Festival do Rio – Dia 01

Cheguei quinta-feira ao Rio para cobrir pela primeira vez o Festival. Há oito ou nove anos cubro religiosamente a Mostra de SP, que amo loucamente, mas há já algum tempo que sentia vontade de duplicar os esforços e incluir o Rio no cronograma. Depois de solicitar minha credencial na última hora, fui gentilmente atendido pelo pessoal do grupo Estação (especialmente por Liliam Hargreaves) e aqui estou. Aliás, já ao pousar no Rio, corri para a primeira cabine: a de A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor (mais sobre o filme em um instante). Na sexta pela manhã, conferi outro filme brasileiro, Federal, e em seguida corri para a central do evento para buscar a credencial que me permite retirar os ingressos e entrar nas sessões.

(Aqui devo fazer uma pausa para agradecer aos velhos amigos Lucas Salgado e Francisco Russo, do Adoro Cinema, que praticamente me guiaram pela mão hoje. Sem eles, eu estaria ainda mais perdido por aqui.)

De modo geral, há algumas diferenças marcantes entre o Festival do Rio e a Mostra de SP – a principal delas residindo no fato de que a credencial me permite retirar apenas 20 ingressos. Para as demais sessões, o procedimento padrão é ir ao cinema e esperar até que todos entrem, tendo meu acesso permitido apenas se houver lugares vagos. Além disso, no Rio é possível retirar ingressos para qualquer sessão já liberada, mesmo que ela ocorra no último dia, ao passo que em São Paulo os ingressos só são liberados quatro dias antes de cada sessão. Para finalizar, os demais hóspedes do hotel no qual me encontro parecem só usar bermudas e cangas, enquanto em São Paulo… bom, as roupas são mais formais, de “negócios”.

Fora isso, é só curtir o mergulho no cinema mundial contemporâneo.

E por falar nisso…

1)      A Suprema Felicidade (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Arnaldo Jabor. Com: Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Elke Maravilha, João Miguel, Maria Flor, Jayme Matarazzo, Michel Joelsas, Caio Manhente, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz, Maria Luisa Mendonça, Ary Fontoura, Jorge Loredo.

Depois de quase vinte anos sem atuar como cineasta, Arnaldo Jabor retorna para trás das câmeras com este A Suprema Felicidade, que, visivelmente servindo de válvula de escape para a nostalgia de seu realizador, busca pintar três momentos distintos de sua vida ao trazê-los realçados com as distorções provocadas pela subjetividade de sua memória. Assim, somos apresentados a personagens basicamente unidimensionais que se definem não por suas personalidades, mas por suas ações: o pipoqueiro mulherengo, o padre rígido, o avô carinhoso, a mãe sofrida, o pai volátil e por aí afora – e se por um lado estas quase caricaturas podem ser perdoadas por se estabelecerem como retrato de uma mente infantil, por outro é difícil aceitá-las quando surgem como fruto da lembrança de um adolescente (como ocorre na cena que retrata uma prostituta sendo esfaqueada e aquela que traz todos os vizinhos do protagonista se soltando num improvisado carnaval de rua).

Adotando uma estrutura não linear apenas para ressaltar o caráter episódico da narrativa, o roteiro do próprio Jabor busca flertar claramente com o também autobiográfico Amarcord, de Fellini, mas sem jamais exibir a mesma imaginação no trabalho de câmera ou na caracterização dos personagens. Amarrado por uma teatralidade óbvia na direção de arte (especialmente a casa do protagonista) e na mise-en-scène, o filme ainda conta com uma montagem surpreendentemente pedestre que provavelmente é fruto de uma decupagem descuidada do diretor: freqüentemente, planos sucessivos parecem não se encaixar organicamente e, em dois ou três momentos, há saltos abruptos ao longo do eixo que soam como soluções improvisadas. Como se não bastasse, Jabor aposta num melodrama risível, por exemplo, ao enfiar uma trilha sonora dramática repentina enquanto leva a fraquíssima atriz Mariana Lima a caminhar em direção à câmera solenemente um segundo depois de se despedir de alguém que havia deixado sua casa.

Desperdiçando um elenco invejável, o longa só ganha vida realmente quando Marco Nanini surge em cena como  um avô cujo amor pelo neto encontra-se sempre transparente em seu olhar de imenso carinho, ao passo que Dan Stulbach, preso a uma caricatura implausível, quase faz milagre ao conferir alguma dimensão ao pai do protagonista. Enquanto isso, atores como Ary Fontoura e Jorge Loredo exploram ao máximo suas pequenas participações cômicas, contrapondo-se à dramática (mas também eficiente) ponta da cada vez mais competente (e atraente) Maria Flor. E se a novata Tammy Di Calafiori ao menos se salva pela beleza, o fato é que também acaba sendo vítima daquela que parece ter sido a regra de Jabor ao dirigir seu elenco: manter os olhos sempre marejados com o objetivo de estabelecer algum pathos onde não existe nenhum.

Exibindo um descuido preocupante em seus detalhes (reparem, por exemplo, a cena em que Stulbach manda o filho segurar direito a colher e notarão que, no momento do grito, o garoto nem mesmo manipulava o talher, agarrando-o rapidamente apenas ao ouvir a deixa do outro), A Suprema Felicidade não se preocupa nem mesmo em manter a coesão de sua narrativa, investindo pesadamente no conflito interno de um adolescente que se descobre homossexual, por exemplo, apenas para esquecer o garoto no restante da projeção.

Sabotado também por diálogos capengas e freqüentemente cafonas (“Você é a primeira pessoa real que eu toco”; “Você existe?”), o filme pode até ser sido concebido por Jabor como seu Amarcord pessoal, mas, infelizmente, acaba se estabelecendo embaraçosamente como seu Plano 9 do Espaço Sideral. (1 estrela em 5)

 

2) Federal (Idem, Brasil, 2010). Dirigido por Erik de Castro. Com: Carlos Alberto Riccelli, Selton Mello, Carolina Gómez, Roberto Cano, Cesário Augusto, Eduardo Dusek, Adriano Siri e Michael Madsen.

 

O diretor Erik de Castro não sabe mover sua câmera – ou não compreende que cada enquadramento e plano em movimento devem ter uma lógica, uma razão por trás de sua concepção. Por que, por exemplo, ele se afasta em um travelling ao enfocar uma conversa entre um padre e um bandido engravatado, em certo momento da projeção, ou investe num walk-and-talk capenga ao trazer o delegado vivido por Carlos Alberto Riccelli trocando informações com o agente do DEA interpretado por Michael Madsen? Em ambos os casos (e em vários outros presentes ao longo da projeção), a idéia por trás da lógica visual parece ter sido apenas a de mostrar que o filme tinha um diretor, sendo uma pena, portanto, que este tenha se esquecido de pensar como um.

Incapaz de criar um único plano funcional ou minimamente elegante (seus planos médios são particularmente constrangedores, surgindo como uma mistura de teatro e vídeo amador), o cineasta tenta estabelecer Federal como um longa de ação que oscilaria entre perseguições e tiroteios e uma trama mais crítica do ponto de vista político, mas falha em ambos os casos: por um lado, as seqüências de ação são sempre artificiais e mal concebidas; por outro, a trama se revela implausível, repleta de furos e surpreendentemente reacionária, esforçando-se para pintar um Brasil  que estaria “se tornando uma nova Colômbia” e no qual nada jamais dá certo, a não ser o crime (em certo momento, um personagem chega a dizer ter “nojo disso tudo” enquanto a bandeira do país surge sobreposta no quadro).

Prejudicado também por um elenco irregular (Michael Madsen, juro, parece constrangido em cena, ao passo que Eduardo Dusek constrange o espectador), o filme ainda exibe um ranço anacrônico de produção dos anos 80 ao investir em várias cenas gratuitas de sexo – e em certo instante, o cineasta chega a mover sua câmera com o claro propósito de garantir que os seios de uma atriz apareçam claramente no quadro.

Federal poderia, na verdade, ser resumido em duas palavras: vergonha alheia. (1 estrela em 5)

 

3) Essential Killing (Idem, Polônia, 2010). Dirigido por Jerzy Skolimowski. Com: Vincent Gallo, Emmanuelle Seigner, David Price.

 

Essential Killing é um filme desgastante que gira em torno de uma jornada idem. Protagonizado por um Vincent Gallo que, sem dizer uma única palavra, oferece a performance mais eficaz e visceral de sua carreira, o longa do polonês Jerzy Skolimowski acompanha os esforços de um (provável) terrorista para escapar de seus captores do exército norte-americano depois que estes o levam para um outro país a fim de mantê-lo sob constante interrogatório e tortura (não necessariamente nesta ordem) e longe das leis dos Estados Unidos. Atormentado pelo frio, pela fome e pelo medo de ser recapturado, o sujeito demonstra uma persistência absurda diante das inúmeras adversidades que perturbam sua trajetória – e é um mérito de Gallo que sintamos seu imenso desgaste físico e emocional sem que, para isso, dependa de diálogos.

Ambientado num cenário dominado pelo gelo (que, aliás, estabelece uma bela rima visual com o deserto rochoso que abre o filme), o longa investe num ritmo mais pausado e contemplativo que funciona justamente por levar o público a perceber a extensão da jornada de seu protagonista, salientando ainda mais esta identificação ao empregar câmeras subjetivas em pontos-chave da narrativa.

Merecendo pontos também por deixar claro desde o início que o personagem vivido por Gallo está longe de ser um inocente perseguido injustamente (como se apenas a inocência fosse razão para condenar a tortura de prisioneiros), Essential Killing é um filme que exige bastante de seu público, mas que recompensa o espectador com uma experiência intensa, adulta e moralmente complexa.

E tudo isso, repito, praticamente sem diálogos. (4 estrelas em 5)

 

4) Uma Família (En familie, Dinamarca, 2010). Dirigido por Pernille Fischer Christensen. Com: Jesper Christensen, Lene Maria Christensen, Anne Louise Hassing, Coco Hjardemaal, Johan Philip Asbæk, Gustav Fischer Kjærulff, Line Kruse.

 

Os Rheinwald são uma família agradável. Atenciosos e carinhosos, eles claramente se amam e curtem a presença uns dos outros. Donos de uma confeitaria tradicional na Dinamarca, eles se orgulham do fato de usarem “18 tipos diferentes de farinha” e de serem os “fornecedores oficiais da família real”, o que é fruto do cuidado que sempre dedicaram ao trabalho. Porém, quando o patriarca Rikard (Jesper Christensen) adoece em função da recorrência de um câncer, aquele pequeno núcleo familiar entra em crise – o que sobrecarrega ainda mais a primogênita Ditte (Lene Maria), que é escolhida pelo pai (e contra sua própria vontade) para assumir o controle da confeitaria.

Escrito pela diretora Pernille Fischer Christensen ao lado de Kim Fupz Aakeson, o roteiro estabelece a importância daquele negócio já em seus instantes iniciais, quando, de forma econômica e sensível, reconta a história dos Rheinwald desde a chegada do bisavô à Dinamarca até os dias atuais – e, assim, quando Rikard se esforça para preservar a confeitaria, compreendemos claramente o que está em jogo. Isto não quer dizer, porém, que o sujeito age corretamente ao empurrar sua obsessão para o colo da filha, já que isso denota um egoísmo óbvio – mas esta talvez seja uma das maiores virtudes de Uma Família: ao se descobrir à beira da morte, Rikard, um pai de família visivelmente carinhoso e dedicado, reage terrível e compreensivelmente mal à notícia, tornando-se mais nervoso e impaciente e dificultando a vida daqueles que o cercam.

Neste sentido, aliás, o filme acaba se tornando um eficiente estudo de personagens, já que as reações de cada uma daquelas pessoas diante da nova realidade acabam sendo o impulso motor da narrativa, permitindo, por exemplo, que percebamos por que Ditte é realmente considerada a mais forte por seu pai. Mas, mais do que isso, Uma Família se torna um retrato tocante e realista sobre a dor, a tristeza e o inconformismo diante da doença e da morte – e seus dolorosos e sensíveis quinze minutos finais certamente permanecerão gravados na memória do espectador por muito tempo após a projeção. (4 estrelas em 5)

 

5) Nascidas para Sofrer (Nacidas para sufrir, Espanha, 2009). Dirigido por Miguel Albaladejo. Com: Petra Martínez, Adriana Ozores, María Alfonsa Rosso, Malena Alterio, Maria Elena Flores, Marta Fernández-Muro, Sneha Mistri, Mariola Fuentes, Mari Franç Torres.

 

Tia Flora (Martínez) é uma senhora implacável. Manipuladora e sempre disposta a se enxergar como uma vítima da vida (uma combinação perigosa), ela não se cansa de lembrar as três sobrinhas de que se ofereceu para criá-las após a morte dos pais – algo que usa como clara chantagem emocional para evitar que estas a enviem para um asilo. Convencida de que a empregada Purita (Ozores) é a solução que a manterá no próprio lar, Flora teme que a garota acabe indo trabalhar em outro lugar ou que se case com um rapaz do vilarejo e, assim, toma uma decisão curiosa para garantir a permanência da outra: casa-se com ela.

A partir daí, o diretor-roteirista Miguel Albaladejo constrói uma narrativa leve e divertida que prima pela estrutura, empregando pequenos momentos jogados aparentemente ao acaso em vários pontos da projeção como preparativos (ou pistas) para acontecimentos-chave no terceiro ato. Além disso, ele acerta ao não tentar suavizar sua interessante protagonista: amargurada e narcisista, Flora é uma criatura mesquinha e incapaz de reconhecer, por exemplo, a bondade das próprias sobrinhas, já que isso iria de encontro à sua fantasia de tia injustiçada e sofrida.  Ainda assim, acaba conquistando o público justamente por sua desfaçatez ao manipular todos que a cercam e por exibir, aqui e ali, uma vulnerabilidade autêntica (como no instante em que se surpreende ao descobrir-se feliz).

Fotografado com inteligência por Kiko de la Rica (percebam a sutil mudança na luz durante a cena no quarto, nos minutos finais), Nascidas para Sofrer é uma comédia que funciona justamente por tratar os dramas de suas personagens com seriedade: para Flora e Purita, tudo aquilo é realmente doloroso e traumático – e elas jamais exibem qualquer sinal de enxergarem humor na situação. Já o espectador mal pode conter o sorriso (ou mesmo a gargalhada aberta) ao reparar o absurdo de tudo aquilo. Um absurdo que se torna ainda mais hilário por nunca ser percebido por aquelas trágicas criaturas. (4 estrelas em 5)

 

6) A Última Fuga (La dernière fugue, Luxemburgo/Canadá, 2010). Dirigido por Léa Pool. Com: Jacques Godin, Yves Jacques, Andrée Lachapelle, Aliocha Schneider, Nicole Max.

 

A Última Fuga poderia formar uma interessante (mas desgastante) sessão dupla com Uma Família, já que ambos lidam com um núcleo familiar devastado pela doença. No entanto, o mais curioso é que os filmes acabam se diferenciando através de um elemento fundamental: se os Rheinwald do longa dinamarquês tinham agradáveis memórias de um passado feliz ao lado do pai carinhoso ao qual podiam se agarrar, a atormentada família deste A Última Fuga encara a debilitação cada vez maior do patriarca pelo Parkinson como apenas um último inconveniente proporcionado por um homem sempre violento e impaciente. E se aqueles se esforçavam para prolongar a vida do confeiteiro, estes logo se entregam à fantasia de ver o paciente morto e enterrado.

Ao menos, é o que parece. Pois a verdade é que por trás dos modos reservados de André (Jacques), filho mais velho do adoentado Anatole (Godin), encontra-se um homem dividido pelas lembranças desagradáveis da infância e o respeito pelo pai que, afinal, foi fundamental ao moldar sua personalidade – e o roteiro da diretora Pool, inspirado no livro de Gil Courtemanche (que também colabora com o script), é admirável ao transformar a doença do sujeito em uma grande oportunidade de redenção.

Compreendendo que muitas vezes as lembranças mais triviais acabam ganhando peso e importância com o passar dos anos, Pool aposta, ainda, em uma montagem que intercala o presente sofrido daquelas pessoas com imagens de um passado caloroso e feliz que, no entanto, parecia estar sempre construído sobre um terreno instável que poderia entrar em colapso a qualquer momento graças à volatilidade constante de Anatole – que, vivido por Jacques Godin de maneira simplesmente brilhante, certamente renderia ao ator todos os prêmios de atuação do mundo caso estivesse num filme de língua inglesa (e o fato de provavelmente acabar sendo esquecida é, desde já, a maior injustiça de 2010).

É uma pena, portanto, que A Última Fuga se encerre de maneira tão patética, esperando até o último segundo para enviar o espectador para fora da sala de projeção frustrado em função do desfecho não apenas anti-climático, mas simplesmente estúpido. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos

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