Meu pai

Depois de gravar o áudio sobre O Segredo dos Seus Olhos, no qual comentei sobre o fato do filme me levar a uma série de reminiscências, passei a pensar em meu pai. De certa forma, ele está sempre em minha mente, já que uma de minhas grandes epifanias durante a terapia foi perceber o óbvio: que sua morte precoce foi responsável por dar origem a uma série de neuroses, medos e inseguranças que carreguei (e carrego) ao longo dos últimos 30 anos. Dito isso, embora ser órfão de pai não seja algo que jamais consigamos esquecer, não é comum que eu passe horas a fio pensando no velho Geraldo.

"Velho Geraldo". Quem dera isso fosse verdade. Morto em 1980 em um acidente de carro, meu pai tinha 40 anos quando deixou minha mãe viúva, aos 27, e com dois filhos pequenos para criar. Ele nunca teve a chance de envelhecer – ora, estou quase atingindo a idade que ele tinha quando morreu. Ainda assim, pensar no meu pai é algo que automaticamente me leva a assumir uma postura infantil, como se ele fosse essa figura paterna intocável, de autoridade eterna, e eu fosse instantaneamente devolvido aos 5 anos que tinha quando o perdi. Isto se contrapõe à minha relação com minha mãe, que aprendi a conhecer profundamente ao longo das décadas e que se tornou mais do que uma guia, mas uma grande e amada amiga.  

Não sei quem era meu pai. Ou melhor: sei aquilo que descobri através de terceiros. Era um homem divertido, mas explosivo (não com a família, mas com estranhos); era um trabalhador incansável, workaholic (o que herdei), mas notório pão-duro (o que não herdei, infelizmente). Era um pai carinhoso, mas que viajava mais do que o ideal. Tinha um imenso coração e se esforçava ao máximo para ajudar desconhecidos em necessidade (advogado, era extremamente comum ter clientes que o pagavam em milhares de prestações ou que acabavam representando serviço pro bono), mas era politicamente conservador – um homem de direita.

E morreu moço.

Tenho algumas poucas lembranças de meu pai: um passeio de bicicleta, um pequeno acidente de carro enquanto me levava para a escola, uma festa de aniversário. Mas a lembrança mais marcante que tenho é da notícia de sua morte: sem saber exatamente o que acontecia, lembro de ver minha mãe chorando e de experimentar uma terrível inquietação com seu sofrimento. Lembro de um tio nos visitar e comentar com meus primos baixinho, sem saber que eu ouvia: "Tadinho dele; o papai dele morreu". Mas não me lembro de realmente compreender o que significava tudo aquilo, que nunca mais veria meu pai.  

É estranho: se ele não tivesse morrido, eu certamente seria uma pessoa completamente diferente. Para começar, as inclinações esquerdistas de minha mãe talvez não tivessem exercido tamanha influência sobre mim. (E eu hoje talvez fosse eleitor do Serra, quem sabe?) Possivelmente não teria largado a faculdade de Medicina para me dedicar à escrita e ao Cinema. E, claro, meu amado irmão caçula, fruto do segundo casamento de minha mãe, não existiria. Ao mesmo tempo, é claro que eu gostaria que ele ainda vivesse. Não sei como tudo se encaixaria, mas não gostaria de ter perdido meu pai tão cedo, já que isso gerou um vazio que ainda hoje luto para preencher.

Por outro lado, de certa forma ele nunca nos abandonou. Quando tinha pouco mais de um ano, Luca me pegou de surpresa ao ver uma foto de meu pai e identificá-lo como "vovô" (algo que narrei nesse post) e, sinceramente, acredito ser um pai melhor justamente por não ter tido a chance de conviver com o meu. Mas tê-lo perdido aos 5 anos não é – e provavelmente nunca será – algo com o qual eu consiga lidar confortavelmente.

Como diria Kurt Vonnegut: "Coisas da vida". 

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina

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