Festival do Rio – Dia 04

Um forte abraço para o ex-aluno Marcus Cramer, que encontrei depois da sessão de Água Fria do Mar, e também para o leitor Ricardo, cujo namorado Marcelo aparentemente ficou com medo de me cumprimentar por alguma razão obscura, já que não tenho tanta cara de mau assim.

E por falar em cara de mau…

17) Líbano (Lebanon, Israel, 2009). Dirigido Samuel Maoz. Com: Yoav Donat, Reymond Amsalem, Oshri Cohen, Michael Moshonov, Zohar Shtrauss, Ashraf Barhom, Itay Tiran, Guy Kapulnik, Dudu Tassa.

Ambientado durante a invasão do Líbano por forças israelenses em 1982, Líbano é uma espécie de híbrido de Das Boot, que Wolfgang Petersen dirigiu em 1981, e Platoon, realizado por Oliver Stone em 1986. Do primeiro, adota a ambientação claustrofóbica; do segundo, a autenticidade por se tratar de uma obra concebida e dirigida por um veterano de guerra em busca de retratar suas experiências no inferno do combate.

Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, em 2009, o filme escrito e dirigido por Samuel Maoz coloca o espectador dentro de um tanque ao lado dos quatro jovens soldados israelenses que o tripulam – e ali ficamos durante praticamente toda a projeção enquanto o chão do veículo é tomado pela água e pela sujeira, o calor e o forte odor de sangue e urina sufocam os personagens e o pânico e a angústia dominam a situação. Tornando-se exponencialmente mais nervosos à medida que as horas passam, os soldados passam a questionar a autoridade de seus superiores e a lógica das ordens recebidas, ao passo que o artilheiro Shmulik (Donat), certamente por desempenhar a mesma função que o cineasta executou na guerra, gradualmente assume a condição de protagonista ao enfrentar a culpa e a indecisão diante da necessidade de apertar o gatilho.

Separados do mundo exterior pelas grossas paredes do tanque, os soldados só entram em contato com a luz do sol e com os sons externos quando alguém entra no veículo – e, nestes momentos, a intensa luminosidade e o barulho de helicópteros e gritos acabam atordoando aqueles jovens em função do contraste com o isolamento que experimentam na maior parte do tempo. Aliás, o design de som da produção é impecável, servindo não só para retratar a realidade dos personagens, mas também como guia para a câmera subjetiva, que assume o ponto de vista da mira de Shmulik e emite pequenos ruídos ao alterar o campo de visão ou a proximidade dos objetos. Da mesma maneira, as comunicações através do rádio servem quase como um narrador, oferecendo informações relevantes de maneira orgânica e econômica.

Sem fazer quaisquer concessões ao espectador, já que a câmera de Maoz (ou melhor: a “mira” de seu alterego) capta sempre os detalhes mais pavorosos do combate, Líbano não poupa o exército israelense ao revelar a utilização de armas proibidas pela convenção de Genebra e ao enfocar momentos aterrorizantes como aquele que envolve uma garotinha e sua mãe em um prédio semi-destruído – e ouvir os soldados informando a “ausência de baixas” depois de testemunharmos um verdadeiro massacre é algo que ofende e choca justamente por percebermos que, de fato, para aqueles indivíduos o que importa é que nenhum de seus companheiros foi ferido, tornando a morte de civis algo praticamente irrelevante.

Beneficiado ainda por performances intensas que se tornam ainda mais fundamentais pelo excesso de planos fechados (algo inevitável em função da ambientação), Líbano oferece um ponto de vista original e sufocante sobre a guerra, merecendo aplausos também pela coragem do caráter confessional de sua narrativa. (5 estrelas em 5)

 

18) Um Homem um Tanto Gentil (En ganske snill mann, Noruega, 2010). Dirigido Hans Petter Moland. Com: Stellan Skarsgård, Bjørn Floberg, Gard B. Eidsvold, Jorunn Kjellsby, Bjørn Sundquist.

Se os irmãos Coen tivessem nascido na Escandinávia, talvez fizessem um filme parecido com este Um Homem um Tanto Gentil, que, embora remeta ao senso de humor bizarro e atípico dos cineastas responsáveis por Fargo e Um Homem Sério, é comedido demais para se entregar aos bem-vindos excessos de obras como Barton Fink e Queime Depois de Ler.

Dirigido por Hans Petter Moland a partir do roteiro de Kim Fupz Aakeson (também responsável pelo script de Uma Família, sobre o qual escrevi nesta mesma cobertura do Festival do Rio), o longa gira em torno de Ulrik (Skarsgård), um homem condenado por homicídio que deixa a cadeia depois de 12 anos e tenta se reajustar à liberdade. Recebido pelo seu velho chefe no crime, ele aluga um quarto na casa da irmã deste e passa a trabalhar como mecânico, sendo constantemente pressionado a matar o sujeito que o denunciou para a polícia tantos anos antes. Naturalmente introspectivo, Ulrik tenta restabelecer o contato com o filho, que está prestes a se tornar pai, mas percebe que permanecer longe da violência talvez seja mais difícil do que supunha.

Embora tenha feito o filme soar como um drama pesado no parágrafo anterior, o fato é que Um Homem um Tanto Gentil é uma comédia que beira a doçura em vários instantes. Povoado por personagens curiosos (a senhoria tarada e carente; o pequeno mafioso e seu capanga imbecil; o dono da oficina afeito a rápidos monólogos; e por aí afora), o longa constrói uma atmosfera relativamente leve também através da trilha sonora composta por Halfdan E, que investe em melodias que remetem ao cômico mesmo quando algo mais pesado parece estar ocorrendo na tela.

Porém, o centro do filme é mesmo Stellan Skarsgård, que parece só ganhar a chance de exibir completamente seu talento em produções escandinavas (Insônia) ou comandadas por diretores ali nascidos (Dançando no Escuro, Dogville), já que os longas norte-americanos normalmente o relegam a limitados papéis secundários. E isto é lamentável, já que aqui ele constrói um personagem complexo que, embora aparentemente sempre afável, é obviamente uma criatura capaz de se tornar perigosíssima de um instante para outro. Ainda assim, é profundamente tocante perceber, por exemplo, o sorriso aberto de Ulrik ao testemunhar a felicidade do filho à distância – e sua vulnerabilidade emocional também fica bastante clara no momento em que percebe que seu passado talvez não o permita fazer parte do presente de sua família.

Trazendo cenas de sexo que divertem pelo inesperado e pelo curioso automatismo, Um Homem um Tanto Gentil pode não ser uma comédia das mais eficazes, mas é simpático o bastante para mandar o espectador para fora da sala de projeção com um largo sorriso no rosto. (3 estrelas em 5)

 

19) Pó (Dust, Luxemburgo, 2009). Dirigido por Max Jacoby. Com: Catherine Steadman, Olly Alexander, Andrew Hawley.

Embora tente despertar algum grau de interesse no público ao ambientar sua história num mundo pós-apocalíptico, é basicamente um draminha insosso que, girando em torno de um triângulo amoroso adolescente, surge mais como um filme de época banal do que como uma alegoria relevante – e o claro sentimento de auto-importância do diretor Max Jacoby serve apenas para tornar a experiência ainda mais insuportável.

Merecendo créditos por evocar com economia um planeta praticamente despovoado (por alguma razão jamais esclarecida), o filme também é beneficiado pelas belíssimas locações e pela elegante fotografia de Fredrik Bäckar, que certamente deve ter visto e revisto Barry Lyndon uma dezena de vezes antes de iluminar as várias seqüências à luz de velas. Infelizmente, os méritos do projeto param por aí, já que estes elementos são empregados para criar uma tentativa patética de alegoria que, investindo numa espécie de gênesis às avessas (com os gêmeos Elias e Elodie no lugar de Adão e Eva), não parece ter muito a dizer.

Montado num ritmo excessivamente lento que, em vez de contemplativo, soa apenas frouxo, ainda tortura o espectador com seus três antipáticos personagens, que, com suas maneiras vitorianas, mal parecem notar o fato de algo ter exterminado quase sete bilhões de pessoas ao redor do planeta. Assim, em vez de lidarem com o peso da solidão ou da perda da própria humanidade (como em A Estrada, por exemplo), eles se preocupam mais em saber quem está transando com quem, quem deixou de ser virgem e quando, e por aí afora – algo que, sinceramente, é ridículo diante do contexto em que se encontram.

Contado uma historinha banal que tenta soar sofisticada através da solenidade de sua narrativa, o filme é o pior tipo de bobagem: aquela que pateticamente se leva a sério. (1 estrela em 5)

 

20) Água Fria do Mar (Agua Fría de Mar, Costa Rica, 2010). Dirigido por Paz Fabrega. Com: Luis Carlos Bogantes, Montserrat Fernández, Lil Quesada Morúa, Freddy Chavarría.

Água Fria do Mar é o tipo de fracasso que mais me entristece: aquele que claramente conta com um diretor (neste caso, diretora) que tinha muito que dizer, que tentou desesperadamente fazê-lo, mas que simplesmente não foi capaz de alcançar seus objetivos.

Quando o filme tem início, somos apresentados à pequena Karina (Fernández), uma garotinha que se encontra num acampamento à beira da praia com sua família (pai, mãe e irmãos) para a comemoração do Ano Novo (ou talvez eles sejam simplesmente miseráveis e morem ali; a diretora-roteirista, num de seus primeiros fracassos, jamais deixa isso muito claro). Tratada com imenso carinho pelo pai, ela se afasta certa noite e acaba sendo encontrada por um jovem casal formado por uma microbiologista diabética (Morúa) e um rapaz (Bogantes) que ali se encontra para vender a propriedade do pai – e imediatamente a menina mente para ambos ao afirmar que fugiu de casa depois que seus pais morreram e seu tio tentou violentá-la. No dia seguinte, a criança volta para o acampamento sem deixar vestígios, levando a outra a questionar seu destino.

Por que Karina mente, afinal? E por que sua mentira envolve justamente exploração sexual se sabemos que seu pai é um homem protetor e carinhoso? E por que o roteiro de Paz Fabregas se esforça tanto para estabelecer a profissão de Mariana e sua diabetes? E qual o sentido dos desentendimentos entre esta e sua mãe? Sim, torna-se claro que a cineasta está tentando estabelecer algum forte paralelo entre Karina e Mariana (seria a primeira uma projeção da segunda?), mas jamais nos fornece elementos suficientes para que cheguemos a alguma conclusão neste sentido, tornando as linhas narrativas paralelas apenas confusas.

Acreditando que atirar símbolos na tela é algo suficiente para tornar a narrativa complexa e inteligente, Fabregas também investe um longo tempo em planos que revelam dezenas de cobrar saindo do mar e rastejando pela areia e também crianças cavando profundos buracos na praia – mas, mais uma vez, estas metáforas surgem gratuitas e mal construídas. Seriam as cobras a natureza de Karina e Mariana, que fogem de algo? Os buracos representariam seu presente? Ou a tentativa que fazem de descobrir algo sobre si mesmas?

A verdade é que Água Fria do Mar jamais soa interessante o bastante para despertar, no espectador, a vontade de se dedicar a estas questões. Lento por aparentemente acreditar que isto é algo “artístico” (ao contrário de obras como o sueco Esburacando, que sabem usar a lentidão ao seu favor), o filme parece caminhar a passos lentíssimos em direção a um destino que não conhece muito bem qual é. E jamais chega lá. (1 estrela em 5)

 

21) Biblioteca Pascal (Bibliothèque Pascal, Hungria, 2010). Dirigido por Szabolcs Hajdu. Com: Orsolya Török-Illyés, Andi Vasluianu, Shamgar Amram, Razvan Vasilescu, Oana Pellea.

Escolhida para representar a Hungria no Oscar 2011, Biblioteca Pascal é uma fábula curiosa que concebe criar, com certo sucesso, um delicado equilíbrio entre seus elementos dramáticos, mais pesados, e a leveza de seus aspectos mais fantasiosos.

Dirigido por Szabolcs Hajdu a partir de seu próprio roteiro, o longa tem início quando Mona (Törok-Illyés) tenta recuperar a guarda de sua filha e, interrogada pelo agente social, conta como conheceu o pai da menina e como foi parar por um bom tempo na Inglaterra trabalhando como prostituta. Investindo num tom fabulesco praticamente desde o princípio, o filme já traz a protagonista conhecendo um de seus (vários) pares românticos de maneira espetacular, quando o perseguido Viorel surge da areia da praia apontando uma arma para a futura mãe de sua filha. Capaz de projetar seus sonhos na realidade (numa espécie de A Origem às avessas), ele acaba transmitindo esse dom à menina, ao passo que Mona é vendida para um bordel (a Biblioteca Pascal do título) que traz, como chamariz, as prostitutas caracterizadas como personagens célebres da literatura.

Como não poderia deixar de ser, um dos principais elementos do longa reside em seu design de produção, que não desaponta: tanto a concepção dos diversos ambientes que abrigam as prostitutas quanto o salão principal da “Biblioteca” merecem fartos elogios, compensando até mesmo os fracos efeitos visuais empregados para criar os sonhos de Viorel e sua filha. Enquanto isso, Hajdu explora bem os rostos expressivos de seus figurantes, empregando vários travellings que divertem ao revelar aos poucos partes do universo (quase) fantástico concebido pelo cineasta – neste sentido, merecem destaque aquele que foca diversos vagões de um trem e outro que investiga os vários quartos do bordel.

Com um desfecho ambíguo que permite uma discussão interessante acerca da realidade narrada pela protagonista, Biblioteca Pascal traz um plano final que sintetiza, de forma admirável, a própria alma de sua narrativa – e é uma pena que só atinja este nível de brilhantismo em momentos pontuais, já que sua curiosa premissa merecia ser explorada com mais consistência. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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