Mostra de São Paulo 2010 – Dia 05

O abraço de hoje vai para meu velho amigo Hélio Flores, que provavelmente foi a primeira amizade que fiz no mundo virtual e que também se tornou um dos primeiros visitantes do Cinema em Cena – e que todos os anos sai de sua Vitória da Conquista para mergulhar na Mostra, num esforço admirável que resulta de seu amor pelo Cinema.

Dito isso…

18) O Senhor do Labirinto (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Geraldo Motta. Com: Flávio Bauraqui, Irandhir Santos, Maria Flor.

Mesmo que O Senhor do Labirinto fosse um fracasso quase completo – e não é -, apenas um único fator já representaria motivo suficiente para que este filme fosse conferido pelos fãs do bom Cinema: a atuação absolutamente magnética de Flávio Bauraqui como o artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

Diagnosticado como esquizofrênico e acreditando ser a nova representação de Jesus na Terra, Bispo passou mais de cinco décadas internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde criou uma obra grandiosa que refletia suas obsessões religiosas e também seu passado como marinheiro (os navios são figuras recorrentes entre suas criações). Ex-boxeador, ele inicialmente é utilizado pelos enfermeiros-carcereiros para controlar os demais detentos, passando a assumir o papel de hóspede especial ao transformar toda uma galeria da instituição em seu museu particular.

Dirigido por Geraldo Motta a partir do roteiro que escreveu ao lado de Luciana Hidalgo, O Senhor do Labirinto já demonstra a segurança do diretor na seqüência que retrata a queda do protagonista na insanidade, quando uma série de cortes secos é empregada de forma econômica para evocar a fragmentação psíquica do sujeito. Motta, aliás, demonstra inteligência e bom senso até mesmo ao perceber os pontos fracos da produção, tentando disfarçá-las – e um bom exemplo reside nos terríveis efeitos de maquiagem de envelhecimento, que o cineasta busca contornar ao mergulhar os personagens em sombras e ao evitar primeiros planos que exponham ainda mais a artificialidade das próteses (ainda assim, é impossível não constatar a baixa qualidade das mesmas).

Com um design de produção impecável que conta até mesmo com reproduções perfeitas das peças criadas pelo Bispo (porque é difícil imaginar que os originais tenham sido emprestados ao projeto), o filme também acerta na autenticidade dos figurinos e nas recriações de época. Por outro lado, o elenco secundário se mostra bastante irregular, o que denota a falta de um cuidado maior na escalação destes papéis menores ou, no mínimo, uma melhor preparação destes intérpretes.

O que, claro, não se aplica à dupla vivida por Irandhir Santos (que este ano já provou sua força em Tropa de Elite 2) e Flávio Bauraqui. Encarnando o funcionário da Colônia que se torna mais próximo do Bispo, Santos concebe um personagem gentil e bondoso que, tratando o sujeito sempre com carinho, desenvolve um respeito genuíno para com o paciente – e a tocante amizade entre Wanderley e o Bispo se transforma num dos centros da narrativa. Mas é mesmo Bauraqui que se converte no grande chamariz da produção, carregando o filme com uma força incrível: exibindo uma cadência fabulosa em sua fala, o ator encarna a insanidade genial do personagem com uma autenticidade impressionante – e sua caracterização do envelhecimento do protagonista é tão perfeita que chega a levar o espectador a quase ignorar a pavorosa maquiagem. O trabalho de Bauraqui é tão bom que, em certo momento, o diretor Geraldo Motta se arrisca até mesmo a exibir imagens do curta O Prisioneiro da Passagem, de Hugo Denizart, que traz o verdadeiro Bispo no hospício.

Com um clímax comovente que certamente mandará vários espectadores para fora da sala de exibição com lágrimas nos olhos, O Senhor do Labirinto é um filme que honra o personagem magnífico que retrata – e isto é o que basta.  (4 estrelas em 5)


19) Do Amor e Outros Demônios (Del amor y otros demonios, Costa Rica, 2009). Dirigido por Hilda Hidalgo. Com: Pablo Derqui, Eliza Triana, Jordi Dauder, Joaquín Climent, Margarita Rosa de Francisco, Damián Alcázar.

Adaptação do admirado livro homônimo de Gabriel García Márquez e selecionado por seu país de produção, a Costa Rica, para buscar uma vaga no Oscar 2011, Do Amor e Outros Demônios é uma produção cujo maior equívoco reside em tratar seu material de origem com excessiva solenidade. Tornando-se enfadonho e fragilizado justamente por reconhecer a importância de converter um texto do Prêmio Nobel de Literatura para as telonas, o filme busca criar imagens que façam jus às palavras de Márquez – e mesmo se tornando esteticamente admirável, falha ao não equilibrar esta beleza com uma narrativa mais fluida e envolvente.

Escrito e dirigido pela estreante Hilda Hidalgo, o longa gira em torno de Sierva Maria (Triana), uma jovem de longuíssimos cabelos ruivos que, em certo dia do século 18, é mordida por um cão raivoso no mercado de sua cidade. Mergulhando num estado febril e desenganada pelos médicos, ela finalmente é entregue por seu pai, o rico Marquês de Casalduero, a um convento depois que o bispo local determina que a doença nada mais é do que uma “artimanha do demônio”, delegando o exorcismo ao jovem padre Cayetano Delaura (Derqui), que acaba se encantando pela garota. A partir daí, no entanto, a abordagem de Hidalgo passa a remeter mais a Abelardo & Heloísa do que ao Márquez (com a diferença de que a castração aqui é religiosa, não literal).

Outro detalhe problemático reside na caracterização de Servia Maria, que, embora constantemente tratada por todos como sendo uma criança, aqui surge como uma adolescente já bastante desenvolvida, quase adulta, e cujos desejos e fantasias sexuais se tornam perfeitamente naturais e esperados. Representando fisicamente a tentação do sexo com sua vasta cabeleira ruiva, a moça é encarnada com inexpressividade pela estreante Eliza Triana, que aposta apenas em seu físico para compor a personagem. Por outro lado, se Pablo Derqui se sai melhor ao retratar a tortura emocional e psicológica experimentada pelo padre Cayetano, ainda assim acaba falhando ao não conseguir justificar como um homem tão inteligente como aquele pode se tornar tão frágil diante de todas as opiniões do bispo – um homem cuja especialidade parece ser recriminar e condenar todos ao seu redor.

Construído a partir de cenas longas cujos diálogos são ditos pelos atores sempre em tom baixo e com pausas extensas, Do Amor e Outros Demônios se converte num verdadeiro teste de paciência, tornando-se ainda mais frustrante em função da omissão da cineasta diante de questões relevantes da narrativa, como, por exemplo, a natureza exata da doença que aflige a mãe da garota ou os motivos que levaram seu pai a afastar-se durante a maior parte de sua vida.

Apesar destes graves problemas, o filme ao menos é beneficiado por uma fotografia belíssima de Marcelo Camorino, que concebe cada plano como uma pequena pintura que explora com brilhantismo as sombras duras da cela de Maria e o contraste da escuridão com cores mais fortes. Em contrapartida, a trilha sonora apela para o melodrama com freqüência, tornando-se irritante com o tempo.

Talvez Hidalgo devesse ter escolhido um projeto menos ambicioso para sua estréia como cineasta. (2 estrelas em 5)

 

20) Porta a Porta – A Política em Dois Tempos (Idem, Brasil, 2009). Dirigido por Marcelo Brennand.

Com uma população de 50 mil eleitores, a cidade de Gravatá, em Pernambuco, se transforma no palco de uma acirrada disputa política sempre que as urnas se preparam para receber os votos que definirão os representantes locais – uma briga que se torna ainda mais intensa durante as eleições para prefeito e vereador, já que esta envolve dois grupos rivais, os “azuis” e os “vermelhos”, que disputam ferrenhamente cada eleitor do município. Acompanhando a campanha ocorrida em 2008, quando 117 candidatos disputaram as dez vagas para a Câmara de Vereadores da cidade, o cineasta Marcelo Brennand ilustra, neste seu interessante Porta a Porta, um microcosmos dos grandes enfrentamentos políticos nacionais dos últimos anos.

Exibindo figuras locais pitorescas que não se acanham em fazer promessas como “uma festa por mês” e “levar o time da cidade para a segunda divisão do campeonato brasileiro”, o documentário logo de cara expõe o modo corrompido como todo o processo se desenvolve, já que, mesmo diante das câmeras, vários candidatos e eleitores surgem discutindo acertos que nada mais são do que uma descarada compra e venda de votos – desde a promessa de emprego na futura administração municipal até ajudas financeiras para a aquisição de materiais de construção. Aliás, a própria lógica da eleição já leva a uma distorção profunda de toda a campanha, que se converte em uma verdadeira indústria: basta considerar que, gerando nada menos do que 5.000 empregos diretos e indiretos na cidade, o processo eleitoral em Gravatá acaba se tornando fonte de renda de incríveis 10% do número total de votantes.

Beneficiado pelo acesso obtido junto a um dos principais concorrentes a uma vaga de vereador, o cineasta consegue observar com detalhes as negociações e estratégias da equipe que compõe as campanhas, desde os principais coordenadores até a militância que, supervisionada pelos cabos eleitorais, bate de porta em porta solicitando votos para seus candidatos/chefes – e quando alguém discursa dizendo que toda a multidão presente em um comício está ali por “vontade própria”, sem ter sido paga para isto, é difícil não constatar a contradição óbvia representada pelos “uniformes” usados pela maior parte dos participantes.

Aliás, outro ponto forte de Porta em Porta diz respeito ao esforço do diretor de ouvir um grande número de candidatos, sendo triste perceber a retórica vazia empregada pela maioria destes em suas apresentações (e igualmente deprimente é perceber como os humildes eleitores são facilmente manipulados por esta mesma retórica). Para completar, Brennand ainda ilustra a insatisfação da população local com o prefeito que se encontra há oito anos no poder e que deixou de realizar obras básicas de saneamento – mas que, ainda assim, aposta em eleger seu sucessor, chegando ao absurdo de inaugurar a viga de uma ponte a duas semanas do pleito (e é patético ver o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, participando de um comício e elogiando os “feitos” de um prefeito claramente tão incompetente).  

Infelizmente, porém, Brennand também tropeça bastante como diretor – e seu erro mais grave talvez resida na estrutura do documentário, que subitamente salta para um ano depois das eleições a fim de ilustrar o destino de alguns personagens, revelando, no processo, o resultado do pleito de maneira anti-climática. Assim, quando a narrativa retorna para antes do dia da votação, o espectador já conhece os dois desfechos principais, sabendo quem será o novo prefeito e também se o candidato acompanhado pelo filme conseguiu a vaga de vereador ou não – algo que diminui nosso interesse pela “historinha” que move o longa. Para piorar, o cineasta ainda introduz um personagem que considera importante, um certo Carlinhos, já quase no fim da projeção, quando já é tarde demais para que o público invista emocionalmente em novas figuras (e, com isso, Porta em Porta perde o ritmo justamente quando deveria estar em seu clímax).

Falhando também na questão mais óbvia do documentário, o diretor acaba se esquecendo de revelar, em seu desfecho, quem afinal, foram os dez vereadores eleitos na cidade – e teria sido irônico, por exemplo, constatar que o tal “Vagalume”, que surge contando vantagem em vários momentos ao considerar sua eleição como algo certo, ficou de fora da lista de vencedores.

Uma informação que só descobri posteriormente ao me deixar levar pela curiosidade e entrar no site oficial da Câmera de Vereadores de Gravatá. Um impulso que, apesar de seus problemas, foi inspirado por este bom documentário. (3 estrelas em 5)

 

21) Luvas Vermelhas (Manusi Rosii, Romênia, 2010). Dirigido por Radu Gabrea. Com: Alexandru Mihaescu, Ioana Iacob, Marcel Iures, Mircea Rusu, Udo Schenk.

Escritor promissor e idealista, Felix Goldschmidt (Mihaescu) é preso, certo dia, pelos militares que comandam a Romênia com violência na década de 70. Enviado a uma prisão e interrogado e torturado ao longo dos dois anos seguintes, ele inicialmente não consegue compreender nem mesmo os motivos por trás de seu encarceramento, resistindo de todas as formas a oferecer qualquer tipo de informação para seus interrogadores. Com o tempo, porém, suas forças vão sendo minadas pelos abusos físicos e psicológicos e o rapaz começa a enxergar o mundo de uma maneira mais cínica e pragmática.

Adaptado a partir de um livro de Eginald Schlattner e produzido por uma emissora de televisão romena, Luvas Vermelhas basicamente emprega a maior parte de suas mais de duas horas de duração em longas cenas de interrogatório que, regadas a debates políticos e filosóficos, se beneficiam da estética claustrofóbica imposta pela razão de aspecto de 1.33:1 empregada pelo diretor Radu Gabrea. Por outro lado, o roteiro escrito a oito mãos erra logo de início ao investir numa estrutura fragmentada que, além de quebrar o ritmo da narrativa, ainda confere um tom episódio à história.

Fotografado de maneira convencional e adotando cores quentes para os flashbacks que se contrastam com a frieza da paleta usada nas cenas na prisão, o longa ainda traz uma trilha sonora pedestre que apenas ressalta o caráter melodramático da abordagem do cineasta.

Em função destes problemas, Luvas Vermelhas, mesmo sendo uma obra relevante em seus aspectos políticos e históricos, acaba se convertendo em um filme menor e esquecível. E isto é uma pena. (3 estrelas em 5)


22) Mães (Majki, Macedônia, 2010). Dirigido por Milcho Manchevski. Com: Ana Stojanovska, Ratka Radmanovic, Salaetin Bilal, Vladimir Jacev, Dimitar Gjorgjievski, Irina Apelgren, Milijana Bogdanoska, Emilija Stojkovska.

Candidato da Macedônia ao Oscar 2011, Mães traz uma narrativa que se divide em três histórias: a primeira – e mais curta – gira em torno de duas garotinhas adoráveis que, depois de ouvirem o relato de algumas colegas que alegam ter visto “um tarado” nas proximidades, decidem ir a uma delegacia denunciar o pervertido. Já a segunda acompanha três documentaristas enquanto estes visitam um vilarejo que, há muito abandonado, agora tem apenas dois habitantes: um casal de velhinhos que, irmãos, brigaram há anos e se evitam a todo custo. Finalmente, a hora final do longa (e que, diga-se de passagem, se entende mais do que o ideal) abandona a ficção e surge como um documentário que expõe a tenebrosa trajetória de um serial killer que estuprou e matou três senhoras de uma cidade no oeste do país.

Como é possível observar apenas pela descrição dos três segmentos que compõem a obra, o roteiro do também diretor Milcho Manchevski falha em estabelecer qualquer ligação temática entre as histórias: enquanto a primeira aborda questões éticas como a fronteira entre a verdade e a mentira, a segunda se dedica a um estudo sobre a solidão e o peso do passado nas relações familiares, ao passo que a terceira, além de obviamente retratar o lado sombrio da natureza humana, ainda discute a dor representada pela perda da figura materna em um núcleo familiar (até mesmo o assassino é movido pela relação que manteve com a própria mãe).

Aliás, até mesmo em função do título o espectador se vê levado a buscar implicações temáticas que girem em torno da maternidade nos três segmentos, mas, se estas existem nas duas primeiras histórias, são absolutamente tangenciais – e, assim, Mães se revela um pacote mal amarrado que, mesmo contando com bons momentos, falha em criar uma narrativa minimamente coerente. (2 estrelas em 5)

 

23) Histórias Reais de um Mentiroso (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Mariana Caltabiano. Com: Marcelo Nascimento da Rocha, Amaury Jr, Ricardo Macchi, Ed Sá.

Durante a Mostra de São Paulo de 2009, escrevi sobre um documentário que, girando em torno dos Mamonas Assassinas, se revelava interessante apesar de todos os esforços aparentes feitos pelo diretor para sabotar o próprio filme. Pois foi impossível não ter a mesma impressão ao assistir a este Histórias Reais de um Mentiroso, que, acompanhando a trajetória de um personagem fascinante, quase desperdiça uma excelente oportunidade graças à abordagem tola de sua diretora.

Inspirado no livro da própria cineasta, o filme retrata os golpes dados pelo estelionatário Marcelo Nascimento, que, assim como o protagonista de Prenda-me se For Capaz, especializou-se em arrancar vantagens de suas vítimas ao se passar por todo tipo de profissional, de policial a astro de rock. Ganhando fama nacional ao assumir a identidade do dono da Gol e dar uma entrevista para um programa de colunismo social, o sujeito acabou sendo preso – o que, em vez de por fim em sua carreira, apenas alterou o palco de seus golpes, já que, pouco depois, ele encarnaria um líder do PCC durante uma rebelião na penitenciária na qual se encontrava.

É claro que, à primeira vista, há um elemento de simples molecagem nas ações de Marcelo – e, neste sentido, é fácil compreender por que um policial que atuou em sua prisão não consegue conter o riso ao se lembrar de um dos golpes do rapaz. Ator talentoso e cara-de-pau irrecuperável, Marcelo usava, mesmo que inconscientemente, estratégias psicológicas básicas para iludir suas vítimas, explorando a fragilidade de seus egos e a reserva que todos têm em questionar alguém que se articula com firmeza e segurança. Mostrando-se capaz de enganar até mesmo a documentarista – que, àquela altura, já deveria ter aprendido a não confiar em nada que lhe fosse dito por Marcelo, o criminoso só não consegue iludir a própria mãe, que, exausta depois de uma vida de mentiras, finalmente aprendeu a duvidar de tudo que saía da boca de seu filho (“De cada dez coisas que Marcelo diz, onze são mentiras”, ela afirma, em certo momento.).

O problema é que o caráter de “molecagem” logo cede lugar a algo mais grave – e não é à toa que empreguei a palavra “criminoso” no parágrafo acima, já que o protagonista eventualmente mergulha de vez no crime e passa até mesmo a pilotar aviões que transportam armas e drogas através da fronteira brasileira. Infelizmente, a diretora Mariana Caltabiano, talvez seduzida pelo carisma do documentado, parece não perceber as conseqüências graves daqueles atos, continuando a tratar Marcelo mais como um divertido trapaceiro do que como o traficante que obviamente se tornou.

Empregando animaçõezinhas rasteiras dubladas com vozes engraçadinhas, a diretora ainda recheia a projeção com cartuns que ilustram passagens da vida de Marcelo, fragilizando o próprio filme em função do humor juvenil (e nem me perguntem por que uma das vinhetas animadas traz o golpista convertido numa espécie de Homer Simpson). Decidindo apresentar as entrevistas feitas com o protagonista em um preto-e-branco sem a menor justificativa (e que empobrece esteticamente um longa já não muito ambicioso em seus aspectos visuais), Caltabiano ainda demonstra falta de cuidado na edição do áudio, que revela claros cortes durante vários depoimentos. E o que dizer do efeito de “agulha arranhando o disco”, anacrônico, clichê e bobo, que a cineasta utiliza para tentar fazer humor, em certo momento?

Mas talvez o erro mais grave de Histórias de um Mentiroso diga respeito à decisão da cineasta de se inserir à força na história – e já no início da narrativa ela chega a colocar a própria foto na tela ao insistir em explicar, desnecessariamente, como sua trajetória cruzou com a de Marcelo. Como se não bastasse, no terceiro ato Caltabiano resolve fazer um longo desvio na narrativa ao abordar a tragédia ocorrida com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas – e mesmo tentando justificar a inclusão desta passagem ao descrever as opiniões de Marcelo (que é piloto) sobre o acidente, o fato é que a diretora emprega muito mais tempo do que o necessário neste incidente apenas para poder fazer uma espécie de terapia pública, já que, lamentavelmente, perdeu dois irmãos no desastre (e embora me compadeça diante de sua perda – e realmente me compadeço – não há como justificar narrativamente a descrição do sofrimento de seu pai e sua morte tempos depois, já que nada disso interessa à história do protagonista).

Soando ainda mais boba ao tentar fazer uma “pegadinha” com Marcelo, a diretora chega ao ponto de enfiar no filme a participação que fez no Programa do Jô (que, como em Lixo Extraordinário, apenas enfraquece o projeto) – e parecendo uma adolescente deslumbrada, inacreditavelmente não hesita em soltar um íntimo “O Jô Soares comentou comigo” em sua frágil narração em off.  

Em vez disso, Mariana Caltabiano deveria ter permanecido mais tempo com o mentiroso que, afinal, dá título ao seu filme – e que, de tão carismático, chega a levar o ator Ricardo Macchi, uma de suas vítimas, a perguntar para a cineasta se Marcelo citou seu nome durante os depoimentos, sorrindo satisfeito ao ouvir a resposta afirmativa (um momento revelador que, justiça seja feita, a diretora ressalta com inteligência ao reduzir a velocidade da imagem).

É uma pena, portanto, que esta maturidade só seja exibida pontualmente, já que, na maior parte do tempo, a abordagem da realizadora soa apenas egocêntrica e infantil – duas características, convenhamos, mais apropriadas ao protagonista do que à documentarista encarregada de entrevistá-lo. (3 estrelas em 5)

 

24) Boca do Lixo (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Flávio Frederico. Com: Daniel de Oliveira, Milhem Cortáz, Hermila Guedes, Jeferson Brasil, Paulo César Pereio, Leandra Leal, Maxwell Nascimento, Camila Leccioli, Juliana Galdino, Claudio Jaborandi.

Ao escrever sobre o documentário Histórias de um Mentiroso, comentei que o filme, frágil, resistia apenas em função de seu fascinante protagonista. Assim, não deixa de ser curioso que o filme ao qual assisti logo em seguida, Boca do Lixo, enfrente o problema oposto: comandado com segurança e talento pelo diretor Flávio Frederico, o longa sobrevive não em função de seu anti-herói, mas apesar deste, que, retratado pelo roteiro e pelo ator Daniel de Oliveira como uma figura absolutamente unidimensional, se revela um centro frágil para um projeto que, afinal, dele depende para tudo.

Inspirado na autobiografia de Hiroito de Moraes, que durante os anos 50 e 60 criou um pequeno império criminoso na região da Boca do Lixo, em São Paulo, o filme acompanha o personagem enquanto este se torna uma figura temida e também seus constantes conflitos com o rival Nelsinho, que disputava com ele o título de “Rei da Boca”.

Escrito por Frederico ao lado de Mariana Pamplona, o roteiro parece presumir uma familiaridade absurda do espectador com a trajetória do Hiroito ao deixar de abordar várias questões importantes que, assim, se convertem em incógnitas ao longo da narrativa: por que, por exemplo, Hiroito se tornou criminoso? Aliás, de onde vem este nome, que, inclusive, lhe rende o apelido de “japonês” em certo ponto da narrativa? E como ele sai da cadeia depois de ter sido aprisionado pela primeira vez, já que já era um bandido bastante procurado à época?  

Vivido por Daniel de Oliveira com um prognatismo (a mandíbula projetada para a frente) que varia de extensão em vários momentos da projeção, Hiroito marca mais uma performance irregular deste bom ator em 2010, seguindo o desastroso 400 Contra 1 – desde já, um dos piores filmes do ano. Pouco lembrando seus memoráveis desempenhos em Cazuza e A Festa da Menina Morta, Oliveira compõe o protagonista como um sujeito que oscila apenas entre dois modos, antipático e violento, limitando-se a fazer cara de mau para todos os demais personagens na maior parte do tempo (além disso, as escolhas do intérprete nas leituras dos diálogos se revelam geralmente artificiais). Como é também prejudicado por um roteiro que parece não saber como explorar psicologicamente o personagem, o ator acaba preso a uma figura sem qualquer nuance ou dimensão – algo grave se considerarmos que se trata do protagonista do projeto.

Aliás, o elenco de Boca do Lixo se mostra tremendamente irregular: enquanto Milhem Cortáz faz milagre com um não-personagem e Jeferson Brasil se mostra mais convincente como bandido perigoso do que o próprio Daniel de Oliveira, os demais personagens secundários pecam ou pela falta de naturalidade dos atores ou pela falta de cuidado do roteiro (neste último caso encontra-se a personagem vivida pela boa Hermila Guedes). E se o veterano Paulo César Pereio, sempre talentoso mas com um jeitão que se tornou um personagem em si mesmo, acaba arrancando risos involuntários do espectador com suas leituras típicas, o ator mirim que interpreta o garotinho Vicente se revela um achado – e é uma pena que saia do filme de maneira tão abrupta em mais uma falha dos roteiristas.

Fotografado de maneira evocativa por Adrian Teijido numa lógica que remete ao noir e contando com figurinos e direção de arte extremamente eficientes na recriação de época, Boca do Lixo também é beneficiado pela montagem precisa de Vania Debs, que não só lida com talento com a narrativa que abrange vários anos, sem jamais deixá-la soar episódica, como ainda mantém um ritmo constante que deixa o espectador preso à narrativa. Além disso, é preciso aplaudir a segurança do cineasta Flávio Frederico, que não se rende ao sensacionalismo ou à tentação de incluir seqüências de ação dispensáveis, cortando várias cenas antes que cheguem a um clímax descartável (como ao não mostrar a polícia invadindo a casa em Curitiba na qual Hiroito se encontra com a esposa e nem a ação dos tiros disparados pelo protagonista contra um homem que agredia uma prostituta).

Nada disso, porém, altera o fato de que Boca do Lixo jamais apresenta uma justificativa para que acompanhemos a história daquele homem: o que, afinal, torna a trajetória de Hiroito tão “especial”? Apenas o fato de o sujeito ter vindo de uma família abastada? Aliás, até mesmo os momentos que poderiam ter sido explorados para expandir o personagem psicologicamente são desperdiçados pelo roteiro: em certo instante, por exemplo, o bandido “adota” uma criança de rua e logo em seguida pede uma prostituta em casamento – e é impossível não pensar que este impulso de estabelecer uma família tenha raízes psicológicas relevantes que, no entanto, a narrativa jamais investiga. (E, afinal, o que há por trás dos constantes flashes que Hiroito tem de sua versão infantil?)

Encerrando a história com um desfecho terrivelmente frágil, Boca do Lixo ainda traz uma narração em off inexplicável do protagonista: por que, por exemplo, ele diz que nunca conseguiu se decidir entre ser “temido ou amado” se, no filme, não consegue nenhum dos dois (é traído e questionado por várias pessoas e abandonado por diversas outras)? E de onde vem sua forma intelectualizada de se expressar, já que, embora surja lendo em diversos instantes, não parece particularmente erudito ao abrir a boca? Sim, o Hiroito que escreveu um livro sobra a própria vida pode até ser um indivíduo articulado e relativamente culto, mas a versão cinematográfica vista aqui não passa de um brutamontes desinteressante e instável.

Mas que, para sua sorte, tem um filme sólido ao seu redor. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Novos filmes, Premiações e eventos

3 Respostas para Mostra de São Paulo 2010 – Dia 05

Adicionar Comentário