Festival do Rio – Dia 05

(Abraço ao ex-aluno Ricardo Costa, que encontrei na saída do Estação Botafogo.)

O quinto dia do Festival do Rio foi particularmente memorável: embora tenha assistido a apenas três filmes (já que um deles tinha 5 horas e meia de duração), todos se mostraram admiráveis ao seu próprio modo mesmo sendo completamente diferentes entre si – em comum, apenas o fato de serem franceses. Foram eles:

22) Of Gods and Men (Des hommes et des dieux, França, 2010). Dirigido por Xavier Beauvois. Com: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly, Jean-Marie Frin, Farid Larbi.

Selecionado como candidato oficial da França ao Oscar 2011, Des hommes ET des dieux, que no Festival do Rio inexplicavelmente foi apresentado com título em inglês, me surpreenderá muito caso não fique entre os cinco indicados finais. Narrando uma história trágica e verdadeira, o filme conta com todos os atributos narrativos, técnicos e temáticos que interessam aos membros da Academia, parecendo ter sido feito sob medida para concorrer à estatueta. Mas mais importante do que isso é o fato de que o longa é realmente admirável.

Escrito por Etienne Comar ao lado do diretor Xavier Beauvois, o roteiro acompanha os oito monges que, vivendo num monastério na Argélia em 1996, passaram a sofrer as constantes ameaças de fundamentalistas islâmicos da região predominantemente muçulmana. Amados pela comunidade na qual viviam (e que, na realidade, cresceu justamente em função da presença dos religiosos), eles passam a ser pressionados a abandonar um país cada vez mais dominado pelo radicalismo – especialmente depois que até mesmo professoras primárias passam a ser mortas por dizerem que apaixonar-se é algo normal e adolescentes são esfaqueadas em público por não usarem véu.

Rodado numa belíssima região do Marrocos e fotografado de maneira esplendorosa por Caroline Champetier, que explora com sensibilidade as locações, o filme é particularmente hábil ao conseguir evocar com precisão a dinâmica do cotidiano dos monges, que, levando uma existência pacífica, dedicam seus dias aos estudos e a trabalhos manuais – além, claro, de atuarem na assistência da pequena vila localizada nos arredores. Aliás, o diretor Xavier Beauvois confere especial atenção aos rituais diários e costumes dos religiosos, construindo cenas contemplativas (mas jamais entediantes) que enfocam os cânticos dos monges, bem como seus paramentos e costumes.

Mas ainda mais importante é que o cineasta se esforça para apresentar com cuidado cada um dos oito homens ao espectador, sendo extremamente bem-sucedido na tarefa: ao longo dos 120 minutos de projeção, todos os atores têm a chance de desenvolver seus personagens com doçura e atenção – merecendo destaque, claro, o irmão Luc, encarnado pelo veterano Michael Lonsdale como um homem paciente e sereno, e o irmão Christian, líder da ordem, que é vivido com inteligência e determinação por Lambert Wilson (Matrix Reloaded). Christian (nome apropriadíssimo, diga-se de passagem), aliás, mostra-se um homem particularmente digno de nota, já que se dedica inclusive ao estudo do Alcorão – não só por morar num país islâmico, mas por sinceramente acreditar que todas as religiões merecem o respeito por sempre levarem a Deus.

E é justamente este respeito que se torna o mote principal do projeto: buscando pintar um quadro respeitoso e complexo sobre o tema, o roteiro traz a população muçulmana que cerca o monastério (e que, como já dito, ama profundamente os monges) mostrando-se confusa e indignada diante das ações dos fundamentalistas. Além disso, o filme traz uma cena absolutamente surpreendente envolvendo uma discussão entre Christian e o líder de uma facção islâmica local, Fayattia (Larbi, ótimo), durante a qual o radical muçulmano adquire um óbvio respeito pelo outro embora, claro, continue a desprezar sua Fé – um momento mágico, mas, temo, excessivamente otimista por parte da produção. (Aliás, como estimular a aceitação mútua quando uma emissora grande como a repugnante Fox News não se farta de tentar transformar os termos “muçulmano” e “terrorista” em sinônimos em praticamente todos os seus programas?)

Construindo com eficiência a tensão que envolve a situação dos monges, Des hommes et des dieux expõe o absurdo de um mundo no qual os pacifistas têm que se trancar à noite por temerem ações violentas em resposta ao seu modo de vida. Mas, mais do que isso, respeita a coragem daqueles homens ao não tentar pintá-los como heróis inabaláveis, já que emprega um bom tempo para retratar as dúvidas e os medos de cada um deles: por um lado, é claro que querem viver e há o impulso natural, compreensível, de abandonarem aquele lugar; por outro, sentem uma obrigação moral de permanecer ao lado da comunidade, que desmontaria sem sua presença (isto para não falarmos das questões de Fé, já que todos buscam em Deus o conforto e o apoio necessário enquanto tentam chegar a uma decisão).

O que nos traz ao ato final do longa, que oferece ao espectador dois momentos especialmente mágicos: a cena em que cada um dos monges comunica sua decisão de permanecer ou partir aos demais e, claro, a ceia que compartilham ao som de O Lago dos Cisnes – e apenas estes dois instantes já seriam o bastante para garantir a já discutida indicação ao Oscar 2011.

Embora trazendo um ou outro tropeço (particularmente, eu teria deixado a leitura de uma certa carta para os segundos finais da projeção, encerrando o longa com aquelas palavras), Des hommes et des dieux é uma obra comovente e respeitosa que faz jus aos homens que a inspiraram. (5 estrelas em 5)

 

23) Bebês (Bébé(s), França, 2010). Dirigido por Thomas Balmes. Com: Bayar, Hattie, Mari e Ponijao.

Baseado numa idéia de Alain Chabat, Bebês é um documentário que, como o próprio título já indica, dedica-se a enfocar quatro criaturinhas adoráveis de partes diferentes do mundo durante o primeiro ano de suas vidas. Com isso, acredito que longa inaugure um novo gênero: o do “filme-awwwwww”.

Sem empregar qualquer tipo de narração ou mesmo letreiros ocasionais – e apenas pontualmente usando a música lúdica composta por Bruno Coulais -, Bebês acompanha o dia-a-dia de Hattie (nascida nos Estados Unidos), Ponijao (Namíbia), Bayar (Mongólia) e Mari (Japão). Nascidos em culturas e economias radicalmente diferentes de si, os pequenos são observados pelas câmeras do diretor Thomas Balmes como se fossem simplesmente animaizinhos em seu habitat natural (o que não deixam de ser, claro), numa abordagem que remete bastante, por exemplo, ao belo e contemplativo Migração Alada.

Contando com o trabalho exemplar de quatro diretores de fotografia, Bebês freqüentemente busca usar a câmera para estabelecer uma identificação com o ponto de vista das quatro crianças – e, assim, é comum que vejamos apenas partes dos corpos de seus pais (seios, mãos, pernas, rostos) ou que encaremos o mundo a partir de ângulos baixíssimos (como no instante em que Mari é levada a uma loja de brinquedos). Com exceção destes momentos, porém, os adultos são figuras absolutamente periféricas; mesmo quando os bebês se encontram entre estes, a câmera se preocupa principalmente com suas reações diante do que ocorre à sua volta – como na cena em que Bayar olha para os pais, que se entregam a um ritual religioso, e exibe uma expressão hilária (e perfeita) de “que porra é essa que está acontecendo?”.

Merecendo créditos pela dedicação que a equipe obviamente teve que conferir ao projeto, o documentário traz inúmeros momentos que comprovam justamente as infinitas horas que Balmes e seus câmeras passaram capturando as ações dos bebês, desde o plano que traz Ponijao sentada e lutando contra o sono até detalhes como um sorriso feliz exibido por Mari ao dormir ou a reação de Bayar ao ouvir o irmão sendo advertido pelos pais depois de machucá-lo, quando se esquece de chorar para acompanhar o sermão, voltando às lágrimas apenas quando se lembra do que aconteceu (aliás, as torturas que o pequeno sofre nas mãos do mais velho representam uma piada recorrente no filme).

É claro que, num projeto como este, o simples contraste entre realidades tão distintas se encarrega de estabelecer idéias e mensagens; afinal, como não comparar o conforto no qual Hattie e Mari vivem com os cenários desolados, sujos e poeirentos que servem de berço a Ponijao e Bayar? Como ignorar que Hattie tem dezenas de roupas coloridas e um estoque infindável de fraldas descartáveis enquanto Ponijao tem as fezes limpas pela mãe com o auxílio de um sabugo de milho e é amamentada em meio ao barro e aos mosquitos? Neste sentido, aliás, a montagem de Reynald Bertrand e Craig McKay se revela fundamental ao estabelecer paralelos de maneira dinâmica e inteligente através de justaposições e raccords bem construídos, o que resulta em seqüências ágeis que ilustram as crianças aprendendo a engatinhar e a andar e também em ironias dolorosas como a cena que traz Mari brincando numa sessão de yoga para bebês enquanto Ponijao engatinha no leito barrento de um rio. Já em outros instantes, o documentário é inteligente por permitir que as situações se desenrolem sem interferências da pós-produção, como na cena – que poderia ter sido roteirizada, tamanho seu timing cômico – em que Hattie interrompe a brincadeira com o gato para fazer cocô e o bichano sai de quadro como se espantado pelo cheiro.

Independentemente da realidade dos quatro bebês, porém, o filme consegue deixar algo claríssimo de maneira simples: ricos ou pobres, contando com recursos da sociedade moderna ou não, nada é mais importante para as crianças do que o carinho de seus pais. Não é uma mensagem das mais surpreendentes, reveladoras, mas oferecer novos insights sobre o primeiro ano de vida do ser humano não parece ser o propósito do documentário, que parece se contentar em nos lembrar de como o mundo é mágico quando o estamos vendo pela primeira vez.

E sejamos sinceros: trazendo quatro bebês adoráveis (e como pai de duas crianças, pergunto: existe outro tipo?) durante 80 minutos, o filme não precisava de muito mais do que isso para conquistar – e somente aqueles que já morreram por dentro serão capazes de sair da sala, após a projeção, de mau humor. (4 estrelas em 5)

 

24) Carlos (Idem, França, 2010). Dirigido por Olivier Assayas. Com: Édgar Ramírez, Alexander Scheer, Nora von Waldstätten, Talal El-Jordi, Christoph Bach, Rodney El Haddad, Julia Hummer, Ahmad Kaabour, Razane Jamal.

Com inacreditáveis 5 horas e meia de duração, Carlos é um projeto ambicioso como poucos: rodado em 11 países e trazendo 250 atores e mais de três mil figurantes, o novo filme de Olivier Assayas busca traçar um retrato do terrorista Carlos, o Chacal (seu apelido jamais é mencionado pelo roteiro de Assayas e Dan Franck) desde seu início como revolucionário idealista até se transformar num mercenário impiedoso e procurado pelas autoridades de diversos países.

Sem jamais soar entediante apesar dos 330 minutos de projeção, o longa conta com uma montagem dinâmica que chega a empregar elipses bruscas em vários momentos a fim de manter o ritmo (como no instante em que o protagonista percorre um corredor e seu caminhar é apressado pelos cortes secos). Da mesma maneira, os montadores Luc Barnier e Marion Monnier investem em transições rápidas – embora abusem dos fades – e pisam no acelerador de forma particularmente eficaz nas várias seqüências de ação, garantindo, com isso, que o espectador permaneça sempre preso aos acontecimentos na tela.

Conferindo peso de realidade à narrativa através da utilização de imagens de arquivo e da inclusão de letreiros que trazem os nomes dos personagens mais importantes, Carlos conta também com um design de produção exemplar que faz um impecável trabalho de recriação de época – uma tarefa colossal, considerando que o filme abrange um período de mais de 20 anos e uma dezena de países diferentes. Mas, mais do que isso, o longa consegue evocar com intensidade o clima de instabilidade política da década de 70, quando as ações terroristas eram tão freqüentes que, em certo instante, um atentado desastrado promovido pelos homens de Carlos acaba destruindo um avião de uma nacionalidade diferente da planejada e um outro grupo terrorista imediatamente aproveita a oportunidade para assumir a autoria da ação.

Sem fazer concessões históricas a fim de tornar a trajetória do protagonista mais simples para o espectador, o filme mergulha o público num emaranhado de siglas e países ao estabelecer que cada governo tinha motivações particulares – e muitas vezes efêmeras – para empregar ou condenar Carlos, que é perseguido ou abraçado por nações como Síria, Líbia, Hungria, Rússia e Alemanha Oriental dependendo dos interesses imediatos de cada uma delas. Ainda assim, o longa consegue a proeza de evitar uma narrativa confusa mesmo contando uma história que envolve cinco línguas e um personagem-título que jamais permanece muito tempo no mesmo lugar.

Dedicando-se também a desenvolver com cuidado as figuras secundárias que cercavam, apoiavam ou combatiam Carlos, o roteiro aproveita personagens como Angie (Bach) para explorar várias facetas psicológicas e morais importantes – neste caso, a crise de consciência de um revolucionário alemão que, embora apoiando a causa palestina, tem pavor de repetir os erros passados de seu pais e, com isso, faz questão de se manifestar anti-sionista, mas jamais anti-semita. Além disso, Assayas reconhece a importância de estabelecer a relevância de figuras como Weinrich (Scheer), braço direito de Carlos, e de Magdalena Kopp (Waldstätten), que viria a se tornar esposa do protagonista – e é esta abordagem abrangente do cineasta que se mostra fundamental para estabelecer um quadro amplo e incrivelmente verossímil da vida do sujeito.

Mas é claro que, neste sentido, é mesmo a atuação de Édgar Ramírez que se estabelece como essencial para o sucesso do projeto: encarnando Carlos sem sentir necessidade de forçar na caracterização, o ator simplesmente se torna o personagem, conferindo autenticidade a cada gesto ou inflexão da voz. Demonstrando uma dedicação típica do Método, Ramírez surge no início da projeção com o corpo musculoso apenas para exibir uma barriga imensa e flácida ao retratar o período de decadência do Chacal – algo que traz importantes implicações psicológicas para sua performance, já que a vaidade era um elemento particularmente importante da personalidade de Carlos, cujo sentimento de auto-importância o levava a se enxergar como um inimigo perseguido com obsessão pelo governo norte-americano mesmo quando já havia deixado de ser uma figura relevante há anos no cenário internacional.

Sem jamais idealizar ou justificar as ações do personagem-título (e evitando ao máximo glamourisá-lo, embora isto às vezes se torne difícil em função da própria natureza grandiosa do sujeito), Carlos retrata as ações terroristas do Chacal de maneira direta e brutal, fazendo questão de dar um rosto às suas vítimas – muitas delas, mulheres (incluindo gestantes) e crianças. Além disso, a própria trajetória de Carlos depõe contra suas motivações, já que não hesita em abandonar suas ideologias para se transformar num mercenário e mesmo num traficante de armas – ainda que insista numa retórica vazia que inclui palavras como “revolução”, “opressão” e “justiça”. Sua hipocrisia, aliás, torna-se ainda mais óbvia quando o auto-proclamado marxista se entrega à vaidade de dirigir carros luxuosos e de se apresentar como uma verdadeira estrela do terrorismo.

Empregando com sabedoria suas cinco horas e meia de duração para construir e desenvolver com detalhes as situações, os personagens e a dinâmica entre estes, Carlos deverá ser lançado comercialmente nos cinemas ao redor do mundo em uma versão reduzida que terá 2 horas e mais. Porém, depois de assistir ao corte completo do longa, confesso ter dificuldade para imaginar o que poderia ser extraído da narrativa sem prejudicar sua fluidez e sua equilibrada estrutura interna. E quando um diretor consegue criar uma obra que parece enxuta mesmo tendo 330 minutos, algo memorável acabou de acontecer. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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