Hora de repensar blog, twitter, etc

Serei breve.

Acho que está na hora de repensar este blog e o twitter. Como sabem, desde o começo de minha carreira, em 1994, venho buscando formas de criar uma maior interatividade com os leitores. Foi daí que surgiram os fóruns do Cinema em Cena e, posteriormente, este espaço e também minha conta no twitter. O objetivo era criar não apenas um canal a mais através do qual pudesse falar sobre Cinema com os leitores, mas também discutir outros assuntos que me interessavam e que fugiam da esfera da Sétima Arte. Como falo no curso, a (boa) crítica cinematográfica nasce não só da análise mais objetiva dos componentes de um filme, bem como de seus significados, mas também das inferências subjetivas feitas pelo crítico a partir de sua própria ideologia, de sua visão de mundo, etc. É por esta razão que jamais hesito em abordar questões temáticas relacionadas à obra em meus textos, desde tópicos políticos e sociais a observações sobre medos particulares, passagens de minha própria história e assim por diante. Falei da morte de meu pai na crítica de Campo dos Sonhos, de minha luta contra a depressão ao escrever sobre As Horas e de minha repulsa por Bush no texto de Zona Verde. Expressei minha visão sobre o sexo ao analisar Kinsey, flertei com algumas questões existenciais ao discorrer sobre Minha Vida Sem Mim e busquei salientar a importância das memórias em nossas vidas ao falar de A Estrada.

E justamente por achar que expor minha forma de ver o mundo beneficiaria o leitor ao tornar mais completa sua compreensão sobre minhas críticas, passei a abrir este blog às minhas preocupações políticas, sociais e paternas – algo que meus amigos e parentes sempre viram com imensa preocupação e resistência.

Começo a pensar que estavam certos. Ultimamente, este blog e o twitter têm me feito mais mal do que bem. Os comentários deixados por muitos leitores aqui e no twitter têm me deixado preocupado e chateado em função de ataques rasos, míopes e agressivos a questões que encaro com zelo imenso. Alguns chegam a sugerir, em comentários, uma "maldade" por trás de meus textos, como se eu fizesse parte de uma gigantesca conspiração de dominação política do Brasil – quando, na realidade, meus ideais são movidos, acreditem ou não, por um profundo amor por este país e seu povo. 

Mas o mais frustrante é perceber que basicamente estou falando com as paredes. Ninguém mudará de opinião em função de um post de blog ou twitter. E o pior: alguns reacionários, já descobrindo este espaço, passaram a freqüentá-lo com o único propósito de deixar comentários contrários e agressivos para qualquer post que aqui seja publicado – e por mais que eu queira aprender a controlar meu temperamento e ser capaz de ignorar provocações, ainda não evoluí a este ponto. Sou uma vítima fácil de provocações, como muitos aqui já apontaram.

Pensei, então, em fechar os comentários como tantos outros blogs fazem. Mas isto, para mim, faria com que todo o exercício perdesse o sentido. Não gosto de monólogos; aprecio imensamente ler o que aqui publicam os leitores – especialmente quando os comentários são apresentados com educação e respeito por mim e pelos demais freqüentadores deste espaço. Assim, qual a opção restante? Limitar-me a falar sobre Cinema, como vários leitores têm praticamente exigido aqui e no twitter ao escreverem que não "entendo" de política (uma afirmação adolescente que tenta desqualificar-me apenas por que estas pessoas discordam de mim)? Não, isto também faria a brincadeira perder a graça.

No entanto, por que devo manter uma atividade que não me traz benefício algum? Não sou pago para blogar ou twittar; ganho a vida escrevendo sobre Cinema. Aliás, o blog e o twitter têm sido apenas fonte de estresse, desapontamento e frustração – e não sou masoquista para desempenhar uma atividade que, ainda que traga um ou outro prazer, na maior parte do tempo tem servido para me trazer raiva. Além disso, tenho descoberto que as pessoas não sabem separar muito bem o pessoal do profissional – e vira e mexe recebo um email, tweet ou comentário que me informa que, em função de minhas posições políticas, aquele leitor deixará de acompanhar o que escrevo como crítico. Em outras palavras: talvez fosse melhor, como profissional, manter uma fachada de distanciamento do público; afinal, a falta de interatividade com os leitores jamais prejudicou alguns de meus colegas mais proeminentes. Arrisco dizer que o contrário é verdade: o distanciamento talvez tenha contribuído para torná-los mais respeitados.

O fato é que tudo isso tem me levado a flertar cada vez mais com a idéia de encerrar este blog e minha conta pessoal no twitter. Especialmente por estarmos em um ano de eleições e por saber que minha paixão pelo assunto praticamente me impedirá de ficar passivo com relação aos desvarios que tenho testemunhado por aí – e vocês certamente notaram um número crescente de posts e tweets dedicados à política nas últimas semanas.

Não estou completamente decidido a este respeito, mas, sim, a inclinação neste momento é a de me afastar, de limitar meus textos a críticas e a um ou outro post ou tweet sobre Cinema, mas numa freqüência bastante inferior àquela com que costumo blogar/twittar.

E é claro que, como acabei me acostumando nos últimos seis anos, desde que iniciei este blog, não pude deixar de compartilhar isto com vocês. Certos vícios são difíceis de abandonar – mas acho que seria mais feliz se conseguisse me livrar deste. Especialmente porque decidi largar o anti-depressivo depois de vários anos e acho que o processo se tornaria mais fácil caso eu não tivesse que me preocupar também com polêmicas, desaforos e intrigas na Internet.

E não, acabei não sendo breve. Mas quem me conhece já sabe que isto não é surpresa alguma: sempre falo mais do que deveria.

postado em by Pablo Villaça em Editorial, Twitter, Variados

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