Blind Descent

Qual é a montanha mais alta do mundo? Fácil, não? Qualquer pessoa minimamente informada responderá, sem hesitar, que é o Everest – e talvez alguns até mesmo saibam dizer aproximadamente a altura: 8.800 metros (8.844,43, pra ser exato). No entanto, se eu perguntasse "qual o ponto mais profundo da Terra?", provavelmente pouquíssimas pessoas saberiam a resposta.*
 
Pois o fato é que a exploração de supercavernas (aquelas com profundidades inimagináveis) talvez represente, hoje, a última fronteira da humanidade no que diz respeito à investigação dos limites do planeta: já temos imagens abundantes do fundo dos oceanos, já fomos à Lua e nos preparamos para ir a Marte, conquistamos o Everest e os pólos. Mas ainda não sabemos qual é o ponto de maior profundidade da Terra, já que equipes ao redor do mundo (mas especialmente concentradas na República da Georgia e no México) continuam a explorar ativamente algumas das maiores e mais ameaçadoras supercavernas já mapeadas.
 
E quando digo "ameaçadoras", estou usando um eufemismo, já que a atividade vem se revelando, ao longo das décadas, ainda mais arriscada do que a escalada do Everest (cujos riscos foram explorados no maravilhoso livro No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer) e as campanhas rumo ao pólo sul capitaneadas por Roald Amundsen e por Robert Scott no início do século passado. Na realidade, há mais de 50 formas – todas terríveis – de encontrar a morte numa expedição em uma supercaverna, desde afogamento e quedas até soterramento, hipotermia, envenenamento por gases e picadas de escorpiões, passando por infecções provocadas por micróbios com os quais normalmente teríamos pouco ou nenhum contato.
 
Uma lista mais detalhada destes riscos pode ser encontrada no ótimo livro Blind Descent: The Quest to Discover the Deepest Place on Earth, de James M. Tabor, publicado pela Random House nos Estados Unidos (o título ainda é inédito no Brasil). Buscando expor para o leitor todos os riscos e extensos preparativos envolvidos na exploração de supercavernas – uma atividade pouquíssimo discutida ou mesmo conhecida por parte do grande público -, Tabor se concentra em dois dos principais exploradores das últimas décadas: o norte-americano Bill Stone e o russo Alexander Klimchouk, responsáveis por expedições importantes no México e na Geórgia, respectivamente.
 
Rico em suas descrições não só das técnicas envolvidas na atividade, mas também da topografia das supercavernas, Blind Descent muitas vezes assume a característica de uma aventura repleta de suspense especialmente ao enfocar a natureza obsessiva de Stone, que, determinado a encontrar o ponto mais profundo da Terra, não se afastava de seus objetivos mesmo quando, durante as expedições, alguns acidentes graves se colocavam em seu caminho – e as descrições feitas por Tabor das mortes dos jovens Ian Rolland e Chris Yager encontram-se entre os momentos mais tocantes e chocantes do livro.
 
Dedicando-se particularmente a explicar a perigosíssima atividade do mergulho em cavernas, quando os exploradores são obrigados a enfrentar espaços estreitos, escuros e completamente submersos a fim de encontrarem novas passagens, Blind Descent poderia perfeitamente ser adaptado para o Cinema ou – ainda melhor – gerar um documentário tão angustiante quanto aquele produzido a partir do já citado livro de Krakauer. Enquanto isso não acontece, ao menos já cumpre a nobre missão de apresentar ao mundo os corajosos (e enlouquecidos) homens e mulheres que, assim como George Mallory e sua explicação sobre sua obsessão em escalar o Everest ("Porque ele está lá"), dedicam suas vidas a um objetivo que, embora não consigamos compreender totalmente, representa mais um exemplo fascinante da dedicação da natureza humana à superação de seus próprios limites.
 
(*Atualmente, a caverna mais profunda do planeta é a Voronya, na Geórgia, cujo ponto mais baixo fica a 2.191m da superfície e a 13.432m de sua entrada.)
 
"Blind Descent: The Quest to Discover the Deepest Place on Earth"
Editora Random House, 2010
304 páginas
postado em by Pablo Villaça em Livros

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