Cena Misteriosa #05

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 25 comentários

Agora é oficial: o jogo da Cena Misteriosa tornou-se parte importante deste blog – e por isso decidi incluir, no quadro à direita, uma página incluindo objetivos, regras e os nomes dos acertadores de cada cena (com links para as mesmas). Também aproveitei para explicar por que fiquei tão animado com esta brincadeira. Em resumo:

1) É um passatempo divertido;

2) Representa mais uma forma de interação entre os leitores;

3) Permite que eu escreva com maior freqüência, mesmo que brevemente,
sobre filmes diferentes daqueles que chegam aos cinemas toda semana;

4) Funciona como uma espécie de "dica diária", já
que as cenas foram escolhidas por representarem trabalhos que me atraem
de alguma maneira (e mesmo filmes que considero "ruins" podem ter algum
atrativo).

Além disso, a partir de agora incluirei, em cada post da Cena Misteriosa, o horário aproximado em que a cena seguinte será divulgada, permitindo, assim, que os participantes visitem o blog mais ou menos ao mesmo tempo e aumentando a competitividade. Tongue out

Aliás, a Cena #06 será divulgada amanhã, quinta-feira, dia 17 de julho, entre 15 e 16 horas.

Já o primeiro acertador da cena passada foi o leitor Filipe Ferreira, que a identificou corretamente como tendo sido retirada de A Última Noite, comandado por Spike Lee em 2002. Embora goste do filme, este não se encontra entre meus favoritos do cineasta por motivos que explico em minha crítica. Por outro lado, a cena que divulguei do longa é minha favorita e, na época, escrevi sobre ela:

"A Última Noite possui,
no entanto, seus bons momentos – como aquele em que Norton protagoniza
um monólogo raivoso contra todos os grupos sociais, étnicos e
religiosos de Nova York (uma seqüência que, creio eu, estará presente
em todos os clipes produzidos sobre a carreira do ator)."
 
Já a cena de hoje…
 

Cecê, Bí-O, B.O.: uma história de mau cheiro

postado em by Pablo Villaça em Variados | 16 comentários

Estava voltando para casa depois de uma reunião no Cinema em Cena quando passei por um outdoor que trazia uma moça de camiseta sendo abraçada por trás por um homem sem camisa. O produto anunciado: o novo desodorante da Garnier, Bí-O. Comecei a rir instantaneamente. Não era possível que uma empresa grande, com departamento de marketing bem estruturado, batizasse desta forma seu novo produto. Bí-O?

"Bí-O" é a transcrição fonética da expressão B.O. (body odor). O problema é que, quando um norte-americano diz que outro tem B.O., está dizendo que ele tem… cecê. Agora vejam só: adivinhem de onde surgiu a expressão "cecê"? De um sabonete que, vendido nos Estados Unidos há várias décadas, anunciava sua grande eficácia em acabar com o B.O. Ao ser lançado no Brasil, a campanha seguiu a mesma linha, traduzindo B.O. (body odor) como C.C. ("cheiro do corpo"). A expressão pegou e hoje consta, inclusive, dos dicionários como "cecê".

Resumo da ópera… para todos os efeitos, a Garnier acaba de lançar no mercado um desodorante chamado… Cecê!

Quer comprar?

Cena Misteriosa #04

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema, Clássicos | 18 comentários
Mais uma vez, vocês foram rapidíssimos: meia hora bastou para que o leitor Jaime Grebmops se tornasse o primeiro a identificar Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia como a cena misteriosa #04 (aliás, eu não falei que o título era genial?). Este filme, aliás, é o meu favorito na obra de Sam Peckinpah – e reparem que estou falando do diretor de filmes como Meu Ódio Será Sua Herança e Sob o Domínio do Medo. O que me atrai em Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (adoro esse título!) é, em primeiro lugar, a caracterização crua de Warren Oates, que, colaborador recorrente de Peckinpah, ganhou, aqui, uma rara chance de protagonizar uma produção: alcoólatra e ganancioso, o músico/bartender Benny jamais compreende totalmente a dimensão da crueldade de seus oponentes na perseguição pelo objeto do título – e a crueza e o universo miserável concebidos pelo cineasta compõem com perfeição a realidade do personagem, desde os carros despedaçados dirigidos por todos (bom, quase todos) até os imundos quartos de hotel alugados pelo protagonista e por sua companheira, a prostituta cantora Elita (Isela Vega, dona de uma beleza comum e que aqui exala sensualidade barata). Aliás, escolhi esta cena para representar o filme porque creio que resume bem a mentalidade de Benny: ao descobrir que a companheira lhe passou "chato", ele reage sem qualquer espanto, apenas com um pequeno gesto que mistura impaciência e divertida resignação, já que certamente aquilo já acontecera algumas vezes. Anti-herói trágico, Benny percorre uma trajetória atípica rumo a uma rendenção que não vem de ações nobres, mas sim de intenções tortuosas que, ironicamente, estabelecem uma dinâmica complexa entre o sujeito e a cabeça que carrega num saco em seu carro semi-destruído. 
 
Único filme no qual Peckinpah teve direito irrestrito ao corte final, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (que título!) foi um fracasso absoluto de crítica e público na época de seu lançamento, em 1974, embora eventualmente seu valor tenha sido resgatado e reconhecido.
 
Parabéns a todos que acertaram a cena e… vamos à de hoje, que é infinitamente mais fácil:
 

 

The Dark Knight

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes | 63 comentários

Acabo de voltar da cabine de The Dark Knight. Uau. Na realidade, como disse o colega Carlos Quintão na saída do filme, são dois capítulos em um.

E Ledger… que desperdício terrível, morrer tão jovem. Sua performance neste longa deixa a de Jack Nicholson em Batman terrivelmente pálida e inofensiva. Sempre que está em cena, tememos o que este sujeito sádico e instável irá fazer – e quando não está, tememos o que está planejando. Aliás, esta é a diferença básica entre os Coringas de Ledger e Nicholson (e que serve, até certo ponto, para diferenciar os Batmans de Nolan e Burton): se este último divertia o espectador com sua irreverência, levando-nos a desejar mais tempo ao seu lado em tela, o primeiro simplesmente assusta, apavora, intimida. Sua presença não é um fator de entretenimento, mas sim algo incômodo, amedrontador. É como um desastre de carro que atrai uma atenção mórbida, levando-nos a olhar para os destroços ao mesmo tempo em que desejamos nos afastar dali.

Filme excepcional. E olha que já sou fã do primeiro.

Update: Nos comentários deste post, respondi duas dúvidas de leitores que possivelmente são compartilhadas por outros – e, assim, copio aqui as indagações e minhas respostas:

A propósito! As comparações com "O Poderoso Chefão", "Fogo Contra Fogo" e mais alguns clássicos procedem ou são exageradas?

Honestamente,
não consigo enxergar relação com "O Poderoso Chefão". E sobre "Fogo
Contra Fogo", há a polarização de Batman-Pacino x Coringa-De Niro, mas
as similaridades param por aí. Se eu tivesse que citar dois filmes com
referência a "The Dark Knight", pensaria em "Se7en" e "Clube da Luta",
já que o Coringa é uma mistura de John Doe e Tyler Durden, em minha
opinião.

Pablo, você acha que Dark Knight
pode se tornar o primeiro filme de super-herói a ser indicado para
melhor filme? E Ledger vai receber uma indicação póstuma? que outras
categorias o filme tem chance?

Muito cedo para dizer, mas
acho muito difícil que o longa vença o estigma de "filme de
super-herói", embora seja mais um drama policial do que qualquer outra
coisa (e a meia hora final, então, tem toques colossais de tragédia).
Já Ledger certamente tem chances por ter morrido.

Vejam bem:
acho, sim, que sua composição é digna de prêmios, mas normalmente a
Academia não indicaria um ator por interpretar um super-vilão. Neste
caso, porém, como será a última oportunidade de honrar o trabalho de
Ledger, pode acontecer. Mas a esta altura é impossível bater o martelo.

Cena Misteriosa #03

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema | 11 comentários
Poxa, a edição #02 da Cena Misteriosa não durou nem meia hora – antes disso, o leitor Marlonn DB já havia matado a charada: trata-se de Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, que revelou Marcelo Masagão como um nome a ser lembrado. Aliás, tenho uma história curiosa com este filme: quando foi lançado, eu estava em São Paulo (não me lembro o motivo) e, certa noite, saí para ver um filme qualquer (qualquer mesmo; eu queria ir ao cinema, mas não tinha idéia sobre o que veria). Entrei no primeiro cinema pelo qual passei e, ao ler o título, decidi que tinha que vê-lo. Entrei na sala vazia e acomodei-me na poltrona, ainda sem saber direito o que aguardar. Pois bem: eis que começa uma estranha sucessão de imagens e letreiros e, distraído, julguei tratar-se de um inspirado vídeo publicitário. E aguardei pelo gancho final que o amarraria, revelando o nome da empresa que o patrocinara. Mais três ou quatro minutos se passaram e comecei a ficar inquieto: que raios de filme institucional seria aquele? Comecei a torcer para que não acabasse, pois estava fascinado pelo que via – e, então, com mais quatro ou cinco minutos, finalmente (e com um atraso que denuncia a lerdeza – ocasional, ok? – que me acomete, me dei conta de que aquele era o filme que eu pagara para ver). E simplesmente não consegui desgrudar os olhos da tela até que o delírio narrativo-filosófico de Masagão chegasse ao fim. Desde então, já aplaudi os documentários Nem Gravata Nem Honra e 1,99 – O Supermercado que Vende Palavras, que o cineasta lançaria posteriormente. E só não assisti a Otávio e as Letras porque… aliás, nem sei o motivo. Mas pretendo corrigir isto em breve.
 
Parabéns a todos os leitores que acertaram o filme.
 
E vamos à terceira cena – e se Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos tem um título maravilhoso, o nome da obra a seguir é igualmente inspirado. Aliás, mais: é um de meus títulos favoritos.
 

Cena Misteriosa #02

postado em by Pablo Villaça em Cena misteriosa, Cinema, Clássicos | 18 comentários

O primeiro leitor a acertar a brincadeira da Cena Misteriosa aqui no blog foi Alexandre R. Garcia, que identificou a cena #01 como tendo sido retirada do clássico francês Bob, o Jogador (Bob le flambeur), de 1956. Dirigido por Jean-Pierre Melville, que era fascinado pelo cinema norte-americano, Bob, o Jogador assume as convenções do noir embora as enriqueça com uma sensibilidade tipicamente francesa (para evitar confusão: ainda que tenha sido concebida pelos teóricos franceses, a expressão film noir se referia primordialmente a produções norte-americanas). Protagonizado por Roger Duchesne numa performance repleta de charme, o filme traz ainda a jovem Isabelle Corey como uma femme fatale (olha o francês aí de novo) absolutamente sedutora.

Admirado pelo pessoal da nouvelle vague, Melville (e este Bob, o Jogador em particular) acabou se tornando uma influência assumida para aqueles cineastas – e Godard, em especial, exibe seu fascínio pelo filme em seu próprio e seminal Acossado. Refilmado por Neil Jordan em 2002, como Lance de Sorte (The Good Thief, que trazia Nick Nolte como "Bob"), o longa de Melville permanece repleto de vitalidade e charme até hoje – e seu desfecho tremendamente irônico representa, por si só, um momento clássico da cinematografia francesa.

Dito isso, vamos à Cena Misteriosa #02:

 

O Poderoso Chefão 3

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 48 comentários

Depois de ler, pela milésima vez, alguém dizer em um fórum de discussão que O Poderoso Chefão 3 é "ruim", acabei me sentindo compelido a desabafar e a fazer um veemente protesto contra esta afirmação que se transformou em lugar-comum e que é terrivelmente equivocada.

Assim, copio aqui o que publiquei no tópico em questão, na comunidade da SET no Orkut:

"É um saco, isso: toda vez que falam da trilogia O Poderoso Chefao,
alguém tem que dizer que o terceiro é ruim. E desculpem se agora vou
escrever sem o cuidado habitual, mas estou deixando a "revolta"
extravasar sem estrutura ou cuidados maiores com a qualidade do texto.

Pois
OPC3 não é um filme medíocre. Ao contrário, é fantástico, com uma trama
absurdamente corajosa que envolve um dos maiores podres da Igreja
Católica: a morte mais do que suspeita de João XXIII João Paulo I (João XXIII foi outro papa fantástico). E é fascinante
perceber como cabe aos Corleone defender o papa mais humano que a
Igreja produziu – e que por isso mesmo passou a ser odiado por seus
colegas.

Mas não é só isso: sem a terceira parte, o arco
dramático de Michael Corleone ficaria incompleto – e perceber como os
sacrifícios que fez pelo pai viriam a transformá-lo de sujeito
humanista a monstro é algo tocante, trágico. Da mesma forma, ao
percebermos como Vincenzo se revela um amálgama de Michael, Sonny e
Fredo, com um toque de estrategista digno de Vito, constatamos a
riqueza do personagem.

Agora… sim, é fato que Sofia Coppola é
péssima atriz. Inegável. Mas também é verdade que sua atuação não é
determinante para o sucesso do filme; ela importa apenas como
provocadora das reações de Vincenzo e Michael.

Além disso, sua
personagem é fundamental para completar a riqueza temática da trilogia,
que estabelece uma grande metáfora sobre os próprios Estados Unidos – e
a trajetória da Família Corleone reflete, em muitos aspectos, a
política norte-americana e sua posição diante do resto do mundo ao
longo dos anos, desde sua promessa de futuro para imigrantes
desesperados até a tragédia do Vietnã, passando pela Grande Depressão,
a Segunda Guerra e a relação conturbada com Cuba e o Comunismo.

O que nos traz a Mary Corleone. Pela primeira vez, depois de décadas
atacando seus inimigos, estabelecendo a regra do jogo e apresentando-se
como líderes das 5 Famílias (não é à toa que Michael mata todos os
rivais para estabelecer-se), o que acontece no terceiro filme?

Alguém
da família Corleone é morto. Um civil. E isso abala muito mais o grande
e indestrutível Michael do que qualquer outra coisa poderia fazer. Ao
assassinar, mesmo que equivocadamente, alguém da "população civil", os
rivais dos Corleone finalmente levam a guerra para dentro da Família,
provocando a queda definitiva de Michael, que jamais se recupera.

Ora… que evento similar da história norte-americana poderia ser evocado a partir deste incidente?

O 11 de Setembro.

Não
estou dizendo, obviamente, que Puzo e Coppola eram "profetas". Digo
apenas que a inteligência da dupla é tamanha que previram, neste filme,
algo que seria inevitável: com a crescente interferência
norte-americana em questões internas de outros países, é claro que mais
cedo ou mais tarde os próprios EUA experimentariam ataques em seu solo
e que sangue civil seria derramado.

E a morte de Mary é a
referência a isso. Uma referência que se provaria acurada 12 anos
depois, fechando com perfeição a forma com que a trilogia retrata um
século da política e da sociedade norte-americana.

Chamar "O
Poderoso Chefão 3" de "fraco" é demonstrar incapacidade de compreender
sua complexidade temática, sua discussão política, sua coragem temática
ao explorar a corrupção da Igreja Católica e, principalmente, seu
brilhantismo narrativo ao amarrar, com todo o cuidado, os arcos
dramáticos de todos aqueles personagens."

Charles Joffe

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Personalidades | 5 comentários
Aumentando a lista de falecidos célebres do ano, Charles Joffe tinha 78 anos e foi produtor executivo de todos os filmes que Woody Allen dirigiu a partir de 1971, começando com Bananas e encerrando com o ainda inédito Vicky Cristina Barcelona.

Série Você em Cena #14

postado em by Pablo Villaça em Série Você em Cena | 83 comentários
O post anterior está pedindo, não? Então vamos lá: qual é o filme da sua vida? E por quê?

Os filmes de nossas vidas

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos | 6 comentários

Roger Ebert pode até não ser o mesmo que era antes de suas múltiplas cirurgias (hoje ele tem uma tendência frustrante de gostar de quase tudo que vê), mas sua sensibilidade particular e seu olhar aguçado para a Humanidade se mantêm intocados. Há poucos minutos, ele publicou em seu blog (claro que assino o RSS) um post intitulado "Os filmes de nossas vidas" no qual discute, entre outras coisas, a maneira com que enxergou A Doce Vida, de Fellini, ao longo das décadas.

Traduzo:

"Vi A Doce Vida pela primeira vez em Londres, no verão de 1962, em um pequeno cinema no Piccadilly Square. Eu dei uma aula sobre ele, analisando-o quadro a quadro, na Universidade do Colorado, em Boulder, em 1972 e depois em 1982, 1992 e 2002, com um ano para mais ou para menos. Já o vi inúmeras outras vezes, mas aquelas exibições a cada década me ajudaram a medir a inexorável passagem do tempo.


Em 1962, Marcello Mastroianni representava tudo o que eu sonhava conseguir. Ele era um colunista de jornal; flertava com mulheres bonitas; ficava acordado a noite toda bebendo e festejando; percorria a cidade testemunhando incidentes interessantes; era um exausto (mas romântico) herói existencial.


Dez anos depois, ele representava o que eu tinha me tornado; ao menos até o limite em que Chicago oferecia as oportunidades de Roma. Dez anos depois disso, em 1982, ele era o que eu havia escapado de ser depois de ter parado de beber excessivamente e de destruir minha saúde. Em 1992, ele era um jovem impulsivo com uma fraqueza pelo romance. Já em 2002, era o herói de um filme clássico, com mais de 40 anos de existência, e que me obrigava a ensinar para o público as virtudes do preto-e-branco. A esta altura, Mastroianni estava morto.


E, ainda assim, o filme não mudou um quadro sequer em todos estes anos."

Belíssimo. E perfeito.