Festival do Rio – Dia 02

Em primeiro lugar, quero mandar um abraço aos leitores Marcos Vinícius, Pedro Gabriel, Otávio Ugá e Bruno, que gentilmente vieram me cumprimentar ao longo do dia e nos intervalos entre as sessões. É sempre um imenso prazer conhecer vocês.

Mas vamos aos filmes!

 

7) Nossa Vida Exposta (We Live in Public, EUA, 2009). Dirigido Ondi Timoner. Com: Josh Harris.

Joshua Harris é apresentado, no início do documentário Nossa Vida Exposta, como sendo “um dos maiores visionários da Internet” – e, no entanto, embora trabalhe nesta mídia há 16 anos, confesso que o nome do sujeito surgiu como uma completa novidade para mim. Desconhecimento de minha parte? Talvez. Porém, o simples fato do filme reconhecer que a maior parte de seus espectadores jamais ouvira falar de Harris é algo que comprova a própria essência de sua mensagem: a de que no mundo cada vez mais superficial em que vivemos a fama é fruto  não de méritos, mas da simples exposição – e que, justamente por esta razão, desaparece completamente assim que seus personagens deixam de bombardear o público com suas imagens incessantemente.

Um dos principais nomes do boom das pontocom no final da década de 90, Harris foi um verdadeiro pioneiro na transmissão de vídeo online – e isso numa época em que a limitação da velocidade de acesso implicava em obrigar os usuários a passarem mais tempo lendo a mensagem de “buffering” do que assistindo ao clipe que tentavam baixar. Antecipando o conceito do YouTube em pelo menos 12 ou 13 anos, o empresário notabilizou-se não só por sua iniciativa através do site Pseudo.com, mas também por produzir festas que se tornaram célebres na Nova York da época e que, de acordo com um dos entrevistados, ofereciam a curiosa imagem de “supermodelos nuas sentadas nos colos de nerds que jogavam Doom”.

Vitimado por uma infância solitária e uma personalidade patologicamente introspectiva, Harris estava longe de ser um empreendedor capitalista comum – e não demorou muito até começar a surpreender possíveis parceiros comerciais ao surgir em reuniões importantes caracterizado como um alterego palhaço que batizou de “Luuvy”, o que eventualmente o levou a se afastar dos negócios. Em vez de derrubá-lo, no entanto, este obstáculo acabou por libertar de vez a alma de artista do sujeito, que, com um saldo de 80 milhões de dólares no banco, decidiu usar boa parte desse dinheiro para produzir um “experimento” que, por sua própria natureza, antecipava em mais de uma década o fenômeno que hoje testemunhamos da superexposição de nossas vidas através de blogs, vlogs, twitters, BBBs, facebooks e afins. Tratava-se de uma instalação batizada apenas de “Silêncio” e que envolvia mais de cem “hóspedes” habitando um bunker construído pela equipe de Harris e repleto de câmeras em todos os cantos – uma experiência que o protagonista deste documentário continuou ao decidir morar com a namorada em um apartamento igualmente monitorado ao vivo e transmitido 24 horas por dia pela internet.

Dirigido pela bela Ondi Timoner, responsável também pelo ótimo Dig!, Nossa Vida Exposta conta com uma montagem enérgica e dinâmica que, beneficiada também pelos inventivos grafismos, acompanha impressionantes 15 anos da trajetória de Harris, já que a cineasta se tornou próxima do sujeito ainda na época do Pseudo.com. Com isso, o filme ganha a oportunidade de estudá-lo de perto, revelando a imagem de um homem brilhante e realmente visionário que, no entanto, foi implacavelmente sabotado por sua própria personalidade narcisista e com toques claros de sociopatia. Batizado (não sem méritos) de “Warhol da web”, Joshua Harris é um personagem intrigante e que de fato merecia ter sua importância resgatada – algo que este longa faz de maneira envolvente, honesta e divertida. (4 estrelas em 5)

 

8) José & Pilar (Idem, Portugal/Brasil/Espanha, 2010). Dirigido Miguel Gonçalves Mendes. Com: José Saramago, Pilar Del Río, Gael García Bernal.

“Saramaguetes”. É assim que três fãs de meia-idade se apresentam ao escritor português vencedor do Nobel de Literatura em certo momento deste magnífico documentário. E não é absurdo imaginar que, ao fim da projeção, dezenas de espectadores se sintam compelidos a abraçar esta definição, já que o filme, rodado ao longo de três anos, nos oferece uma visão única e reveladora de um homem abençoado com o dor de esculpir com as palavras.

Partindo de sua relação com a esposa de quase 25 anos, a jornalista Pilar Del Río, José & Pilar acompanha a doce (e atarefada) intimidade do casal de maneira surpreendentemente intimista – e certamente a imagem do velho escritor dando tapinhas na bunda da companheira é algo que não apenas encanta por sua natureza prosaica e confortável, mas também atua no sentido de humanizar um autêntico ícone. Mostrando-se perfeitamente à vontade diante da câmera (mérito do cineasta Miguel Gonçalves Mendes), Saramago e Pilar freqüentemente parecem se esquecer de que estão sendo acompanhados pelos realizadores, protagonizando momentos que encantam pela franqueza e autenticidade.

Co-produzido pela O2 Filmes de Fernando Meirelles, o documentário adota, como ponto de partida, a concepção de “A Viagem do Elefante”, que seria seu penúltimo livro. Com isso, temos a oportunidade rara de testemunhar um gênio em pleno processo criativo – e não deixa de ser um alívio constatar que, de certa forma, este processo envolvia muito silêncio, olhares perdidos, músicas e, claro, o inevitável jogo de paciência no computador. Saramago, aliás, se estabelece como um protagonista sempre fascinante: carrancudo, mas sempre carismático e inteligente, ele não hesita em compartilhar suas dúvidas e medos, chegando a se mostrar divertidamente satisfeito quando uma frase ou idéia bem construída lhe escapa dos lábios (em certo momento, durante uma entrevista, chega a dizer: “Ô Pilar, venha cá! Acabei de falar uma coisa linda!”).

Mas o escritor é, obviamente, apenas metade deste projeto: revelando-se fundamental para a carreira do marido, Pilar Del Río surge, aqui, como uma mulher admiravelmente forte que, organizando o dia-a-dia de Saramago, desempenha papel vital na preservação de sua obra e mesmo de sua vida, já que, gravemente enfermo durante parte do período em que este projeto foi rodado, o artista dependeu pesadamente da esposa para se recuperar. Inteligente e dona de uma personalidade repleta de energia, Pilar parece estar sempre atuando em várias frentes ao mesmo tempo, organizando as viagens do marido, acompanhando-o e protegendo-o durante estas jornadas, presidindo a fundação que leva o nome do escritor e até mesmo construindo uma biblioteca na residência que ocupam na Espanha – e não é à toa que, eventualmente, ela também passa a receber homenagens em função de sua importância na obra de Saramago.

Fotografado com competência por Daniel Neves, que confere tons melancolicamente evocativos às vinhetas de transição que trazem belas paisagens, José & Pilar também impressiona graças à eficiente montagem de Cláudia Rita de Oliveira, que acerta particularmente ao retratar o cotidiano exaustivo de viagens e compromissos do casal. Além disso, é sempre emocionante rever a cena que traz Saramago compartilhando, emocionado, sua satisfação com Fernando Meirelles depois de assistir a Ensaio Sobre a Cegueira pela primeira vez.

Acima de tudo, no entanto, o documentário revela o compromisso absoluto do escritor com sua profissão: aos 84 anos, ele jamais deixa de atender pedidos de fotos, autógrafos (mas sem dedicatória, porque ninguém é de ferro) ou entrevistas, envergonhando muitos artistas infinitamente menores que, em contraste, se consideram estrelas que jamais devem ser importunadas. Desta maneira, José Saramago se revela inspirador não apenas como escritor, mas – sempre – como homem. Um homem que, fazendo valer o velho dito, foi abençoado por contar com uma gigante atrás de si e ao seu lado. (5 estrelas em 5)

 

9) A Woman, a Gun and a Noodle Shop (San qiang pai an jing qi, China, 2009). Dirigido Zhang Yimou. Com: Yan Ni, Sun Honglei, Shen-Yang Xiao, Ni Dahong, Cheng Ye, Mao Mao, Zhao Benshan.

Não é fácil entender por que o cineasta chinês Zhang Yimou (Lanternas Vermelhas, Herói, O Clã das Adagas Voadoras, O Caminho para Casa e outras grandes obras) decidiu refilmar Gosto de Sangue, longa de estréia dos irmãos Coen, mas a triste verdade é que esta não foi uma idéia das melhores, já que as muitas qualidades daquele filme se deviam mais à sensibilidade particular e ao humor atípico dos diretores norte-americanos do que à trama nada original.

Reimaginando aquele neo noir como uma farsa colorida e povoada por caricaturas, Yimou leva seu elenco a habitar os personagens de maneira extremada, complementando as performances absurdas com figurinos e efeitos de maquiagem que apenas realçam a falta de dimensão daquelas figuras – do dente de castor do cozinheiro ao rosto salpicado de manchas do cruel Wang, passando pela vesguice do capitão e pela covardia sem graça de Li.

Contudo, o principal problema do filme reside na falta de definição quanto ao tom que pretende seguir: depois de um primeiro ato que investe numa montagem dinâmica que busca ressaltar (sem sucesso) os aspectos cômicos da narrativa, privilegiando a atmosfera de comédia de erros e de pastelão, Yimou subitamente passa a empregar um ritmo bem mais pausado a partir da segunda metade da projeção, que, adotando uma noite americana que ressalta o clima de quase fantasia, utiliza o silêncio como estratégia principal.

Por outro lado, não há como negar os méritos estéticos da produção: as belas locações, com sua topografia irregular e tons laranjas, oferecem um belo contraponto aos figurinos que apostam em cores básicas como o azul e o roxo (este último, geralmente um sinal de morte, vale lembrar). Infelizmente, isto não é o bastante para redimir o filme, que falha ao tentar fazer rir e também ao buscar a tensão – duas reações que os Coen transformaram em marca registrada de seus projetos, mas que Yimou lamentavelmente não consegue alcançar. (2 estrelas em 5)

 

10) A Ovelha Negra (La pecora nera, Itália, 2010). Dirigido Ascanio Celestini. Com: Ascanio Celestini, Giorgio Tirabassi, Maya Sansa, Luigi Fedele, Luisa De Santis.

Ascanio Celestini é um escritor-ator célebre em sua Itália natal. Estreando neste filme como cineasta, ele revela também uma natureza admiravelmente ambiciosa ao não apenas dirigir seu projeto, mas também ao protagonizá-lo a partir de um roteiro que adaptou de seu próprio livro. É uma pena, portanto, que esta ambição não se reflita na qualidade do longa, que peca justamente por trazer erros básicos cometidos por alguém pouco familiarizado com a mídia.

Investindo numa narração em off excessive que já denota a dificuldade de Celestini em compreender a diferença entre literatura e cinema, A Ovelha Negra tem um propósito nobre: a partir de uma vasta pesquisa com pacientes manicomiais, o ator-roteirista diretor busca denunciar a perversidade de um sistema que rotula para depois confirmar (e, muitas vezes, provocar) seus diagnósticos. Criança imaginativa e um pouco excêntrica, o jovem Nicola (interpretado pelo pequeno e talentoso Luigi Fedele) é uma alma doce cercada por brutos – seu pai e seus irmãos mais velhos – e não demora muito a ser enviado para um manicômio em sua pequena vila. A partir daí, o que deveria ser uma breve estadia acaba se tornando uma sentença interminável, levando o diagnóstico equivocado a se tornar fato através de tratamentos abusivos envolvendo choques e medicamentos.

É lamentável, assim, que Celestini se revele um diretor tão pouco imaginativo, já que o filme é comandado de maneira frouxa e burocrática, o que torna sua seleção para o último festival de Veneza inexplicável. Isto é, ao menos até que nos lembremos da fama de seu realizador naquele país – que, se houver justiça no mundo, provavelmente não será suficiente para garantir sua participação na próxima edição do evento. (2 estrelas em 5)

 

11) Ela, a Chinesa (She, a Chinese, Reino Unido/China, 2009). Dirigido Xiaolu Guo. Com: Huang Lu, Wei Yi Bo, Geoffrey Hutchings, Chris Ryman.

Não deixa de ser uma curiosa coincidência que eu tenha assistido a este Ela, a Chinesa logo após a sessão de A Ovelha Negra, já que ambos dividem a mesma origem problemática: diretores que, conhecidos por seu trabalho como escritores, saltam de maneira trôpega para o cinema enquanto demonstram desconhecer esta nova linguagem. Comandado pela chinesa radicada na Inglaterra Xiaolu Guo, este filme gira em torno de Li Mei (Lu), que, depois de passar a maior parte da vida sem sequer se afastar mais de oito quilômetros de sua casa, acaba partindo para a cidade grande e vivendo uma série de relações passageiras e traumáticas.

Fotografado com uma paleta constantemente acinzentada, o longa acerta no tom de melancolia e tristeza da narrativa, mas erra em todo o resto: vivida com apatia por Huang Lu, a protagonista é uma figura desagradável que permanece uma incógnita do início ao fim – não de maneira positiva, misteriosa, mas simplesmente por ter sido concebida com frouxidão pela roteirista-diretora.

Da mesma maneira, a divisão da projeção em capítulos é algo que revela uma busca desesperada de Guo por uma estrutura funcional, mas isto serve apenas para tornar a narrativa ainda mais frouxa e episódica. Que o Festival de Locarno tenha selecionado o filme é algo até compreensível (vide o que ocorreu com A Ovelha Negra); que o tenha premiado com o Leopardo de Ouro é simplesmente uma afronta. (2 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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