Pela Bandeira do Paraíso – Uma História de Fé e Violência

Jon Krakauer, autor dos excelentes livros-documentário “No Ar Rarefeito” e “Na Natureza Selvagem”, voltou seu olhar em 2004 para o fanatismo religioso representado pelo brutal assassinato da jovem Brenda Lafferty e de sua filha de apenas 15 meses, Erica. Morta pelos próprios cunhados mórmons, Brenda vinha insistindo para que o marido se afastasse das doutrinas dogmáticas pregadas por seus quatro irmãos – até que o mais velho deles, Ron Lafferty, recebeu um “comunicado divino” para que livrasse o planeta da presença maligna da cunhada e da sobrinha bebê. A partir daí, Krakauer busca retratar não apenas a trajetória de Ron e seu irmão Dan (autor dos crimes) no mormonismo, mas também o próprio nascimento da religião iniciada pelo “profeta” Joseph Smith Jr. em 1830.

Embora eu tenha usado as aspas em torno da palavra “profeta” no parágrafo anterior, é importante observar que o escritor não faz esse tipo de juízo de valor em seu próprio texto. Relatando as experiências de Joseph Smith de maneira direta e objetiva, Krakauer aborda de forma sóbria até mesmo suas visões do anjo Moroni e sua “descoberta” das placas de ouro enterradas sob uma árvore e que trazia o incrível relato da ida do povo de Jerusalém para a América do Norte seiscentos anos antes de Cristo (lá eles se dividiram entre nefitas e lamanitas; os primeiros, eram honrados e temerosos a Deus, ao passo que os segundos, invejosos e violentos, foram punidos pelo Senhor e passaram a ter “pele escura” – o que explica por que Colombo não encontrou caucasianos ao chegar ao continente). Ainda assim, é claro que Krakauer discute a absoluta falta de evidências físicas e históricas da história narrada no Livro dos Mórmons, além de levantar, também, o passado mais do que obscuro de Smith, que havia sido condenado até mesmo por charlatanismo antes de inventar sua igreja – e esta abordagem seca e objetiva do autor se revela, claro, a mais acertada do ponto de vista jornalístico.

No entanto, o centro do livro gira em torno da questão da poligamia, que, introduzida por Smith vários anos depois da fundação da igreja (ele – digo, “Deus” – era afeito a enviar novas regras para seus fiéis), acabou resultando em controvérsia e, eventualmente, contribuiu para a morte do “profeta” – o que não impediu seu sucessor, Brigham Young, de mantê-la ativa. A poligamia, aliás, só viria a ser banida décadas depois quando o governo norte-americano praticamente ameaçou destruir o mormonismo, levando seus líderes da época a se livrarem do conceito por perceberem que isto afastava o apoio do público. Além disso, Krakauer documenta fartamente o racismo imperante na religião, bem como seu machismo galopante, deixando bastante claro como a própria lógica interna do mormonismo leva ao surgimento constante de dissidências e de fundamentalistas que desejam resgatar as pregações originais de Joseph Smith.

Tudo isso enquanto mantém a tragédia protagonizada pelos irmãos Lafferty em 1984 no centro da narrativa, ilustrando suas causas ao narrar eventos passados da violenta história da igreja – incluindo, aí, o repugnante massacre de Mountain Meadows, quando figuras importantíssimas na história do mormonismo ordenaram que o exército particular da igreja exterminasse uma caravana composta por 140 emigrantes, incluindo mulheres e crianças absolutamente indefesas.

Krakauer, porém, vai além: focando também o julgamento de Ron Lafferty, ele aborda a tese da defesa de que o sujeito seria “insano” e que resultou em vários depoimentos de psiquiatras que, do lado da promotoria, argumentaram convincentemente que Lafferty não era mais ou menos “louco” do que um religioso comum. “Toda crença religiosa ocorre em função da fé irracional. E fé, por definição, tende a ser imune ao argumento intelectual ou à crítica acadêmica”, aponta o escritor em certo momento, refletindo um argumento que dominaria a tese dos promotores – que, claro, conseguiram a condenação do assassino.

No entanto, apesar da seriedade de seu tema, Pela Bandeira do Paraíso é também acidentalmente divertido ao ilustrar, por exemplo, a forma curiosa com que Joseph Smith costumava resolver seus dilemas: como sua esposa não aceitava a poligamia, ameaçando também arranjar um amante caso o “profeta” se casasse com uma segunda mulher, Smith logo recebeu uma “mensagem de Deus” que ordenava “a serva Emma Smith a seguir e a se prender ao servo Joseph e a mais ninguém. Caso ela não siga este mandamento, será destruída, disse o Senhor; pois eu sou o Senhor seu Deus e a destruirei caso ela não siga minha lei”. Já em outra ocasião, sem ter o dinheiro necessário para publicar a edição original do Livro dos Mórmons, o sujeito recebeu um novo “comunicado divino” que instruía um amigo a vender sua fazenda e oferecer o dinheiro a Joseph para que este investisse na publicação – o que finalmente viabilizou a primeira edição da bíblia do mormonismo.

Ainda assim, a maior parte do livro de Krakauer é simplesmente revoltante – especialmente ao revelar que ainda hoje há milhares de moças adolescentes que, vivendo em comunidades fundamentalistas, são estupradas por homens de 50, 60 ou 70 anos depois de serem ordenadas a se tornarem suas “esposas”. Além disso, o poder econômico e político crescente do mormonismo (que, afinal, resultou na fundação do estado de Utah e de sua capital Salt Lake City) ameaça invadir cada vez mais esferas do poder público, além de se espalhar por outros países – e há a previsão de que em 20 ou 30 anos o número de mórmons chegue a 300 milhões em todo o planeta. (Infelizmente, fenômenos como o repugnante Crepúsculo, da mórmon Stephenie Meyer, contribuem para a conversão de novos fiéis.)

Intrigante e tão bem escrito quanto os demais livros do talentoso Krakauer, Pela Bandeira do Paraíso funciona, de maneira direta e indireta, como uma condenação violenta do próprio conceito de religião – e é assustador que uma das constatações mais lúcidas presentes na obra parta do assassino fundamentalista Dan Lafferty: “A religião organizada nada mais é do que o ódio disfarçado de amor”.

Que o digam os movimentos contra a união civil homossexual, por exemplo.

“Pela Bandeira do Paraíso – Uma História de Fé e Violência
Companhia das Letras, 2003
384 páginas

postado em by Pablo Villaça em Livros

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