Traumatizando meu filho

Ao ver o filme-concerto Louis C.K.: Hilarious, do mais brilhante comediante da atualidade (seu programa Louie, no Showtime FX, também é magistral), fui surpreendido por uma passagem que reproduziu, quase em todos os detalhes, uma conversa que tive com Luca há alguns meses. Na ocasião, depois de assistir aos comerciais de 2012 na televisão, o pequeno se aproximou de mim com expressão tensa:

– Esse filme é de fim do mundo, papai?

– É, meu filho. Mas é só um filme.

– Então o mundo não vai acabar?

– Claro que não, meu filho. Pode ficar tranquilo.

– Nunca? Nunca, nunca, nunca?

Nesse momento, fiquei em dúvida com relação ao que dizer. Imaginei que eventualmente Luca leria sobre as previsões dos físicos sobre a explosão do Sol, dentro de alguns bilhões de anos – e, neste instante, minha paranóia paterna me fez enxergar o pequeno (já crescido) chegando à conclusão de que eu mentira para ele e que, portanto, não era confiável. E estupidamente permiti que isso me levasse a responder:

– Bom… um dia, daqui a bilhões de anos, o Sol vai explodir e aí o mundo vai acabar. – e emendei rapidamente: – Mas isso só vai acontecer daqui a muito, muito, muito, muito, muito, muuuuuuuito tempo!

Antes mesmo de terminar, vi que havia feito besteira. Os olhos do baixinho se encheram de lágrimas e ele começou a chorar, assustado.

– Não, meu filho! Não precisa chorar, não! Isso só vai acontecer daqui a bilhões de anos!

Nada.

– Filhinho, não fica assim! Você não está entendendo: quando isso acontecer, nem você, nem papai, nem Nina, nem os seus filhinhos, nem os seus netinhos, nem os seus tatatatatatatataranetinhos vão existir mais!

E foi aí que ele caiu no choro de vez.

Levei quase uma hora para acalmá-lo, pegando-o no colo, conversando, fazendo gracinhas e por aí afora. E ainda assim, quando ele se afastou, senti que pensava no que acabara de escutar.

Mas foi só ao ver Hilarious, acreditem ou não, que me dei conta realmente do que havia feito. Nas palavras de Louis C.K., que passou exatamente pela mesma situação com a filha (ou ao menos é o que afirma), em uma questão de poucos segundos revelei para meu filho de sete anos de idade que um dia ele e todos que ele conhece irão morrer, deixarão de existir.

E que, então, o Sol explodirá.

Pais: os melhores criadores de trauma que a natureza já produziu.

postado em by Pablo Villaça em Luca & Nina

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