nem mesmo comentários moderados estão sendo permitidos, já que o spam lotaria o sistema do blog do mesmo jeito.

E vamos aos filmes:

25) Hermano (Idem, Venezuela, 2010). Dirigido por Marcel Rasquin. Com: Eliú Armas, Fernando Moreno, Marcela Girón, Beto Benites, Gonzalo Cubero, Alí Rondon.

Em certo momento de Hermano, pré-candidato da Venezuela ao Oscar 2011, os irmãos vividos por Eliú Armas e Fernando Moreno surgem sentados num terraço enquanto a câmera revela, abaixo deles e estendendo-se em todas as direções, a gigantesca favela na qual vivem – um plano de tirar o fôlego não só pela escala da miséria que revela, mas por apresentar de forma literal o universo de tristeza que ambos querem deixar para trás usando o talento que possuem no futebol como rota de fuga.

Amigos e companheiros de time, Júlio (Armas) e Gato (Moreno) dividem um pequeno barracão com a mãe, por quem têm admiração irrestrita e que apóia os garotos de forma entusiasmada em todas as partidas disputadas pelo campeonato inter-bairros da cidade. Quando um olheiro do Caracas convida os rapazes para um teste, tudo parece se encaminhar na direção desejada pela família – até que uma tragédia envia os irmãos em direções opostas e Gato passa a se esforçar para que Júlio não se perca de vez no universo da violência.

Extraindo sua força da dinâmica entre os dois ótimos atores principais, Hermano retrata com habilidade a relação entre os irmãos, que, sempre competindo entre si de maneira amigável (mas nem por isso menos intensa), surgem como jovens multidimensionais que, mesmo se amando, não deixam de discutir ou trocar uns sopapos de vez em quando – o que não diminui o carinho que sentem um pelo outro. Preocupado ao observar que Júlio está se deixando seduzir pelos bandidos locais, Gato chega a mentir e a esconder informações cruciais do outro, torturando-se por ser o único a conhecer a identidade do indivíduo que destruiu suas vidas por temer que, ao compartilhá-la com o irmão, este mergulharia de vez no crime – um segredo que destrói o garoto internamente.

Escrito pelo diretor Marcel Rasquin ao lado de Rohan Jones, o roteiro ainda se preocupa em estabelecer a importância da comunidade no cotidiano não só daquela família, mas de todos os jovens que tentam viver honestamente apesar das tentações constantes que os cercam, sendo tocante (e contagiante) observar, por exemplo, como os treinos do time local são acompanhados com atenção pelos torcedores que, convidados pelo técnico, chegam a correr ao lado dos jogadores num misto de brincadeira e apoio moral. E se as partidas são retratadas de maneira pouco eficaz pelo diretor e pelos montadores Juan Carlos Melian e Carolina Aular, que tornam as jogadas incompreensíveis em função dos cortes rápidos e da própria movimentação excessiva da câmera (e dos planos fechados), ao menos o filme se sai bem melhor em seu design de produção, que sugere as condições de vida dos garotos através da cozinha e dos quartos extremamente apertados, mas sem deixar de criar um clima familiar agradável através dos enfeites, retratos e da própria cor das paredes do barraco (da mesma forma, detalhes como a falta de um espelho retrovisor no carro do técnico ilustram de maneira econômica o universo dos personagens).

Evitando os estereótipos até mesmo ao compor o chefe do tráfico local e também o sujeito cuja ação dispara o conflito entre os irmãos, Hermano ainda conta com um clímax angustiante e intenso que usa a partida final (normalmente um clichê dos filmes de esporte) como palco da resolução dos embates internos dos personagens, resultando num desfecho catártico, surpreendente ao seu próprio modo e que enriquece ainda mais este belíssimo longa venezuelano. (4 estrelas em 5)


26) O Atleta (Atletu, Etiópia, 2009). Dirigido por Davey Frankel, Rasselas Lakew. Com: Rasselas Lakew, Dag Malmberg, Ruta Gedmintas, Abba Waka Dessalegn.

A primeira coisa que chama a atenção em O Atleta, forte pré-candidato da Etiópia ao Oscar 2011, é sua estrutura narrativa, que flui com uma naturalidade admirável entre passado e presente e entre imagens de arquivo e encenações com atores. Dirigido por Davey Frankel e Rasselas Lakew (que também encarna o personagem-título em várias seqüências), o filme celebra a vida do maratonista etíope Abebe Bikila, que em 1960 se tornou o primeiro africano a ganhar a medalha de ouro na desgastante prova que serve como clímax das Olimpíadas ao enviar corredores de todo o mundo em uma corrida de 42 quilômetros. Correndo descalço em Roma e se tornando bicampeão em Tóquio, em 64, Bikila se converteu num ídolo em seu continente – e, assim, quando abandonou a corrida no México, em 68, certamente sentiu o peso da responsabilidade por supostamente desapontar seus admiradores.

Ao contrário da maior parte das cinebiografias, porém, O Atleta não se interessa em acompanhar a trajetória do corredor desde a juventude até sua coroação em um grande evento; em vez disso, o filme tem início depois que Bikila já venceu suas duas maiores disputas e sofreu sua maior frustração esportiva, passando a acompanhar o personagem enquanto este se prepara para uma tentativa de retorno nas olimpíadas de Munique, em 72 – um objetivo que acaba sendo destruído quando, ao retornar à sua cidade depois de mais uma sessão de treinamentos, o atleta sofre um acidente de carro e se torna paraplégico.

Empregando as interações de Bikila com as pessoas que cruzam seu caminho durante sua viagem e, posteriormente, no hospital, O Atleta oscila entre passado e presente de forma elegante e orgânica, muitas vezes criando interseções inesperadas entre épocas diferentes – como na seqüência em que o jovem corredor deixa a casa de um parente e desce um morro, revelando um pequeno carro que cruza a estrada à distância e que transporta justamente sua versão já adulta. Da mesma maneira, os cineastas criam transições belíssimas entre suas reencenações e as imagens de arquivo, destacando-se o momento em que Bikila, em 69 e vivido pelo ator-diretor Lakew, ultrapassa um ônibus que magicamente remete ao veículo similar visto na cena documental que traz o verdadeiro corredor em uma maratona anos antes.

Com uma fotografia soberba capturada por quatro profissionais e que explora ao máximo as imponentes paisagens da Etiópia, O Atleta é um filme que constantemente leva o espectador a prender a respiração em função das maravilhosas imagens que exibe, desde planos-detalhe que enfocam garrafas de mel ou mesmo os tênis de Bikila até quadros amplos que descortinam vales que se estendem por quilômetros sem fim. Enquanto isso, os dois montadores empregam uma lógica fascinante ao freqüentemente saltarem no tempo enquanto os diálogos da cena anterior continuam a ser ouvidos por vários segundos, convertendo-se, assim, numa narração em off orgânica que oferece explicações importantes para o espectador sem que isto soe expositivo ou artificial, numa estratégia econômica e elegante – e que, tematicamente, ainda remete ao fato do protagonista corredor estar sempre à frente de todos, já que as imagens não esperam nem mesmo o som que deveria acompanhá-las.

Homem de incrível determinação e com um espírito competitivo que o leva a se dedicar, por exemplo, ao arco-e-flecha mesmo sem ter força nos braços e nas mãos para segurar o equipamento (o que o obriga a improvisar luvas que o ajudem na tarefa), Abebe Bikila surge, em O Atleta, como um indivíduo cuja expressão sempre séria e concentrada talvez não faça jus à alma gentil que representa – e que se revela uma inspiração não só para o povo africano, mas para a raça humana de modo geral. (5 estrelas em 5)

 

27) Oceano Negro (Noir océan, Bélgica, 2010). Dirigido por Marion Hänsel. Com: Romain David, Nicolas Gob, Adrien Jolivet, Nicolas Robin.

Embora eventualmente revele sua intenção de se estabelecer como um estudo sobre a culpa que atormenta (ou deveria atormentar) aqueles que se envolveram em atos de profunda crueldade – mesmo que, como peças sem poder naquele jogo, não tivessem muitas alternativas -, Oceano Negro é um filme que, até mesmo por sua estrutura, se condena à irrelevância. Preso a um roteiro raso e sem foco escrito pela diretora Marion Hänsel, o longa acaba se apresentando como uma experiência desinteressante e que, no fim das contas, não parece ter propósito algum a não ser o de soar como algo mais importante do que é na verdade.

Com uma meia hora inicial que ao menos se apresenta intrigante por retratar com eficiência o isolamento e o cotidiano dos marinheiros a bordo de um navio cuja missão desconhecem, o projeto aposta na interação dos personagens para prender a atenção do espectador – e, ao menos em seu terço inicial, é bem-sucedido na tarefa. Focando particularmente em três jovens que se diferenciam dos demais por conseguirem, com maior ou menor sucesso, manter alguma sensibilidade diante do mundo, o filme conta até mesmo com sua própria versão do soldado Pyle vivido por Vincent D’Onofrio em Nascido para Matar e que aqui ganha o nome de DaMaggio, sendo igualmente importunado por seu peso e por sua falta de firmeza no cotidiano militar.

Buscando demonstrar como a crueldade e o descaso para com o próximo podem contagiar até mesmo indivíduos mais gentis, Oceano Negro busca ilustrar esta natureza sádica através de atos cometidos contra animais, desde o adorável cachorro que serve como mascote do barco até um polvo que tem os tentáculos trançados em um nó e caranguejos que são atirados ainda vivos em uma fogueira – mas esta estratégia, embora chocante, serve apenas parcialmente para representar o tema principal da narrativa, que diz respeito à reação dos marinheiros diante da constatação de que estão participando de testes nucleares.

Desta maneira, o filme falha tanto como estudo de personagens quanto como obra-mensagem, flutuando perdidamente com a mesma falta de propósito com a qual o trio principal percorre a praia na longa e vazia seqüência final da projeção. E se o propósito da obra era ser aborrecida como os homens que a protagonizam, conseguiu. (2 estrelas em 5)

 

28) Em um Mundo Melhor (Hævnen, Dinamarca, 2010). Dirigido por Susanne Bier. Com: Mikael Persbrandt, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen.

É sempre um prazer assistir a um filme com personagens adultos que, diante de problemas similares aos que todos nós enfrentamos em nossas próprias existências, comportam-se de maneira madura e sensata em vez de se entregarem a absurdos que só soariam possíveis no cinema. Assim, ao longo de Em um Mundo Melhor, encantei-me não apenas com a delicada construção de personagens do roteiro escrito pela diretora Susanne Bier ao lado de seu velho parceiro Anders Thomas Jensen como ainda aplaudi mentalmente a maneira com que estes se portavam diante de obstáculos difíceis e angustiantes.

Centrado justamente na relação entre aquelas pessoas e os dilemas nascidos ou do desgaste de relações ou da mais absoluta tragédia, o longa basicamente divide sua narrativa em duas vertentes: por um lado, acompanhamos as atribulações do médico Anton (Persbrandt), que, atuando em um país dominado pela miséria e por uma milícia violenta, ainda é obrigado a lidar com a dificuldade do divórcio nas raras ocasiões em que pode retornar para casa a fim de passar algum tempo com os dois filhos; por outro, somos apresentados ao garoto Christian (Nielsen), que acaba de perder a mãe e passa a viver com o pai (Thomsen), olhando-o com uma recriminação inicialmente incompreensível. Fazendo amizade com o doce filho de Anton, Elias (Rygaard), que vendo sendo vítima de bullying na escola, Christian acaba agindo de maneira excessivamente violenta, o que representa apenas o primeiro passo de uma série de ações intempestivas que protagoniza ao lado do novo amigo.

Mantendo a uma expressão sempre séria no rosto, Christian surge, a princípio, como uma espécie de primo do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin em O Anjo Malvado (com Elias sendo seu Elijah Wood), mas um dos grandes méritos do filme é conseguir retratar as atitudes do garoto de maneira realista, plausível, desenvolvendo também sua motivação e estabelecendo que, longe de ser meramente um menino mau, Christian é um pré-adolescente perdido que não consegue lidar com o luto – e o pai freqüentemente ausente se mostra incapaz de ajudá-lo no processo.

Não que Anton também não seja um pai ausente, já que também permanece longas temporadas em outro país; no entanto, ao contrário do personagem de Ulrich Thomsen, o médico vivido de forma maravilhosa por Mikael Persbrandt se revela um homem bem mais maduro e que encara a paternidade como algo prazeroso e de imensa responsabilidade – e é justamente esta responsabilidade que leva à melhor cena do filme, quando, agredido por um mecânico ignorante, dá uma arrebatadora lição de força e humildade a fim de ilustrar para o filho a estupidez de atitudes violentas (“Ele é um idiota. Se eu bater nele, também serei um”, explica.). Ainda assim, Anton não é retratado como anjo pelo roteiro, já que assume claramente a culpa por um ato que destruiu seu casamento – possivelmente uma aventura extraconjugal.

Usando o impulso destrutivo de Christian e a determinação pacifista de Anton como contrapontos para desenvolver tematicamente a história, Em um Mundo Melhor acaba se revelando um filme bem mais otimista do que acredita ser, o que talvez o enfraqueça um pouco. Ainda assim, este candidato dinamarquês a uma vaga no Oscar 2011 certamente conquista por defender com inteligência e maturidade a força existente num gesto de carinho ou na recusa em agredir o próximo. (4 estrelas em 5)

 

29) Se Eu Quiser Assobiar, Assobio (Eu cand vreau sa fluier, fluier, Romênia, 2010). Dirigido por Florin Serban. Com: George Pistireanu, Ada Condeescu, Mihai Constantin, Clara Voda.

Escolhido pela Romênia para representá-la no Oscar 2011, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio, dirigido pelo estreante Florin Serban, ganha uma grande aura de autenticidade por trazer, em seu elenco, presidiários reais que, tendo participado de uma oficina de atuação comandada pelo cineasta, aqui encarnam versões de si mesmos – e é uma pena, portanto, que não tenham sido escalados em uma produção que os explorasse melhor.

Preso há quatro anos, Silviu (Pistireanu) se mostrou um detento exemplar durante sua passagem pela instituição, encontrando-se a apenas 15 dias de sua libertação. É então que, visitado pelo irmão caçula que ajudou a criar depois que a mãe os abandonou, descobre que esta retornou ao país e agora pretende levar o garoto para a Itália – e a perspectiva de sair da cadeia para encontrar o lar vazio, aliada à certeza de que a mãe fará seu irmão sofrer, leva o rapaz a um ato impulsivo que rapidamente atinge uma escala muito mais grave.

Adotando a mesma lógica de produções romenas como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, A Morte do Senhor Lazarescu e Polícia, Adjetivo, este longa desenvolve sua narrativa a partir da observação cuidadosa das ações dos personagens através de cenas longas compostas por planos igualmente extensos. Extraindo tensão do silêncio (mas, aqui, muitas vezes sem sucesso), o filme escrito a seis mãos só ganha força realmente a partir do momento em que Silviu toma determinada atitude, já que, até então, Serban parecia se preocupar apenas em ilustrar o cotidiano da prisão sem se importar com o contexto geral da história.

Fotografado com a câmera na mão a fim de conferir um ar mais realista, tenso e quase documental ao projeto, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio também abole, como tantas produções similares, o uso da trilha sonora não-diegética, mas ainda assim acaba recaindo em conflitos pouco verossímeis ao retratar a relação entre Silviu e sua mãe e também com a estagiária Ana.

E se o ator estreante George Pistireanu surpreende pela força de sua atuação, que retrata bem o caráter violento que o aparentemente pacato Silviu escondia sob uma fachada de indiferença, o filme em si jamais sai do lugar-comum, mesmo quando tenta criar um desfecho irônico. Se este foi o melhor longa que a Romênia produziu em 2010, o país, que vinha se estabelecendo como uma das grandes surpresas do cinema contemporâneo, certamente teve um péssimo ano. (3 estrelas em 5)

 

30) Comercial (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Alex Miranda.

Todos sabem que publicitários são criaturas egocêntricas – e eu, como egocêntrico assumido, sei melhor do que qualquer um (olha aí!) identificar meus pares. Assim, quando um diretor de criação entrevistado para este documentário sobre o universo da publicidade diz sem qualquer traço de ironia que “A tartaruga (da cerveja Skol) ficou marcada na vida do brasileiro”, imediatamente compreendemos um pouco mais acerca da mentalidade destes profissionais, que – sim, mesmo se preocupando com os resultados para os clientes – parecem extrair um prazer indizível da percepção (mesmo que falsa) de que alteraram ou influenciaram de alguma maneira a cultura popular do país.

Dividido em alguns grandes temas que são apresentados por um Paulo Miklos que surge como uma espécie de amálgama dos entrevistados, Comercial tem, ao seu favor, uma coleção de depoimentos dados pelos nomes mais importantes do setor – desde presidentes de agências e produtoras até chegar a diretores de cena e clientes. Com isso, o filme de Alex Miranda tem a oportunidade de discutir assuntos tão díspares quanto a relevância do Festival de Cannes para o meio publicitário brasileiro, as vantagens e desvantagens do digital (a câmera Red parece uniformemente odiada pelos diretores) e os possíveis caminhos futuros da profissão.

Com um longo segmento que se concentra em rememorar algumas das campanhas mais bem-sucedidas de nossa história, o longa acaba atuando também como um passeio nostálgico ao recuperar filmes como o da passeata do jeans Staroup, os do baixinho da Kaiser e do magrelo da Bombril, o do primeiro sutiã da Valisère, o dos mamíferos da Parmalat, entre vários outros – chegando, inclusive, a revelar uma ou outra piada interna contida nestes comerciais. Em contrapartida, o diretor erra ao incluir também alguns depoimentos excessivamente longos e confusos que pouco acrescentam ao documentários e que provavelmente teriam sido excluídos caso tivessem partido de figuras menos relevantes do meio (ao qual o próprio cineasta pertence, diga-se de passagem).

Burocrático em sua estrutura ao praticamente se concentrar nas entrevistas (as famosas “cabeças flutuantes”), Comercial é quadrado demais para um filme que se propõe justamente a abordar um mercado que sobrevive da criatividade. Por outro lado, alguns dos debates propostos por Miranda e que acabam gerando opiniões radicalmente divergentes dos entrevistados se revelam intrigantes – como, por exemplo, a discussão sobre a falta de “brasilidade” de muitas das peças criadas no país (algo que, inacreditavelmente, um diretor de criação justifica dizendo que “às vezes, é preciso uma maior sofisticação” – como se o Brasil fosse incompatível com este atributo). Da mesma maneira, é curioso perceber como a publicidade argentina vem despertando a admiração dos nossos profissionais e constatar, também, como há uma espécie de tensão natural nas relações entre indivíduos responsáveis pela criação das campanhas e os diretores contratados para executá-las. Para finalizar, é claro que, contando com tantos nomes brilhantes em seu elenco, acabamos escutando, ao longo da projeção, algumas tiradas espetaculares – e minha favorita é a definição dada por Washington Olivetto para a palavra “tendência”: um termo criado para conferir dignidade à imitação.

Infelizmente, o filme também comete erros primários: em vários momentos, por exemplo, os entrevistados se referem uns aos outros rapidamente e pelos primeiros nomes enquanto narram passagens importantes e o espectador fica perdido sem saber quem eles estão mencionando, já que Miranda não busca esclarecer de alguma forma suas identidades, parecendo supor que todos já conhecem aquelas pessoas (algo que se agrava em função do grande número de participantes). Além disso, é difícil ignorar o instante em que o diretor traz alguém descrevendo em detalhes uma propaganda para, em seguida, exibi-la na íntegra, tornando aquela longa fala imediatamente desnecessária. Como se não bastasse, Comercial pouco se detém no processo criativo daquelas pessoas, falhando também em esclarecer vários conceitos que são de conhecimento comum apenas no meio publicitário (só compreendi o que era “publicidade-fantasma”, por exemplo, depois que duas ou três pessoas já haviam discorrido sobre o tema).

Com isso, o documentário soa como algo produzido para consumo interno, como algo que interessa apenas aos profissionais do meio, ignorando o público em geral – o que representa, no mínimo, o desperdício de uma boa idéia e, no outro extremo, um desrespeito para com o espectador leigo no assunto. (3 estrelas em 5)

 

31) Almas Silenciosas (Ovsyanki, Rússia, 2010). Dirigido por Aleksei Fedorchenko. Com: Igor Sergeyev, Yuriy Tsurilo, Yuliya Aug.

Os mérias foram um povo fino-úgrico que, vivendo na região centro-oeste da Rússia, eventualmente foram absorvidos pela cultura soviética, deixando apenas alguns núcleos isolados que ainda hoje se orgulham em bradar sua antiga herança étnica. E se você ficou impressionado com meus conhecimentos sobre o tema, não se iluda: tudo o que acabei de informar saiu diretamente da Wikipedia, onde fui buscar informações após ficar intrigado pelo longa Almas Silenciosas.

Narrado por um escritor que se identifica como sendo pertencente ao povo méria, o roteiro de Denis Osokin aborda vários rituais daquela cultura que, sou capaz de apostar um dedo da mão direita, foram completamente inventados pelo sujeito: costumes como amarrar pequenas fitas nos pêlos pubianos de noivas antes do casamento; atirar na água os cadáveres dos entes queridos e, claro, o ato de “esfumaçar” (leia-se: contar detalhes embaraçosos da intimidade de alguém que acabou de morrer). Neste aspecto, aliás, Almas Silenciosas é imaginativo e intrigante, representando a jornada interna de um sujeito que valoriza sua herança cultural acima de tudo – um elemento narrativo que é reforçado pela narração em off que domina a projeção.

Assim, considerando que estamos tratando de um filme que assume um ponto de vista subjetivo, é tolice tentar questionar absurdos como a decisão de um viúvo de convidar um funcionário para ajudá-lo a preparar o corpo da esposa em vez de chamar uma funerária ou mesmo a falta de explicação sobre a causa da morte da mulher. E se a polícia nada faz ao parar o carro da dupla e descobrir um cadáver no banco de trás, a razão é a mesma: na mente do protagonista, simplesmente não há espaço para questionar a validade dos rituais mérias – e, portanto, o policial apenas respeita este princípio.

Isto não quer dizer, porém, que o diretor Aleksei Fedorchenko seja bem-sucedido na empreitada: optando por narrar sua história a partir de longos planos que parecem não ter propósito algum (vide as inúmeras cenas que se limitam a mostrar a estrada além do pára-brisas do carro e o instante em que acompanhamos o viúvo em um supermercado), o cineasta cria um filme que sacrifica a fluidez em prol de um tom contemplativo que, aqui, soa apenas como auto-indulgência.

Beneficiado ao menos por uma fotografia belíssima que revela um cuidado extremo na composição dos planos – que são impecáveis individualmente, embora falhem em conjunto -, Almas Silenciosas provavelmente renderia um curta-metragem memorável, mas com 75 minutos de duração torna-se apenas um esforço pretensioso e ocasionalmente entediante. (2 estrelas em 5)

 

32) Além da Estrada (Por el Camino, Brasil/Uruguai, 2010). Dirigido por Charly Braun. Com: Esteban Feune de Colombi, Jill Mulleady, Hugo Arias, Guilhermina Guinle.

Há algo de Antes do Amanhecer neste belo Além da Estrada. Contando a história de um casal de jovens que se conhece durante uma viagem e que, vindos de países e culturas diferentes, acabam passando um bom tempo juntos enquanto aprendem mais um sobre o outro, o romântico filme do brasileiro Charly Braun substitui a Viena do longa de Richard Linklater por uma longa jornada no Uruguai, conquistando o espectador não só pela escala da viagem, mas também graças ao carisma do protagonista (o ótimo argentino Esteban Feune de Colombi).

Estruturado essencialmente como um road movie, o roteiro do próprio Braun se revela menos importante do que a beleza dos lugares nos quais a história se passa – e, neste aspecto, Além da Estrada é memorável e deveria render um prêmio ao seu location scout (indivíduo responsável por pesquisar locações para um projeto). Trazendo ambientes magníficos como o pequeno castelo no meio do nada e a propriedade idílica do tio do personagem principal, o filme deveria vir acompanhado de um guia que informasse ao público exatamente onde aqueles lugares podem ser visitados, o que comprova, no mínimo, que a história é bem-sucedida ao capturar a imaginação do espectador.

Porém, o longa não se interessa apenas pela geografia uruguaia, mas também por seus habitantes, assumindo um caráter documental em várias passagens que trazem conversas de Santiago (Colombi) com figuras como um trovador centenário (cuja memória encontra-se “conectada aos sentimentos”) e um fazendeiro que parece incapaz de controlar o volume de sua voz – personagens obviamente reais que são integrados de forma orgânica à ficção do filme. Nestes momentos, aliás, o protagonista assume a postura de entrevistador, manifestando curiosidade sobre a vida daquelas pessoas e extraindo informações curiosas que enriquecem a obra – e até mesmo a modelo Naomi Campbell surge interpretando a si mesma em duas ou três cenas divertidinhas, mas dispensáveis.

Usando o interesse romântico crescente que Santiago e Juliette (Mulleady) demonstram um pelo como fio condutor da narrativa, Além da Estrada ainda conta com uma trilha incidental memorável e uma estratégia visual inteligente que, ao transformar as lembranças do protagonista em passagens rodadas em 16mm, funciona ao ilustrar a força e o romantismo que aqueles momentos adquirem para o rapaz, justificando suas ações no terceiro ato da projeção.

Com um plano final extremamente evocativo e poético, Além da Estrada já estabelece seu jovem diretor como uma figura de imenso potencial que merece ser acompanha de perto pelos cinéfilos brasileiros. Ou, considerando o aspecto internacional desta produção, latinos de modo geral. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

Adicionar Comentário